13.11.18

é uma vontade de desistir, sim, desistir sem explicações, acabou, fui, não dá mais, mas não te preocupes, que não tenciono matar-me, e eu lá teria coragem para tanto, já me conheces, sou das que mirram, das que fogem, não, nada de dramas, era desaparecer da cidade, desta gente toda igual, falando merda, vendendo merda, parecendo merda, sendo merda; estou farta, sim, farta de andar todos os dias o mesmo caminho que não me leva a lado nenhum, apenas cimento e contas e imperativos, e eu nada, sem respostas, sem merda nenhuma, eu quero é o campo, o campo aberto, o mato, as ervas altas, a lama, o vento, os pássaros, os bichos todos e os livros, sim, os livros, pequenos livros de contos e de poesia, pouco mais, e quando os livros não forem fogo e mel, abandono-os ao pó, visto o casaco azul, calço as botas velhas e desço a ladeira com os cães. não tenho filhos, findarei em mim, louca, calcorreando os montes, sorrindo aos rebanhos, voando no voo do falcão, longe, à procura da minha mãe.
Preciso Me Encontrar



Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir pra não chorar
...

8.11.18


Nature Morte, 1931
sempre que vou abastecer Jolly Jumper de fardos de palha, peço ao homem simpático que me venda apenas o combustível e fique com o imposto. ele ri-se, mas eu insisto: a sério, já tentei, mas Jolly Jumper é um equídeo esquisito, não há meio de digerir essa porra. não sei se o expele em valentes bufas esverdeadas, mas galopar com isso é que ele não galopa, nem a trote, quanto mais. ora isto assim é uma estragação, mais de metade da palha que lhe estou a comprar não serve sequer para fazer esterco. um bocadinho até concordo, que é preciso ajudar a malta, mas assim, caramba!, é um assalto à mão armada! o homem, ainda de pistola na mão ri-se, mas olhe que não sou eu! diz que tem que atestar sempre primeiro com o imposto e só depois a palha. são ordens. mas você não vê que o bicho já está velho, a quinta ainda não dá quase nada e isto assim é morte certa, apelo-lhe ao coração. encolhe os ombros e responde-me baixinho: é tudo uma cambada de ladrões, fazer o quê? isto só lá ia com gente nova, mas a gente nova quando lá chega fica igual. é o mecanismo a girar, não tem fim, é uma coisa infinita. É um modo de funcionamento que se auto-alimenta, e expele, cospe o que não faz parte dele. O mecanismo está em tudo. Do governo federal ao seu João. No macro e no micro. É um padrão.



“Os combustíveis estão sobrecarregados há muitos anos. Mas de 60% do preço dos combustíveis são impostos. Um litro de gasóleo custa menos de 40 cêntimos, tudo o resto são impostos, ISP e IVA”

|29.10.2018|

5.11.18

«Aqueles pobre Monstros viviam em abrigos e cabanas, que estavam sempre cheias de lixo e cheiravam mal, porque tão simplesmente lhe faltava o jeito para os manter em ordem.»

A Fenda, Doris Lessing

[os Monstros, logicamente, são os homens, mais tarde apelidados de Esguichos]


 «Cada mulher tem em si a capacidade de ser quem cuida da casa.»

Padre José Rafael Espírito Santo, Opus Dei

1.11.18

enquanto vou recolhendo as fardas secas do estendal, lembro a história de cada uma delas. são as mais antigas que mais me emocionam. de um tecido barato e reles, foram compradas numa dessas lojas de origem espanhola numa altura em que eu tinha pouco dinheiro, pouquíssimo, se quisermos ser mais apurados. não que a situação se tenha invertido o suficiente que desejo para a minha estabilidade  financeira, mas, dentro das lojas de fast fashion, consegui subir um degrauzinho na qualidade. eu sabia que matar Vendredi me iria debilitar as posses económicas, as quais desde sempre defini como a base de sustentação da minha independência. mas, contrariamente aos que me julgam uma capitalista sanguinária, o dinheiro nunca foi o objectivo, antes a ferramenta. a farda velha, que ainda uso, sem que por isso me sinta constrangida, lembra-me do quanto lutei para chegar aqui de pé. felizmente, nunca me assustou não ter croissants, que adoro, o único receio é deixar de ter pão. enquanto isso, sobrevivo de cabeça mais limpa. 
por mais repulsa que lhes sinta - e sinto tanta! -, todas as manhãs em que me dirijo ao barracão, já sem nenhum espécime viscoso à vista, tento imaginar o rastejante cortejo na sua lenta debandada para o covil. a que horas começarão elas a deixar de engolir a comida seca dos gatos - ver uma lesma com uma bola dentro da boca é o expoente máximo da minha náusea - e darão meia volta iniciando o rastejo de regresso? presumo que o momento seja calculado com base no crescendo de luminosidade, mas a verdade é que, enquanto não dedicar uma das minhas noites à experiência, nunca o saberei. embora a curiosidade se tenha agarrado a mim com uma lapa, temo não ter sangue-frio suficiente para resistir à imagem de tanta viscosidade junta. 
não pensem mal de mim, não alimento este preconceito sem alguma mágoa, não esqueço que somos todos oriundos da mesma mãe natureza e já tentei por várias vezes ultrapassar este asco observando a mesma lesma durante muitos segundos, mas há algo demasiado entranhado no meu cérebro, quem sabe memórias ancestrais de lesmas pré-históricas do tamanho de dinossauros, que não me deixa superar este nojo continuo e profundo. 
as lesmas são o meu limite em termos de tolerância à viscosidade animal, mas também abomino os caracóis - só de pensar em comê-los, sinto um refluxo gástrico potente - e as minhocas. este problema com os invertebrados existe desde que me conheço. talvez a coisa, obscura, aceito, se curasse com algumas sessões de hipnoterapia, mas suspeito que uma vez aberta a caixa de pandora a minha repulsa doentia às lesmas seria um dos meus menores problemas, ainda assim gigante.
às vezes, quando vejo as lesmas pequenas, apelo ao meu instinto maternal, o mesmo que me faz enternecer quando vejo uma família de osgas com as suas osguinhas pequeninas, e chego a ter vergonha da minha frieza. também não gosto das lesminhas...

29.10.18

e tu, flor, o que fazes numa noite fria e chuvosa de segunda feira? pintas as unhas como a outra senhora na assembleia? vês netflix? passas a ferro os pijaminhas e as meinhas de lã?

....

aprendo a caçar lesmas no google.
não posso mais com esta praga de invertebrados hermafroditas viscosos! está me a dar cabo dos nervos!!
Sophia continua de cara fechada, justificando-se com a constipação que lhe ataca especialmente o nariz. sei que não será apenas isso, mas aceito a fuga. gosto de Sophia talvez como se gosta de uma irmã mais nova, falta-me às vezes a paciência para o seu mau-humor, mas continuo presente, por vontade, na sua vida escassa de contacto social. durante muito tempo, revia-me em Sophia, no seu comportamento destrutivo, na sua busca desesperada por afecto. a falta de um pai transformou-nos em mulheres amargas. a diferença entre nós, sei-o agora, é que aos mortos tudo se perdoa mais depressa.
Escritora inglesa, nasceu em 1919, no Irão, mudando-se, aos cinco anos de idade, para o Zimbabwe. 

daqui

Doris Lessing, é por ela que ando apaixonada, leio-lhe A Fenda, uma 'comunidade pré-histórica é exclusivamente consistida por mulheres, que não conhecem homens nem deles têm necessidades'.

Fendas&Monstros

27.10.18

componho a loiça que seca no pequeno escorredor da copa, /encaixar as chávenas molhadas umas nas outras não é a melhor ideia/, inclinando-a, para que seque mais rapidamente e agradeço a Cirilo pelo trabalho feito. Cirilo, à sua maneira, sem hábitos do(e) género instituídos, bem pelo contrário, tem lavado a loiça toda amiúde, e não apenas a sua, como compete a cada um no bando.

moral da história: não é com vinagre que se apanham moscas ou de como as pequenas coisas mudam o mundo ou ainda de como todos gostamos de uma palavra de incentivo
talvez o vento que despenteia as árvores do jardim tenha descido pelo cano do exaustor e depois atravessado o tecto falso, não sei, nem me dei ao trabalho de confirmar. o som, delicado e continuo, lembrou-me o repique dos sinos, sinos de cristal, copos que não parti, nem dei, mas que não uso. não deixa de ser irónico - e tão irónica tem sido a vida, meus caros -, que agora me comova com a música singela dentro do armário, quando há muito me desfiz de quase tudo o que não uso, porque a beleza da vida sempre a percebi nas coisas vivas. digo mais, tantas das coisas que tinha as tinha apenas para estar em sociedade, calar bocas demasiado insistentes, não destoar do padrão. pois então, se dei uso aos belíssimos vista alegre, pintados de cidades, para que os gatos comessem a ração, se deitei a uso corrente pequenas colheres de prata para que desconhecidos mexessem o café, que sentimento é este de me sentir emocionada ao simples toque de alguns copos de cristal?

20.10.18


gild assembly, Billy Kidd

16.10.18

ah, senhores! o cheiro da terra molhada, húmus, água, erva, fruta apodrecida, anis-estrelado, tudo por entre o verde que brilha logo pela manhã, quando todas as aves se reúnem para os primeiros ensaios...  

15.10.18

sei que Tristan tem razão, a culpa, a que ele prefere chamar de responsabilidade, é minha, fui eu que decidi acreditar que ainda podia salvar o ano. deixei que a luz do sol me namorasse, analisei os números com a pele acariciada pela volúpia do calor. quão irónica pode ser às vezes a vida, que até do corpo me escoou a vitamina. estúpida, é isso que sou. acreditar que o último trimestre nos traria a salvação. Bartolomeu contrapõe, dizendo que não conhece ninguém que avance sem tropeçar, por vezes nos seus próprios passos. é necessário acreditar que o melhor virá, a chuva há-de parar. agradeço-lhe as palavras, amigas, mas não as engulo. culpa minha, que não tive a coragem, devíamos ter alterado a rota do navio, logo que o vento começou a amainar. continuo com este defeito de astrologia barata entranhado na carne, demoro séculos, demasiadas vidas, a desistir do que não vinga. 

14.10.18

Megan Lorenz















mochos, corujas, morcegos,
noitibós pequeninos,
animais nocturnos voadores
são a minha felicidade.





|para a Bela Teresa|
cavalguei o Leslie sem arreios, nem medos, a cautela é valentia dos frouxos e eu, esta noite, soltei os cabelos à ventania. aos seus assobios de réptil gigante, respondi com gargalhadas infindáveis, geradas em várias doses de conhaque - aquele que estava guardado por uma ocasião especial. que me destruísse a casa, que violentasse as árvores maiores, os caixotes do lixo, os vasos, as vassouras. que me levasse em rodopio para a morte certa, mas não haveria de me cheirar o medo na urina.
catorze de outubro de dois mil e dezoito, na graça de deus e de todos os vizinhos alarmados que saíram de casa domingo cedo para ajudar na remoção dos destroços. o meu filho mais velho, joão pedro miguel, faz-se homem e ajuda acarretar os galhos partidos. enquanto finjo pesquisar o número da epal da região, corro a internet em busca de notícias frescas. sinto-me um abutre. ou talvez exagere, o que procuro é a companhia de outros pobres infelizes a quem o vento também tenha levado as telhas e a segurança calafetada em que vivíamos, para que possamos confortar-nos nas nossa miserabilidade conjunta. joana patrícia, a minha mais nova, gasta-me o nome, enquanto marfa o segundo molete com manteiga: Ómãeeeeeeee! 
não saio à rua, mesmo que a rua seja minha, sem dar um arranjo no visual, ao menos limpar o negro dos olhos que ontem não desmaquilhei, o cabelo amarfanhado em ninho de ratos disfarça-se com um elástico da joana patrícia e o mau hálito leva com um cigarro em cima, depois um café. não sei se ao contrário evitava a úlcera, mas o prazer que me dá a nicotina em jejum é quase um orgasmo, não dá para parar só porque faz mal. a miúda, cujas goelas deve ter herdado da avó, continua a chamar, ora por mim, ora pelo irmão. joão pedro miguel não lhe liga, tão entretido que anda a fazer-se crescido juntos dos mais velhos, ajudando em tudo. nunca vi uma criança com tanta vontade de ser grande, desconfio que deve estar farto de mim e da irmã e logo que possa foge de casa.

2.10.18

Deixar de escrever é muito isso, deixar de querer, condenar ao silêncio as palavras é convidar para dentro o vazio. Porta cerrada, entretanto, torna-se o hóspede em invisível carrasco.

- Lady Kina - 
Com os meus amigos aprendi que o que dói às aves
Não é o serem atingidas, mas que,
Uma vez atingidas,
O caçador não repare na sua queda

25.9.18

Gao Xingjian
























caminhamos ainda
sabemos que deixou de haver tempo para nos olharmos
a fuga só é possível dentro dos fragmentados corpos
e um dia......quem sabe?

chegaremos

24.9.18

não somos feitos de medo, diz-me Bartolomeu, quando percebe que há lágrimas que teimam em rolar desde manhã. Petra, que não vejo há vários meses, ter-me-ia abraçado, dizendo-me que está tudo bem,  provavelmente não deve ser nada. Bartolomeu, adivinhando o meu pensamento no silêncio com que lhe respondo, regressa à secretária e conclui, ainda é muito cedo para ter pena de ti.

22.9.18

o equinócio bateu-me à porta, bafejando vapores do caldeirão, e eu continuo branca como a cal da primavera, excepto estes longos braços escanzelados e a fronha rafeira. dizem as revistas de especialidade que este é o momento para nos desprendermos do que está maduro, folhas, frutos, projectos de vida, colhermo-nos a nós mesmos. eu, descrente desde o berço, onde mijei até tarde, deixo-o entrar. sei que traz consigo o início do fim e do meu lado nada há para parir. ano fodido este, sim senhor.
pois muito bem, lançado o repto do Ouriquense e seguindo a genial Tetisq, não posso deixar a oportunidade de penizar este blog fraquinho e murcho.

ergam-se os falos dos anjos, porque o do diabo já cá está.

 Robert Mapplethorpe

derramam gozo, em carne madura, pingando fios de mel, translúcidas gotas que adornam o orifício sagrado.

16.9.18

Amar? 
Para quê? 
Por um tempo, não vale a pena. 
E, para sempre, é impossível. 


/Alexander Pushkin/

14.9.18

fez o ninho nas minhas coxas, onde se enroscou de azul estrelado e toda a noite me aqueceu. acordei com ele bicando-me os figos maduros.

13.9.18

só me dou conta da estupidez do que digo, /até pedi um desejo/, quando Damas se ri de mim. o que inicialmente acreditei ser uma estrela cadente, mas logo percebi que um rasto de luz que se transforma numa bola de fogo tem de ser coisa diferente, será tão somente lixo espacial. 

12.9.18

Só quero um sítio onde pousar a cabeça.

Nagib El Desouky

11.9.18

deste vez fui sozinha, Cirilo nem se atreveu a questionar a minha decisão. atravessei a cidade com Jolly Jumper a pedir um fardo de palha, mas com boa-vontade e o freio a meio gás lá se aguentou até ao estábulo mais próximo. a pé desde cedo e de estômago vazio, ainda parei num salon desses da moda, onde filas intermináveis de turistas provam as iguarias mais típicas de lisboa, e debiquei junto deles um pastelinho com bica a correr. atravessei umas quantas ruas, galguei alguns degraus e virei a esquina. a toca do velhaco estava mesmo ali em frente, com vista para a praça. tinha pressa em resolver a questão, por isso avancei o mais rápido que pude, quase arrastando o casalinho de franceses apaixonados por uma vespa verde tropa, estacionada no passeio. pardon, i'm sorry, já se arredavam, não? 
sabia exactamente cada palavra que ia dizer, por onde começar, como demonstrar o que tinha de ser, encostá-lo à parede com a realidade certeira. sentia-me confiante da vitória. o azul escuro dava-me um ar profissional, estava com boa cara, o cabelo arrebitado num rabo de cavalo perfeito, a sobrancelha, à linha, devidamente arqueada, o sorriso no ponto certo. vamos lá então, envergonhar aquele cara de cu e obrigá-lo a puxar da carteira.
não foram precisos nem trinta segundos a caminhar pela praça, para sentir o sabor amargo da derrota. uma nesga da janela rasteira e um papel torto onde alguém tinha escrito: Fechados para férias até 24/09... ¡cabrón!... 

10.9.18

Atirávamos pedras
à água para o silêncio vir à tona. 

 Luís Miguel Nava

8.9.18

da conversa entre Mariana Oliveira e Isabel Lucas, no paraíso perdido de ontem, na antena 3, ficou-me esta frase [que hoje recupero no rtp play]:

-- achas que este ódio à poesia tem a ver com essa nossa aversão a tudo o que não seja imediatamente claro ou perceptível?

6.9.18


It is almost axiomatic that the worst trains take you through magical places.

relincham alto como potros ainda sem cabresto, cheirando nada mais do que a liberdade do momento e a vontade de coicear. pondero assobiar-lhes em riste, para que se calem, ou pelo menos baixem as vozes acnosas, mas manieto a insatisfação. olho-os uma última vez, antes de me recolher ao silêncio mordido que já não me satisfaz. soubesse outrora deste maldito porvir.
enquanto me esvaio em sangue e desvaneço dentro de uma dor de cabeça velhaca e persistente, Pepetela entretém-me, contando um pouco mais da parábola do cágado velho:

A explosão fez toldar o azul do céu, mas o rosto melancólico de Munakazi ficou pregado nele. Morri e vejo o céu e vejo Munakazi. Estranha morte. Não ouvia tiros, nem gritos, nem explosões, então a morte é isso, esse silêncio num céu brilhante, esse parar da vida como naquele instante da tarde, como agora que era meio da tarde, em que tudo fica extático e ele em cima do morro olhando o seu mundo. O silêncio persistia, o rosto de Munakazi se apagou, ficou apenas o céu azul. Mas havia uma coisa na morte que era diferente dos outros meios da tarde, não sentia angústia. 
Foi quando percebeu que tremia de medo. Afinal não estava morto. Impossível parar o tremor, ficou muito tempo na mesma posição, placado no solo, de olhos abertos, vivendo o seu medo e a frustração de com o medo estar vivo. Então decidiu, Munakazi tem de ser minha.


|lentamente, não se impondo, falando apenas, Pepetela vai-me levando para onde ainda há pouco pensava não querer ir.|

5.9.18

[tenho me deitado com Antonio Gamoneda nestas últimas noites]

voltando à tradução, refastelo-me nas palavras de Pablo Javier Pérez López, na enfermaria do meu coração:

A arte de traduzir é, simplesmente, uma das mais elevadas e secretas. Poucos humanos conseguem levar poemas para uma outra língua com essa estranha e árdua fidelidade que reproduz a ebriedade, o ritmo, e o pensar cosido à música da vida da qual nasce o poema. Mais difícil ainda frente ao sentir popular, é fazer viajar a poesia para uma língua aparentemente familiar ou próxima. Mudar, verbo escolhido por Helberto Helder para este facto sagrado que sempre convoca a apropriação de outra voz e a recriação oral e escrita do poema, um verbo que, Gamoneda aceitou e recebeu com gosto. Sempre tem que ser um poeta a mudar a voz de outro poeta e sempre que isto acontece nota-se logo a partir do início da leitura.


|que gozo me dão as edições bilingues|

2.9.18

e já submersa, viajando à velocidade da ponta dos dedos no ecrã, encontro o texto de miss smile, que me encanta, depois o do xilre, e deixo me ficar, contente por conseguir manter as mãos fora de água e os olhos abertos :b

|a blogosfera em bom|
e já que estou com as mãos na massa e os dedos no gatilho, aproveito para deixar mais uma semente, antes de descalçar as botas sujas de terra e mergulhar no submarino marsupial. 

«Traduzir Solaris é um desafio, porquanto a narrativa urdida neste romance ultrapassa as fronteiras da realidade conhecida e ficcionada, construindo um mundo desconhecido, completamente imaginado e povoado de fenómenos nunca dantes concebidos. Neste caso, a tarefa do tradutor estende-se a um espaço onde o visionamento destes fenómenos é a condição necessária para que não se percam as representações visuais das entidades inventadas, nem o estilo literário que, oscilando entre uma linguagem técnica, filosófica e poética, avulta em criatividade linguistica e neologismos. São exemplo disso os sugestivos nomes das entidades que habitam o planeta Solaris: «mimóides», «longóides», «cogumelões», «simetríadas», «dendromontanhas», etc. Por conseguinte, a tarefa repartiu-se entre dar a ver o mundo representado neste romance de ficção científica e, simultaneamente, dar a ouvir a voz do autor e o seu modo de expressão»

/Nota à presente tradução, Teresa Fernandes Swiatkiewicz, in Solaris/


sempre me encantou a busca por este eterno equilíbrio entre a transposição e a criação. a vontade de mostrar o outro, num acto de abnegação à nossa própria existência, tentando transportá-lo o mais puro possível, |como, santo deus, se mesmo ele próprio já é polissemia?|, permanecendo nós na sombra das palavras. saber do poder e rondá-lo sem lhe tocar o nervo, uma pouco mais do que a pele.
é das poucas vontades que ainda hoje me permanecem: por que diabos não escolhi teoria da tradução?
encantadora rata, a Josefina de Kafka, de sorriso insolente, pretensiosa, inflamada de raiva pela falta de reconhecimento, como qualquer artista que se preze, no limbo entre o mero assobio ou algo maior (assim é a arte, dizem)....


«É nessas escassas pausas entre batalhas que o povo sonha, é como se os membros de cada qual se soltassem, como se a ansiedade tivesse por uma vez direito a distender-se e esticar-se à vontade na cama grande e quente do povo. E nesse sonho ouve-se aqui e ali o som do assobio da Josefina; ela chama-lhe pérola, nós chamamos-lhe chumbo; mas de qualquer das formas, ele encontra aqui o seu lugar como em nenhum outro sítio, aqui encontra a música o momento que por ela esperava, e isto é raro acontecer. Há nisto qualquer coisa da nossa pobre e tão breve infância, de uma felicidade perdida que nunca poderá voltar a ser encontrada, mas há também qualquer coisa da vida activa, do dia a dia, da sua pequena, incompreensível e apesar disso subsistente e irreprimível alegria. E tudo isto é dito com sinceridade, sem grandes sons, antes com leveza, sussurrado, uma confidência por vezes um pouco rouca. Claro que é um assobio. Como poderia ser outra coisa? O assobio é a língua do nosso povo, só que há quem assobie a vida inteira sem o saber, enquanto que aqui o assobio está livre dos constrangimentos da vida quotidiana e pode também libertar-nos a nós por um breve momento. Assim sendo, é óbvio que não queríamos perder este espectáculo.»

/Josefina, a Cantora ou o Povo dos Ratos, de Kafka/



acompanhei a novela de Josefina ora no Artista de bolso, ora no Bestiário (confesso a minha predilecção por bestiários). na rua ou em casa, a rata de Kafka, a mesma que os três magníficos (Borges, Bioy e Ocampo) já tinham escolhido para figurar na sua Antologia da Literatura Fantástica, acompanhou-me durante alguns dias na minha insossa vida de rato. no fim, foi-se a Josefina, ficou-me/nos, felizmente, (o) Kafka, que pouco tempo depois morreu de tuberculose laríngea |talvez daí um artista da fome...| 



__ o que ela ambiciona é então apenas o reconhecimento público da sua arte, um reconhecimento unânime, que perdure pelo tempo, que ultrapasse tudo o que até agora se conhece. 

30.8.18

 Jan Erik Waider


Caminho sem pés e sem sonhos 
só com a respiração e a cadência 
da muda passagem dos sopros 
caminho como um remo que se afunda. 

os redemoinhos sorvem as nuvens e os peixes 
para que a elevação e a profundidade se conjuguem. 
avanço sem jugo e ando longe 

de caminhar sobre as águas do céu


Daniel Faria |1998|

28.8.18

e então eu perguntei, posso ir para casa, jardinar de pijama polar, debicar uvas com scones e marmelada?... é que me apetece tanto... e tenho frio, só com este casaquinho de sem jeito nenhum... aproveitava para pôr roupa a lavar, mudava os lençóis da cama... adiantava o projecto da estufa!, fazia festas aos borregos, escovava as pretinhas... oh pá! era tão fixe!! posso?...


e eles, o bando inteiro, para que não houvesse dúvidas, semicerraram os olhos metálicos, encresparam as frontes e ergueram-se a mim respondendo:


Eugenia Loli

27.8.18


























– Pois não será nem um camelo, muito menos um dromedário! A Princesa há-de passear-se pelos jardins do deserto montada na corcunda de uma cabra coroada de chifres, igualmente alva e delgada, com rabo em largas plumas.


de todos os entra-e-sai do prédio, ups, dhl e uber eats incluídos, calhou-me fazer amizade com o carteiro provisório deste mês. tudo começou com um siga da emel, dois euros e quarenta e seis cêntimos trocados e a oferta de um cafézinho. a coisa deu-se de forma simples, como se dão todas as coisas de valor. da conversa de circunstância, aproveitou-se o tempo para falar de tudo o que no momento nos apeteceu, a filhaputice da emel e a sua aplicação merdosa, tantas vezes avariada, o tempo, que no dia abrasava com um caldeirão do diabo, as férias que ainda não gozámos, as chávenas do café com rosinhas pintadas, oferta (pirosinha) da minha querida mãe, as horas que damos a mais ao trabalho, porque temos amor à camisola, e isso é que importa, e por aí terminámos. hoje voltei a encontrá-lo no rés-do-chão, segurei-lhe a porta do elevador, inquiri-lhe da correspondência, avisando de antemão que não recebo contas à segunda. rimos os dois, reconvidei-o para mais um cafézinho, por cá há-de passar mais tarde. e é ao teclar esta meia dúzia de frases sem grande importância, que me lembro daquela vez em que a tia Lurditas, em tom de evidente desagrado, avisou a minha mãe que muito eu gostava de dar conversa aos serviçais, eu, que tinha tantos estudos! pobre tia Lurditas, de cabelos pintados e mamas volumosas - como lhas invejava, caramba -, vivia convencida que pertencia a uma casta superior, porque tinha sido secretária de administração durante algum tempo. ainda vive. deus lhe dê muita saúde. calculo que não bebesse cafézinhos com qualquer um...
beatas, centenas delas, espalhadas pela rua inteira. ainda tentei uma formação on job, perceber qual a melhor técnica de cantoneiro, a inclinação certa da pá, a posição mais adequada à vassoura, mas não havia ninguém a quem perguntar. era eu e elas, pontas redondas, mais ou menos terminadas, algumas brancas, a maioria já pisada. apanhar beatas é como um daqueles jogos básicos de computador dos anos noventa, percebemos que é sempre igual, mas não o conseguimos largar. não foi preciso muito para descobrir que estava viciada naquilo. Comecei por alargar o perímetro das buscas, insistia até nas mais difíceis, presas em sulcos de terra ou nos buracos do passeio, tudo isso enquanto ia pensando na vida, sossegada. embora o objectivo principal fosse apenas o de limpar o lixo maior, não parei enquanto não cheguei à curva do quarteirão sem uma ponta que se visse. está bom!, gritou-me lá do fundo o responsável. fosse assim tão fácil limpar o lixo da cabeça.

26.8.18

um dia teremos de chamar a polícia, digo-lhe ainda outra vez, forçando uma resposta que me ampare. Tristan suspira, de rosto voltado para a lua, tão prenhe lá em cima. ouve, Tristan, eu também não quero problemas com ninguém, mas é impossível manter os animais nestas condições, sabes que o barulho os deixa agitados. não vale a pena continuar, Tristan não me ouve, acha que é cedo demais para fazer a queixa. descalça, magoo os pés no caminho de brita, enquanto tento chegar a casa. a algazarra do grupo não me deixará descansar nas próximas horas, tão-pouco o grunhido que chega do curral, mas, quem sabe, talvez também eu me aninhe na cobardia da inacção e deixe a vida correr assim. se ao menos chovesse...

24.8.18

ao poeta

coisas da vida, dir-me-ia o leitor, se ainda por aqui passasse, isso de ouvir outra vez o poeta, num tiro de sorte à sua Caligrafia Ardente, falar-me da flor que se abre na boca dos suicidas. nesta surpresa de poder olhá-lo ali tão perto, a pele salgada em gotas, estendo-lhe as mãos às palavras, abro a boca em beijo, morro e renasço, enquanto a sua língua se enterra em mim.



o canto da velha toupeira
ondulante entre o diálogo dos mortos
na cinza das pátrias destruídas
em troca de uma estrela __e outra estrela
até à constelação chamada sempre a idade de ouro
e ilha da reunião de todos os desejos
e do amor único e louco
até à grande maravilha do princípio
das mil e uma noites sem fim
numa nuvem de sangue muito doce
erguida à altura da paixão dos olhos
perdidos no infinito


/Uma Faca nos Dentes - Antígona/

13.8.18

Wild, wild horses we'll ride them some day

28.5.18

na literatura, como na vida,
na vida, como nos blogs.

Tem de se retirar algum prazer deste trabalho, e é isso. Andar por aí disfarçado. Representar um papel. Fazermo-nos passar por algo que não somos. Fingir.

Philip Roth

27.5.18

Lo que me gusta de tu cuerpo 
es el sexo. 
Lo que me gusta de tu sexo 
es la boca. 
Lo que me gusta de tu boca 
es la lengua. 
Lo que me gusta de tu lengua 
es la palabra.