3.12.16

a chuva, caindo em urgência no beiral, abafa o primeiro jorro de urina.
é novamente segunda-feira.

2.12.16

esta semana, quis o destino que me calhasse desalojar (uma) Milu, da porta do carro velho. insensível às suas longas pernas trémulas, larguei a pobre junto à zona dos aspiradores do elefante azul. nunca faria tal coisa a um mamífero |se até o rato transportei para a segurança do mato cerrado|, tão-pouco o fiz com a Carlota, por que diabos cometi tal infâmia com o pequeno aranhiço, tantas vezes sinédoque do meu pensar?

27.11.16

Lee Jin Ju

tive direito a quase tudo, a luz lilás do entardecer, taeko e yukiko escavando debaixo da figueira, misturando o cheiro da terra escura ao doce putrificado das maçãs, cogumelos mansos nascendo entre o verde da erva;  perto, uma motosserra abrindo a madeira, os gansos do outro lado do vale, a silhueta a tinta da china de mokambo, pousado na árvore morta onde descobri o rosto de herberto, pássaros que não conheço trinando perto de mim; alto, um avião em direção às nuvens cor de pêssego.
ironia das ironias, a mais fina e requintada profissional de lupanar, continuo na segunda-feira e logo à noite será  domingo...
não fosse eu esquecer-me de que hoje é segunda-feira, logo pelas seis da manhã, a mãe deusa das regras fulminou-me a zona dos rins com vários arpões em aço inoxidável, enquanto me arrebanhava as tripas, apertando-as em remoinho. arrastei-me à casa de banho e ali mesmo, deitada no tapete vermelho, olhando fixamente o velho candeeiro redondo, forcei a cura. quinze minutos depois, levantei-me a sorrir.
ultrapassados vários ciclistas e papa-reformas a caminho sabe-se lá do quê, pé no acelerador na estrada larga, eis-me numa pastelaria com nome francês: pain au chocolat et café au lait, s'il vous plaît, merci. perto, uma turba oriental em volta da senhora das raspadinhas. contam o dinheiro com um sorriso que lhes desconhecia. possivelmente tão sincero quanto o meu, quando já me besuntava no pequeno brownie de chocolate com nozes pecã (senhores!!!).
caminho finalmente para o destino. à minha espera, um bigode, sorridente, que me lembrou dos que deixei em casa - se me despachar, penso, ainda consigo a tarde de domingo!

26.11.16

bolachas de chocolate que fazem parelha com cerveja verde, podiam ditar-me grávida, não estivesse menstruada, marcando mais um mês no calendário. calças de ganga e botas das obras, como gosto de chamar às amarelinhas, podiam passear comigo na rua, quem sabe ir até aos jardins da Gulbenkian, guarda-chuva preto dos corações, em vez disso, amarram-me a esta velha e magra cadeira, onde outras palavras esperam para serem escritas, enquanto os meus olhos imploram a ilusão.
tão bom, quando o mundo dentro da minha casca de noz me traz coisas assim. e logo a mim, que ainda guardo as memórias da biblioteca, trabalhando os jesuítas, e de Urbano no conserto do mundo.

do cinema, pela mão de Scorsese, chega o trailer de Silence, adaptado do livro de Shusaku Endo. do livro, disse Urbano: "Fica-se quase doente ao ler Silêncio, mas rendemos-nos à verdade e força dos estados de alma e das confissões das personagens. As descrições da natureza são magníficas: as estações do ano, as árvores, as cigarras, o concerto dos pequenos animais da floresta." (daqui)

25.11.16

senhores e senhoras, a Cuca!


até quando encontrar
seus fios de cabelo
no meio dos meus livros?



*

agora
imagine
uma
caixa
torácica
de
bom
tamanho
acústica
saudável
onde
pulsasse

bem-
acondicionado

do
lado
esquerdo
do
peito

um
baço. 

           
*

                    
outro dia mesmo, vadiando as gavetas,
topei com uma de suas costelas.


o que um dia foi pra mim
lua crescente, pente,
bumerangue de marfim


(e – ainda – quantas vezes
arco para violinos genoveses?),


hoje é apenas um souvenir
de timbuktu.


                         
*

talvez depois sorrissem, se um deles
perguntasse, patético, aturdido,
na noite exumada:

o único osso
que restou de nosso
amor decomposto


é a lua,
essa mesma lua 
linda lá no alto?


                   
*

                              
(não que fosse aquela nudez
o primeiro alumbramento.)

você lembra?

ali parados, o coração batendo,
surrados
por uma corja de borboletas.


         
*

     
não é o tempo, necessariamente.
não é da alçada dos relógios.
o vento
                               
é que comove as árvores, despenteia
o móbile das lembranças.


rodrigo madeira
oriundo do pequeno país do continente e famoso contador de estórias,  júlio - e o seu bestiário mágico - tem viajado comigo, nestes que têm sido os tempos das descobertas azul profundo do mar. Alyyah, ora peixe, ora pássaro, é massa espessa que me navega as veias e à noite se deita ao meu lado. tal como o rei que reinava sem nunca ter visto o mundo, também eu me atrevi a abandonar o palácio e a procurar o meu deserto. júlio diz-me que todos temos um tempo à nossa espera, enquanto improvisa algumas notas no velho trompete.  se algum dia encontrares o rei de quem fala Tagik, o berbere, repete-me, quero apenas que lhe ofereças estas palavras:

Allá al fondo está la muerte, pero no tenga miedo. Sujete el reloj con una mano, tome con dos dedos la llave de la cuerda, remóntela suavemente. Ahora se abre otro plazo, los árboles despliegan sus hojas, las barcas corren regatas, el tiempo como un abanico se va llenando de sí mismo y de él brotan el aire, las brisas de la tierra, la sombra de una mujer, el perfume del pan.


/Instrucciones para dar cuerda al reloj: traduzido aqui/

23.11.16


Adara Sánchez Anguiano

abocanhou-a pelo cachaço, até sentir um frémito de calor nos testículos.

20.11.16

...

"Às vezes estou tão excitada que basta tocarem-me nas mãos, apertar-mas com força, e tenho um orgasmo quase instantâneo!"
"A sério? Só de te apertar as mãos?"
"Estavas desatento!"
Fez-se um silêncio risonho.
"De facto, da forma como falas com o corpo, não pode ser surpresa!"
Corando e apontando o olhar para o chão, respondeu com o tom de uma menina pequena:
"Não dá mesmo para enganar, pois não?"
"Falas como se isso fosse mau..."
"É que assim sinto-me sempre nua!"
"Só os semelhantes se reconhecem entre si."

...


/a mulher dos aforismos - enfermaria 6/
Há pessoas que conseguem morrer em órbita e outras que se esmagam no fim da queda. E outras (às quais pertenço) conservam sempre em si como que uma tímida nostalgia da dança em roda perdida, porque somos todos habitantes de um universo em que todas as coisas giram em círculo.

/O Livro do Riso e do Esquecimento/
há baleias voadoras urinando chuva miudinha, por estes lados. já não sorrio à sua passagem, pois sei que em breve chegará mais uma leva de caracóis e lesmas gigantes e a minha agonia nunca terá fim.
Sr. Gato convalesce na despensa aquecida, com ala própria, preparada para o efeito: wc privativo e cozinha equipada com tigelas de água e comida. não havendo ainda resultados das análises, é dar mimo, comida e calor. no deita levanta que foi a noite, Taeko e Yukiko, ursas ciumentas, passaram de minhas sombras a carraças das minhas pernas. culpa minha, que trago as bichas mais mimadas que bloggers famosas em dias de inaugurações. milu, a minha querida milu, que ainda ontem - em versão gigante - enxotei com a vassoura, aguarda por mim no canto do costume, no tecto do submarino. assim sendo, resta-me ir buscar a caneca do café, quem sabe fazer umas torradinhas - que o pão está duro e preciso de desenjoar das papas - e submergir-me no dia santo, que se avizinha curto. se a edp não me falhar e o Sr. Gato melhorar mais um bocadinho, diria que será um bom domingo.
/atlas/

A unos trescientos o cuatrocientos metros de la Pirámide me incliné, tomé un puñado de arena, lo dejé caer silenciosamente un poco más lejos y dije en voz baja: Estoy modificando el Sahara. El hecho era mínimo, pero las no ingeniosas palabras eran exactas y pensé que había sido necesaria toda mi vida para que yo pudiera decirlas.

Jorge Luis Borges

19.11.16

talvez noutra vida o acaso troque os papéis da cena e me calhe a mim ser o rato silvestre |são tão fofinhos|, Ramirez, o espanhol, fará de flor coração de margarina, a caridosa, e ao roedor caberá, finalmente, o papel de gato sádico e psicopata.
Rosácea



Rosácea, a roseira anã, presenteia-me com um pequeno botão, no dia em que - espero - Sr. Gato, o velhinho, regressará a casa, para viver mais um par de anos comigo. espero, mas receio. 

18.11.16

no seu voo atarracado, Mokambo, o mocho-galego, alcançou o pilar de madeira, enquanto eu observava Marlon Brando, escondido no meio de um tufo de erva verde-belo. Taeko, encontrava-se a pouco mais de dez metros, mas deixou-se ficar deitada. suspiro de alívio, de tigela nas mãos - dieta de papas com cheiro a maçã, em busca dos quilos perdidos -, e pondero o banho no submarino. talvez - finalmente - tenha aprendido que os felinos são senhorios destas terras, de igual modo como suas majestades, as duas gordas. Mokambo, por quem me apaixonei faz tanto tempo, abre-me ainda mais os olhos |como são bonitos| e deixa-se ficar no seu poiso. felizmente, para bicho de estimação, não me exige (ainda) tigela cheia, nem manta polar.
o vale, vestido de outono, enche-me a vista. perto, uma vizinha, em posição de lótus, procura o seu nirvana. estranhamente, de olhos fechados. 

17.11.16





sei que fiquei presa num canto da sala, invisível.

15.11.16

morrendo

13.11.16

a maior dúvida era saber se a placa - da belíssima cozinha que é a minha - ainda funcionava. trouxe a pasta fresca de uma loja/restaurante perto de entrecampos, cortei dois portobellos para dentro da frigideira, reguei com vinagre balsâmico e pouco mais. há uma garrafa de vinho tinto à espera do saca-rolhas.
ah, senhor... para quando um outro domingo assim?

o maior luxo dos últimos meses, foi este domingo de sol que roubei na agenda azul dos afazeres urgentes. para terminar esta doçura de dia, outono cor de mel e de vinho, veio a lua, prenhe de luz, fazer-me companhia na varanda. eu, envolta no casaco de lã, sorvendo o chá de tília, ela somente vestida de prata.

12.11.16

quão difícil é a nudez, quando um papel regurgitado pelo preço de cinquenta cêntimos nos mostra um número que nos magoa. sou uma magra triste. pouco mais do que uma pequena carcaça.

Davide Padovan

I'm ready, my Lord




É esta condenação, lava ardente, suco, sémen, semente, esta inconstância só minha. Sonho uma morte violenta, a quente, bala na têmpora, carro despistado, cara desfeita, em contra-mão. Sonho com o vidro que me há-de perfurar a pele macia, quente, fêmea pronta em cio, cadela em ladeira esquecida, macho alfa de alcateia, sonho-me liberta de mim.

|repetem-se, em elipse|

11.11.16

dois anos de cultivo.


ninguém é impossível: suicidas por felicidade, assassinos por benevolência, pessoas que se adoram ao ponto de se separarem para sempre, denunciantes por fervor ou por humildade… Essa liberdade completa acaba por equivaler à completa desordem.

Jorge Luis Borges in Prologo, A Invenção de Morel 

10.11.16

fui roubá-lo ao Bitaites. (obrigada, Marco!)

magnífico...

9.11.16

já não me recordava de como um par de sapatos de salto alto e um bom vestido faziam tanta diferença em mim. não fosse a cara de quem dormiu pouco mais de cinco horas...

6.11.16

Reparaste como o Outono este ano veio por outro lado,
como se fosse pelo lado de dentro?


perguntou-me, quando o encontrei na wook, onde lhe fizeram aparato, e não resisti a pedir-lhe um abraço. amo o Pina desde garota, era um pai que gostava de ter.
não sei se mo disse, se o imaginei na altura, A poesia vai acabar, os poetas vão ser colocados em lugares mais úteis. Por exemplo, observadores de pássaros (enquanto os pássaros não acabarem). e eu, aflita, Que não, Poeta, que não! A poesia é o pássaro que canta, que canta onde lhe apeteça.

aguardava na fila no multibanco, onde uma senhora de cabelo lilás verificava todas as suas contas, e possivelmente as do seu agregado familiar inteiro, introduzindo e retirando vários cartões, guardando os extractos. perto, uma mãe ajudava o seu rebento pequeno a subir para o cavalinho, apenas com uma mão. na outra, já pronto a filmar, o smartphone. segura-te, pá! ainda deixo cair o telefone! o miúdo choraminga, mas lá se empina no dorso da maquineta. vá, agora sorri! sorri para aqui, Martim! 'tou a filmar! a música começa e o Martim sorri.
e se eu morrer de medo?, pergunta-lhe ela, de olhos arregalados. morres nada, minha gatinha, eu vou contigo, é a resposta pronta que chega do rapaz, enquanto a aninha junto ao peito e lhe dá um beijo na testa. ela sorri.

/e eu sorrio também, mas para dentro, fingindo nada ter ouvido. ah, fosse tudo tão belo como estar ancorada num par de braços. miau... /

5.11.16

“Como não tive filhos, o que de mais importante me aconteceu na vida foram os meus mortos, e com isto refiro-me à morte dos meus entes queridos.”

Rosa Montero, A Ridícula Ideia de Não Voltar a Ver-te





|fico aqui, sentada nesta puta desta cadeira, dura e feia, relendo as palavras que nunca escrevi, mas sinto como minhas. às vezes, acontece-nos assim.|

{sonhos de abóbora para o Manel}

na brincadeira, sem revelar a fonte da ideia, pergunto à Lucinha se já tem sonhos à venda. parece que não, sonhos, diz a Lucinha, ao contrário das decorações natalícias, só em dezembro. portanto, Manel Pero Vaz de Caminha, escrivão-mor do galeão Cuca Melissa Pamela, nada feito, mais vale comeres as farófias.

as duas mulheres do salão que frequento de quinze em quinze dias não se dão. a agressividade com que se tratam, coberta de sorrisos de ácido sulfúrico, mantém as clientes em alerta permanente, não podendo as dos cabelos trocar novidades com as da manicure e vice-versa. as conversas, esse elemento valioso dos negócios de salão, são tão curtas por aquelas bandas, que bastas vezes se consegue ouvir o ponteiro dos segundos numa volta completa. podia ser desagradável - e será, para quem espera pela ocasião para limpar a alma, que traz cinzenta de casa -, mas para mim, aquele silêncio de arame farpado vale ouro.

3.11.16

ah, a beleza da perspectiva...

1.11.16

rezei pelos meus mortos no velho pomar, trincando uma maçã amarela. no final, atirei o caroço à terra e guardei novamente as memórias.
quase sinto pena e tenho vontade de lhe dizer, o problema não é a tua opinião, tens tanto direito a ela, como os outros à sua. o problema reside no palanque em que te colocas para evangelizar o mundo com as tuas certezas. porque insistes tu, sempre, em querer ganhar a taça da gaja mais inteligente e despachada? que anjo te soprou ao ouvido que tu eras a escolhida? que homem te tão humilhou para que julgues agora que tens de ser o centro de cada universo por onde passas?

mas depois observo-lhe melhor a petulância com que disfarça o medo de ficar sozinha e a teimosia de quem se esconde nas frases que decora das muitas folhas que apregoa ler - estranhamente, a maioria delas figura sempre nas lombadas, sinopses e artigos da especialidade -, e nada digo. sinceramente, não vale a pena.

das várias razões existentes para engordar, a que me ocorreu esta manhã, deitada no submarino, é a de como, faltando a carne, fico sem almofada para o osso sacro. é incómodo, tendencialmente doloroso, e, já tendo sido eu, em tempos juvenis, dona de um traseiro de referência, nada disto faz sentido. ocorreu-me a constatação, enquanto admirava as decorações alusivas ao dia, que milu, com a ajuda preciosa da dona da bata às riscas, me deixou, do candeeiro ao tecto.
quando as noites me magoam, rosno-lhes, incapaz de mais. as noites, brutas, julgando-se donas de mim, atacam-me impiedosamente os flancos destapados. eu riposto com gritos metálicos, mas logo que posso, tento o refúgio na rigidez dos dentes cerrados, esperando que o silêncio me livre das agressões. quando os deuses são generosos, o sono pega-me ao colo e leva-me para o outro mundo.
estas são as noites com sabor ao lodo do fundo de um poço. o castelo desmoronado.

31.10.16

{um poema para a Miss Smile}


Sabes, leitor, que estamos ambos na mesma página
E aproveito o facto de teres chegado agora
Para te explicar como vejo o crescer de uma magnólia.
A magnólia cresce na terra que pisas – podes pensar
Que te digo alguma coisa não necessária, mas podia ter-te dito, acredita,
Que a magnólia te cresce como um livro entre as mãos. Ou melhor,
Que a magnólia – e essa é a verdade – cresce sempre
Apesar de nós.
Esta raiz para a palavra que ela lançou no poema
Pode bem significar que no ramo que ficar desse lado
A flor que se abrir é já um pouco de ti. E a flor que te estendo,
Mesmo que a recuses
Nunca a poderei conhecer, nem jamais, por muito que a ame,
A colherei.

A magnólia estende contra a minha escrita a tua sombra
E eu toco na sombra da magnólia como se pegasse na tua mão

Daniel Faria


excerto de A Gorda, de Isabela Figueiredo

difícil é não comprar o livro.
obrigada, Isabela.

porque há bloggers assim, capazes de tudo, até de tentar envenenar as orquídeas das outras...


a prova

30.10.16

Skruvsta, meu amor de pele sintética almofadada.


fosse eu uma blogger de sucesso, disposta a tudo por causas maiores e já tinha assaltado a loja da fendi casa, ali bem perto da avenida, mas não sendo, caço com gato (e vadio). quero sentar o rabinho numa skruvsta, apenas não me consigo decidir por qual. ora se há utilidade nisto de ter gente amiga na blogosfera, é quando se precisa de opinião alheia. qual delas, povo meu, gente de bem, deverei eu escolher?


1


2


3


4





/post em parceria com o blog Palmier Encoberto que recentemente me deu a conhecer este espaço, de que eu nunca tinha ouvido falar (e ninguém sabe afinal como lhe deve chamar)/


da odisseia que se iniciou em julho do corrente ano e de como flor de espinheiro, a própria, tem sabido, com a sua total inexperiência, manter Violeta, a imperatriz tropical, em tamanha beleza.

[roam-se, bloggers famosas!]


Violeta, a trinta de outubro de dois mil e dezasseis

/é impressão minha ou as flores de Violeta, a orquídea, parecem monstros do espaço?... abelhas-mamutes?.../

encontrar uma teia de aranha, ainda que pequena - a teia, que de Miluzinha, nem sinais - no lava-loiças, há-de ter algum significado, mas prefiro não reflectir sobre coisas profundas tão cedo. aproveito estes sessenta minutos, oferecidos pela boa-vontade do mesmo alguém que daqui a seis meses os rapinará sem piedade, para pôr as pernas ao sol, observando taeko e yukiko na felicidade da escavação, em companhia da última bolacha e do último pacote de leite, morno, com duas colheres de mokambo. também não quero reflectir sobre isso agora. por arrumar vejo ainda o saco dos felinos e a caixa das gordinhas. está tudo bem, nada nos falta.

/o próximo animal que me vier parar às mãos, há-de chamar-se mokambo/a. caracóis e primas lesmas não contam. nem bichos de prata. perdoa-me, senhor./   

29.10.16

é sábado, sente-se sozinha, ouço-a dizer. de olhar caído no chão, continua a mendigar algum carinho, numa voz de queixume, enjoativa, repetindo-se em súplicas. a conversa pouco mais dura. mal desliga o telemóvel, dirige-se, apressada, à casa de banho. dá-me pena.
devia ser proibido implorar o amor.
o meu poeta azul tem o olhar mais belo que já beijei.
confesso: quis embebedar-me, ontem à noite. quis embebedar-me como há muito não me lembrava. avancei no jinzu, como quem avança nos sumos de pacote. queria, à força, suprimir aquela necessidade imediata de pensar nas coisas. pois que sim, o dia foi longo, ainda tinha de voltar ao escritório (ah-ah-ah!), nem é tarde, nem é cedo, é a hora certa para me embebedar. não uma dessas bebedeiras de secundário, em que vamos agarradas pela melhor amiga até à casa de banho, não, nada disso, era uma bebedeira mais contida, mais madura, onde havia apenas olhares inebriados, gargalhadas soltas no ar e sexo selvagem na arrecadação do restaurante. uma bebedeira com estilo, quase um teledisco ou publicidade de perfume. pois então que venha esse jinzu, vício que ninguém me entende e ainda me acusa de nem ser gin de verdade. gin de verdade ou não, a meio do segundo, fiz contas ao preço, lembrei-me do saldo da conta, e decidi que me embebedava noutra altura, quem sabe no natal, com uma caixa tamanho familiar de mon cheri. da desejada bebedeira, passei à ingrata depressão. raios partam o jinzu!
tem me calhado, valha-me deus a paciência, muito tia beta (alguma a contar trocos para pagar a limonada) a vocêzar os petizes Vicentes Afonsos. em contrapartida, que nem sempre a vida é injusta, tenho conhecido gente de valor (e com abastados valores), que atira sinceros tus aos familiares mais novos e me olha sem complexos.
não diria que se trata do universo numa casca de noz, mas não deve andar longe.
entraram as duas, três pisos depois, não as observei, entretida que ia na minha azáfama, até que decidiram iniciar conversa, debatendo a problemática do acrílico. eu, patega acabada de chegar ao gelinho, deixei-me ficar, até ao rés-do-chão, a aprender a ser uma mulher moderna.

/sempre me ficou o gozo de ver a unha de garra - acrílico violeta escuro - em tentativas vãs de calcar no botão do elevador./

28.10.16

e quem não queria uma língua dentro da própria língua?
eu sim queria,
jogando linho com dedos, conjugando
onde os verbos não conjugam,

...

que húmida língua, que muda, miúda, relativa, absoluta,
e que pouca, incrível, muita,
e la poésie, c’est quand le quotidien devient extraordinaire, e que música,
que despropósito, que língua língua,
é do Maurice Lefèvre, e como rebenta com a boca!
queria-a toda


Herberto Helder, A Faca Não Corta o Fogo

26.10.16

quando entrei na pequena livraria da rua passos manuel, movida por um desejo insano de encontrar godot, ainda não sabia que traria al berto lunário embrulhado num saco de papel. escolhi-o pelo sexo, confesso, depois de ter lido um artigo antigo do público, opinião de alguns, que era um bom livro para ler corpos resfolgados, ainda com sabor a mar.

24.10.16

descer ao rio de lanterna na mão, as botas de borracha calcando o tapete ensopado, Taeko e Yukiko - quais vacas anãs - pastando na erva mais tenra: eis o ponto alto do dia, que, na verdade, já é noite cerrada.

/isto depois de descobrir que o vizinho trata o cão pela terceira pessoa.../

23.10.16

Rebecca Leveille Guay - Flowers

o passeio de barco prometido, como já se temia, ficou cancelado na sexta-feira à tarde, por receio do temporal. depois de terem acesso à curta mensagem, os deuses domingueiros tomaram para si a cínica tarefa de não mandar um pingo de chuva durante toda a manhã. velhacos.
almocei cedo, numa orgia de cores e paladares, - pimentos assados, tagliatelle com alperce (sim), peixe panga bem simples, puré de maçã, crepe de goiabada e queijo de cabra, cogumelos salteados, meio copo de vinho - um verdadeiro festim. do café, bebi dois golinhos, cada vez me custa mais forçar-me ao gosto queimado, e pus-me a caminho da livraria. o rapaz, por simpatia ou genuíno reconhecimento, ofereceu-me um sonoro cumprimento. o gesto quebrou o silêncio religioso entre os presentes - sempre todos tão iguais - que o rubor se me aflorou à face. ridícula, fugi apressadamente para a poesia. já em segurança, encostada às prateleiras do costume, dei início à busca, procurando algum arrebatamento dominical.
saí de mãos vazias.

/que saudades dos meus alfarrabistas./
prometi que era assunto morto, mas confesso que ainda lhe sinto o pulsar das veias, mesmo junto à garganta, onde cravei a navalha curta. não estando morto, continua a ferrar-me na boca do estômago. há-de jorrar fel.
PANTONE 316 CP

num abraço entre o verde denso da serra a pique e o azul profundo do mar, nasceu a cor que me acaricia a alma.

22.10.16

Durante quinze, vinte, mais minutos, esqueço o que vejo. Concentro-me só no quadro onde vão sendo anotados números, o giz a raspar a ardósia e a manchar-se de vermelho. Altura: 1.64m. Peso: 80 Kg. Cérebro: 1250 gramas. Coração: 400. Pulmão esquerdo: 730. Pulmão direito: 650. Fígado: 500. Pâncreas: 100. Baço: 140.

Penso só que nunca saberei quais são os meus valores. Que não vou querer que ninguém os conheça por mim. Vou ser cremado. Melhor, incinerado. Isto, se não morrer de morte violenta e não me trouxerem à força para uma sala destas. À força. Sorrio. Antes de o assistente fazer uma incisão na parte de trás da cabeça, de orelha a orelha, e de levantar a pele como uma máscara e de a poisar sobre ele, o rosto deste homem era a imagem da impassibilidade. Parecia morto não de há dois dias, mas há anos, há séculos, desde sempre. Parecia já ter nascido assim: morto.

(...)


Até pegar a sério no bisturi, vivi durante um ano a exaltação da carne. Construi teses sobre a macroscopia da alma e a microscopia da textura dos tecidos. Passei a comer bifes mal passados. Comprei um coelho no mercado só para o dissecar no lavatório da casa de banho e depois me habituar ao cheiro da sua decomposição. Colei na parte interior das portas do guarda-fatos as imagens mais macabras dos manuais de Tanatologia. Passeei com as namoradas no cemitério e fui discursando sobre a paz dos mortos. Fui um perfeito idiota aterrorizado com a chegada do meu confronto com a morte.

Com o tempo, deixei-me disso. A carne tornou-se banal. A minha e a dos corpos. E nessa banalidade habituei-me a distinguir com as pinças da ciência as marcas do desvio, da anormalidade, da falha. Hoje, olho para os meus mortos como mortos. É só. E olho o meu corpo como um caminho que se estreita até eles. Cada vez mais. Devagarinho. Ao ritmo do relógio que, em cima da cama, me embala os sonhos. Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Tac. A vida a esvair-se em compassos binários.

Se me disserem que um dos meus mortos já teve uma vida antes, eu respondo que só me interessa aquela que ainda encontro quando o abro. Uma vida que não dura mais de três horas de cortes e sangue. Com poucas personagens e desfecho rápido. Morreu. Mataram-no.

É verdade que com cada corpo que me passa pelas mãos tenho uma conversa diferente. Não há duas histórias iguais. Tal como não existem duas ramificações sanguíneas semelhantes. Ou dois cérebros. Ou dois corações. Ou dois sexos. Mas a uni-los descubro sempre a fina membrana que separa a fragilidade dos corpos da brutalidade dos sentimentos. Morremos todos de excesso ou de falta de amor. E morremos sozinhos, de regresso à nossa odiosa singularidade.

Morremos todos do coração, acreditem.


/Este é o meu corpo, Filipa Melo/
As coisas delicadas tratam-se com cuidado

 Desossaste-me
 cuidadosamente
 inscrevendo-me
 no teu universo
 como uma ferida
 uma prótese perfeita
 conduziste todas as minhas veias
 para que desaguassem
 nas tuas
 sem remédio
 meio pulmão respira em ti
 e outro, que me lembre
 mal existe

 Hoje levantei-me cedo
 pintei de tacula e água fria
 o corpo acesso
 não bato a manteiga
 não ponho o cinto
 VOU
 para o sul saltar o cercado


daqui: modo de usar & co


/não sei porque deixei de ler escritores africanos, especialmente elas, que tanta falta me fazem e tão próximas me são./
Odin, deus da criação, deu o leite ao homem para alimentar a mulher e à mulher para alimentar o mundo.
de Raul e Herberto, aprendi a lei da metamorfose, teoria geral da vida, das coisas e da imaginação. é no poder da transformação que nasce a tristeza crónica inveterada. no dia em que tudo for plano e o voo do condor ficar preso na linha do horizonte, a realização da condição absoluta acontecerá e explodiremos num grão de plenitude extasiada. no dia em que a mudança for impossível, as características imutáveis,  as variações imobilizadas, conheceremos, nos breves instantes precedentes à aniquilação, - feixes de luz cegando-nos -, no seu estado mais puro, a felicidade consubstancial.


numa teimosia suicida de não querer ser infeliz, morre, aquele que não se adapta.

a este propósito, dizem as mulheres das estepes, descendentes das mais bravas sármatas, não te aflijas pelo filho que chora, mas antes pelo que permanece imóvel. 

21.10.16

às vezes vejo-os, caras conhecidas, vozes familiares, um ex-colega a subir as escadas do chiado, uma antiga cliente a atravessar a rua no Marquês, um professor de inglês esquecido no Carmo. de todos fujo, nada tenho para lhes dizer e o silêncio não faz conversa.
hoje acendi uma vela na igreja da encarnação.

18.10.16

sinto-me, como nos tempos em que os lobos uivavam na minha parede, animal de mato rasteiro, em fuga felina, urinando medo -- o terror da besta que me tombará.

o desespero de estar perdida num labirinto.  

16.10.16

talvez não o diga com a frequência que gostaria /talvez a muitos nunca o tenha dito/, ou porque o tempo me escasseia, ou me escasseia a escrita assertiva, e os elogios, já se sabe, podem conter demasiado açúcar e cariar o post original.
aqui fica a minha declaração de manhã de domingo, /que já é segunda-feira e ainda ontem foi sexta/:

- é muito bom ler-vos. obrigada.
acabei por não descer ao rio, depois de ouvir os disparos, no meio do nevoeiro. tiros de caçadores estão na minha lista top #as 10 mortes mais estúpidas. 
espero que Corto Gatês, o intrépido, se acautele nas suas incursões pelos mares bravios de vegetação. afinal, foi um chumbo vesgo ou de maldade, que lhe trouxe, já depois de gatarrão adulto, o nome que orgulhosamente ostenta.

15.10.16

 
Jared Rue, Nightfall



/O universo é uma vibração. A vida é uma vibração na vibração./
 
Raul Brandão
as raparigas da pastelaria são sempre simpáticas comigo. já se habituaram a ver-me por lá nos sete dias da semana. há pouco, dizia uma em conversa, Se soubesse o que sei hoje, tinha estudado, não estava aqui metida!, as outras duas respondendo, Podes crer!
fica-me a frase na cabeça. eu, que guardo duas latas amarelas, canudos floreados a latim, com selo de prata, no cimo da estante, afinal também ali estou metida.
termino a tosta de queijo e tomate, o sumo de laranja natural, recuso o café e regresso ao trabalho. Se soubesse o que sei hoje, tinha emigrado, quando o momento era o exacto.
lembras-te de quando, os dois na cama, enrolados nos lençóis brancos, me sorvias como a uma pêra madura?
chove mansamente sobre o vale. ao fundo, Taeko e Yukiko escavam a terra amolecida, perseguindo alguma toupeira. voltarão depois, molhadas e sujas, abanando as caudas felizes, enquanto eu as tento limpar com as toalhas velhas. não tenho leite, nem café, em casa, apenas fome. o monte de roupa suja cresce no cesto. a dona da bata às riscas só limpa, não se entende com máquinas modernas, cheias de botões e amigas do ambiente. o tempo escapa-me por entre os dedos, como areia fina. tenho saudades das cadelas, dos gatos, até das aranhas, do mocho, dos livros, da terra. saudades de um abraço inteiro, de entregar o corpo à dança, de calçar os sapatos vermelhos, da minha mãe, de rir sem preocupações, de partilhar, da boa conversa, de estar mais gorda, mais bonita por fora e por dentro. 
ainda penso em procurar aquela que julgava ter sido, mas ando perdida há demasiado tempo, transformei-me num magro bicho, fingindo o imprescindível social, cada vez me mais intolerante ao barulho e à intimidade dos outros, debitada exaustivamente nas pausas do café. nesta estranheza de mim, já não procuro respostas, o que, não fazendo de mim uma pessoa mais interessante, me traz alguma paz de espírito. 

14.10.16

trago o coração inundado de lodo e tristeza.



9.10.16

e serão obrigados a emitir uma fatura eletrónica.

não percebi, sr. jornalista. quem é que será obrigado a emitir uma factura electrónica? é que a Uber sempre o fez, é um processo indissociável da aplicação. presumo pois que fale, e muito bem, dos taxistas, para que deixem de usar a velhinha desculpa: não tenho caneta...

mas o que eu gostava mesmo era de ver os taxistas a apresentar de três em três meses o seu registo criminal, como fazem todos os condutores da Uber. isso sim, era valente.

e quanto à faixa do bus, alguém me diga onde se compra o passe mensal para o transporte publico do táxi, que eu não conheço.

/do resto, seguros, licenças e afins, sugiro que malta se informe. já vai sendo tempo de não papar grupos./
meio cinza, meio nada, totalmente a larapiar a Pizarnik, a ideia por agora era mais ou menos esta: «Escribir no es más lo mío. Con sólo nombrar alcoholes temibles, yo me embriagaba. Ahora, lo peor es ahora, no el miedo a un desastre futuro sino la de algún modo voluptuosa constatación del presente infuso de presencias desmoronadas y hostiles.»


mas depois a Tétisq decidiu roubar-me a Vendredi!!

achou que bastava achinelar-lhe a nomenclatura para Sexta-feira, julgando-se na ilha ou na casa dos segredos, para que eu não desse conta da ousadia. a lambona da Vendredi, há meses a viver de pensão alheia, abusando do estigma de coitadinha, atreve-se a apelidar a sua melhor amiga - que sou eu, note-se! - de Dona. Dona! vejam bem! eu, que tanto posso usar o título de doutora, como de engenheira, como de Magnífica, sou chamada de DONA! quiéláessamerda?!? a vontade que me deu de rodar a baiana, pôr a mão na anca e avançar para o murro na tromba, como fez a nossa amazona maior, bem na fuça do Trampa!
fraquinha dos ossos, lá me aquietei, não fosse o bando da hospedaria juntar-se à enjoadinha da camareira, e aquilo já é tanta gente, que saía de lá sovadinha de todo. decidi que a coisa passava pela estratégia, plano para mulheres habituadas a lutar nas barras dos tribunais e nas assembleias dos condomínios. procurei a Palmy e o seu famoso e terrível cão de loiça, animal arraçado do mais duro betão e peitorais de touro das américas, pensando eu que isto das bloggers famosas é só lérias e as agendas preenchidas não passam de conversa fiada para as pinipons baterem palmas. nem quis acreditar quando a porteira me respondeu que a Senhora andava acarretar tijolos na obra... jesus...

Vendredi, minha desengonçada, estás a deixar-me tão fora de mim que penso já em soluções terminais para te liquidar de uma vez por todas! trancar-te no petroleiro da Cuca, a esfregar o convés, ou pedir ao Rentes que te meta na cama com o Meças a cair de borracho, ou, melhor ainda!, pedir ao Pipoco para te apresentar a um dos seus amigos, quiçá ao pavão do Melchior de Mello.

Se mesmo assim, insistires em dar-me cabo da paciência, andando por aí, de blog em blog, assassinando o meu bom-nome e reputação elevadíssima, eu juro, Vendredi Maria dos Três Anjos da Anunciação, que te ponho uma semana a tirar estrume à forquilha na vacaria do Atalho!! ou te mando com a Linda lá pró Giná (não, estupida! não é prá revista! isso querias tu!) pra veres o que é bom prá tosse e pra esse nalgueiral descaído!

8.10.16

este blog está a pensar em seguir os valentes passos de Vendredi, moça de quem nunca mais se ouviu falar.

5.10.16

sim, o anjo do inverno já soprou no meu pescoço. trajo um dos pijamas de malha grossa, acompanhado de meias fofas e gordas e pantufas com pelinho.
mas insisto na parede de vidro completamente aberta, a varanda oferecendo-me a noite pura, uma lua tão delicada. 
correndo entre gentes e locais, vi-o. Raul, a minha paixão antiga, estava ali, no meio de alguns livros toscos, a menos de cinquenta passos. corri-lhe para os braços, aninhei-o no meu pequeno peito, não o voltei a largar.
a pedra ainda espera dar flor...


«Mesmo na desgraça colhemos uma flor se a encontramos no caminho, e nem agora nem nunca nos havemos de desinteressar das coisas simples e eternas que são o encanto máximo da existência. A sua ausencia total só no inferno se concebe.»
 
/pág. 189, Quetzal/

2.10.16



Patrick Leger

uma série de acasos leva-me a sair no preciso momento em que a ave de rapina, alto, deixa cair o animal do tamanho de um pequeno coelho. se não lhe morreu nas garras, duvido que tenha sobrevivido à queda.
a natureza, definitivamente, não é vegetariana...
Rosácea, a pequena roseira que há duas semanas comprei - novamente - num espaço comercial, tem feito as minhas delícias pelos tons de rosa, desde o seco suave ao mais escuro cor de vinho. dou-me conta, agora que Rosácea floriu quase todos os seus botões e alguns deles já secam em rosa sangue,  que ganhei nova função: catadora de pot-pourri.

a ladeá-la, Violeta, a imperatriz, e D. Poinsétia, a brava sobrevivente do último natal, já sem vermelhos.
sento-me na esplanada mais próxima, com vontade de um chá e um bolo seco qualquer. o homem com quem tinha combinado encontrar-me, e por quem alterei o meu (único) dia livre, respondeu-me que afinal estava fora de lisboa, seria melhor falarmos amanhã.
o encontro, coisa simples, estava marcado há quase uma semana, confirmado por telefone e correio electrónico, e sugerido pelo próprio. ainda assim, não maldigo a vida. o sol, ameno, beija-me a pele. o chá aquece-me a alma. quanto ao homem, ainda não sei o que fazer.
acordaram-me pelas cinco da manhã, tudo escuro, apenas as luzes do casario, na encosta. queriam sair. calcei as botas, umas calças velhas, o casaco azul, e fui com elas. 
ainda com a lanterna apagada, quedo-me no cimo da ladeira, encantada com o céu estrelado, enquanto as aves nocturnas e os grilos executam o concerto da noite. guardo o momento, precioso, e avanço por entre os arbustos, lanterna em riste, procurando os dois pares de olhos apressados.

cansadas e satisfeitas, ouço-as agora roncar. a mim, sobra-me a caneca de café com leite, a piscina do submarino e um livro disposto a navegar comigo.


bom domingo.


/ouço os primeiros tiros do outono. a raiva (re)nasce./

1.10.16

contou-me a raposa, enquanto eu praticava mariposa na piscina do submarino, que, no mundo de onde vinha, a música era sempre servida à hora das refeições. alimente corpo e alma, podia ler-se nas portas de todos os estabelecimentos. no final, as pessoas abraçavam-se dizendo, que a música esteja contigo.

-- e dançavam?

-- sim. com os olhos postos nos seus amados.
enquanto passava as imagens, aqueles corpos em fim de vida, - o sonho ainda -, um nó apertando-me a garganta.

28.9.16

eu e a pandilha de criaturas extraterrestres que habita o submarino, escutando a história da raposa.


blue bath, LUK

-- Carga d'ossos como está, menina, sem gel nas unhas, peito que dê gula, nem o cabelinho pintado como deve ser, vale poucochinho... Não leve a mal, menina, mas agora querem-se outra vez as mulheres bastas, do pluz size em diante, as das fotografias a três quartos e boquinhas cu de galinha.

27.9.16

quanto valho eu, inteira?
meu amor, o inferno é o meu corpo foda a foda alcançado.
cabeças cheias de raiva e murmúrios no escuro:
aqui como na américa, quão podre pode estar o centro, para que surjam tais criaturas - populistas, irrealistas, perigosas.

25.9.16

das coisas que sabemos, sentido-as cravar os dentes na maciez da polpa do coração, tenazes revolvendo os órgãos internos, agudos afilados fustigando-nos a alma - mas decidimos não falar, nasce a dúvida. simples e fatal.
{sussurrar baixinho}

chega-me o leitor conhecedor, da vida e da gramática, das coisas como elas são, e pede-me que tome note, altere, corrija, evite, o pleonasmo acima destacado. 
pois com certeza que sim, afirmativo e correcto, palmadinhas no recto, beijinhos múltiplos e variados, adeus e ficar bem.
Violeta, hoje mais violeta do que o costume - culpa da fotografia, garanto -, continua bem e de boa saúde, coroada de seis belíssimas flores, tal como no longínquo mês de Julho, data em que foi resgatada da superfície comercial onde era mantida em cativeiro.

manda beijos e abraços.
/e faz figas contra o mau-olhado, que isto de exibir a beleza na net, já se sabe... nascem as invejas daninhas./


Violeta, acabada de acordar


/começo a achar que é de plástico.../

24.9.16

desço o caminho que conheço de cor e olhos fechados. Taeko e Yukiko acompanham-me. o cheiro intenso dos figos maduros assegura-me que estou perto do rio. aos poucos, toda a cidade fica para trás.
o corpo inteiro cobre a alvura do meu. sinto-lhe o sexo, ainda duro, molhar-me a barriga latejante.
-- eu não existo, alicinha, - diz-me ao ouvido, enquanto me morde o lóbulo, vermelho, da excitação.
a custo, o corpo ainda no galope de um espasmo profundo, consigo sussurrar-lhe baixinho: -- eu também não.
espreito o clarão amarelo que rompe a custo, por entre o nevoeiro.
talvez o café me traga a temperatura anunciada na aplicação, mas hoje, parece-me, já me chove por dentro.

23.9.16

paz à alma de Vendredi, cujo corpo apodrece no balanço suave das águas baixas da ribeira.


era desta forma, tranquilamente, zombando a putrefacção da pobre, que gostaria de ter iniciado o presente relato. mas não posso. não devo. Vendredi merece um final épico, talvez caída no poço de um elevador, no bairro do pica-pau, ou trucidada por um comboio da linha do cacém. ou, porque não, atacada pela navalha de algum agarrado, quando lhe resiste ao assalto à luz do dia. tudo se há-de passar na musgueira. 
ou talvez Vendredi mereça uma morte mais nobre, coisa para um palacete em sintra, às mãos de um velho conde em ruina, quiçá, envenenada pela cozinheira ciumenta, nada e criada em Malveira da Serra, há sessenta e um anos. ou por um dos filhos bastardos do velho.
ou talvez nada e de Vendredi nem mais uma palavra.

22.9.16

o que me irrita no rapaz de cabelos longos, maquilhagem, barba e sapatos de salto altos, o corpo bamboleando-se como se fosse uma top-model dos anos noventa, não é a diferença, muito pelo contrário. o que me irrita superlativamente é o cliché do pressuposto feminino.

21.9.16

parei na autoestrada,
percorri metade da ponte,
cerca 80 metros de altura,
/sei-os, porque os li não faz muito tempo
e tenho tanto medo daquela ponte./

tentei,
não consegui salvar o gato,
que ainda mia na minha cabeça.

entre a idiota de colete reflector e a cobarde que aqui vos tecla,
há um par de braços vazios.

20.9.16

presente simples




/roubado aqui: maquina de escrever/
quando há pouco saí do carro, os sapatos tão bonitos e tão altos, o fato azul marinho, percebi que da multa já não me safava. viesse eu com as botas da terra e as calças gastas, com que esta manhã corri atrás de dois jovens javalis - verdade -, e talvez o sr. agente encolhesse os ombros e me mandasse à minha vida.

 a quem trabalha, não basta ser, é melhor não parecer.

18.9.16

andariam os dois pela casa dos trinta e caminhavam à minha frente, em direcção ao estacionamento. ela, franzina, empurrando a custo um carrinho repleto de artigos pesados, que lhe fugia de viés; ele, distando de alguns metros, apenas com um saco na mão.
talvez isto seja também a igualdade, pensei.
sim, há um gozo especial, uma espécie de poder, um controlo qualquer, ou simplesmente tolice minha, em caminhar descalça nos azulejos gelados, ainda de madrugada, e voltar à cama, logo depois.
a vida é um teatro.

17.9.16

fecho os olhos e entrego-te o meu corpo, líquido, ouro negro, antigo, um grito rouco no centro da clareira, ventre prenhe dos sonhos de menina.
à minha mãe, que me trouxe ao mundo fora de prazo, abrigando-me nas suas asas imensas, e nos ensinou a brincar.
a mulher mais bela que conheço.
 


14.9.16

a paciência in-
sonora do meu desespero.


/a morte é uma flor/

Mukyo Samuzora

12.9.16

caminho sobre o desfiladeiro mais alto, através de uma corda demasiado fina. tenho medo como nunca tive. 
mas não será assim com toda a gente?

11.9.16

Marlon Brando decidiu esta tarde, entre mimos a sós e areia lavada, dar-me beijinhos nas pernas nuas, com as garras afiadas. na alvura da carne, nasceram lágrimas de sangue. doeu-me de tal maneira, que, ao carinho do pobre, respondi com uma lambada.
um amor complicado este.

/uma lambadinha, para ser sincera/
observo-o, enquanto dorme, - uma respiração tão breve, que por momentos temo -, está velho, o meu velho gato. tão velho. marejam-se-me os olhos. talvez não passe deste inverno.
que lençol lhe escolherei para mortalha?
- queria uma vida contigo.
- cansavas-te de mim.
- precisamente.

10.9.16

actualização do estado da Violeta.

para meu gáudio e satisfação, Violeta, a orquídea adquirida sem lop, em grande superfície comercial, há quase dois meses, mantém-se viva e de boa saúde, seguindo a sensibilidade líquida desta flor sem grande jeito, que lhe mantém o vaso sempre com água. 





/talvez seja anfíbia... sei lá/
sob o calor infernal da manhã que ainda agora começa, descobri o meu setembro outonal. patos-reais grasnando perto, figos pingando mel e pequenas pêras amarelas.
vejo a máquina gigante, desde manhã cedo, engolindo as videiras e vem-me à memória um outro tempo, tempo em que o povo inteiro se juntava nas vinhas, tagarelando e cantando, e o ar cheirava a moscatel. o tempo do meu avô.

das coisas mais importantes na vindima daquele tempo, lembro-me bem, era a escolha das tesouras e a companhia que nos calhava do outro lado da videira. os que andavam de mal, famílias que não se davam, situações mal resolvidas, ficavam em fileiras longínquas, garantindo tréguas por aqueles dias; depois havia os que fugiam dos lentos e os que fugiam dos despachados, os que ficavam sempre juntos e os que nem se conheciam. os que ora andavam aqui, ora andavam ali, parecendo muito, mas fazendo quase nada, e os profissionais, que ganhavam ao dia. e havia os meus irmãos, feitos adónis em tronco-nu, para delícia e suspiro de algumas senhoras de então, carregando os baldes para os tractores.
a mim, desde cedo, porque tinha mãos de fome pelo mundo e a cozinha /lugar das meninas prendadas/ me atrofiava, chamava-me sempre a ti conceição, uma velhinha ligeira e divertida, que até ao dia da sua morte, de cada vez que via a minha mãe, lhe perguntava por mim.
lembro-me de uma vez que me mandaram para a cozinha descascar batatas, /piada de homens à volta/, e eu - adolescente em combustão - lhes virei as tesouras à cara e lhes disse que também cortavam tomates, só era preciso que os houvesse. parece que ainda ouço as gargalhadas sonoras da ti conceição, enquanto dizia, o diacho da rapariga, que nunca se deixa ficar. é cá das minhas! corta cachos, florzinha, corta cachos e deixa lá os tomatos!... 

o meu avô, senhor de um porte majestoso, controlava todas as operações, sem nunca - que me lembre - levantar sequer a voz. era um homem soberbo. trabalhador e inteligente. a minha avó, que toda a vida teve criadas e mal sabia mexer num tacho, ficava na cozinha, enquanto membro honorário, observando as outras mulheres.

foi assim, por muitos anos. 

9.9.16

do ciclo do cavalo.

Meu amor – agora sim – posso dizer amor
através de insectos e serpentes e fetos
sobre a baba e o ranho do nascimento puro.


Atravessei os pântanos e afundei-me no lodo.
Caminho tropeçando e aos nervos do cavalo
arranco este galope, este vagar de estar.

da ternura.

Anne Laval

7.9.16

queria uma capa de invisibilidade, que me poupasse dos olhares consternados à minha passagem, torcendo o nariz à minha fraca e magra figura. eu própria, confesso - mas só a si, que me lê e não me vê -, virei costas aos espelhos de corpo inteiro. é que, até para ter pena de mim como deve ser, me falta o tempo.
enquanto arrastava os ténis até à caixa, com três cabides na mão, perguntava-me, angustiada, se se pode vomitar de cansaço...

6.9.16

ouço as sirenes novamente. a cidade, esta onde os turistas não chegam, fervilha de vida em esquinas cortantes. com a noite, vem o receio das criaturas nascidas em becos sem saída, figurantes sem voz e sem nada a perder. o som dos passos confunde as sombras em torno dos candeeiros. nas varandas, fumam-se os primeiros cigarros e ouvem-se bebés em balidos de sono.
e não tens medo?
aos antropófobos enviesados como eu, sugiro como divertimento social o postcrossing.
um gato morto na estrada, é o que vejo, manhã cedo, nos arrabaldes da cidade. e a tristeza lacónica  do costume apodera-se de mim. há todas as mortes, pequenas e grandes, gente esmagada dentro de carros velozes, mulheres que morrem no chão da cozinha, crianças em hospitais, velhos ao abandono - há todas as mortes, naquele gato esventrado, mas ninguém parece reparar nelas.

5.9.16

reparo que, ao lado do pacote gigante de m&m's que nunca comerei, comprado em substituição de um jantar tardio que não se deu, repousa o meu alicate preferido. tenho uma predilecção por ferramentas de corte, confesso. são instrumentos que nos permitem descobrir o que se esconde sob a camada inicial, assumindo o controlo do que antes nos escapava. possuo o jeito e a delicadeza para o seu fácil manuseamento.
só hoje li a palavra em tons de laranja. dexter.

estranha coincidência.

4.9.16

às vezes, Taeko e Yukiko ganem, num quase choro humano, enquanto dormem. pergunto-me se sonham, se recordam, e qual das opções será a melhor.
chamo-as de mansinho, na maior das ternuras que consigo.
o castanho barrento, exposto em sulcos profundos, transformou-se no parque de merendas de alguns pássaros cinzentos que não consigo distinguir. nada sei do homem, temo a sua invalidez, talvez a sua morte. é outro o homem que agora lavra a terra.

a doença, desmaios súbitos sem aviso prévio, ainda não tem nome, tão-pouco cura. o rapaz, que ajudei a criar, enraivece-se à notória invalidez que o vai tomando. proibido de conduzir, desempregado forçado. debito lugares-comuns à mãe, enquanto torço os dedos para não chorar. a miserabilidade da situação é evidente. 

cheguei no momento em que a maca, coberta por um plástico preto, era empurrada até à carrinha branca, estacionada a menos de cinco metros. paralisei, encostada à porta. choro todos os cães que morrem.



o mocho-galego - encanta-me aquele olhar - deixa que eu me aproxime, quase lhe consigo tocar, ainda que não o tenha tentado. como eu, vive de noites brancas e madrugadas em silêncio.

21.8.16


Violeta Lopiz
até qualquer dia.
«Meu corpo de ternura. Havemos de conquistá-lo até um dia. Até quando ele for insuportável de doçura. Devagar. Mas há a tua inquietação. A tua pressa ardência, deixa-me ter tempo de te criar. De te trazer toda às minhas mãos. De trazer até mim o teu olhar esquivo, os teus desencontros furtivos. A tua agilidade, o culto de ti. O teu riso, a tua franja irrequieta. A rapidez de seres, a vitalidade desassossegada, a tua alegria agressiva. A imensidade de existires - devagar. Atravessar tudo até ao teu mito que está todo no teu corpo nu. Fica longe. Tanto. E então amámo-nos e tudo estava aí. Estava lá tudo ao mesmo tempo e eu estalava de agonia. E Deus olhava-nos e dizia está tudo bem. Realizar Deus todo inteiro é difícil. Está bem. Tínhamos as galáxias do universo e havia ainda espaço. E isso era de endoidecer. Tínhamos em nós a sua expansão até ao rebentamento de nós. O desmesurado e incrível. Deus olhava o nosso esforço enorme e sorria por cumprirmos o seu poder. Gostava bem de ser calmo ao dizer-te. Um corpo cerrado num punho sangrento de um homem. Ter-te toda de uma vez. As pernas os seios a boca. Apunhar-te toda na minha avidez. Mastigar-te integrar-te no meu sangue. E tu enovelada em mim, na angústia exaltação de uma morte que viesse. Desapareceremos no não-ser, na perfeição.»

/em nome da terra/


obrigada Vergílio. 

20.8.16

5. «Estou apaixonado? - Sim, pois espero.» O outro nunca espera. Por vezes pretendo agir como quem não espera; tento ocupar-me com outra coisa, chegar atrasado; mas, neste jogo, perco sempre: faça o que fizer, encontro-me desocupado, sou pontual e até chego adiantado. Outra não é a identidade fatal do apaixonado: sou eu quem espera.

/Fragmentos de um Discurso Amoroso - Roland Barthes/
em compensação à perda da lua, que recuperei mais tarde, os céus marítimos ofereceram-me a primeira chuva de verão. de tão mansa, deixei-me ficar de namoro com ela, enquanto famílias inteiras, de prato e copo na mão, fugiam para o interior. 
«4. Ciumento, sofro quatro vezes: porque sou ciumento, porque me censuro de o ser, porque temo que o ciúme fira o outro, porque me deixo submeter a uma banalidade: sofro por ser exclusivista, agressivo, louco e vulgar.»

/Fragmentos de um Discurso Amoroso - Roland Barthes/




na vastidão e complexidade que a percepção |individual e colectiva| do mundo nos traz, nunca conseguirei entender a gente que define o todo pela parte. para quê generalizar o que advém de situações concretas e singulares? será essa uma forma de se auto-definirem como pessoas maduras, as que sabem da vida? mas como saber da vida, se ela nos obriga todos os dias à roda-viva da descoberta, aos trambolhões na estrada gasta, em que uns esfolam mãos e joelhos e outros caem de cabeça na pedra dura? 

por isso prefiro os que duvidam, aos que têm certezas - especialmente, as absolutas.


-- não me vieram as palavras - apenas - por causa do tema do ciúme, mas também. -- 

19.8.16

wabi-sabi: imperfeito, impermanente e incompleto.

que sirva de resposta àquelas que julgam que ter contactos na mafia russa e andar em cima de uma tábua lisa (num mar parado de fazer rir) chega para encontrar a destemida Cuca.
 
 
 
/observo o bando de longe.../
 
 
«Jonny Duddle»
 
a cena passou-se à porta dos correios, na pausa da hora do almoço. faltavam sete minutos, quando cheguei e me deixei ficar na pequena fila que já se tinha formado. com o nariz colado à porta de vidro, mãe e filho, ao lado o pai e um bebé de colo. o garoto, com voz mimada, guinchava: eu quero entrar!, eu quero entrar!, eu quero entrar! a mãe, cansada, tentava suborná-lo: já não te compro o gelado, estás a ouvir? se continuas assim, já não te compro o gelado! cala-te ou não te compro o gelado. o pai, como um bêbedo, insistia na piada, queres levar um selo? ãh? queres? olha que eu dou-te um selo! queres um selo ou não? e ria-se sozinho. ao lado, uma mulher mais velha, que na altura julguei ser a avó, instigava o garoto: dá um pontapé na porta, p'ra ver se abrem mais depressa! dá um pontapé! com força! agora aqui a gente à espera... nunca gostei de esperar e também não faço ninguém esperar. dá um pontapé! a mãe do outro lado, está quieto! já não te compro o gelado! nem os ténis! nessa altura, o garoto aumentou o volume ao choro fingido.

foram sete longos minutos.

a mãe foi receber dinheiro no balcão.
o garoto foi ver as vitrines.
o pai com o bebé não entrou, ficou à porta a fumar um cigarro.
a avó, que afinal nem os conhecia, estava naquela urgência, porque queria mandar uma carta rápida para a neta, que está na frança. acrescenta que está a ajudar a neta com um emprego, mas o homem do balcão não lhe alimenta a conversa.

antes de chegar a minha vez, a última coisa que ouço é a mãe a chamar o garoto, para irem comer um gelado...
parece que nasceu em cima de uma sela, disse-me, e eu sorri, de tão feliz que estava. passados quinze anos, voltei a montar. entre o chão e o céu, seguindo a cadência de outros passos que não os meus.
perto, a minha mãe, sorriu.


[obrigada, minha doce e bela mãe.]

de onde se prova que Maria Poesia tinha razão. há enrolanço à vista.


Alfred Basha

18.8.16

se alguém souber coisa que valha* sobre a famosa lenda do navio pirata que galgou pelos céus adentro e lutou contra o polvo admastor, por favor, use a caixa de comentários. lá porque eu ando macambúzia, isso não é motivo para não querer saber de uma boa peleja, lá pelos mares do sul?norte?
alguém?
 
Cuca?...  Manuel?...  Mundo?...
 
 




|*leia-se: o que quer que seja|
se as palavras brotassem da simples vontade, acredite, estimado leitor, que este blog seria um não parar de publicar mancha cinzenta. mas elas, pelo menos as mais difíceis, estão num teimosia adolescente, um não parir que me deixa cansada. peço-lhes que se diluam nas banalidades quotidianas que todos os dias nascem por esta blogosfera fora, que me aliviem a cabeça, e elas lá, amargas, batendo o pé, que em agosto não hão-de mostrar a cor, de tão feias que são.
 
 
/culpa minha, refila o anjinho cego, no meu ombro esquerdo, que prometi que em agosto não havia palavras cinzentas.../

16.8.16

num abraço.

 Anne Laval

13.8.16

É evidente que, desde então, se desfizeram os laços entre eles, e o amor terminou logo no seu início. Apagou-se a luz que por um instante brilhara, e o crepúsculo que se seguiu era ainda mais sombrio do que antes. 

/Nikolai Gógol - Almas Mortas/

12.8.16

e tu, como preenches os teus espaços vazios?
encontro a Vendredi, sozinha, agarrada aos papéis que mais ninguém quer. encolhida sobre o teclado, cabelo apanhado em carrapito, preso com o lápis nº 2. parece uma criança enfezada, a quem tem faltado o sol de agosto, faz demasiado tempo. aquele abandono, o rosto fechado, o ar de coitadinha, toda ela me dá raiva. decido sentar-me ao seu lado e importunar-lhe o fecho das contas, rebaixá-la ao chão de madeira. estás de reserva?, pergunto, em tons de gozo, mas ela não muda de jeitos. finge que não me vê. é isso que tu és, Vendredi, a mulher que fica de reserva? estala os dedos, um a um, lentamente, mas continua calada, de olhar fixo no ecrã. mais um pouco e fá-la-ia chorar, quem sabe, magoar-se com o bico da lapiseira, pequenas picadas de sangue, que depois levaria à boca, provando da sua humilhação. Vendredi, minha pobre idiota, tenho pena de ti. 
cuidado com o que desejas, repenicou-me o diabinho coxo ao ouvido, quando, de vassoura na mão, limpava eu a porta dos fundos. um magnifico exemplar de Milu, sofrendo de gigantismo, 8 longas pernas, [talvez prima de algum polvo terrestre]. admirei a perfeição, mas tentada à troca não fiquei. esta Milu equídea é aranhão para me dar cabo do estuque.