25.9.16

das coisas que sabemos, sentido-as cravar os dentes na maciez da polpa do coração, tenazes revolvendo os órgãos internos, agudos afilados fustigando-nos a alma - mas decidimos não falar, nasce a dúvida. simples e fatal.
{sussurrar baixinho}

chega-me o leitor conhecedor, da vida e da gramática, das coisas como elas são, e pede-me que tome note, altere, corrija, evite, o pleonasmo acima destacado. 
pois com certeza que sim, afirmativo e correcto, palmadinhas no recto, beijinhos múltiplos e variados, adeus e ficar bem.
Violeta, hoje mais violeta do que o costume - culpa da fotografia, garanto -, continua bem e de boa saúde, coroada de seis belíssimas flores, tal como no longínquo mês de Julho, data em que foi resgatada da superfície comercial onde era mantida em cativeiro.

manda beijos e abraços.
/e faz figas contra o mau-olhado, que isto de exibir a beleza na net, já se sabe... nascem as invejas daninhas./


Violeta, acabada de acordar


/começo a achar que é de plástico.../

24.9.16

desço o caminho que conheço de cor e olhos fechados. Taeko e Yukiko acompanham-me. o cheiro intenso dos figos maduros assegura-me que estou perto do rio. aos poucos, toda a cidade fica para trás.
o corpo inteiro cobre a alvura do meu. sinto-lhe o sexo, ainda duro, molhar-me a barriga latejante.
-- eu não existo, alicinha, - diz-me ao ouvido, enquanto me morde o lóbulo, vermelho, da excitação.
a custo, o corpo ainda no galope de um espasmo profundo, consigo sussurrar-lhe baixinho: -- eu também não.
espreito o clarão amarelo que rompe a custo, por entre o nevoeiro.
talvez o café me traga a temperatura anunciada na aplicação, mas hoje, parece-me, já me chove por dentro.

23.9.16

paz à alma de Vendredi, cujo corpo apodrece no balanço suave das águas baixas da ribeira.


era desta forma, tranquilamente, zombando a putrefacção da pobre, que gostaria de ter iniciado o presente relato. mas não posso. não devo. Vendredi merece um final épico, talvez caída no poço de um elevador, no bairro do pica-pau, ou trucidada por um comboio da linha do cacém. ou, porque não, atacada pela navalha de algum agarrado, quando lhe resiste ao assalto à luz do dia. tudo se há-de passar na musgueira. 
ou talvez Vendredi mereça uma morte mais nobre, coisa para um palacete em sintra, às mãos de um velho conde em ruina, quiçá, envenenada pela cozinheira ciumenta, nada e criada em Malveira da Serra, há sessenta e um anos. ou por um dos filhos bastardos do velho.
ou talvez nada e de Vendredi nem mais uma palavra.

22.9.16

o que me irrita no rapaz de cabelos longos, maquilhagem, barba e sapatos de salto altos, o corpo bamboleando-se como se fosse uma top-model dos anos noventa, não é a diferença, muito pelo contrário. o que me irrita superlativamente é o cliché do pressuposto feminino.

21.9.16

parei na autoestrada,
percorri metade da ponte,
cerca 80 metros de altura,
/sei-os, porque os li não faz muito tempo
e tenho tanto medo daquela ponte./

tentei,
não consegui salvar o gato,
que ainda mia na minha cabeça.

entre a idiota de colete reflector e a cobarde que aqui vos tecla,
há um par de braços vazios.

20.9.16

presente simples




/roubado aqui: maquina de escrever/
quando há pouco saí do carro, os sapatos tão bonitos e tão altos, o fato azul marinho, percebi que da multa já não me safava. viesse eu com as botas da terra e as calças gastas, com que esta manhã corri atrás de dois jovens javalis - verdade -, e talvez o sr. agente encolhesse os ombros e me mandasse à minha vida.

 a quem trabalha, não basta ser, é melhor não parecer.

18.9.16

andariam os dois pela casa dos trinta e caminhavam à minha frente, em direcção ao estacionamento. ela, franzina, empurrando a custo um carrinho repleto de artigos pesados, que lhe fugia de viés; ele, distando de alguns metros, apenas com um saco na mão.
talvez isto seja também a igualdade, pensei.
sim, há um gozo especial, uma espécie de poder, um controlo qualquer, ou simplesmente tolice minha, em caminhar descalça nos azulejos gelados, ainda de madrugada, e voltar à cama, logo depois.
a vida é um teatro.

17.9.16

fecho os olhos e entrego-te o meu corpo, líquido, ouro negro, antigo, um grito rouco no centro da clareira, ventre prenhe dos sonhos de menina.
à minha mãe, que me trouxe ao mundo fora de prazo, abrigando-me nas suas asas imensas, e nos ensinou a brincar.
a mulher mais bela que conheço.
 


14.9.16

a paciência in-
sonora do meu desespero.


/a morte é uma flor/

Mukyo Samuzora

12.9.16

caminho sobre o desfiladeiro mais alto, através de uma corda demasiado fina. tenho medo como nunca tive. 
mas não será assim com toda a gente?

11.9.16

Marlon Brando decidiu esta tarde, entre mimos a sós e areia lavada, dar-me beijinhos nas pernas nuas, com as garras afiadas. na alvura da carne, nasceram lágrimas de sangue. doeu-me de tal maneira, que, ao carinho do pobre, respondi com uma lambada.
um amor complicado este.

/uma lambadinha, para ser sincera/
observo-o, enquanto dorme, - uma respiração tão breve, que por momentos temo -, está velho, o meu velho gato. tão velho. marejam-se-me os olhos. talvez não passe deste inverno.
que lençóis lhe escolherei para mortalha?
- queria uma vida contigo.
- cansavas-te de mim.
- precisamente.

10.9.16

actualização do estado da Violeta.

para meu gáudio e satisfação, Violeta, a orquídea adquirida sem lop, em grande superfície comercial, há quase dois meses, mantém-se viva e de boa saúde, seguindo a sensibilidade líquida desta flor sem grande jeito, que lhe mantém o vaso sempre com água. 





/talvez seja anfíbia... sei lá/
sob o calor infernal da manhã que ainda agora começa, descobri o meu setembro outonal. patos-reais grasnando perto, figos pingando mel e pequenas pêras amarelas.
vejo a máquina gigante, desde manhã cedo, engolindo as videiras e vem-me à memória um outro tempo, tempo em que o povo inteiro se juntava nas vinhas, tagarelando e cantando, e o ar cheirava a moscatel. o tempo do meu avô.

das coisas mais importantes na vindima daquele tempo, lembro-me bem, era a escolha das tesouras e a companhia que nos calhava do outro lado da videira. os que andavam de mal, famílias que não se davam, situações mal resolvidas, ficavam em fileiras longínquas, garantindo tréguas por aqueles dias; depois havia os que fugiam dos lentos e os que fugiam dos despachados, os que ficavam sempre juntos e os que nem se conheciam. os que ora andavam aqui, ora andavam ali, parecendo muito, mas fazendo quase nada, e os profissionais, que ganhavam ao dia. e havia os meus irmãos, feitos adónis em tronco-nu, para delícia e suspiro de algumas senhoras de então, carregando os baldes para os tractores.
a mim, desde cedo, porque tinha mãos de fome pelo mundo e a cozinha /lugar das meninas prendadas/ me atrofiava, chamava-me sempre a ti conceição, uma velhinha ligeira e divertida, que até ao dia da sua morte, de cada vez que via a minha mãe, lhe perguntava por mim.
lembro-me de uma vez que me mandaram para a cozinha descascar batatas, /piada de homens à volta/, e eu - adolescente em combustão - lhes virei as tesouras à cara e lhes disse que também cortavam tomates, só era preciso que os houvesse. parece que ainda ouço as gargalhadas sonoras da ti conceição, enquanto dizia, o diacho da rapariga, que nunca se deixa ficar. é cá das minhas! corta cachos, florzinha, corta cachos e deixa lá os tomatos!... 

o meu avô, senhor de um porte majestoso, controlava todas as operações, sem nunca - que me lembre - levantar sequer a voz. era um homem soberbo. trabalhador e inteligente. a minha avó, que toda a vida teve criadas e mal sabia mexer num tacho, ficava na cozinha, enquanto membro honorário, observando as outras mulheres.

foi assim, por muitos anos. 

9.9.16

do ciclo do cavalo.

Meu amor – agora sim – posso dizer amor
através de insectos e serpentes e fetos
sobre a baba e o ranho do nascimento puro.


Atravessei os pântanos e afundei-me no lodo.
Caminho tropeçando e aos nervos do cavalo
arranco este galope, este vagar de estar.

da ternura.

Anne Laval

7.9.16

queria uma capa de invisibilidade, que me poupasse dos olhares consternados à minha passagem, torcendo o nariz à minha fraca e magra figura. eu própria, confesso - mas só a si, que me lê e não me vê -, virei costas aos espelhos de corpo inteiro. é que, até para ter pena de mim como deve ser, me falta o tempo.
enquanto arrastava os ténis até à caixa, com três cabides na mão, perguntava-me, angustiada, se se pode vomitar de cansaço...

6.9.16

ouço as sirenes novamente. a cidade, esta onde os turistas não chegam, fervilha de vida em esquinas cortantes. com a noite, vem o receio das criaturas nascidas em becos sem saída, figurantes sem voz e sem nada a perder. o som dos passos confunde as sombras em torno dos candeeiros. nas varandas, fumam-se os primeiros cigarros e ouvem-se bebés em balidos de sono.
e não tens medo?
aos antropófobos enviesados como eu, sugiro como divertimento social o postcrossing.
um gato morto na estrada, é o que vejo, manhã cedo, nos arrabaldes da cidade. e a tristeza lacónica  do costume apodera-se de mim. há todas as mortes, pequenas e grandes, gente esmagada dentro de carros velozes, mulheres que morrem no chão da cozinha, crianças em hospitais, velhos ao abandono - há todas as mortes, naquele gato esventrado, mas ninguém parece reparar nelas.

5.9.16

reparo que, ao lado do pacote gigante de m&m's que nunca comerei, comprado em substituição de um jantar tardio que não se deu, repousa o meu alicate preferido. tenho uma predilecção por ferramentas de corte, confesso. são instrumentos que nos permitem descobrir o que se esconde sob a camada inicial, assumindo o controlo do que antes nos escapava. possuo o jeito e a delicadeza para o seu fácil manuseamento.
só hoje li a palavra em tons de laranja. dexter.

estranha coincidência.

4.9.16

às vezes, Taeko e Yukiko ganem, num quase choro humano, enquanto dormem. pergunto-me se sonham, se recordam, e qual das opções será a melhor.
chamo-as de mansinho, na maior das ternuras que consigo.
o castanho barrento, exposto em sulcos profundos, transformou-se no parque de merendas de alguns pássaros cinzentos que não consigo distinguir. nada sei do homem, temo a sua invalidez, talvez a sua morte. é outro o homem que agora lavra a terra.

a doença, desmaios súbitos sem aviso prévio, ainda não tem nome, tão-pouco cura. o rapaz, que ajudei a criar, enraivece-se à notória invalidez que o vai tomando. proibido de conduzir, desempregado forçado. debito lugares-comuns à mãe, enquanto torço os dedos para não chorar. a miserabilidade da situação é evidente. 

cheguei no momento em que a maca, coberta por um plástico preto, era empurrada até à carrinha branca, estacionada a menos de cinco metros. paralisei, encostada à porta. choro todos os cães que morrem.



o mocho-galego - encanta-me aquele olhar - deixa que eu me aproxime, quase lhe consigo tocar, ainda que não o tenha tentado. como eu, vive de noites brancas e madrugadas em silêncio.

21.8.16


Violeta Lopiz
até qualquer dia.
«Meu corpo de ternura. Havemos de conquistá-lo até um dia. Até quando ele for insuportável de doçura. Devagar. Mas há a tua inquietação. A tua pressa ardência, deixa-me ter tempo de te criar. De te trazer toda às minhas mãos. De trazer até mim o teu olhar esquivo, os teus desencontros furtivos. A tua agilidade, o culto de ti. O teu riso, a tua franja irrequieta. A rapidez de seres, a vitalidade desassossegada, a tua alegria agressiva. A imensidade de existires - devagar. Atravessar tudo até ao teu mito que está todo no teu corpo nu. Fica longe. Tanto. E então amámo-nos e tudo estava aí. Estava lá tudo ao mesmo tempo e eu estalava de agonia. E Deus olhava-nos e dizia está tudo bem. Realizar Deus todo inteiro é difícil. Está bem. Tínhamos as galáxias do universo e havia ainda espaço. E isso era de endoidecer. Tínhamos em nós a sua expansão até ao rebentamento de nós. O desmesurado e incrível. Deus olhava o nosso esforço enorme e sorria por cumprirmos o seu poder. Gostava bem de ser calmo ao dizer-te. Um corpo cerrado num punho sangrento de um homem. Ter-te toda de uma vez. As pernas os seios a boca. Apunhar-te toda na minha avidez. Mastigar-te integrar-te no meu sangue. E tu enovelada em mim, na angústia exaltação de uma morte que viesse. Desapareceremos no não-ser, na perfeição.»

/em nome da terra/


obrigada Vergílio. 

20.8.16

5. «Estou apaixonado? - Sim, pois espero.» O outro nunca espera. Por vezes pretendo agir como quem não espera; tento ocupar-me com outra coisa, chegar atrasado; mas, neste jogo, perco sempre: faça o que fizer, encontro-me desocupado, sou pontual e até chego adiantado. Outra não é a identidade fatal do apaixonado: sou eu quem espera.

/Fragmentos de um Discurso Amoroso - Roland Barthes/
em compensação à perda da lua, que recuperei mais tarde, os céus marítimos ofereceram-me a primeira chuva de verão. de tão mansa, deixei-me ficar, de namoro com ela, enquanto famílias inteiras, de prato e copo na mão, fugiam para o interior. 
«4. Ciumento, sofro quatro vezes: porque sou ciumento, porque me censuro de o ser, porque temo que o ciúme fira o outro, porque me deixo submeter a uma banalidade: sofro por ser exclusivista, agressivo, louco e vulgar.»

/Fragmentos de um Discurso Amoroso - Roland Barthes/




na vastidão e complexidade que a percepção |individual e colectiva| do mundo nos traz, nunca conseguirei entender a gente que define o todo pela parte. para quê generalizar o que advém de situações concretas e singulares? será essa uma forma de se auto-definirem como pessoas maduras, as que sabem da vida? mas como saber da vida, se ela nos obriga todos os dias à roda-viva da descoberta, aos trambolhões na estrada gasta, em que uns esfolam mãos e joelhos e outros caem de cabeça na pedra dura? 

por isso prefiro os que duvidam, aos que têm certezas - especialmente, as absolutas.


-- não me vieram as palavras - apenas - por causa do tema do ciúme, mas também. -- 

19.8.16

wabi-sabi: imperfeito, impermanente e incompleto.

que sirva de resposta àquelas que julgam que ter contactos na mafia russa e andar em cima de uma tábua lisa (num mar parado de fazer rir) chega para encontrar a destemida Cuca.
 
 
 
/observo o bando de longe.../
 
 
«Jonny Duddle»
 
a cena passou-se à porta dos correios, na pausa da hora do almoço. faltavam sete minutos, quando cheguei e me deixei ficar na pequena fila que já se tinha formado. com o nariz colado à porta de vidro, mãe e filho, ao lado o pai e um bebé de colo. o garoto, com voz mimada, guinchava: eu quero entrar!, eu quero entrar!, eu quero entrar! a mãe, cansada, tentava suborná-lo: já não te compro o gelado, estás a ouvir? se continuas assim, já não te compro o gelado! cala-te ou não te compro o gelado. o pai, como um bêbedo, insistia na piada, queres levar um selo? ãh? queres? olha que eu dou-te um selo! queres um selo ou não? e ria-se sozinho. ao lado, uma mulher mais velha, que na altura julguei ser a avó, instigava o garoto: dá um pontapé na porta, p'ra ver se abrem mais depressa! dá um pontapé! com força! agora aqui a gente à espera... nunca gostei de esperar e também não faço ninguém esperar. dá um pontapé! a mãe do outro lado, está quieto! já não te compro o gelado! nem os ténis! nessa altura, o garoto aumentou o volume ao choro fingido.

foram sete longos minutos.

a mãe foi receber dinheiro no balcão.
o garoto foi ver as vitrines.
o pai com o bebé não entrou, ficou à porta a fumar um cigarro.
a avó, que afinal nem os conhecia, estava naquela urgência, porque queria mandar uma carta rápida para a neta, que está na frança. acrescenta que está a ajudar a neta com um emprego, mas o homem do balcão não lhe alimenta a conversa.

antes de chegar a minha vez, a última coisa que ouço é a mãe a chamar o garoto, para irem comer um gelado...
parece que nasceu em cima de uma sela, disse-me, e eu sorri, de tão feliz que estava. passados quinze anos, voltei a montar. entre o chão e o céu, seguindo a cadência de outros passos que não os meus.
perto, a minha mãe, sorriu.


[obrigada, minha doce e bela mãe.]

de onde se prova que Maria Poesia tinha razão. há enrolanço à vista.


Alfred Basha

18.8.16

se alguém souber coisa que valha* sobre a famosa lenda do navio pirata que galgou pelos céus adentro e lutou contra o polvo admastor, por favor, use a caixa de comentários. lá porque eu ando macambúzia, isso não é motivo para não querer saber de uma boa peleja, lá pelos mares do sul?norte?
alguém?
 
Cuca?...  Manuel?...  Mundo?...
 
 




|*leia-se: o que quer que seja|
se as palavras brotassem da simples vontade, acredite, estimado leitor, que este blog seria um não parar de publicar mancha cinzenta. mas elas, pelo menos as mais difíceis, estão num teimosia adolescente, um não parir que me deixa cansada. peço-lhes que se diluam nas banalidades quotidianas que todos os dias nascem por esta blogosfera fora, que me aliviem a cabeça, e elas lá, amargas, batendo o pé, que em agosto não hão-de mostrar a cor, de tão feias que são.
 
 
/culpa minha, refila o anjinho cego, no meu ombro esquerdo, que prometi que em agosto não havia palavras cinzentas.../

16.8.16

num abraço.

 Anne Laval

13.8.16

É evidente que, desde então, se desfizeram os laços entre eles, e o amor terminou logo no seu início. Apagou-se a luz que por um instante brilhara, e o crepúsculo que se seguiu era ainda mais sombrio do que antes. 

/Nikolai Gógol - Almas Mortas/

12.8.16

e tu, como preenches os teus espaços vazios?
encontro a Vendredi, sozinha, agarrada aos papéis que mais ninguém quer. encolhida sobre o teclado, cabelo apanhado em carrapito, preso com o lápis nº 2. parece uma criança enfezada, a quem tem faltado o sol de agosto, faz demasiado tempo. aquele abandono, o rosto fechado, o ar de coitadinha, toda ela me dá raiva. decido sentar-me ao seu lado e importunar-lhe o fecho das contas, rebaixá-la ao chão de madeira. estás de reserva?, pergunto, em tons de gozo, mas ela não muda de jeitos. finge que não me vê. é isso que tu és, Vendredi, a mulher que fica de reserva? estala os dedos, um a um, lentamente, mas continua calada, de olhar fixo no ecrã. mais um pouco e fá-la-ia chorar, quem sabe, magoar-se com o bico da lapiseira, pequenas picadas de sangue, que depois levaria à boca, provando da sua humilhação. Vendredi, minha pobre idiota, tenho pena de ti. 
cuidado com o que desejas, repenicou-me o diabinho coxo ao ouvido, quando, de vassoura na mão, limpava eu a porta dos fundos. um magnifico exemplar de Milu, sofrendo de gigantismo, 8 longas pernas, [talvez prima de algum polvo terrestre]. admirei a perfeição, mas tentada à troca não fiquei. esta Milu equídea é aranhão para me dar cabo do estuque.