26.1.21

«A flor com que a menina sonha está no sonho? ou na fronha?»

não vos quero enganar, sei que nem janeiro ainda findou, mas primeiro foi a árvore teimosa do pátio que renasceu de verde pálido ainda, depois os pássaros que cantam o dia todo e agora ouço também o festival constante das rãs-verdes, no ribeiro próximo. são demasiadas evidencias naturais, para continuar a deixar me enganar pelo calendário de papel, a primavera está a chegar. finalmente. 


[ou o mundo a dar mais uma prova de como anda louco. ou eu enlouqueci.]

Jack&Joe

 


vêm sempre juntos, os patifes, vestindo as suas capas negras de cabedal e botas de esporas de turmalina. costumam entreter-se sozinhos, em piruetas e voos rasos, como dois macacos, mas hoje, vendo o rebanho branco de garças perto, decidiram fazer charme. as garças, tranquilas, catavam minhocas na terra escura e fingiram nem os ver. mas Jack & Joe são corvos, não são pombas, passarinhos da paz, e insistem na dança. sacanas! houvesse uma linha de apoio ao bulling aviário e já estaria a discar os algarismos. (mentira, fiquei especada, de café na mão, a observar aquela novela toda, nem por segundos me lembrei de desviar os olhos). mentalmente, comecei a tentar adivinhar o desfecho da cena, as garças iriam levantar voo e deixar os pândegos a brincar sozinhos. mas estava enganada, os cowboys aborreceram se primeiro.

25.1.21

música

Não comprei bilhete, mas tenho ouvido de camarote o concerto de mochos-galegos, que se montou logo após o pôr do sol. Até em frente ao fogão, refugando o tomate maduro no azeite d'alho, não perdi os pios estridentes, quando um dos líricos decidiu pousar na borda da chaminé no exaustor. A nitidez era tal que até o Corto Gatês queria subir a bancada, caçador felino que ainda se mantém.

23.1.21

Jack&Joe

 

Risa George

toda a manhã patrulharam o campo, à chuva, antes do milhafre da tarde. Jack&Joe, baptizei-os, porque me lembraram cangalheiros do velho oeste.

21.1.21

"I am just going INside and may be some time." #3

 I am just going INside and may be some time.

19.1.21

"I am just going INside and may be some time." #2

o corpo atravessa um deserto, em desespero, procurando uma fonte, enquanto a mente luta contra os demónios famintos, nas profundezas do mundo.

o único objectivo é sobreviver.

"I am just going INside and may be some time." #1

death wants more death, and its webs are full:
I remember my father's garage, how child-like
I would brush the corpses of flies
from the windows they thought were escape-

their sticky, ugly, vibrant bodies
shouting like dumb crazy dogs against the glass
only to spin and flit
in that second larger than hell or heaven
onto the edge of the ledge,
and then the spider from his dank hole
nervous and exposed
the puff of body swelling
hanging there
not really quite knowing,
and then knowing-
something sending it down its string,
the wet web,
toward the weak shield of buzzing,
the pulsing;
a last desperate moving hair-leg
there against the glass
there alive in the sun,
spun in white;
and almost like love:
the closing over,
the first hushed spider-sucking:
filling its sack
upon this thing that lived;
crouching there upon its back
drawing its certain blood
as the world goes by outside
and my temples scream
and I hurl the broom against them:
the spider dull with spider-anger
still thinking of its prey
and waving an amazed broken leg;
the fly very still,
a dirty speck stranded to straw;
I shake the killer loose
and he walks lame and peeved
towards some dark corner
but I intercept his dawdling
his crawling like some broken hero,
and the straws smash his legs
now waving
above his head
and looking
looking for the enemy
and somewhat valiant,
dying without apparent pain
simply crawling backward
piece by piece
leaving nothing there
until at last the red gut sack
splashes
its secrets,
and I run child-like
with God's anger a step behind,
back to simple sunlight,
wondering
as the world goes by
with curled smile
if anyone else
saw or sensed my crime

16.1.21

soldo

trabalhar dá saúde, dizem alguns entendidos em dizeres populares. doente não estou, mas também não sinto vigor adicional, adianto já. o que sinto, sim, é uma esperança renovada, uma pequenina luz ao fundo do túnel, onde talvez chegue, se não der com os cornos na parede e me esbardalhar por completo.

15.1.21

dizem, meu amor (Corona - segunda temporada - dia 1)

 dizem, meu amor, que estamos novamente em confinamento, é das frases mais bonitas que li hoje. e nesta breve missiva digital, ana fala-nos das coisas que realmente importam. já eu, diabos me carreguem, voltei ao consolo do copo do vinho, que acompanho com duas ou três garfadas de qualquer coisa. branco, verde, tinto, tanto faz. claro que depois vem uma pedrada de sono, que me abranda a marcha e o pensamento, e é nessa altura, e apenas nessa, que sorrio e digo: vai tudo ficar bem (meu amor).

às vezes morre-se durante e depois

Nós sabemos a geometria das aves moribundas, pousadas em os beirais dos templos: retirai-lhes o coração com crueldade. Conhecereis o seu orgasmo em as múltiplas mortes.

14.1.21

I was afraid of mirrors, because they showed an inescapable ugliness.

acabe-se de vez com isso das videoconferência, tenha-se piedade de quem não nasceu com fotogenia que valha para as telecomunicações, quem se assusta com a abominável criatura que  surge no pequeno quadrado do lado direito. essa mesma de quem se foge durante o resto do dia, evitando todos os espelhos.

Memorial do REconfinamento #1

tivesse eu a sorte e a atenção de alguns cabeludos que por aí andam, (a bem dizer, andavam), e alguma das dezenas de cabeleireiras onde já fui, e possivelmente saí com lágrima no olho, me tivesse telefonado hoje, com a amabilidade de me perguntar se queria ir cortar as pontas ou desbastar a caracolada, talvez não me tivesse especado tristemente frente ao espelho e dado aquelas tesouradas de alívio. não que tenha ficado pior do que aquilo que já estava, levo anos a apurar a destreza do corte em redondo na juba escura de judia, mas porque um dos meus prazeres envergonhados é ter alguém a cuidar de mim.