21.8.16


Violeta Lopiz
até qualquer dia.
«Meu corpo de ternura. Havemos de conquistá-lo até um dia. Até quando ele for insuportável de doçura. Devagar. Mas há a tua inquietação. A tua pressa ardência, deixa-me ter tempo de te criar. De te trazer toda às minhas mãos. De trazer até mim o teu olhar esquivo, os teus desencontros furtivos. A tua agilidade, o culto de ti. O teu riso, a tua franja irrequieta. A rapidez de seres, a vitalidade desassossegada, a tua alegria agressiva. A imensidade de existires - devagar. Atravessar tudo até ao teu mito que está todo no teu corpo nu. Fica longe. Tanto. E então amámo-nos e tudo estava aí. Estava lá tudo ao mesmo tempo e eu estalava de agonia. E Deus olhava-nos e dizia está tudo bem. Realizar Deus todo inteiro é difícil. Está bem. Tínhamos as galáxias do universo e havia ainda espaço. E isso era de endoidecer. Tínhamos em nós a sua expansão até ao rebentamento de nós. O desmesurado e incrível. Deus olhava o nosso esforço enorme e sorria por cumprirmos o seu poder. Gostava bem de ser calmo ao dizer-te. Um corpo cerrado num punho sangrento de um homem. Ter-te toda de uma vez. As pernas os seios a boca. Apunhar-te toda na minha avidez. Mastigar-te integrar-te no meu sangue. E tu enovelada em mim, na angústia exaltação de uma morte que viesse. Desapareceremos no não-ser, na perfeição.»

/em nome da terra/


obrigada Vergílio. 

20.8.16

5. «Estou apaixonado? - Sim, pois espero.» O outro nunca espera. Por vezes pretendo agir como quem não espera; tento ocupar-me com outra coisa, chegar atrasado; mas, neste jogo, perco sempre: faça o que fizer, encontro-me desocupado, sou pontual e até chego adiantado. Outra não é a identidade fatal do apaixonado: sou eu quem espera.

/Fragmentos de um Discurso Amoroso - Roland Barthes/
em compensação à perda da lua, que recuperei mais tarde, os céus marítimos ofereceram-me a primeira chuva de verão. de tão mansa, deixei-me ficar, de namoro com ela, enquanto famílias inteiras, de prato e copo na mão, fugiam para o interior. 
«4. Ciumento, sofro quatro vezes: porque sou ciumento, porque me censuro de o ser, porque temo que o ciúme fira o outro, porque me deixo submeter a uma banalidade: sofro por ser exclusivista, agressivo, louco e vulgar.»

/Fragmentos de um Discurso Amoroso - Roland Barthes/




na vastidão e complexidade que a percepção |individual e colectiva| do mundo nos traz, nunca conseguirei entender a gente que define o todo pela parte. para quê generalizar o que advém de situações concretas e singulares? será essa uma forma de se auto-definirem como pessoas maduras, as que sabem da vida? mas como saber da vida, se ela nos obriga todos os dias à roda-viva da descoberta, aos trambolhões na estrada gasta, em que uns esfolam mãos e joelhos e outros caem de cabeça na pedra dura? 

por isso prefiro os que duvidam, aos que têm certezas - especialmente, as absolutas.


-- não me vieram as palavras - apenas - por causa do tema do ciúme, mas também. -- 

19.8.16

wabi-sabi: imperfeito, impermanente e incompleto.

que sirva de resposta àquelas que julgam que ter contactos na mafia russa e andar em cima de uma tábua lisa (num mar parado de fazer rir) chega para encontrar a destemida Cuca.
 
 
 
/observo o bando de longe.../
 
 
«Jonny Duddle»
 
a cena passou-se à porta dos correios, na pausa da hora do almoço. faltavam sete minutos, quando cheguei e me deixei ficar na pequena fila que já se tinha formado. com o nariz colado à porta de vidro, mãe e filho, ao lado o pai e um bebé de colo. o garoto, com voz mimada, guinchava: eu quero entrar!, eu quero entrar!, eu quero entrar! a mãe, cansada, tentava suborná-lo: já não te compro o gelado, estás a ouvir? se continuas assim, já não te compro o gelado! cala-te ou não te compro o gelado. o pai, como um bêbedo, insistia na piada, queres levar um selo? ãh? queres? olha que eu dou-te um selo! queres um selo ou não? e ria-se sozinho. ao lado, uma mulher mais velha, que na altura julguei ser a avó, instigava o garoto: dá um pontapé na porta, p'ra ver se abrem mais depressa! dá um pontapé! com força! agora aqui a gente à espera... nunca gostei de esperar e também não faço ninguém esperar. dá um pontapé! a mãe do outro lado, está quieto! já não te compro o gelado! nem os ténis! nessa altura, o garoto aumentou o volume ao choro fingido.

foram sete longos minutos.

a mãe foi receber dinheiro no balcão.
o garoto foi ver as vitrines.
o pai com o bebé não entrou, ficou à porta a fumar um cigarro.
a avó, que afinal nem os conhecia, estava naquela urgência, porque queria mandar uma carta rápida para a neta, que está na frança. acrescenta que está a ajudar a neta com um emprego, mas o homem do balcão não lhe alimenta a conversa.

antes de chegar a minha vez, a última coisa que ouço é a mãe a chamar o garoto, para irem comer um gelado...
parece que nasceu em cima de uma sela, disse-me, e eu sorri, de tão feliz que estava. passados quinze anos, voltei a montar. entre o chão e o céu, seguindo a cadência de outros passos que não os meus.
perto, a minha mãe, sorriu.


[obrigada, minha doce e bela mãe.]

de onde se prova que Maria Poesia tinha razão. há enrolanço à vista.


Alfred Basha

18.8.16

se alguém souber coisa que valha* sobre a famosa lenda do navio pirata que galgou pelos céus adentro e lutou contra o polvo admastor, por favor, use a caixa de comentários. lá porque eu ando macambúzia, isso não é motivo para não querer saber de uma boa peleja, lá pelos mares do sul?norte?
alguém?
 
Cuca?...  Manuel?...  Mundo?...
 
 




|*leia-se: o que quer que seja|
se as palavras brotassem da simples vontade, acredite, estimado leitor, que este blog seria um não parar de publicar mancha cinzenta. mas elas, pelo menos as mais difíceis, estão num teimosia adolescente, um não parir que me deixa cansada. peço-lhes que se diluam nas banalidades quotidianas que todos os dias nascem por esta blogosfera fora, que me aliviem a cabeça, e elas lá, amargas, batendo o pé, que em agosto não hão-de mostrar a cor, de tão feias que são.
 
 
/culpa minha, refila o anjinho cego, no meu ombro esquerdo, que prometi que em agosto não havia palavras cinzentas.../

16.8.16

num abraço.

 Anne Laval

13.8.16

É evidente que, desde então, se desfizeram os laços entre eles, e o amor terminou logo no seu início. Apagou-se a luz que por um instante brilhara, e o crepúsculo que se seguiu era ainda mais sombrio do que antes. 

/Nikolai Gógol - Almas Mortas/

12.8.16

e tu, como preenches os teus espaços vazios?
encontro a Vendredi, sozinha, agarrada aos papéis que mais ninguém quer. encolhida sobre o teclado, cabelo apanhado em carrapito, preso com o lápis nº 2. parece uma criança enfezada, a quem tem faltado o sol de agosto, faz demasiado tempo. aquele abandono, o rosto fechado, o ar de coitadinha, toda ela me dá raiva. decido sentar-me ao seu lado e importunar-lhe o fecho das contas, rebaixá-la ao chão de madeira. estás de reserva?, pergunto, em tons de gozo, mas ela não muda de jeitos. finge que não me vê. é isso que tu és, Vendredi, a mulher que fica de reserva? estala os dedos, um a um, lentamente, mas continua calada, de olhar fixo no ecrã. mais um pouco e fá-la-ia chorar, quem sabe, magoar-se com o bico da lapiseira, pequenas picadas de sangue, que depois levaria à boca, provando da sua humilhação. Vendredi, minha pobre idiota, tenho pena de ti. 
cuidado com o que desejas, repenicou-me o diabinho coxo ao ouvido, quando, de vassoura na mão, limpava eu a porta dos fundos. um magnifico exemplar de Milu, sofrendo de gigantismo, 8 longas pernas, [talvez prima de algum polvo terrestre]. admirei a perfeição, mas tentada à troca não fiquei. esta Milu equídea é aranhão para me dar cabo do estuque. 
diria da personagem, minúsculo insecto desprezível, estranha invenção acontecida, de que se trata de um insolente que merece morrer pelas minhas próprias mãos, numa palmada que me acalme a mordedura. o coirão, fêmea certa por natureza, insignificante ponto preto voador, teve o desplante e a ousadia de me afincar a proboscis gulosa, enquanto eu me arrastava nas leituras quotidianas. não uma, nem duas, mas três vezes me ferrou, deleitando-se à refeição. 
Milu, minha graciosa Milu, onde estás tu?

11.8.16

dezenas de nacos voadores, ávidos deste sangue de proletariado opalino, zumbindo demasiado perto de mim, e de Milu nem sinais. a fina deve ter ido de férias, com o resto da burguesia.
Porque é tudo tão breve e tão longo, não sei.
Tenho os olhos fechados de abertos de ternura.
Tenho um pouco a paz de uma noite vivida.

/o ciclo do cavalo/


Robert Hutinski

10.8.16

sofro de misofonia profunda. não tenho culpa, tão-pouco a moça que se atreve a roer um maçã gigante a menos de dois metros de mim. 
senhor, perdoa-me, mas estou capaz de a mudar de sala.
confesso, mas só a si, amigo leitor, que está longe e não terá cruzado comigo ainda há pouco, estou mais branca do que a cal da igreja e, sob este sol abrasador, até a mim me fez confusão a claridade das minhas pernas. 
desta vez mandaram um verdadeiro pintas, desses do músculo esculpido na manga da camisola, com tatuagem a combinar. o homem do costume estará de férias, resta o jovem pavão, de andar trabalhado, dirigindo-se, devagar, à sala das máquinas. Joaninha, a estagiária, desliza sem modos na cadeira, imaginou-se montada naquela sela, confidenciou-me mais tarde, D. Alzira, que se diz sequinha desde que a força da juventude se foi, coça as mamas em desalinho, e Marquinhos, o boy de serviço, descarado, suspira alto, desmembrava-o inteiro!
para o crime do "encravamento", suspeito agora das três personagens. 
chega-me ainda vermelha, conheço-lhe de cor a timidez das bochechas. não resiste à partilha, que só comigo faz. o rapaz, um jovem de tão longe, acabou de lhe dizer, em português envergonhado, que ela era uma das melhores mulheres do mundo que ele já tinha encontrado. e tantos obrigados e ela a rir, dos nervos, que nunca sabe como lidar com momentos assim, ora essa, ora essa, mas que exagero. até lhe pediu uma fotografia... ai jesus, que seja, mas só uma, e juntos, que ela sozinha, era arrojo em demasia. 
meto-me com ela, olha lá, isso não será para o moço ter companhia à noite, ou material para os serviços secretos?... não me responde, mas o sorriso desaparece-lhe de cara, pensando bem, é o mais certo.
perto das três da manhã, acordei, vestida, sequiosa, numa cama que não reconheci. havia uma varanda, onde me sentei e ouvi as vozes da noite. o vento nas canas, sibilante, onde mil demónios dançavam estropiados. o coro de grilos habitual, um mocho-galego que piava intervalado, alguns cães latindo ao longe. reconheço a noite, reconheço a cama, dispo-me.

a noite manteve-me acordada até à alta madrugada. decifrei-lhe todas as palavras, concordei com a ideia geral. o que não se diz, carrega-se, como um peso. 

9.8.16

Damas diz-me que só eu o entendo, enquanto me abre os primeiros botões da camisa. mais nenhuma mulher lhe aceita a fome animal como procura da sua essência basilar - não mais do que uma poeira cósmica, prestes à combustão, filosofa. são só balelas, dizem elas, acreditas, Alice?! eu ali, na maior sinceridade, e elas querem a mentira piedosa, a expressão comum, a palavra banal, o amo-te de ocasião. assenti. deixei de o ouvir logo depois, quando os seus dedos chegaram até mim.
Os testículos e a borboleta

Aquilo não era sexo, ela o fagocitava com a vagina. 
Pompoarismo e muito bate-boca.
Brigavam nus entre a cama e a parede,
acurralados faziam o amor em pé para redimir um as dores do outro.
Quando lhe penetrava, sua borboleta bem exhibida à mostra,
farfalhava as pequenas asas agradecida ao preenchimento do oco, 
que lhe chegava até a alma.

Pensava que qualquer mulher seria assim faltosa do pólen.

Devoradora, o castrava enquanto lhe lambia os testículos com a língua em ponta,
depois jogava-os para cima e para baixo como se estivese com duas cereijas na boca

 - uma dor quase imperceptível que apenas ela sabia fazer com exatidão -

...


/Carmen Picos: daqui/
das expressões que mais abomino? está na moda.
ela, em Lisboa, nas duas semanas que lhe cabem com o pai; ele no Algarve, nas habituais férias de verão com a família. começa por me contar, de sorriso aberto, que confia totalmente nele. as coisas são como são e eles já não são crianças para fazerem da situação um problema. concordo e acrescento, em tom de pergunta, que, agora com os smartphones, deve ser mais fácil estar perto, mesmo estando longe. solta uma risada e diz que sim, sem dúvida!, e depois, um silêncio refractário, na brecha de dois ou três segundos, faz nascer a confissão. ele não é muito de escrever... diz que não gosta muito, e falar fica caro, porque ele tem um tarifário de assinatura, por causa da empresa do pai... ou qualquer coisa assim, não sei bem. entendo, respondo-lhe, sem intenção de continuar a conversa. porém, ela insiste na justificação, mas todos os dias me manda uma mensagem a dizer que gosta muito de mim. é querido, não acha?... eu achar, não acho nada, mas aceno-lhe tristemente que sim.

8.8.16

foi um momento raro de desespero profundo. deixou-se cair contra a parede, as costas, magras, no embate, uma dor aguda que lhe acalmou a outra dor. depois o silêncio, apenas o coro dos grilos. voltou a abrir os olhos. a noite quente abafou-lhe o último grito possível. 
na hora de abalar, contas feitas à vida, numa tentativa positiva de alinhar correctamente a disposição das estrelas na constelação de leão, afirmo que nem tudo é mau e que a vida podia ser bem pior. 
finjo-me hércules, sufocando o animal, mas quem sufoca sou eu.
Só a minha vontade te constrói.

/ciclo do cavalo - António Ramos Rosa/
hei-de matar a Vendredi, dar-lhe o eterno descanso que a pobre, há muito, merece. há-de ser uma morte meticulosa, de punhal sabiamente empunhado, que nem um ai soltará, ante o suspiro final.

mas por agora, é deixá-la assumir o que lhe foi imposto e pedir a todos os deuses que se aguente de pé nos próximos tempos.

carece de mim, a pequena, e não será agora que lhe hei-de faltar.

7.8.16

quando era menina, por esta altura do ano, estando o avô na sesta, fazia companhia à avó, que bordava no fresco da salinha de estar. de tempos a tempos, olhava-me apreensiva e pedia, florzinha, vai lá fora e vê se há algum fumo...
às vezes, havia.


/foi por causa dos incêndios que comecei a odiar - bem sei, é palavra forte, mas eu era muito jovem - as gentes da cidade. via as imagens da miséria daquela gente humilde do campo, gritando e chorando, desvairada na aflição, o medo de perder tudo, a casa, os animais, os estábulos, as plantações, os pinhais, uma vida inteira na terra, e os jornalistas, quais abutres, fuçando a dor e a pobreza, para que os da cidade tivessem com que se entreter - rir e gozar com os campónios - no jornal da noite. ainda hoje, sempre que vejo as imagens - que nunca mudam, neste país de dar pena - o estômago se embrulha e as lágrimas me rolam às escondidas./ 
-- na montanha, não são permitidas crianças!

ralhava com a irmã, que, mal feitos os dez, insistia em acompanhá-la nas caminhadas do fim de semana, organizadas pela escola. a mãe, metia-se então na conversa e argumentava, -- não sejas assim, Mariana! qual é o mal de levares a tua irmã?  a Clarinha também leva a dela. 

amuava. a irmã da Clarinha já tinha onze anos e era diferente, enquanto que a Luísa ainda era uma criança, sempre a choramingar. que vergonha.

aconteceu logo na primeira caminhada, estavam a meio do percurso. Luísa queixava-se de uma dor no abdómen e andava mais devagar. Mariana, furiosa e intempestiva, no início dos seus treze anos, deixou-a ficar para trás, não dando conta a ninguém. a última coisa que queria era ser gozada pelas amigas e passar por babysitter. só quando o monitor da sua secção se apercebeu da falta de Luísa, Mariana deu meia volta e foi procurar a irmã. desceu o caminho todo maldizendo aquela criançola que devia ter ficado em casa a brincar com as bonecas. não a encontrando nos terrenos mais próximos, decidiu sentar-se numa pedra alta, à espera que a outra chegasse. passaram-se vários minutos, até que ouviu os passos. finalmente! ia dar-lhe um ralhete a séria! mas quem chegava era Rui, o monitor mais velho, apreensivo. -- Mariana, onde está a tua irmã?? -- não sei... já me fartei de a procurar. sentei-me aqui à espera dela..., gaguejou. -- és uma irresponsável!, gritou o monitor e continuou a descer. 

foi nessa altura que o frio lhe percorreu a espinha. começou a correr atabalhoadamente, enquanto gritava o nome da irmã. as lágrimas soltaram-se, velozes, enquanto descia a ladeira até ao rio, tropeçando nos arbustos rasteiros. quando se aproximou da margem, cansada da correria, viu o Rui dentro de água, mas não percebeu logo. a sua cabeça estava confusa, o desespero tinha tomado conta de si. tentava rezar a oração que a mãe lhe tinha ensinado, quando era mais pequena, mas não se conseguia lembrar das palavras.

só quando viu surgir o monitor com o pequeno corpo inerte nos braços, entendeu. e então gritou, gritou tão alto, que pouco tempo depois, todo o grupo acorria ao local. Rui tentava a reanimação, insistindo, mas Luísa estava morta. o cadáver da menina, como lhe havia chamado a repórter do directo, foi transportado pelos Bombeiros para o instituto de medicina legal. 

Mariana também morreu nesse dia, mas só alguns meses mais tarde foi levada pelo inem para as urgências, com vários golpes nos pulsos. já cadáver.
Close-up de Violeta, agradecendo roubos e elogios.

Violeta

«Seres por dentro única como nas impressões digitais. Saber que és tu, mesmo sendo cego e surdo. Entrar em ti e tu estares toda lá dentro como estás por fora. Tocar o intransmissível de ti, reconhecer que és tu, inconfundível, no igual do teu íntimo ao de toda a mulher. Porque tu és diferente. No riso no ar na voz, na totalidade de todo corpo. E sentir que isso tudo é lá também esse tudo. Diferente na sua igualdade. Entrar em ti e ir reconhecendo pouco a pouco no meu encontrar a mulher que amo até à estupidez. Reconhecer encontrar dentro o que amei fora.»

/em nome da terra/

6.8.16

cães, cavalos e baleias.
se os primeiros habitam comigo, os segundos vivem a mais de 300 quilómetros das minhas mãos. as últimas hão-de obrigar-me a atravessar o atlântico, até cape cod. será inesquecível. a ideia da possibilidade faz-me já estremecer. 

foi a primeira resolução, depois de quase ter levado com um filhodaputa, de frente, na estrada nacional. talvez o destino se trace assim mesmo, por linhas tão tortas, quanto as curvas da estrada velha.

ei-la, maravilhosa.

Violeta


/sim, a câmara do telemóvel é fraquinha./
{acabo a semana com o meu jinzu, no sr. Alberto. o tártaro de peixe que me traz à mesa, em jeitos de prova, está de partir o coração, o branco que me deu a provar /eu, que nem me atino com vinho branco/ a iluminar-me o sorriso. então, perguntei-me eu, por que diabos aquele peso no peito? que doença é esta, de tamanha insatisfação? transcende-me, a minha loucura. é continuar a mantê-la escondida, tal bluebird no peito, e sorrir ao sr. Alberto, que me faz sentir em casa, quando já nem eu sei de mim.}

{Corto Gatês, o intrépido e doce gato cinzento-escuro, parece mais magro e mais velho, de cada vez que chega das suas incursões. assalta-me então a tristeza antecipada de o(s) perder. o curso natural da vida parece-me desadequado, um castigo maldito de um qualquer deus birrento. não me atrevo sequer a tecer pensamentos sobre o assunto, no que aos meus entes diz respeito.}

{d. Maria da bata às riscas deixa-me a casa toda limpinha, no escuro de quem chega quase sempre perto das onze da noite. o riso vem-me na manhã seguinte, quando o sol desvenda os mistérios da transparência. no principio custava-me, pago-lhe mais por cada hora, do que a outra senhora /eu, pelos vistos, serei sempre: menina/ por cada duas. mas depressa percebi que há muitas maneiras de ajudar alguém, que não preciso de morar num hospital higienizado e, o mais importante, o seu jeito com a bicharada /real proprietária do casarão/ é precioso.}

{acabando este registo no diário das banalidades, tenho de ir /só de pensar, fico doente/, mas tenho de ir, impreterivelmente /adoro ver como as gentes, manientas, se tentam montar nesta palavra e acabam por se enganar a trote/, dizia eu, que já me perco em divagações e ácidos de estômago, dizia: tenho de ir limpar a merdaria dos gatarrões... suspiro longo... talvez possa ainda escrever mais qualquer coisa... ou tirar uma fotografia à Violeta /não tive coragem de exercer a tua tirania, Susana! mantenho-a a beber que nem um camelo/, ou explicar o fluxo das águas sanitárias e perguntar como é que alguém, no seu perfeito juízo, bebe água da torneira... ou então, sei lá, falar de outras coisas... não?... alguém?.... /pfffff, bloggers..../ ....}

5.8.16

{prometo, pelo cheiro da resina dos pinheiros bravos, que durante este mês de agosto não escreverei sobre as noites brancas.}
Querido
Veio-me hoje uma vontade enorme de te amar. E então pensei: vou-te escrever. Mas não te quero amar no tempo em que te lembro. Quero-te amar antes, muito antes. É quando o que é grande acontece. E não me digas diz lá porquê. Não sei. O que é grande acontece no eterno e o amor é assim, devias saber. Ama-se como se tem uma iluminação, deves ter ouvido. Ou se bate forte com a cabeça. Pelo menos comigo foi assim. Ou como quando se dá uma conjunção de astros no infinito, deve vir nos livros. Ou mais provavelmente esse tempo nunca pôde existir, que é quando realmente existe o que vale a pena existir.


suavemente adulterado de 

em nome da terra, de Vergílio Ferreira

4.8.16

Gilles Rigoulet
{prometo, pelo cheiro dos pêssegos maduros, que durante este mês de agosto não escreverei palavras cinzentas.}

3.8.16

influenciada pelo velho Pipoco, que já anda nisto há mais de 70 anos, montei no aspirateur da Susana e decidi fazer frente ao agosto peculiar, que me submerge de trabalhos gordos e impossibilidades várias, partilhando consigo, amigo leitor, alguns pedaços de banal memória futura. 
/como são amargos os escritórios em agosto/


{ontem salvei uma velhinha. salvei sim, porque ela agradeceu-me, dizendo: esta menina foi Deus que me apareceu... fiquei tão emocionada... toquei-lhe no braço, para a acalmar, tinha uma pele tão suave, como têm as avós boas.}

{hoje também já fiz coisas extraordinárias, mas ainda não tive tempo para vestir a minha capa de super-woman. por agora, besunto-me com o chocolate suíço que o meu querido I. me trouxe, enquanto maldigo todos quantos insistem em postar coisinhas bonitas sobre as suas férias. daqui a pouco, farei uma dança da chuva... talvez afunde algumas cabeças de jericos que por aí andam...}

{nota mental: não voltar a usar este sutiã.}


[e como é agosto, vale tudo. até caixa de comentários.]


/e relembro (agora com a merecida vírgula): amanhã, já não virei aqui./

2.8.16

amanhã já não virei aqui.
REESCRITA

Fender os versos
com a lâmina implacável do
tempo. No umbigo do poema cravar
o sabre rente às vísceras dos verbos,
à linfa de adjectivos. Despedaçar
os músculos dos sentidos. Abrir
a rede viária do sangue. Romper
a velha epiderme.

/Coisas que Nunca - Inês Lourenço/
O amplexo é real
e o que escrevo é o frémito.

/Ciclo do Cavalo - António Ramos Rosa/

1.8.16

o homem já lhe tinha virado costas há vários minutos, mas ela continuava parada no fundo das escadas, arrebanhando as lágrimas dos olhos. 
um bicho morre, interminavelmente.
nunca, desperto, morre. um osso
o rói por dentro.

fura na carne o dia, e forma (em osso)
um astro eterno onde enterrar o azul.

/Poemas - António Franco Alexandre/