28.4.17

Gotthard Schuh, Sunday Afternoon, Lake Maggiore, Italy, 1961

27.4.17

e agora?, pensas, quando, por deslize, baixas a guarda de ti própria. escondes-te num canto só teu e esperas que as lágrimas te escoem a alma. mas nem isso consegues. ficas sozinha no escuro, os olhos ardendo de sono, o peito no aperto de sempre, e repetes em silêncio, e agora?
Egon Schiele, The Kiss, 1911

25.4.17

o gato amarelo acorda e boceja rente ao meu olhar, para que lhe sinta o cheiro a peixe de lata e o desdém de quem há muito observa a humanidade canina. no livro de poemas, que jaz sobre as pernas nuas da mulher, há um gato assim.
desconheço as regras de etiqueta, no que a orquídeas diz respeito, mas acredito que os puristas da coisa não irão gostar da minha Violeta actual. pensem nela como uma flor que engordou, uma flor de verdade.

para ti, Palmier Maria, patrôínha do meu coração.




(de costas :)


24.4.17

taeko, a flor canina



23.4.17

era um homenzinho horrendo, atarraxado dentro das camisas suadas, que se lhe abriam na curva balofa do umbigo. tinha um pequeno minimercado, perto da zona dos comboios, onde a mulher, mirrada dentro da bata, passava os dias presa à caixa registadora, e alugava quartos a raparigas na parte velha da cidade. o apartamento, um quinto esquerdo, cinzento sujo do tempo e da falta de quem o esfregasse, era o seu harém. armado do molho de cópias de cada chave, depois de estudados os horários, deleitava-se a entrar em cada quarto, procurando segredos e roupa interior, que acariciava com a fome de vários anos sem tocar numa mulher. quando tinha a sorte de encontrar algumas cuecas usadas, cheirava-as o mais que podia, em delírio, e lambia-lhes o sumo ressequido, enquanto se masturbava com cuidado para um lenço de papel, que trazia sempre no bolso. 
nunca trocava a botija do gás, que levava do minimercado, antes de terceira reclamação. costumava dar grandes sermões sobre os desperdícios e gostava de lembrar às raparigas que a casa devia estar asseada. a ironia sempre foi puta fina, já que o sr. Silva preferia esfregar o caralhito de merda, como mais tarde se lhe referiu uma das raparigas, nas cuecas mais sujas que encontrava.
com uma aspereza de que não gostei, perguntou-me como conseguia eu ser tão fria, não ter gosto pelas coisas, não me interessar por nada. quis explicar-lhe que não comungo do materialismo, mas a voz ficou-me presa nos subterrâneos da alma.
Under the water we can't breathe, we can't breathe
Under the water we die
Under the water there is no one watching
Under the water we are alone

Then why do we jump in?
Why do we jump in?




«Espera, deixa-me ver-te devagar. Dás uns passos, bates uma palmada no chão e sobes alto e lá no ar dás uma volta sobre ti, mas antes de caíres de pé, imóvel, fico a ver-te parada no ar. Corpo elástico, esguio, fico a ver-te. Flutuas imponderável, a Terra não tem razão sobre ti. Vejo-te no espaço, todo o corpo elástico numa curva dos pés até ao extremo das mãos, ou talvez não, recomeça o salto para ver melhor. Talvez o corpo não em prancha ao alto mas enrolado sobre si e giras no ar em rodízio até te desenrolares e caíres depois em pé firme. Queria dizer-te como isso me maravilhou, o teu corpo poderoso, desprendido das coisas, liberto da sua condição bruta, feito de um esplendor imaterial. Terei dito bem? Imaterial. Quanta coisa havia nele, os teus ossos, as tuas vísceras, mas tudo existia leve e eu só lhe via a sua forma perfeita de voo. Há uma órbita da exactidão como se diz dos astros e tu seguia-la, um rigor matemático com que o universo existe.»

/em nome da terra/
Ellen Auerbach, Robert Mann Gallery

22.4.17

deixei o espaço onde homens - e escassas mulheres - mediam o tamanho do ego pelo valor do símbolo e rumei à livraria*. no terreiro, dois miúdos faziam corridas velozes nas suas bicicletas com rodinhas, rindo à gargalhada. 


/*saudades, tantas, dos meus alfarrabistas e do silêncio da procura. nas livrarias, mulheres iguais, urbanas, cultas**, irritantes, falam alto, sem pudor, dos livros dos escaparates e de alguns dos seus autores***, com uma arrogância-ignorância que me dá vontade de as mandar calar. não saberão que ali, no meio dos livros, estamos em permanente oração?/


/**aquele tipo de mulher que faz do vestuário aborrecido, sapatos ortopédicos, cabelos nunca pintados ou arranjados  - nem olhos, lábios ou unhas -, o seu manifesto à primazia intelectual***./



/***diz uma delas: Ando há tanto tempo para ler este escritor, mas depois compro sempre outros livros, não sei porquê. Já leram? Tem aqui tantos livros. --- este escritor era Saramago...  --- não são mais cultas, alguém que lho diga com jeito, são apenas mais sem graça./


a senhora da bata às riscas diz-me que a banheira, meu pouso divino, lhe faz lembrar um caixão. deus a livre de tomar banho deitada! sorrio-lhe e asseguro-lhe que aquilo é do melhor que há. vira costas, de vassoura na mão, dizendo que nem pensar.
o formato será o de um caixão, não nego a evidência, mas aquele retângulo branco sempre se me assemelhou à barriga de uma boa mãe; outras vezes, o submarino onde navego. faltando-me no tecto a saudosa Milu, opto agora por me concentrar nos veios do mármore em frente, procurando novas geografias cartografadas, mundos onde as vontades possuam existência.
ouço o aspirador e lembro-me de que tenho de ir. também para mim hoje é dia de jorna.

17.4.17

«Os meus pés já não se deslocavam. A caverna já não era uma estrada sem fim a abrir-se na minha frente. Era um berço de madeira, forrado de peles, a baloiçar. Quando deixei de dar passadas firmes, de contar os passos, quando deixei de apalpar os muros à minha volta com dedos torcidos como raízes, de procurar alimento, o passeio labiríntico alargou-se, o silêncio tornou-se aéreo, as peles desintegraram-se, e entrei numa cidade branca.» 


Anais Nin, Debaixo de uma Redoma

16.4.17

«Caminhava presa com um alfinete a uma teia de aranha de fantasias fiadas durante a noite, obstinadamente seguidas durante o dia. Essa teia de aranha foi rompida por uma buzina do nevoeiro e pelo carrilhão das horas. Dei comigo a atravessar pontes levadiças, fossos, pranchas, se bem que ainda presa ao cabo pesado de um navio pronto a largar. Estava suspensa entre a terra e o mar, entre a terra e os planetas. A atravessá-los à pressa, angustiada por causa da sombra que ficava atrás, a marca dos passos, o eco. Todas as cordas facilmente desatadas, mas uma a prender-me àquilo que amava.

Mergulhei num labirinto de silêncio. Os meus pés cobertos de peles, a minha mão coberta de ouro, as minhas pernas embrulhadas em algodão plissado, atadas com chicotes de seda. Pele de rena no meu peito. Sem voz. Sabia que, tal como a rena, se nesse momento me enterrassem a faca, nem sequer suspirava.

Fragmentos dos sonhos explodiam aquando da minha passagem, através dos fossos, caíam como pedaços de planetas mortos, sem romperem as peles e o algodão desse silêncio. Os muros de carne e de pele respiravam e gotas de sangue branco tombavam com o som das pulsações.

Não queria avançar no silêncio, sentindo que podia perder para sempre a voz.»


Anais Nin, Debaixo de uma Redoma

14.4.17

se as palavras tivessem facas e me cortassem os lábios, a língua, as mãos, ao tentar segurá-las na boca,
e se as facas, afiadas, ao dilacerar a carne, escondessem a dor dentro das palavras,
então eu escreveria

13.4.17

é nela que penso, quando me sento na esplanada frente aos baixios com cheiro a mar e peço uma meia de leite e uma sandes de queijo e manteiga, ouvindo homens que falam de lebres e de cartuxos, namorados que partilham telemóveis e copos de água, mulheres gordas em licras justas fumando marlboros, gente que fala alto demais. na bebida.
quando me viu, envergonhou-se. ofereceu-me um sorriso de pirata cansado. na mão direita, o copo largo, dourado; na outra, a garrafa. pouco passava das dez, trazia nos olhos a noite longa de uma semana cheia de gente na rua. tivesse tido a coragem de trocar a oferta do café pela bebida e eu tê-la-ia aceitado.
conheço bem esta raiva que todo o dia se me aninhou no corpo bravio -- a comiseração muda de quem fica sozinha. juntas na cama, há-de reduzir-me ao vazio estreito de uma almofada, antes que a madrugada a recolha de mim.

9.4.17

quando fosse grande havia de ir aos temporais.


Aëla Labbé

Miguel Ángel Buonarroti duerme plácidamente. No, no está descansando; está creando. Por eso, al despertar, toma sus herramientas, se para frente al bloque de mármol y comienza a eliminar los pedazos de realidad que le sobran a su sueño.

Rafael García Z., El mago natural y otros abracadabras


eu sou o contrário de Buonarroti. mal me levanto e já todas as réstias de sonho - se as houve - se foram.

8.4.17

vi-o descer, sete palmos abaixo da terra, no dia em que não chorei. hoje, enquanto comia as folhas de alface, tão tristes, senti-lhe o riso de escárnio junto à orelha. agora paga-se para comer erva?, perguntou-me meu pai morto.

que queres que te diga, se não sei olhar a vida de outra maneira? falta-me a doçura de quem sonha com o amanhã. um navio encalhado no rio nunca trará os peixes do mar.

5.4.17


Aëla Labbé

2.4.17

dona Miquelina, tome nota, leitor, assim se chama uma das minhas vizinhas, velhinha amorosa a quem só falta a espingarda ao ombro. pois dona Miquelina abomina essa moda que agora prolifera de cavalgar montes e serras em cima das bicicletas. que lhe estragam o mantimento todo!, vocifera, cuspindo chispas. a rapaziada da câmara bem tentou, até a guarda lhe bateu à porta, mas dona Miquelina, sadia de tino e rija de língua, pô-los todos a correr - outra raça excomungada que também apoquenta as terras de dona Miquelina. fechadas as fronteiras, nada mais resta aos moços dos calções de licra, que ainda por ali tentam a sua sorte, senão voltar para trás. alguns excomungam a velha, outros ficam parados alguns minutos a tentar perceber o muro erguido. eu, cá de cima, nem sei bem o que pensar. não lhe comiam o carreiro de terra batida, bem de certo que não, mas é vê-los pisar as leiras plantadas, como quem pisa capim, e logo me dá vontade, a mim também, de ir procurar a pressão d'ar.
para a luisa, que gentilmente me recordou da bicharada que arrepia.

/mil vezes, meia dúzia de Milus, grandes e pretas, a treparem-me pelas pernas/
chegou o tempo das aflições. eu olho, escancaro mais a vista e olho de novo, cerro as pálpebras e olho outra vez, perscruto,  impaciente, a erva alta e não as vejo. desaparecidas no oceano de verde, resta-me aguardar pelo movimento excitado das antenas caudais, resultado de alguma toupeira em maus lençóis...
o meu sossego nasce daquela crueldade.



lembra-se o* caríssimo leitor da dúvida que se me assomou no tempo da plantação?

diabos me levem - com carinho e ternura, que ando tão definhada - se eu não tenho sangue de lavradores a correr-me neste corpo estupidamente citadino e ocioso!
alhos!! tal como previ, antevi, suspeitei, desconfiei e me cheirou:  alhos! essas stinking roses às portas do meu quintal. dizem que é plantação que dá dinheiro... quem sabe se não treino a colónia de toupeiras para a apanha.


/tome-se o* por indefinido plural. sonhe-se a multidão, filas duplas de ávidos leitores, fieis como pequenos póneis/

30.3.17

«Satisfaz-me a derrota, porque é um fim e eu estou muito cansado.»

Jorge Luis Borges, in Deutsches Requiem, O Aleph

26.3.17

e Campo Maior? já vos mostrei a minha fotografia de Campo Maior?

a bem dizer, é mais a partida de Campo Maior. que gente tão bonita lá conheci

surripiam uma hora ao domingo porque na cabeça destes bandidos, canalhas ociosos, ninguém trabalha no dia santo. hoje, em vez de contemplar o verde do vale, sentada no janelão com taeko, apresso-me a vestir a farpela e botar-me a caminho das pedras. por causa  daqueles energúmenos, bandulhos brochados a arrotos krug brut e chauffeur de plantão à porta do terreiro, já estou atrasada.
alguém* devia por mão nisto.


[alguém que não o Arnaldo Matos, que fique claro]
a odisseia re(re)começa.

25.3.17

um gato dormindo no xadrez
de caramelo variado

a minha mais antiga paixão, Sr. Gato - o Velho

não vejo Milu há várias semanas e decido acreditar que navega, intrépida, no ombro da Capitã, tendo enxotado com sedas armadilhadas o louro já velho. sempre que encho o tanque do submarino, penso em Milu, a pequena aranha, e de como tão bem me aninhava os pensamentos na sua teia silenciosa. se não regressar até à Páscoa, preparo uma incursão ao cacilheiro pirata, o tal das purpurinas.
encontrei o irmão do pastor, não lhe sei o nome, nem ele o meu, pouco importa para a conversa de circunstância, ele dizendo que tenho os terrenos cheios de ervinha boa, eu respondendo que falta me fazem as ovelhas do irmão. saiu-me a frase sem pensamento, afinal a vida é como é e a morte calha a todos. baixou a cabeça, o irmão do pastor, e durante alguns segundos -- que me pareceram horas, dando tempo ao meu estômago de gerar um nó demasiado apertado -- nada mais fez do que pontapear as pedras do caminho. fazem muita falta, menina, estão as terras todas ao abandono, a comida a estragar-se. antigamente os campos estavam todos tratados e o gado ajudava a limpar o mato. nem havia tantos fogos. concordei prontamente. aquela enxurrada de palavras tinha-me salvado de aperto maior. da minha exagerada sensibilidade interior, infantil até, já sabia há muito, o que me apanhou de surpresa em tão estranho episódio foi mesmo a falta dela.
chegaram! e para as receber encontram este frio siberiano. volteiam no ar, eléctricas, quase imitando a felicidade dos tolos, [o que afinal não serão mais do que inteligentes manobras de aquecimento ou - quem sabe? - crises agudas de raiva pelo infortúnio destino.]

ainda tentei tirar o retrato a uma das quinhentas mil andorinhas que povoam já o céu inteiro, mas fica mais fácil com as flores: a gente diz: olhó passarinho!, e elas limitam-se a sorrir.

18.3.17

...
passo-a-passo voltamos desses futuros
negociando a dor e o prazer atropelados no caminho


o absurdo é compreensível
a lei da gravidade é conhecida
– é a maçã que dói

14.3.17

é à noite que encontro o que resta da minha humanidade, aquela que acredito ser e reconheço em mim desde sempre. alimento os animais, limpo-lhes as caixas, acarinho-os e observo-lhes a felicidade sincera de nada mais viverem para além do momento. todos eles, de uma maneira ou de outra, foram abandonados à sua sorte, alguns em condições execráveis. salvando-os, salvo-me a mim própria. sei-o e não o escondo. vale o que vale.
não deixarei descendentes, pequenos eus que me perpetuem o sangue e as maneiras. findarei em mim própria. salvam-me os bichos, conservando-me alguma humanidade.

13.3.17

Niina Vatanen - Roses, I’ll write you soon

12.3.17

...
— A festa não é para nós, meu filho —, disse ele.
— Nós somos pobres.
O garoto chorou, chorou amargamente.
— Não me interessa; quero um carneiro.
— Somos pobres —, repetiu Chaktour.
— Somos pobres porquê? —, perguntou a criança.
O homem reflectiu antes de responder. Depois de tantos anos de indigência tenaz, ele próprio não se lembrava porque eram pobres. Era uma coisa que vinha de muito longe, de tão longe que Chaktour já não se lembrava como tinha começado. Dizia para si próprio que a miséria que se prolongava para além dos homens. Apanhara-o desde a nascença e ele logo lhe pertencera, sem a menor resistência, visto que lhe estava destinada muito antes de ter nascido, ainda na barriga da mãe.
A criança estava sempre à espera que lhe explicassem porque eram pobres. Deixara de chorar, mas ainda havia muitas lágrimas dentro de si, todas as lágrimas das crianças miseráveis cujos sonhos são traídos pela vida.
— Escuta, pequeno, vai-te sentar num canto e deixa-me trabalhar. Se somos pobres é porque Deus nos esqueceu, meu filho.
— Deus! —, exclamou a criança. — E quando se lembrará ele de nós, meu pai?
— Quando Deus esquece alguém, é para sempre.
...

Albert Cossery, Os Homens Esquecidos de Deus, Antígona

[livros que me escapam das mãos, roubados pela escassez de tempo-próprio]


--excerto roubado aqui: voar fora da asa--
escritores que me estão vedados presentemente, por razões óbvias.
é manter a máquina a bombear e seguir o rasto dos sapatos.


«Gostaria que depois de me lerem, as pessoas não fossem trabalhar no dia seguinte.»

                                                                                                         Albert Cossery

10.3.17

na ideia de tirar o bolor do corpo, veio um vestido azul - que me parece ter encurtado na lavagem, uns sapatos novos que, deliciosos mistérios da natureza, me ondulam na anca, e o sorriso. 
é aproveitar, que amanhã volta a chuva.

8.3.17

troco-me, por uma inextinguível
inexprimível
noite.
Estas ravinas de osso e de pele
por onde começam as trevas
do absoluto,
e cá está ela, "a" flor do dia, que à minha pronta recusa, veio acompanhada de um olhar reprovador do género ólhamesta.
agora sim, já me sinto mulher.


7.3.17

saudades do tempo do pão com tulicreme.
da minha janela (ii),



6.3.17

da minha janela,


sem filtros e sem pequeno-almoço.


5.3.17

[...]

Uno de los hábitos de la mente es la invención de imaginaciones horribles.

Ha inventado el Infierno, ha inventado la predestinación al Infierno, ha imaginado las ideas platónicas, la quimera, la esfinge, los anormales números transfinitos (donde la parte no es menos copiosa que el todo), las máscaras, los espejos, las óperas, la teratológica Trinidad: el Padre, el Hijo y el Espectro insoluble, articulados en un solo organismo… Yo he procurado rescatar del olvido un horror subalterno: la vasta Biblioteca contradictoria, cuyos desiertos verticales de libros corren el incesante albur de cambiarse en otros y que todo lo afirman, lo niegan y lo confunden como una divinidad que delira.


/La biblioteca total, JLB/


deixei Camões na chuva miudinha da manhã de domingo e desci ao parque subterrâneo. ainda não era hora de almoço e já o dia me levava seis horas da vida.

4.3.17

republico o post de Vital Moreira pela mensagem, sempre urgente, mas também pela imagem que a tantos parece dar prazer. não é a morte* que aqui me incomoda. um dia, creio, também nós fomos presas de um caçador maior, -- hoje, à falta desse elemento agregador da espécie, matamo-nos uns aos outros --, o que me incomoda, o que verdadeiramente me entristece, é saber que há seres humanos que nos seus momentos de lazer - pais e filhos - vão assistir a este espetáculo de sofrimento e crueldade, chamando ao que é bárbaro, a nobre arte de tourear. em casa dão festas ao tareco, nas bancadas da praça aplaudem a tortura aos touros.

habituada à hipocrisia de um país de aparências, ainda assim, não entendo o porquê de tamanha contradição. à falta da desculpa das políticas da direita, o que falta à esquerda para fazer agora o que já devia ter sido feito? valerá assim tanto o PCP?




*aceito a discussão sobre a forma, também bárbara, de como criamos e matamos os animais para comer, mas tendo essa morte propósitos diferentes, não creio que se deva confundir os assuntos.

3.3.17

a frase, como muitas outras, apareceu-me sem avisar: todos os dias tristes, são dias de chuva; mas não, hoje não vi nenhum caixão descer à terra escura, sete palmos abaixo, onde, antes do pó, somos larvas gordas e brancas rapando a carne dos próprios ossos. hoje vejo apenas um lugar vazio, mas ninguém morreu. 

2.3.17

Blue, Green and Brown

descalça, espirro, quando os pés me arrefecem
Todas as noites
Junto as cadeiras da vizinhança,
As disponíveis,
E leio-lhes versos.

As cadeiras são muito receptivas
À poesia
Se soubermos como as dispor.

Por isso
Fico emocionado,
E durante algumas horas
Conto-lhes
A morte maravilhosa da minha alma
Ao longo do dia.
[...]


/Marin Sorescu - Simetria/

1.3.17

é pouco mais do que nada, um vestido azul apenas,
e no entanto, o meu corpo ondula e balança,
como o de uma criança,
feliz.

28.2.17

ninguém se feriu esta noite.
sozinhos, cada um com os seus pensamentos, fizemos chover.


26.2.17

num domingo ventoso e frio do terrível mês de janeiro, os três anjos, aborrecidos, fartos de atirar pedrinhas no charco, desafiaram-se entre si a saltar o muro do paraíso. dados como desaparecidos, passadas as quarenta e oito horas da praxe, nunca mais ninguém os viu, tão-pouco há relatos de que alguma vez tentassem regressar. no céu, os companheiros invejaram-lhes a audácia, mas, amolecidos pelos copinhos de leite quente e as bastas fatias de pão com mel, deixaram-se ficar.
os três anjos foram avistados hoje, um quase dia de primavera, por esta que aqui vos tecla. andavam todos, cada um à sua moda, disfarçados de diabo.

votos de um entrudo feliz.
percebo, com o passar do tempo em mim, que, àqueles que nunca conseguiram caminhar simplesmente a direito, não faz sentido procurar o sentido da vida. a estrada larga, que os mais velhos nos aconselharam a procurar, é a estrada da manada, onde a natureza mantém os fluxos migratórios intactos e a vida corre simples, na segurança dos costumes e da tradição. para nós os outros, párias, inadaptados, diferentes porque não nascemos com cascos de alcatrão, sobram os trilhos pelo meio do mato, entre pedras e giestas, onde a liberdade da escolha, tantas vezes somente definida pelo cheiro da urze ou pelo assobio do vento, traz vinculada a possibilidade constante de queda iminente.
tenho consciência de que nunca chegarei ao bem-aventurado pasto celestial, onde repousam os que acreditam, felizes, na plenitude de um destino alcançado.
pontapeou-lhe a barriga várias vezes, perto da boca do estômago, até conseguir que vomitasse a verdade. vinha suja de um suco alaranjado e viscoso, alguns pedaços de comida ainda por digerir.
arrependeu-se, não procurava verdades tão nauseabundas.

25.2.17




22.2.17

da lixeira a céu aberto, onde cadáveres apodrecem entre os detritos artificiais, guardei a beleza do voo circular do bando de grifos. 
troco-me, por uma mancheia de seixos amarelos
troco-me, por um sopro de poeira interestelar

19.2.17

Se eu quisesse, enlouquecia.

Oscar Droege

é um desejo cavalar!, relincha, pronto para cobrir.
aroma a pêssego branco e chá de rosas...

foi uma infusão de flor no submarino.

18.2.17

por onde andas tu, meu Damas Afonsino, rico menino de sua mãe, poeta moderno e activista snob da poetry slam de Monfortinho?
tinha combinado comigo mesma, se amanhã não trabalhasse, hoje jantava qualquer coisa com dois baldes de gin. o demónio, velhaco, rindo-se do meu desejo simplório, atiça-me mais um tremelique na pálpebra esquerda, enquanto me sussurra, xoninhas, hoje bebes água.
ela bate palmas, entusiasmada, dizendo-me que adora trabalhar com o Excel e eu penso na garça-boieira que esta manhã, sozinha, pousou perto do laranjal. quando se despede, sumariando as tarefas concluídas, numa alegria sincera, ainda eu caminho por entre os pessegueiros em flor, bebendo o verde da erva macia, taeko e yukiko perto, as três subindo a ladeira.

15.2.17

recordo o desconforto, as bocas demasiado próximas, a respiração quente no meu rosto, enquanto, com a máquina, me penetrava a íris da alma. a consulta mais invasiva de que me lembro, não foi com o homem que me tocou no interior do sexo, tão-pouco com o que me escancarou a boca procurando um siso, ou com o que me observou o ânus com larga atenção. estranhamente, ou talvez não, a pior, foi uma simples consulta de oftalmologia.
as janelas do sexto andar não abrem. quem vier para se suicidar, é favor fazê-lo de outra forma: a saber, repete-se, que nunca é demais lembrar, a forma escolhida não pode interferir com o fluxo diário habitual daqueles que nos rodeiam. se deseja matar-se, faça-o no sossego da sua casa, em hora mais solitária. as janelas do sexto andar não abrem, repete-se, as janelas do sexto andar não abrem. a fila agita-se, desfaz-se e o caos instala-se no acesso à porta de serviço. alguém se lembrou do poço das escadas. os gritos, entrecortados pelos embates secos, não demoraram a chegar. a consagração da libertação.
o homem da camisa azul baixou os braços, escondendo as manchas de suor e voltou à mesa de trabalho.

14.2.17

a costureira triste já não costura, foi sol de pouca dura, mas tem por lá coisas bonitas e outras assim-assim.

/e fico muito feliz quando dou conta que ainda por lá passa alguém/

12.2.17

Emílio tem de morrer. Cassandra deixa cair a cavaca das mãos e repete baixo o pensamento: Emílio tem de morrer e tem de ser antes de santa rosa de viterbo. Apanha a cavaca do chão e encaixa-a na cova do braço, onde irá levar uma braçada inteira. No fim, agarra algumas pinhas da saca velha de sarapilheira e enfia-as nos bolsos largos do casaco. Emílio tem de morrer, mas por agora Cassandra precisa de acender o lume e fazer o jantar. Tranca a porta do cabanal, enquanto enxota o gato,  e encaminha-se para casa.
os campos estão alagados, não precisava de ter calçado as botas de borracha, manhã cedo, e percorrido o pântano verde, para constatar o que tão facilmente se vê da janela. o laranjal, pérola constante do meu horizonte onírico, parece suspenso num lago de lama. no cume do vale, o nevoeiro compõe a manhã de domingo.
este é o meu dia santo, negociado há várias semanas com o mercador do destino. hoje todas as horas serão minhas e delas farei o ócio mais prazeroso que conseguir. tomado o pequeno-almoço, um luxo comprado na loja de conveniência, onde normalmente só me lembro dos gatos, há-de seguir-se o mergulho no tanque, várias horas de contemplação da chuva e a nobre arte da ornitologia.
havia os que escolhiam esmagar os dedos, inutilizando-os em bolas de carne escura. gozavam a dor em urros lancinantes. eu sempre preferi cortar a carne em finos golpes de lâmina afiada, numa dosagem silenciosa. não lhe chamaria arte, mas havia um jeito próprio, um traçado meticuloso na forma de talhar o golpe.
com o tempo, os drogados começaram a invejar-me a intimidade com as agulhas e os pirómanos tremiam, excitados, vendo as labaredas lamber-me as palmas das mãos.
conduzia em círculos apertados até vomitar o álcool da manhã. julguei que morria, olhando-me cadáver ao espelho.
nunca fui tão forte, como naqueles dias.

11.2.17

10.2.17

passam os dias, as noites, os navios azuis repletos de memórias.
perco as horas e as palavras não voltam.


5.2.17

grata.


4.2.17

para a Palmy,


Violeta, 04.02.17

(sim, o fundo é uma caixa de biscoitos chineses. não, não tinha nada mais bonito à mão.)

foi quando as vi juntas, tantas, nas suas perninhas finas de saltimbanco, por entre os tufos de erva, perto da berma da estrada, que desejei ser guardadora de garças-brancas.

3.2.17

para a Rita bonita.


«Nova Iorque estava horrível nessa altura. Às nove da manhã, a frescura aparente que de algum modo invadia a cidade durante a noite, desvanecia-se como o fim de um sonho agradável. As ruas serpenteavam ao sol como miragens cinzentas no fundo dos desfiladeiros graníticos, os tejadilhos dos automóveis brilhavam e estalavam, e o pó seco como cinza invadia-me os olhos e a garganta.
A toda a hora ouvia falar dos Rosenberg. Era na rádio, era no escritório. Cheguei a um ponto em que já não os conseguia tirar do pensamento. Tal como a primeira vez que vi um cadáver. Durante semanas consecutivas, ao pequeno-almoço, a cabeça do cadáver, ou o que dela restava, flutuava por cima dos meus ovos com bacon, e também por trás da cara de Buddy Willard que fora, aliás, responsável por eu o ter visto. Em breve me senti como se arrastasse comigo a cabeça do cadáver presa por um cordel como um balão negro e sem nariz, lançando um cheiro nauseabundo a vinagre.»


/Sylvia Plath - A Campânula de Vidro - Assírio&Alvim/
posso voltar às minhas fotografias desenquadradas e mal-amanhadas.

Yukiko e eu, da série: patinhas

palpitações no olho esquerdo

procura-se profissional de medicina oftalmológica, com sensibilidade para a poesia da pálpebra.
e se quiserem continuar a navegar pela beleza do mundo, afectos e dúvidas, da mz.
querem mais fotografia, daquela que tem poesia dentro?
à esquina da tecla

- e a luisa também escreve bonito -

2.2.17

tenho a Sylvia, numa das suas capas escuras, edição esgotada, pedindo para ser lida, mas estou demasiado cansada e temo quebrar o vidro da campânula, quando, daqui a pouco, regressar a casa.

«Foi um Verão estranho e sufocante, aquele em que electrocutaram os Rosenberg. Estava então em Nova Iorque sem saber ao certo porquê. As execuções incomodam-me. A ideia de se ser electrocutado dá-me volta ao estômago, e os jornais não falavam de outra coisa: cabeçalhos atrás de cabeçalhos olhando-me esbugalhados em todas as esquinas e entradas de metro tresandando a amendoim. Embora nada daquilo tivesse a ver comigo, não conseguia deixar de imaginar como seria ser queimado vivo até à mais ínfima parcela do nosso corpo.
Deve ser a pior coisa do mundo

e não passei daqui.
meus amigos, querem ver fotografia da boa? daquela que nos sussurra poemas aos sentidos? querem mesmo? então ponham-se a andar daqui para fora!!!
O alento das árvores invade os pequenos vocábulos.


para o leitor desocupado, que teve a lata de me enviar um email, queixando-se da urticária que lhe causava "o chão" da fotografia anterior...

eis um céu, devidamente enquadrado

1.2.17

[sim, por agora e até ver, /ou colapso total da autora/, este blog sobreviverá de más fotografias, uma ou outra vez, acompanhadas por versos de poetas que estão para a poesia como, nos anos oitenta do século passado, o Vasco Granja esteve para os desenhos animados...
 invento para ti a música, a loucura
e o mar.


comunicando em silêncio.









(Milu, porta-te bem)

30.1.17

às vezes, vejo navios de prata,

não a reconheci, agachada em frente à maquina do tabaco, mostrando o inicio de umas cuecas generosas, ponteadas de largas estrelas. quando mais tarde abandonei o espaço, a cabeça ainda longe, pensando no muro de pedra, prenhe, que esta manhã gritava a sua iminência de ruir, vi-a, entregando um cigarro ao sem-abrigo das muletas. cumprimentei os dois e segui o meu caminho. não pude deixar de sorrir, sempre engracei com aquela rapariga.

29.1.17

entrou na drogaria, escondida pelo casaco grosso de fazenda, cor de caramelo. duzentos gramas de amor concentrado, pediu. o homem da bata branca tossicou duas vezes para o lado, ajeitou as lunetas de aros finos e pediu licença, dirigindo-se aos aposentos traseiros. a mulher esperou alguns minutos quieta, até que a impaciência lhe saltou da écharpe de musseline para a boquinha crispada e bufou ruidosamente. ao terceiro assopro, voltou o homem da bata com uma pipeta de cristal, três quartos de líquido púrpura, translúcido; chamou-lhe a alquimia do coração. tenha cuidado, recomendou em voz baixa, deve tomar em doses muito reduzidas, diluídas em vários copos de água ao longo da vida. o excesso de amor vicia. ela anuiu e ele continuou. pior, pode estrangular-lhe as artérias principais, roubar-lhe a razão, asfixiá-la, deixá-la desfalecer em êxtase místico, do qual não mais se recupera. a mulher guardou o invólucro em silêncio, pagou e saiu. nunca mais ninguém a viu.
hoje já ninguém acredita, substituiu-se a poesia pelo placebo, morrer de amor, convenhamos, é coisa esquisita.

22.1.17

Em torno da pequena mesa, onde as canecas de café fumegavam, cada um deles tinha de contar um dos seus furtos mais estóicos. Jasmim, o andrógino de longos cabelos louros e olhos de avelã, jurava a pés juntos, olhar escancarado e braços abertos, que uma vez tinha roubado um cavalo mágico, má-gi-co, repete, num circo em Lyon. No momento em que montou o cavalo, sentiu uma corrente eléctrica, que o colou ao dorso do animal, exclama, excitado. Alguns metros a galope depois, o cavalo descolou os cascos do chão e ambos voaram em direcção às nuvens cinzentas do sul. Acordou numa sarjeta em Sainte-Croix-en-Jarez, dois dias mais tarde, o corpo todo maçado de nódoas, não se lembra de mais nada. O Bando entra em algazarra, alguns riem-se, chama-lhe bêbado, outros dizem que não acreditam, nem pensar, que parvoíce, impossível. Petra fica calada. Jasmim continua a jurar, que sim senhor, que já roubou um cavalo-alado, todo branco, lembra-se bem, os outros têm é inveja, cambada de míseros ladrões de galinhas. e ri-se.
do outro lado da sala, Bartolomeu pede a palavra.

16.1.17



li algures que os gregos antigos não escreviam necrológios,
quando alguém morria perguntavam apenas:
tinha paixão?

14.1.17

está cada vez mais difícil preencher esta página vazia
e não é por falta de tentativas

sugestões temáticas para curtas dissertações, choro zen de palavras, procura do equilibro linguístico-emocional são bem-vindas.