20.10.19

para a luisa

soubesse eu inventar palavras,
diz-me Milu, muito quieta na sua teia
como quem se senta no trono real,
e inventava um livro inteiro, assim como um dicionário,
mas muito mais bonito, e colava nele todos
os passeios da luisa para o ilustrar,
e quando tu viesses mirar-me com essa cara de cacto inundado,
das profundezas lamacentas do teu ser humana atormentada,
eu já não precisava de aranhar.
bastava abrir o livro na página certa, apontar o verbete,
e tu, petiza curiosa que deves ter sido,
juntarias as letras pequenas, depois as palavras rasas
e saberias, oh! como saberias,
que pior do que tudo é viver rente ao tecto do mundo,
a vida por um  fio e não ter asas!


[Milu, a aranha que já foi pirata, tem a mania de vadiar por blogs alheios. um deles, onde me diz ter sido muuuito feliz, foi à esquina da tecla, no coração generoso da luisa.]

18.10.19

She can make the birds and bees




She can turn her flesh to steel
But she can't get her scars to heal

16.10.19

para o Lúcio Ferro

sem um tostão no bolso, o álcool finalmente a embalar-lhe os movimentos anestesiados, avançou para a mulher de mini-saia, encostada ao barracão da oficina. continuava a arrastar a perna direita, já não lhe doía tanto, mas ainda não conseguia dobrar o joelho. cabrão do Vesgo, atacá-lo pelas costas com um ferro das obras, como se o lugar tivesse dono. a cabeça continuava a latejar desde manhã, talvez a Nelita lhe emprestasse algum guito, tinha mesmo de lá passar. o rio cheirava mais a merda do que nos outros dias, riu-se, meteu a mão ao bolso roto e coçou as peles frouxas, infestadas de carangos. quando chegou perto da mulher mostrou o sorriso desdentado, tirou o boné roto da cabeça e fez-lhe uma vénia antes de falar, atão, princesa, és nova aqui? a mulher continuou a pintar os lábios, mirando-se no pequeno espelho redondo. ai és fina, não respondes ao Lúcio? a mulher deu meia volta e virou-lhe as costas, enquanto ajeitava o cabelo. ó princesa, anda cá, não fujas, tão jeitosa que tu és, anda cá, faz-me uma mamada, que estou cheio de fibra no pau. a mulher afasta-se em direcção ao candeeiro do outro lado da rua, os saltos dos sapatos  fazem um barulho estranho,  ele continua a coçar o sexo mole,  apetece-lhe fumar mas já não tem beatas,  a cabeça  parece que vai rebentar, puta de merda...

15.10.19

para a Linda Blue

...

e a menina dos caracóis, bailarina de palmo e meio, avançou para o centro do grande palco da vida, ignorando o suor frio que lhe descia pela coluna, com um suave demi plié começou:

azul é a mão da minha mãe, juntas a caminho da pastelaria, o calor do sol no meu rosto, o coração a transbordar de alegria, disse a menina, saltando numa bonita série de pas de chat, Mel, Mia e Molly já à sua espera, para depois rodopiar, sorrindo, em várias pirouettes:

o mar é vasto como o amor profundo que sentirei por cada um dos meus filhos, gerados do meu corpo de carne e alma, fusão estelar, continuou a menina, antes de se lançar no mais belo grand jeté:

entre o azul e o mar, o meu coração pulsando, amor eterno, elo de ligação.



Dancer, 1925 by Joan Miro


14.10.19

para o Senhor Impontual

Posto isto, o Senhor Impontual saiu da conferência absolutamente convencido de que o aspecto principal da preservação de um edifício é a sua história e não a sua beleza. Nem que para se atingir tal desiderato seja preciso ficar quieto.


O Senhor Impontual, protegido pela massa humana da rua, continua a vaguear dentro dos seus pensamentos, enquanto se distrai a observar as jovens alegres que passam. Num jogo de esquecimentos e recordações, deambula pelas mulheres bonitas que se cruzaram consigo ao longo dos anos. Todas traziam nos gestos um encantamento que o atemorizava. Temia enlouquecer, ficar marcado numa equimose sentimental incurável, humilhado na sua condição de ser medíocre e banal, terminando num desses suicidas anónimos. Talvez Ambrose tivesse razão e a beleza fosse mesmo o poder pelo qual uma mulher encantava o amante e aterrorizava o marido. O Senhor Impontual nunca permitiu que alguma delas de alojasse na sua vida, mais tempo do que o necessário para se fazer abandonar sem segundas oportunidades. Preferiu sempre considerar-se objecto de uma história de ciúmes, que as mulheres bonitas costumam inventar para chamar a atenção dos homens que realmente desejam, ou um momento de fraqueza, uma aventura fugaz para desenjoar da vida caseira. Não o magoava saber-se usado, porque controlava os danos da rejeição. Uma buzina perto resgata-o à vida e encaminha-o em direcção à  Fontana delle Tette, estremecendo com antecipada visão dos jorros ébrios. Nunca temeu uma mulher de pedra.

11.10.19

brincadeirita

repete-me o excelso leitor, grilo falante em aborrecida estridulação, que tudo o que tenho publicado nesta brincadeirita de desafio, não passa de capa de cd dos anos noventa, tocado em baile kitsch da aldeia, com rimas básicas, alternadas entre aliterações e assonâncias. quase choro, de tão apoquentada que fico, quando o leitor me vem anunciar a sua crítica divina. consumo o corpo em dores de barriga, calafrios e suores incómodos que limpo às escondidas. a raiva de não ser aceite na sagrada academia literária da blogosfera, pouso das aves maiores e raras, gaviões emplumados de vitórias, desfaz-me as fezes em catadupa na triste sanita. temendo pela minha saúde intestinal, segundo cérebro confirmado pela ciência actual, com mais neurónios embutidos nas paredes do que o original, prometi ao ortóptero deambulante que o desafio insano não se havia de repetir.

10.10.19

para a Paula

a inspiração, tal como as açucenas, volta sempre a florescer após um período de quietação 
(vem na página 987 do Manual Blogtânico)


a amizade, tal como as flores silvestres, nasce onde bem lhe apetece, sem precisar  de ordem ou razão.
(vem na página 988 do Manual Blogtânico)

um abraço ainda maior, querida Paula.

para a Maria Eu

Porque los pájaros nacidos en jaula creen que volar es una enfermedad, de más en más hay pájaros rogando porque los  metan en una jaula.

Alejandro Jodorowsky


voam em bando
os pássaros negros do teu cabelo,
mas não te digo nada para não te acordar. 
fico só olhando, 
adivinhando o rumo no bater das asas,
o crocito em coro sobrevoando o teu ventre, 
alto-ventre, 
baixo-ventre,
espero até os ver pousar.
imobilizo-me depois,
fico quieto,
na intimidade do teu quarto
respiro mais devagar.
já não sinto o dia, nem a dor,
nem o tempo, nem a voz,
apenas um sopro suave
e faço os pássaros voar.

8.10.19

para a Janita

não me venhas, amor,
falar dessa maneira,
dizer que a vida já passou por nós,
que estamos velhos e não nos fica bem,
agora é sentar o corpo cansado na cadeira
e ver os outros passar,
porque eu, amor,
quero bailar, rodar nos teus braços,
grandes como laços,
beijar-te a pele enrugada,
o tempo que me deste.
não, amor, não te deixarei sentar na cadeira,
nem que tentes,
porque eu, amor,
quero é propostas estranhas e indecentes.


7.10.19

para a ana p

o meu medo era mirrares
em melancolia sem fim,
perto de mim,
longe do princípio do mundo
onde nasceste.
murmurei-te
a mesma melodia,
dia após dia,
música mineral, rocha metamórfica,
melindrosa manifestação nasal
bilabial
e muito mais.
Pierre Magnol saberia cuidar de ti,
magnólia
monofilética,
estética harmonia em pétalas paradoxais,
hóstias pagãs,
és tu
a flor de mim.

Adam Cohen & Lana Del Rey



Chelsea Hotel No. 2

And you got away, didn't you babe,
You just turned your back on the crowd
You got away, I never once heard you say,
I need you

5.10.19

para a UJM

rompem flores das paredes,
quando das minhas mãos
são já os netos que procuram
alguma coisa para romper.
bordadas em mil cores,
carros de linhas em círculos sobre a mesa,
cata-ventos coloridos girando na janela,
crianças que riem e correm
num sábado de sol.
plumérias, rosas, lírios, jacintos,
narcisos e miosótis,
frágeis peónias, gentis amores-perfeitos,
erva-doce, alfazema, um singelo malmequer,
rompem flores de todas as paredes
na nossa casa-poema,
e do meu corpo, útero criador, rompem
dores e alegrias
e flores,
de avó, mãe e filha, mulher.


|espero que não me leve a mal não ter acatado a sua segunda sugestão, mas gostei tanto da sua proposta inicial|

para a Sónia

nos teus olhos
vi trémulos fragmentos de mim,
pedaços de sonhos, aromas púrpura
e mãos nervosas,
um mundo novo nas nossas vozes
onde uma tarde,
esquecidos no nevoeiro do rio,
aceitei o medo e mergulhei contigo.
eras belo,
refulgente como o metal das estrelas distantes,
quando se sabem observadas.
era frágil,
um murmúrio teu fez parar a minha vida.

para a Susana

- Corta o fogo! Corta o fogo, Susana!

- Não ligues, Susana. Põe mais lenha na fogueira, anda, não deixes morrer o lume. 

- Não! Susana, não acredites nele! Despacha-te! Corta o fogo, vai buscar uma manta! 

- Uma manta, Susana? A sério?! Mas que raio de ideia. Rega mas é isso com mais um pouco de gasolina, está a ficar mortiço, daqui a pouco fica frio.

- Não o ouças, Susana! Corta o fogo! Despacha-te, não fiques aí parada, está tudo a arder. Não vais deixar arder a casa toda, pois não?! Susana? Susana?!

- Vês? Grita contigo como se fosses surda, não te respeita. Mete mas é ali mais umas cavacas que agora está a arder bem. Está a ficar mais quentinho, não está? Assim toda a gente se aquece, é muito melhor.

- Susana, o que estás a fazer, Susana?? Susana, isto vai rebentar! Não vês qu'isto vai rebentar?! Tens de cortar o fogo, Susana. Não te deixes enganar por esse bicho do inferno! Vais ficar sem nada! Susana, corta o fogo!

- Não ligues, Susana, é doidinho. Anda, chega-te à frente, aquece-te aqui ao pé de mim...

3.10.19

Para o Luís e para a Alexandra

A flor é fogo?, pergunta o imberbe Jasmim, antes de atirar novamente o dado. Claro que não!, ruge-lhe Cirilo, sentado do lado direito. És um cona de sabão, não percebes um caralho de mulheres, foda-se. Jasmim envergonha-se e deixa-se ficar, é Bartolomeu quem dá o troco. E tu deves ser um braço de ferro. Cirilo franze o sobrolho. Só tocas punhetas!

Para a noname

Pedes-me que te fale do silêncio da minha noite, não sabes que passa nela um avião e um carro lá ao fundo, agora mesmo. Os cães ladram à luz intermitente de uma bicicleta solitária que atravessa o jardim devagar. Às vezes consigo ouvir a música do bar da ponte e com ela os gritos estridentes dos adolescentes bêbados. Prefiro o pio das aves nocturas e o som dos chocalhos vindos da quinta do outro lado do vale. Há no barulho humano um sabor a finitude que às vezes me assusta.
Quando o silêncio se apodera da minha noite, apenas o vento se atreve, insolente, nos canaviais junto ao rio.  As minhas mãos ficam geladas e os  meus olhos demasiado abertos, não tenho para onde fugir.

o desafio insano

e se eu lhe pedisse, amigo leitor/ amiga leitora, para me deixar 3 palavras na caixa de comentários, como estímulo ao meu cérebro indolente e madraço, que insiste há semanas em  asfixiar o blog de vez, para voltar a teclar coisa que me valha, que palavras seriam essas?

|para os tímidos, há o modo anónimo| 



27.9.19

outono

aqui em Niflheim, onde o ar é mais puro e cheira a uvas doces e a maçãs, o tempo engana-nos com o seu andar vagaroso. não conheço nenhum dos miúdos que jogam à bola no recinto da escola e já esqueci o nome de quase todos os velhos sentados nos bancos do café, mas uns e outros parecem não se incomodar com isso. uns continuam a correr e a gritar o insistente «passábola!», os outros acenam-me em silêncio a salvação. sou-lhes indiferente e isso tranquiliza-me.

maçã

Flor


Ela disse-me que foi feita a partir de uma costela do meu corpo. Isso é no mínimo duvidoso, senão mais do que isso. Eu cá não senti falta de nenhuma costela.

Os diários de Adão & Eva, Mark Twain

11.9.19

esquecidos

combinamos nas escadas interiores do prédio, onde ninguém passa, mesmo quando um dos elevadores se avaria. subir escadas é como escrever à mão, disse-me uma vez o Damas, em breve já ninguém sabe como se faz. 

10.9.19

Sem rede

Na terceira fala já me trata por tu, franqueza que não consigo, e apresenta me Kiko, um rafeiro abandonado perto há dois anos, que agora é o porteiro da propriedade. Derreto me, pois claro. Subimos depois ao miradouro e a vista está toda lá, como ele tinha dito, uma serenidade alentejana que nos acalma todas as pressas. Das colunas de som, espalhadas pela casa, a música vem dos anos setenta, em francês. Quase me rendo ao gin oferecido, mas sei que o meu lugar não é ali. Agradeço e afago o cão uma última vez. O velho Jolly Jumper, sem surpresas, espera por mim à sombra de uma oliveira. É quanto basta.

9.9.19

Glicose


Era de Taeko que vinha falar, a minha heroína, bicho-lontra canino, e de como hoje foi um fim de tarde bom, com números que emocionam, embora o perigo continue a rondar, mas depois li, não sei onde nem porquê, que alguém andava triste com os amigos, porque alguns já não o seguiam nem lhe punham gostos (...) e pensei, puta que pariu, isso deve doer.

arroz de pato

a alegria dos fracos é ver cair os outros, mas também não precisamos de ser idiotas e dar a mão à concorrência, Unlucky Blue!! nós não somos nenhum balcão de informações!

comi e calei o mau humor de Bartolomeu, ainda me falha demasiado a negação assertiva. dei-lhe a razão e não almocei mais nada.

7.9.19

Concede-me, Senhor, a coragem para modificar

um dia de cada vez,
sei agora que o mantra não serve apenas para os alcoólicos anónimos.

2.9.19

- Meus senhores, morreu Ivan Ilitch!


- Pelo amor de Jesus Cristo, deixe-me morrer em paz! - falou.

1.9.19

o lobo ferido

«Era ela a culpada. Estava tão necessitada de sexo e atenção que entendeu tudo mal. Achou que havia espaço para algo mais do que uma brutal cópula entre dois conhecidos adultos. O que lhe passou pela cabeça? Que deixaria a mulher para ficar com ela, com uma qualquer lambisgoia? Que era amor? Mas quem confunde afeto com sexo? Muito casamento feliz não tem sexo e imenso bom sexo não passa de mera expressão sexual.» 

toda a história aqui, no Absinto Muito da Marina
um blog para quem gosta de ler

29.8.19

Caliban

Discutimos,
deitamos as mãos à cabeça e tombamos no cimento.
Caímos. Quebramos. Sofremos.
Frágeis criaturas do pós-moderno.

Queria fugir para a ilha deserta, com serviço de massagens e sumos naturais. Levar livros ao quilo e plantá-los à beira-mar. Ser imortal, escrito na areia, e um gato, e um cão, e o sol.
E ser muda.
Gritar interior.
Rebentar pelo canal das lágrimas.
E haveria um comboio,
verde,
que passava todas as terças-feiras. E um foguetão,
o mesmo que vi com a minha mãe.
E os rins, cheios de creme de ovo, com o chocolate a sujar-me a cara.

E a corda a bater nas minhas mãos. E eu a chorar, imbecil, ranhosa, púbere.

Quero voltar à ilha.
Verde.
Deserta.
Eu e Caliban.
Fornicando. Fodendo. Fazendo.
Deixando o tempo passar.

O jogo do faz-de-conta

Se não te chegam as respostas que procuras, tens duas soluções, diz a raposa, ou mudas as perguntas ou mudas o interlocutor.

28.8.19

...

O apagamento integral da vida e da alma, o afastamento completo de tudo quanto é seres e gente, a noite sem memória nem ilusão, o não ter passado nem futuro.

|Fernando Pessoa, Livro do Desassossego|