15.3.19

   Milu, foi esta a graça que a Humana desaparecida me deu. 
Antes de nos conhecermos, a minha família, nas raras vezes em que nos cruzávamos nos tectos do palácio, chamava-me por via de um ou dois assobios que só a mim diziam respeito. Milu foi portanto o primeiro nome que tive e acredito que serei Milu até ao fim. Não que tenha algum dia explorado a problemática do nome próprio, como pretende a filosofia analítica da linguagem, não sou nenhum Russell, mas Milu é a minha cara.

   Nós as aranhas somos animais solitários, silenciosos, como deuses, pode dizer-se, observamos o mundo de uma altura que nos deixa naturalmente distantes e pragmáticas, insensíveis a boa parte do corrupio mamífero. Não somos animais de abraços, o nosso apego é mais direccionado ao pescoço da nossa comida. Pelos humanos, bichos imprevisíveis que passam a vida a gritar e a fazer caretas, nunca senti mais do que um leve desprezo e alguma desconfiança. Até ao dia em que conheci a Humana. Era uma manhã de sábado, tenho a certeza, ela jazia no grande tanque do submarino, perscrutando as manchas do tecto, humidade escura acumulada do vapor dos banhos, absorta, eu percorria uma das minhas malhas mais delicadas. Foi nesse momento que o olhar dela se desviou do infinito e se cravou em mim e assim ficou durante vários minutos. Achei curiosa a sua curiosidade na minha passeata vulgar e deixei-me ficar, também eu, a mirá-la, silenciosamente. Só mais tarde, enquanto cuscuvilhava o ecrã brilhante, aberto na secretária, descobri que ela me tinha dado um nome e escrevia sobre mim. A minha natureza pecilotérmica não me deixou pular de alegria, como às vezes vejo as ursas fazer, mas que senti um tremorzinho a percorrer-me as patas todas, isso senti. Como a aracne do poeta. Até suspirei.

   Por estes dias, a Humana hiberna na banalidade dos dias, palavras suas, mais silenciosa do que o costume; a outra Humana, a que já me levou no seu majestoso cacilheiro das purpurinas a pilhar tesouros e bugigangas um pouco por todo o mundo, descansa nos braços do seu amado; e a outra Humana, a que me levou pela primeira vez à esteticista, uma autêntica barbárie, encontra-se em paradeiro desconhecido; e mais ainda a outra Humana, com quem viajei pela primeira vez no comboio foguetão, não sabendo ela que eu seguia incógnita junto à sua orelha direita, que também não dá sinais de vida nem de fumo; e eu, animal agora social, tenho me entretido a passear pelos blogs amigos que conheci ao longo dos tempos. Há dias, convencida da minha invisibilidade, fui descoberta a lançar a armadilha no teclado da luisa, que me adoptou de imediato, com o sorriso mais bonito que já vi. Soube-me bem. Acho que me habituei à atenção, ganhei mais uma vida, foi o que foi. Talvez volte, e por que não?

5.1.19


não, obrigado, estou bem, nada de novo,
socorro só preciso daquele que me salvasse não sei de
quê nem como,
foi simples: mandaram-me um livro praticamente sem
dedicatória,
descobri que havia sangue nalgumas páginas,
não indicava de onde vinha nem quem o mandava ou
até se era eu o destinatário,
só o endereço e um carimbo secreto,
de que país de que cidade de que língua inexpugnável,
depois do caos e a solidão e o medo et coetera,
estou naturalmente mal obrigado,
e num extremo é sempre possível despenhar-se de
algures para nenhures,

logo se vê,
pois tinha sangue páginas afora,
pus-me então a supor que violência era aquela entre
tantas violências de sangue
que se conhecem,
e nem de uma única me lembrei, só me lembrava
que o corpo humano tem cinco litros de sangue em média,
muito
muito muito sangue com que alguém tem de se haver,
cinco litros para esbracejar ou afogar-se ou saciar,
tanto sangue para quê?
é o que acontece quando se pensa nas iluminuras das guerras,
para que se dá ou tira sangue,
e das mulheres plenas vai-se ainda extravasando tanto sangue
inútil delas,
não, não, estou bem, só que já não percebo nada, ou melhor:
estou mal, obrigado – e o sangue corre e escorre dentro
e fora,

e o tema, qual era? digo: de que tratava o livro?
não sei, era numa língua demasiado estrangeira,
provavelmente não tratava de nada,
desconfio mesmo que eram poemas em verso dito livre,
e se existe alguma lógica, dadas as circunstâncias, o que é
que se esperava?
e então exultei: porque
as coisas, as pessoas, os livros, os trajectos, as palavras, tudo
à volta,
são segredos de um segredo, e só isso os sustenta no vazio
do tempo,

e espero estar agora mesmo a escrever,
em verbo arcaico indefectível cerrado,
um êrro absoluto,
um êrro escorchado vivo: vós sois o sal da terra,
vós que escreveis e enviais cartas a cada um e a todos
– a mão do mundo, a música, as cartas derradeiras
e os sobrescritos sem destinatários


Herberto Helder, Servidões

1.1.19

que seja um 2019 radioso para todos!

01.01.19

28.12.18

Pierre Pellegrini




































o inverno
queima as feridas
de branco

27.12.18

entretanto, vamo-nos rindo das verdades embrulhadas em fake lies...
passámos então ao plano, era necessário defini-lo, fazê-lo ganhar corpo e arredondar-lhe as arestas, tinha de ser um plano tão fácil de engolir como qualquer outra mentira. Cirilo queria alterar as percentagens, argumentava que a falta de realidade, a demasia na expectativa só nos tem trazido problemas. Bartolomeu contrapunha, não pode ser, sem expectativas, não passamos de um bando de fazedores até ao dia em que não encontrarmos nada mais para fazer. temos de criar as oportunidades, mais do que apenas esperar por elas. o resto do bando permanecia calado. Petra e Tristan já não acreditam no sucesso do grupo, mas são incapazes de o abandonar. Jasmin é demasiado novo para se preocupar com o futuro. Sophia já raramente aparece. todos sabemos que o novo ano que se aproxima é um ano decisivo, uns esperam finalmente a morte e a ressurreição, longe deste lugar, outros, doentes talvez, ainda acreditam que a sorte virá montada num javali.
houve tempos em que igual golpe seria capaz de me irritar o suficiente para procurar o confronto e a explicação. hoje causa-me, para além do espanto inicial, algum aborrecimento de que cuidarei prontamente, desviando a atenção para outro lado. o desinteresse pode ser um bálsamo, é a estima que nos enfraquece.
não passam de faits divers para entreter ingénuos e distraídos.

24.12.18

sei agora quão distante me encontro daquela que sentia ódio pelo natal, desde o momento em que as primeiras luzes eram colocadas nos postes. só se consegue odiar aquele que já nos teve, aquele a quem estivemos ligados, para quem olhámos em algum momento. o natal era a altura em que cada fractura exposta do seu corpo parecia rasgar todo o meu corpo. como suportar o amarrotar dos sacos cheios de lixo, inutilidades de plástico, o riso incontrolável das crianças, o absurdo de celebrar? um ódio tão profundo ao natal, escondido em pequenos massacres que não conseguiam apaziguar a dor de estarmos sós. e vivos. e a raiva de haver gente. 
agora, finalmente, há apenas indiferença e silêncio. ainda não sei se ganhei ou se perdi. é assim que tudo termina. 

13.12.18

— fechàporta, urso!, e aplica-lhe um calduço sonoro. o outro foge, — porra, pá, que m'aleijaste! és doido?! — atão mas já vamos embora, tão cedo?, e olha para mim. 
encolho os ombros — tenho os pés gelados.
Isto de ser moderno é como ser elegante: não é uma maneira de vestir mas sim uma maneira de ser. Ser moderno não é fazer a caligrafia moderna, é ser o legítimo descobridor da novidade.

José de Almada Negreiros, conferência O Desenho, Madrid 1927
Gulbenkian
|que bando de pândegos, os Orpheu: "Ó automóveis apinhados de pândegos e de putas"|


vale mais um beijo na boca do que toda as histórias de encantar.
Milu




Milu, a aranha que tecia as minhas memórias no tecto do submarino em tempos idos, veio ter comigo à cozinha. arrastava debaixo das patitas arqueadas dois grandes pêlos caninos, resultado dos múltiplos pinotes, sôfregos por lambeduras, das ursas pardas. que contentamento foi, confesso, ver a pequena atravessar o grande deserto sob a mesa de pedra mármore. parei o exercício da vassoura e sentei-me à conversa com ela. Milu pareceu-me em excelente forma, redondinha, alimentada na penumbra das infinitas divisões do palácio. sem receio do telemóvel que lhe apontei ao traseiro para registar a imagem, Milu deixou-se ficar quieta, vaidosa da boa pose. e o que era feito de mim, perguntou-me em feixes de ondas telepáticas, que já não escrevia nada, nem sobre ela, nem sobre coisa nenhuma. e que sei eu, Milu, se a vida me escorre por entre os dedos, rotos de cansaço, e as palavras se findam na lamúria dos dias difíceis. tu bem sabes, querida Milu, que me enfastio de mim em demasia. 

mas Milu não é bicho para se deixar apiedar pela conversa tremelicada do costume e em aparente desagrado retoma a marcha ligeira, abeirando-se da catacumbas do frigorífico fantasma. não fosse Milu e a sua forma prática de se fazer ao chão da vida e ainda não teria sido hoje o dia em que aqui voltaria, obrigando-me a saber de mim.

13.11.18

é uma vontade de desistir, sim, desistir sem explicações, acabou, fui, não dá mais, mas não te preocupes, que não tenciono matar-me, e eu lá teria coragem para tanto, já me conheces, sou das que mirram, das que fogem, não, nada de dramas, era desaparecer da cidade, desta gente toda igual, falando merda, vendendo merda, parecendo merda, sendo merda; estou farta, sim, farta de andar todos os dias o mesmo caminho que não me leva a lado nenhum, apenas cimento e contas e imperativos, e eu nada, sem respostas, sem merda nenhuma, eu quero é o campo, o campo aberto, o mato, as ervas altas, a lama, o vento, os pássaros, os bichos todos e os livros, sim, os livros, pequenos livros de contos e de poesia, pouco mais, e quando os livros não forem fogo e mel, abandono-os ao pó, visto o casaco azul, calço as botas velhas e desço a ladeira com os cães. não tenho filhos, findarei em mim, louca, calcorreando os montes, sorrindo aos rebanhos, voando no voo do falcão, longe, à procura da minha mãe.
Preciso Me Encontrar



Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir pra não chorar
...

8.11.18


Nature Morte, 1931
sempre que vou abastecer Jolly Jumper de fardos de palha, peço ao homem simpático que me venda apenas o combustível e fique com o imposto. ele ri-se, mas eu insisto: a sério, já tentei, mas Jolly Jumper é um equídeo esquisito, não há meio de digerir essa porra. não sei se o expele em valentes bufas esverdeadas, mas galopar com isso é que ele não galopa, nem a trote, quanto mais. ora isto assim é uma estragação, mais de metade da palha que lhe estou a comprar não serve sequer para fazer esterco. um bocadinho até concordo, que é preciso ajudar a malta, mas assim, caramba!, é um assalto à mão armada! o homem, ainda de pistola na mão ri-se, mas olhe que não sou eu! diz que tem que atestar sempre primeiro com o imposto e só depois a palha. são ordens. mas você não vê que o bicho já está velho, a quinta ainda não dá quase nada e isto assim é morte certa, apelo-lhe ao coração. encolhe os ombros e responde-me baixinho: é tudo uma cambada de ladrões, fazer o quê? isto só lá ia com gente nova, mas a gente nova quando lá chega fica igual. é o mecanismo a girar, não tem fim, é uma coisa infinita. É um modo de funcionamento que se auto-alimenta, e expele, cospe o que não faz parte dele. O mecanismo está em tudo. Do governo federal ao seu João. No macro e no micro. É um padrão.



“Os combustíveis estão sobrecarregados há muitos anos. Mas de 60% do preço dos combustíveis são impostos. Um litro de gasóleo custa menos de 40 cêntimos, tudo o resto são impostos, ISP e IVA”

|29.10.2018|

5.11.18

«Aqueles pobre Monstros viviam em abrigos e cabanas, que estavam sempre cheias de lixo e cheiravam mal, porque tão simplesmente lhe faltava o jeito para os manter em ordem.»

A Fenda, Doris Lessing

[os Monstros, logicamente, são os homens, mais tarde apelidados de Esguichos]


 «Cada mulher tem em si a capacidade de ser quem cuida da casa.»

Padre José Rafael Espírito Santo, Opus Dei

1.11.18

enquanto vou recolhendo as fardas secas do estendal, lembro a história de cada uma delas. são as mais antigas que mais me emocionam. de um tecido barato e reles, foram compradas numa dessas lojas de origem espanhola numa altura em que eu tinha pouco dinheiro, pouquíssimo, se quisermos ser mais apurados. não que a situação se tenha invertido o suficiente que desejo para a minha estabilidade  financeira, mas, dentro das lojas de fast fashion, consegui subir um degrauzinho na qualidade. eu sabia que matar Vendredi me iria debilitar as posses económicas, as quais desde sempre defini como a base de sustentação da minha independência. mas, contrariamente aos que me julgam uma capitalista sanguinária, o dinheiro nunca foi o objectivo, antes a ferramenta. a farda velha, que ainda uso, sem que por isso me sinta constrangida, lembra-me do quanto lutei para chegar aqui de pé. felizmente, nunca me assustou não ter croissants, que adoro, o único receio é deixar de ter pão. enquanto isso, sobrevivo de cabeça mais limpa. 
por mais repulsa que lhes sinta - e sinto tanta! -, todas as manhãs em que me dirijo ao barracão, já sem nenhum espécime viscoso à vista, tento imaginar o rastejante cortejo na sua lenta debandada para o covil. a que horas começarão elas a deixar de engolir a comida seca dos gatos - ver uma lesma com uma bola dentro da boca é o expoente máximo da minha náusea - e darão meia volta iniciando o rastejo de regresso? presumo que o momento seja calculado com base no crescendo de luminosidade, mas a verdade é que, enquanto não dedicar uma das minhas noites à experiência, nunca o saberei. embora a curiosidade se tenha agarrado a mim com uma lapa, temo não ter sangue-frio suficiente para resistir à imagem de tanta viscosidade junta. 
não pensem mal de mim, não alimento este preconceito sem alguma mágoa, não esqueço que somos todos oriundos da mesma mãe natureza e já tentei por várias vezes ultrapassar este asco observando a mesma lesma durante muitos segundos, mas há algo demasiado entranhado no meu cérebro, quem sabe memórias ancestrais de lesmas pré-históricas do tamanho de dinossauros, que não me deixa superar este nojo continuo e profundo. 
as lesmas são o meu limite em termos de tolerância à viscosidade animal, mas também abomino os caracóis - só de pensar em comê-los, sinto um refluxo gástrico potente - e as minhocas. este problema com os invertebrados existe desde que me conheço. talvez a coisa, obscura, aceito, se curasse com algumas sessões de hipnoterapia, mas suspeito que uma vez aberta a caixa de pandora a minha repulsa doentia às lesmas seria um dos meus menores problemas, ainda assim gigante.
às vezes, quando vejo as lesmas pequenas, apelo ao meu instinto maternal, o mesmo que me faz enternecer quando vejo uma família de osgas com as suas osguinhas pequeninas, e chego a ter vergonha da minha frieza. também não gosto das lesminhas...

29.10.18

e tu, flor, o que fazes numa noite fria e chuvosa de segunda feira? pintas as unhas como a outra senhora na assembleia? vês netflix? passas a ferro os pijaminhas e as meinhas de lã?

....

aprendo a caçar lesmas no google.
não posso mais com esta praga de invertebrados hermafroditas viscosos! está me a dar cabo dos nervos!!
Sophia continua de cara fechada, justificando-se com a constipação que lhe ataca especialmente o nariz. sei que não será apenas isso, mas aceito a fuga. gosto de Sophia talvez como se gosta de uma irmã mais nova, falta-me às vezes a paciência para o seu mau-humor, mas continuo presente, por vontade, na sua vida escassa de contacto social. durante muito tempo, revia-me em Sophia, no seu comportamento destrutivo, na sua busca desesperada por afecto. a falta de um pai transformou-nos em mulheres amargas. a diferença entre nós, sei-o agora, é que aos mortos tudo se perdoa mais depressa.
Escritora inglesa, nasceu em 1919, no Irão, mudando-se, aos cinco anos de idade, para o Zimbabwe. 

daqui

Doris Lessing, é por ela que ando apaixonada, leio-lhe A Fenda, uma 'comunidade pré-histórica é exclusivamente consistida por mulheres, que não conhecem homens nem deles têm necessidades'.

Fendas&Monstros

27.10.18

componho a loiça que seca no pequeno escorredor da copa, /encaixar as chávenas molhadas umas nas outras não é a melhor ideia/, inclinando-a, para que seque mais rapidamente e agradeço a Cirilo pelo trabalho feito. Cirilo, à sua maneira, sem hábitos do(e) género instituídos, bem pelo contrário, tem lavado a loiça toda amiúde, e não apenas a sua, como compete a cada um no bando.

moral da história: não é com vinagre que se apanham moscas ou de como as pequenas coisas mudam o mundo ou ainda de como todos gostamos de uma palavra de incentivo
talvez o vento que despenteia as árvores do jardim tenha descido pelo cano do exaustor e depois atravessado o tecto falso, não sei, nem me dei ao trabalho de confirmar. o som, delicado e continuo, lembrou-me o repique dos sinos, sinos de cristal, copos que não parti, nem dei, mas que não uso. não deixa de ser irónico - e tão irónica tem sido a vida, meus caros -, que agora me comova com a música singela dentro do armário, quando há muito me desfiz de quase tudo o que não uso, porque a beleza da vida sempre a percebi nas coisas vivas. digo mais, tantas das coisas que tinha as tinha apenas para estar em sociedade, calar bocas demasiado insistentes, não destoar do padrão. pois então, se dei uso aos belíssimos vista alegre, pintados de cidades, para que os gatos comessem a ração, se deitei a uso corrente pequenas colheres de prata para que desconhecidos mexessem o café, que sentimento é este de me sentir emocionada ao simples toque de alguns copos de cristal?