18.6.19

As nuvens correm baixas, cobrindo a luz da lua. A noite está prenhe de chuva e eu continuo sentada, em silêncio, à espera. Sei que já passaram perto, conheço o ladrar dos cães das quintas em volta. Cada estalar de uma cana deixa-me em sobressalto. Não muito longe, ouvem-se os chocalhos de um rebanho e o ar ameniza.

17.6.19

Hoje montamos guarda mais cedo. Os bichos virão, velozes e sem medo, pequenos rinocerontes da serra, levando as cadelas ao ladrar enfurecido e ao disparo do meu coração. Há adrenalina no medo aos bichos da noite. Ao pisar do restolho, uma cana partida, o piar dos mochos, os nossos olhos prescrutam, tentando encontrá-los na penumbra do vale. A lua, que agora se levanta, redonda, confunde-nos ainda mais as cores. Mas eles virão.
ela apresentou-me um Candido Portinari com cheiro a café e negros com pés de gigante. o capataz calçava botas com esporas de prata, uma mulher descansava no chão, todos de figura cheia, mas foi o Portinari da mulher com lágrimas de pedra, ossos descarnados, carregando a criança morta como numa prece a deus, que mais me impressionou. quanta miséria a daquela gente da terra.
o Brasil é um país muito ambivalente, mesmo, ela rematou. 
e não somos todos?
o suicídio idealizado de Maximilien
























As benevolentes, Jonathan Littell, Dom Quixote



é a morte anunciada do soldado de Boris.



XV
Continuo de pé em cima da mina. Tínhamos partido esta manhã em patrulha e eu ia em último como de costume, todos passaram ao lado, mas eu senti o clique debaixo do pé e parei logo. Elas só rebentam quando se tira o pé. Atirei para os outros o que trazia nos bolsos e disse-lhes para se irem embora. Estou sozinho. Devia esperar que eles voltem, mas disse-lhes que não voltassem. Podia tentar atirar-me de barriga para o chão, mas teria horror a viver sem pernas. Fiquei apenas com o meu bloco e o lápis. Vou atirá-los para longe antes de mudar o peso para a outra perna, é que tenho mesmo que o fazer porque estou farto da guerra e estou a sentir um formigueiro.

As Formigas, Boris Vian, Relógio D'Água

14.6.19

Vargas Llosa, o erótico*, tem um lugar especial na minha cama. Os Cadernos de Don Rigoberto, mas também Cinco Esquinas, são noites escaldantes, vinho branco e muita carne chupada por mosquitos sequiosos. o eterno prazer, que se expande pelo corpo liquidificando-o, nasce sempre na ideia.



|*o erotismo, diz Vargas Llosa na Folha de S. Paulo, em 1997,


...exige um certo padrão estético, um nível de criatividade elevado, uma certa cultura. Não há erotismo sem cultura. O erotismo é incompatível com a ignorância, com a vida primitiva. Requer um grau de refinamento elevado e requer, além disso, uma certa espiritualidade investida na ação amorosa.

Não se trata somente de satisfazer uma necessidade física. Trata-se também de realizar um certo ato de tipo espiritual.


daqui
Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista
e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas,
sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião,
um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas
é capaz de sacudir as moscas;
um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem,
nem onde está,
nem para onde vai;
um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional, reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta.

Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula,
não descriminando já o bem do mal,
sem palavras,
sem vergonha,
sem carácter,
havendo homens que,
honrados na vida íntima, descambam na vida pública em pantomineiros e sevandijas,
capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira à falsificação, da violência ao roubo, donde provém que na política portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos, absolutamente inverosímeis no Limoeiro (ou na Cancela).

Um poder legislativo,
esfregão de cozinha do executivo;
este criado de quarto do moderador;
e este, finalmente, tornado absoluto pela abdicação unânime do País.
A justiça ao arbítrio da Política, torcendo-lhe a vara ao ponto de fazer dela saca-rolhas.
Dois partidos [cinco, afirmo eu] sem ideias,
sem planos,
sem convicções,
incapazes,
vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido,
análogos nas palavras,
idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero,
e não e malgando e fundindo,
apesar disso,
pela razão que alguém deu no parlamento,
de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar.


Guerra Junqueiro, Pátria (1896)


|interessante, também, será ler este artigo na Caliban, Guerra Junqueiro, o mais ilustre dos ignorados|

7.6.19

Mi fruto, mi flor,
mi historia de amor,

Rocío Montoya