22.9.18

pois muito bem, lançado o repto do Ouriquense e seguindo a genial Tetisq, não posso deixar a oportunidade de penizar este blog fraquinho e murcho.

ergam-se os falos dos anjos, porque o do diabo já cá está.

 Robert Mapplethorpe

derramam gozo, em carne madura, pingando fios de mel, translúcidas gotas que adornam o orifício sagrado.

16.9.18

Amar? 
Para quê? 
Por um tempo, não vale a pena. 
E, para sempre, é impossível. 


/Alexander Pushkin/

14.9.18

fez o ninho nas minhas coxas, onde se enroscou de azul estrelado e toda a noite me aqueceu. acordei com ele bicando-me os figos maduros.

13.9.18

só me dou conta da estupidez do que digo, /até pedi um desejo/, quando Damas se ri de mim. o que inicialmente acreditei ser uma estrela cadente, mas logo percebi que um rasto de luz que se transforma numa bola de fogo tem de ser coisa diferente, será tão somente lixo espacial. 

12.9.18

Só quero um sítio onde pousar a cabeça.

Nagib El Desouky

11.9.18

deste vez fui sozinha, Cirilo nem se atreveu a questionar a minha decisão. atravessei a cidade com Jolly Jumper a pedir um fardo de palha, mas com boa-vontade e o freio a meio gás lá se aguentou até ao estábulo mais perto. a pé desde cedo e de estômago vazio, ainda parei num salon desses da moda, onde filas intermináveis de turistas provam as iguarias mais típicas de lisboa, e debiquei junto deles um pastelinho com bica a correr. atravessei umas quantas ruas, galguei alguns degraus e virei a esquina. a toca do velhaco estava mesmo ali em frente, com vista para a praça. tinha pressa em resolver a questão, por isso avancei o mais rápido que pude, quase arrastando o casalinho de franceses apaixonados por uma vespa verde tropa, estacionada no passeio. pardon, i'm sorry, já se arredavam, não? 
sabia exactamente cada palavra que ia dizer, por onde começar, como demonstrar o que tinha de ser, encostá-lo à parede com a realidade certeira. sentia-me confiante da vitória. o azul escuro dava-me um ar profissional, estava com boa cara, o cabelo arrebitado num rabo de cavalo perfeito, a sobrancelha, à linha, devidamente arqueada, o sorriso no ponto certo. vamos lá então, envergonhar aquele cara de cu e obrigá-lo a puxar da carteira.
não foram precisos nem trinta segundos a caminhar pela praça, para sentir o sabor amargo da derrota. uma nesga da janela rasteira e um papel torto onde alguém tinha escrito: Fechados para férias até 24/09... ¡cabrón!... 

10.9.18

Atirávamos pedras
à água para o silêncio vir à tona. 

 Luís Miguel Nava

8.9.18

da conversa entre Mariana Oliveira e Isabel Lucas, no paraíso perdido de ontem, na antena 3, ficou-me esta frase [que hoje recupero no rtp play]:

-- achas que este ódio à poesia tem a ver com essa nossa aversão a tudo o que não seja imediatamente claro ou perceptível?
Scarlett já não está entre nós, levou guia de marcha, au revoir, passar bem e não voltar, se faz favor. a jovem, cheirosa e sorridente, que enganou o bando inteiro - menos um, bem decerto - desde o primeiro momento, era movida por um desejo exacerbado de ter marcas de luxo, - era vê-la no Corte Inglês pendurada nas amostras! - e fotografias à sua pessoa. uma realidade disfarçada de muita zara devidamente combinada com primark e cheirinhos a feira tradicional. o luxo provinciano - michael kors ao ombro - usava-o ela nos apontamentos, assim nos explicava. nada disto seria importante, muito menos problemático ou motivo de chuto certeiro no nalgueiral pelos restantes membros do bando, pessoal mais parco em estilo e visão, verdade seja dita, se Scarlett guardasse para si as suas sincronias estéticas, futilidades pacíficas de quem sonha ser na vida uma influencer de sucesso. mas guardar não era verbo para Scarlett, que o que mais queria - repetia vezes sem conta - era ser rica e casar - ou vice-versa - com o seu Rodrigo, ter dois filhos, um casalinho, tudo, obviamente, num estilo fantástico para instagramar.
gramar tentámos nós, durante algum tempo, enquanto mastigávamos a pastilha de mentol com força, não queríamos parecer fora de moda, old-fashioned group, ou lá como se diz, até que a bolha rebentou. queixou-se a cachopa de tendinite, foi-se a ver aquilo e descobriu-se um caso grave - crónico, infelizmente - de simples preguicite (aguda, claro está).

6.9.18


It is almost axiomatic that the worst trains take you through magical places.

relincham alto como potros ainda sem cabresto, cheirando nada mais do que a liberdade do momento e a vontade de coicear. pondero assobiar-lhes em riste, para que se calem, ou pelo menos baixem as vozes acnosas, mas manieto a insatisfação. olho-os uma última vez, antes de me recolher ao silêncio mordido que já não me satisfaz. soubesse outrora deste maldito porvir.
enquanto me esvaio em sangue e desvaneço dentro de uma dor de cabeça velhaca e persistente, Pepetela entretém-me, contando um pouco mais da parábola do cágado velho:

A explosão fez toldar o azul do céu, mas o rosto melancólico de Munakazi ficou pregado nele. Morri e vejo o céu e vejo Munakazi. Estranha morte. Não ouvia tiros, nem gritos, nem explosões, então a morte é isso, esse silêncio num céu brilhante, esse parar da vida como naquele instante da tarde, como agora que era meio da tarde, em que tudo fica extático e ele em cima do morro olhando o seu mundo. O silêncio persistia, o rosto de Munakazi se apagou, ficou apenas o céu azul. Mas havia uma coisa na morte que era diferente dos outros meios da tarde, não sentia angústia. 
Foi quando percebeu que tremia de medo. Afinal não estava morto. Impossível parar o tremor, ficou muito tempo na mesma posição, placado no solo, de olhos abertos, vivendo o seu medo e a frustração de com o medo estar vivo. Então decidiu, Munakazi tem de ser minha.


|lentamente, não se impondo, falando apenas, Pepetela vai-me levando para onde ainda há pouco pensava não querer ir.|

5.9.18

[tenho me deitado com Antonio Gamoneda nestas últimas noites]

voltando à tradução, refastelo-me nas palavras de Pablo Javier Pérez López, na enfermaria do meu coração:

A arte de traduzir é, simplesmente, uma das mais elevadas e secretas. Poucos humanos conseguem levar poemas para uma outra língua com essa estranha e árdua fidelidade que reproduz a ebriedade, o ritmo, e o pensar cosido à música da vida da qual nasce o poema. Mais difícil ainda frente ao sentir popular, é fazer viajar a poesia para uma língua aparentemente familiar ou próxima. Mudar, verbo escolhido por Helberto Helder para este facto sagrado que sempre convoca a apropriação de outra voz e a recriação oral e escrita do poema, um verbo que, Gamoneda aceitou e recebeu com gosto. Sempre tem que ser um poeta a mudar a voz de outro poeta e sempre que isto acontece nota-se logo a partir do início da leitura.


|que gozo me dão as edições bilingues|

2.9.18

e já submersa, viajando à velocidade da ponta dos dedos no ecrã, encontro o texto de miss smile, que me encanta, depois o do xilre, e deixo me ficar, contente por conseguir manter as mãos fora de água e os olhos abertos :b

|a blogosfera em bom|
e já que estou com as mãos na massa e os dedos no gatilho, aproveito para deixar mais uma semente, antes de descalçar as botas sujas de terra e mergulhar no submarino marsupial. 

«Traduzir Solaris é um desafio, porquanto a narrativa urdida neste romance ultrapassa as fronteiras da realidade conhecida e ficcionada, construindo um mundo desconhecido, completamente imaginado e povoado de fenómenos nunca dantes concebidos. Neste caso, a tarefa do tradutor estende-se a um espaço onde o visionamento destes fenómenos é a condição necessária para que não se percam as representações visuais das entidades inventadas, nem o estilo literário que, oscilando entre uma linguagem técnica, filosófica e poética, avulta em criatividade linguistica e neologismos. São exemplo disso os sugestivos nomes das entidades que habitam o planeta Solaris: «mimóides», «longóides», «cogumelões», «simetríadas», «dendromontanhas», etc. Por conseguinte, a tarefa repartiu-se entre dar a ver o mundo representado neste romance de ficção científica e, simultaneamente, dar a ouvir a voz do autor e o seu modo de expressão»

/Nota à presente tradução, Teresa Fernandes Swiatkiewicz, in Solaris/


sempre me encantou a busca por este eterno equilíbrio entre a transposição e a criação. a vontade de mostrar o outro, num acto de abnegação à nossa própria existência, tentando transportá-lo o mais puro possível, |como, santo deus, se mesmo ele próprio já é polissemia?|, permanecendo nós na sombra das palavras. saber do poder e rondá-lo sem lhe tocar o nervo, uma pouco mais do que a pele.
é das poucas vontades que ainda hoje me permanecem: por que diabos não escolhi teoria da tradução?
encantadora rata, a Josefina de Kafka, de sorriso insolente, pretensiosa, inflamada de raiva pela falta de reconhecimento, como qualquer artista que se preze, no limbo entre o mero assobio ou algo maior (assim é a arte, dizem)....


«É nessas escassas pausas entre batalhas que o povo sonha, é como se os membros de cada qual se soltassem, como se a ansiedade tivesse por uma vez direito a distender-se e esticar-se à vontade na cama grande e quente do povo. E nesse sonho ouve-se aqui e ali o som do assobio da Josefina; ela chama-lhe pérola, nós chamamos-lhe chumbo; mas de qualquer das formas, ele encontra aqui o seu lugar como em nenhum outro sítio, aqui encontra a música o momento que por ela esperava, e isto é raro acontecer. Há nisto qualquer coisa da nossa pobre e tão breve infância, de uma felicidade perdida que nunca poderá voltar a ser encontrada, mas há também qualquer coisa da vida activa, do dia a dia, da sua pequena, incompreensível e apesar disso subsistente e irreprimível alegria. E tudo isto é dito com sinceridade, sem grandes sons, antes com leveza, sussurrado, uma confidência por vezes um pouco rouca. Claro que é um assobio. Como poderia ser outra coisa? O assobio é a língua do nosso povo, só que há quem assobie a vida inteira sem o saber, enquanto que aqui o assobio está livre dos constrangimentos da vida quotidiana e pode também libertar-nos a nós por um breve momento. Assim sendo, é óbvio que não queríamos perder este espectáculo.»

/Josefina, a Cantora ou o Povo dos Ratos, de Kafka/



acompanhei a novela de Josefina ora no Artista de bolso, ora no Bestiário (confesso a minha predilecção por bestiários). na rua ou em casa, a rata de Kafka, a mesma que os três magníficos (Borges, Bioy e Ocampo) já tinham escolhido para figurar na sua Antologia da Literatura Fantástica, acompanhou-me durante alguns dias na minha insossa vida de rato. no fim, foi-se a Josefina, ficou-me/nos, felizmente, (o) Kafka, que pouco tempo morreu de tuberculose laríngea |talvez daí um artista da fome...| 



__ o que ela ambiciona é então apenas o reconhecimento público da sua arte, um reconhecimento unânime, que perdure pelo tempo, que ultrapasse tudo o que até agora se conhece. 

30.8.18

 Jan Erik Waider


Caminho sem pés e sem sonhos 
só com a respiração e a cadência 
da muda passagem dos sopros 
caminho como um remo que se afunda. 

os redemoinhos sorvem as nuvens e os peixes 
para que a elevação e a profundidade se conjuguem. 
avanço sem jugo e ando longe 

de caminhar sobre as águas do céu


Daniel Faria |1998|

28.8.18

e então eu perguntei, posso ir para casa, jardinar de pijama polar, debicar uvas com scones e marmelada?... é que me apetece tanto... e tenho frio, só com este casaquinho de sem jeito nenhum... aproveitava para pôr roupa a lavar, mudava os lençóis da cama... adiantava o projecto da estufa!, fazia festas aos borregos, escovava as pretinhas... oh pá! era tão fixe!! posso?...


e eles, o bando inteiro, para que não houvesse dúvidas, semicerraram os olhos metálicos, encresparam as frontes e ergueram-se a mim respondendo:


Eugenia Loli

27.8.18


























– Pois não será nem um camelo, muito menos um dromedário! A Princesa há-de passear-se pelos jardins do deserto montada na corcunda de uma cabra coroada de chifres, igualmente alva e delgada, com rabo em largas plumas.


de todos os entra-e-sai do prédio, ups, dhl e uber eats incluídos, calhou-me fazer amizade com o carteiro provisório deste mês. tudo começou com um siga da emel, dois euros e quarenta e seis cêntimos trocados e a oferta de um cafézinho. a coisa deu-se de forma simples, como se dão todas as coisas de valor. da conversa de circunstância, aproveitou-se o tempo para falar de tudo o que no momento nos apeteceu, a filhaputice da emel e a sua aplicação merdosa, tantas vezes avariada, o tempo, que no dia, abrasava com um caldeirão do diabo, as férias que ainda não gozámos, as chávenas do café com rosinhas pintadas, oferta (pirosinha) da minha querida mãe, as horas que damos a mais ao trabalho, porque temos amor à camisola, e isso é que importa, e por aí terminámos. hoje voltei a encontrá-lo no rés-do-chão, segurei-lhe a porta do elevador, inquiri-lhe da correspondência, avisando de antemão que não recebo contas à segunda. rimos os dois, reconvidei-o para mais um cafézinho, por cá há-de passar mais tarde. e é ao teclar esta meia dúzia de frases sem grande importância, que me lembro daquela vez em que a tia Lurditas, em tom de evidente desagrado, avisou a minha mãe que muito eu gostava de dar conversa aos serviçais, eu, que tinha tantos estudos! pobre tia Lurditas, de cabelos pintados e mamas volumosas - como lhas invejava, caramba -, vivia convencida que pertencia a uma casta superior, porque tinha sido secretária de administração durante algum tempo. ainda vive. deus lhe dê muita saúde. calculo que não bebesse cafézinhos com qualquer um...
beatas, centenas delas, espalhadas pela rua inteira. ainda tentei uma formação on job, perceber qual a melhor técnica de cantoneiro, a inclinação certa da pá, a posição mais adequada à vassoura, mas não havia ninguém a quem perguntar. era eu e elas, pontas redondas, mais ou menos terminadas, algumas brancas, a maioria já pisada. apanhar beatas é como um daqueles jogos básicos de computador dos anos noventa, percebemos que é sempre igual, mas não o conseguimos largar. não foi preciso muito para descobrir que estava viciada naquilo. Comecei por alargar o perímetro das buscas, insistia até nas mais difíceis, presas em sulcos de terra ou nos buracos do passeio, tudo isso enquanto ia pensando na vida, sossegada. embora o objectivo principal fosse apenas o de limpar o lixo maior, não parei enquanto não cheguei à curva do quarteirão sem uma ponta que se visse. está bom!, gritou-me lá do fundo o responsável. fosse assim tão fácil limpar o lixo da cabeça.

26.8.18

um dia teremos de chamar a polícia, digo-lhe ainda outra vez, forçando uma resposta que me ampare. Tristan suspira, de rosto voltado para a lua, tão prenhe lá em cima. ouve, Tristan, eu também não quero problemas com ninguém, mas é impossível manter os animais nestas condições, sabes que o barulho os deixa agitados. não vale a pena continuar, Tristan não me ouve, acha que é cedo demais para fazer a queixa. descalça, magoo os pés no caminho de brita, enquanto tento chegar a casa. a algazarra do grupo não me deixará descansar nas próximas horas, tão-pouco o grunhido que chega do curral, mas, quem sabe, talvez também eu me aninhe na cobardia da inacção e deixe a vida correr assim. se ao menos chovesse...

24.8.18

ao poeta

coisas da vida, dir-me-ia o leitor, se ainda por aqui passasse, isso de ouvir outra vez o poeta, num tiro de sorte à sua Caligrafia Ardente, falar-me da flor que se abre na boca dos suicidas. nesta surpresa de poder olhá-lo ali tão perto, a pele salgada em gotas, estendo-lhe as mãos às palavras, abro a boca em beijo, morro e renasço, enquanto a sua língua se enterra em mim.



o canto da velha toupeira
ondulante entre o diálogo dos mortos
na cinza das pátrias destruídas
em troca de uma estrela __e outra estrela
até à constelação chamada sempre a idade de ouro
e ilha da reunião de todos os desejos
e do amor único e louco
até à grande maravilha do princípio
das mil e uma noites sem fim
numa nuvem de sangue muito doce
erguida à altura da paixão dos olhos
perdidos no infinito


/Uma Faca nos Dentes - Antígona/

13.8.18

Wild, wild horses we'll ride them some day

28.5.18

na literatura, como na vida,
na vida, como nos blogs.

Tem de se retirar algum prazer deste trabalho, e é isso. Andar por aí disfarçado. Representar um papel. Fazermo-nos passar por algo que não somos. Fingir.

Philip Roth

27.5.18

Lo que me gusta de tu cuerpo 
es el sexo. 
Lo que me gusta de tu sexo 
es la boca. 
Lo que me gusta de tu boca 
es la lengua. 
Lo que me gusta de tu lengua 
es la palabra.
Fabrizia Milia

26.5.18




Se alguém me perguntasse por um livro, falar-lhe-ia d' O Livro de Emma Reys, que a Alexandra me apresentou no seu blog Mais Mulheres Por Favor

Um livro de memórias, contruido a partir da correspondência que trocou com Germán Arciniegas (Gabriel Garcia Marquez também entra nesta história). Aqui encontrei mais algumas referências acerca de  Emma: «Luis Caballero escribió: “Hay pintores míticos, de leyenda. De los que se habla en torno a quienes se tejen y destejen anécdotas, pero cuya pintura se ignora. Emma es uno de ellos. Su enorme personalidad impide que se vea su obra para desventura de quienes aman la pintura. La leyenda de Emma se ha elaborado a partir de su propia vida a pesar de su obra; es por eso tal vez que su obra es ignorada”. Germán Arciniegas decía: “Ella no pinta con aceite sino con lágrimas”.»


Por isso, mais uma vez, obrigada, Alexandra, que, de uma forma assertiva, inteligente e graciosa, partilhas as tuas descobertas profundamente humanas e com a singularidade do feminino. Não sendo apologista da dicotomia, sou totalmente a favor de mais mulheres, por favor!


«Todas as crianças do bairro passavam o dia ali, a brincar, a gritar e a rebolar numa montanha de barro, insultando-se e brigando umas com as outras, chafurdando nas poças de lama e esgaravatando o lixo com as mãos à procura daquilo a que chamávamos tesouros: latas de conserva para fazermos música, sapatos velhos, pedaços de arame, de borracha, paus, vestidos velhos; tudo nos interessava, era o nosso quarto de brinquedos.»


Untitled (1989)

como não, se logo na capa Ana Hatherly me acenava e o tom de tijolo me trazia um agosto de barro e espigas. peguei-lhe com cuidado, tinha o Mar grafado no título da primeira história, mas Pavese menino corria pelos campos e pelas encostas áridas do monte em frente, procurando víboras com Pale. Porque é que não respondes quando te chamam?, pergunta Pavese menino a Pale, que apanhava com frequência da mãe por não responder sempre que ela gritava pelo seu nome. Pale trouxe-me à memoria o João menino, que só não apanhava porque a mãe era a mulher mais bondosa da rua. os meus irmãos diziam que ele não respondia para mostrar aos outros rapazes que ninguém mandava nele, fazia o que lhe apetecia e só ia para casa às horas que lhe dava na telha. talvez, talvez João e Pale fossem pequenos rebeldes para quem a vida seria sempre palmilhada no fio da navalha e, ou se apanhava a víbora sibilando devagarinho, ou se descia a encosta, numa corrida sem tréguas, fugindo ao nosso próprio nome, mas eu sempre achei que o problema do João era a sua timidez disfarçada, um medo de não saber o que dizer, por se sentir tão diferente dos outros.

/Férias de Agosto, Cesare Pavese/

20.5.18

foi Bartolomeu quem tocou no assunto. sempre pensei que seria Cirilo, com o seu jeito impaciente e nervoso. mas foi Bartolomeu, o sábio, quem se abeirou de mim, já depois do computador desligado, e perguntou, até quando aguentaremos isto? as lágrimas que naquele momento oscilaram, mas não tombaram, levo-as comigo para a cama. até quando, não sei.
as mulheres de cinza continuam na borda da banheira, impacientes para que as ouça. fico sem jeito, mas repito o abuso à simpatia de Mia Couto e não lhes pego. Solaris não pode esperar mais, submerjo.
a desilusão foi sempre demasiado amarga na minha boca. primeiro o Coliseu de Roma, depois a Universidade, agora o Taj Mahal. rasgo a velha máxima de não esperar nada e acabo sempre incrédula a questionar se é só aquilo - esperava monumentos infinitos, daqueles que os sonhos me revelam, em movimentos de intersecção, geometria aumentada, bem ao estilo de Escher. há um sonho especial que desejo secretamente que represente o meu momento final: estou sentada num vale que conheço, verde, em frente a montanha da minha infância, tudo num plano muitíssimo mais íngreme, que se vai aproximando, mas não sinto medo de tombar. sou menina, a minha mãe está sentada ao meu lado e sorri, perto, os meus irmãos brincam às apanhadas. a montanha está cada vez mais perto, os ponteiros do relógio caminham para a sobreposição, vamos ser esmagados, mas estamos serenos. é um sonho escasso, soberbo, dos poucos de que me consigo lembrar. se não acontecer, será a minha última desilusão.
Stanisław Lem, é com ele que me deito esta noite, caçadora exímia que se pavoneia, venho aqui grafa-lo às 3 da manhã. num descarado ménage, deixo-me seduzir pela tradução directa do polaco de Teresa Fernandes Swiatkiewicz. a teoria da tradução será sempre o meu tesão obscuro, a problemática da apropriação. a palavra é como um corpo, como lhe tocar sem a abocanhar, onde está a equivalência pura, directa, asséptica? tudo não passa de uma mentira, a palavra é um corpo. um sopro, um murmúrio, um ligeiro tremor é quanto basta.
Solaris, o livro por fim, e Lem levando-me para "outros mundos, outras civilizações, sem conhecer inteiramente os meus próprios recantos, os meus becos sem saída, sem saber o que está por detrás das minhas portas negras"....
tem tudo para ser uma noite inesquecível.

18.5.18

rouxinol, o pássaro louco das intermináveis cantatas nocturnas, engatatão do canavial por quem me apaixonei, partiu durante o meu curto exílio nas montanhas. as noites repetem-se agora silenciosas e sem paixão. não consigo deitar-me com ninguém, um louco que seja, um deprimido novelista, um poeta, lambendo-me as mamas, as mãos, os dedos, um a um. olho-os, tacteio-lhes as capas, folheio-lhes os corpos e desisto. se escrever é corrigir a vida, levar os escritores para a cama é enganá-la.

Sono, maravilhosa edição da casa das letras, com ilustrações de Kat Menschik

falta-me, mais do que caminhar, um chão de terra onde possa cair e ficar quieta, até que outra alma tome conta de mim. e um vento suão, desalinhando-me os caracóis.
Os zés-ninguém

Sonham as pulgas comprar um cão e sonham os zés-ninguém sair da pobreza, que num dia mágico chova a sorte de repente, chova a sorte a cântaros; mas a sorte não chove ontem, nem hoje, nem amanhã, nem nunca, nem em chuvinha cai a sorte do céu, por mais que os zés-ninguém a chamem, ou que lhes comiche a mão esquerda, ou que se levantem com o pé direito, ou comecem o ano trocando de vassoura.
Os zés-ninguém, os filhos de ninguém, os dono de nada.
Os zés-ninguém, os nenhuns, os ignorados, apertando o cinto, morrendo a vida, fodidos, fodidíssimos.
Que não são, embora sejam.
Que não falam línguas, mas dialectos.
Que não professam religiões, mas superstições.
Que não fazem arte, mas artesanato.
Que não praticam cultura, mas folclore.
Que não são seres humanos, mas recursos humanos.
Que não têm cara, mas braços.
Que não têm nome, mas número.
Que não figuram na história universal, mas nos casos do dia da imprensa local.
Os zés-ninguém, que custam menos do que a bala que os mata.


/Eduardo Galeano, O livro dos Abraços/


Cai
Cai eternamente
Cai no fundo do infinito
Cai no fundo de ti mesmo
Cai o mais baixo que se possa cair

Vicente Huidobro 
mais

15.5.18

foi quando decidi não levar mais trabalho para casa que passei a viver no escritório.

14.5.18

A alma adora nadar. Para nadar, há que deitar-se de barriga. A alma despega-se e parte. Parte a nadar. (...) Fala-se muito em voar. Não é isso. O que ela faz é nadar. E nada como as serpentes e as enguias, nunca de outro modo. (...) Quando a alma deixa o corpo pelo ventre para nadar, produz-se uma tal libertação de sei lá o quê, é um abandono, um gozo, uma descontracção tão íntima.

/Antologia/
Underwater Choreography Performed in the World’s Deepest Pool by Julie Gautier

Daqui  Colossal

9.5.18

não posso ir convosco, tenho o coração obliterado, gemeu Sophia. não será partido? brincaram os outros, carnes velhas e rudes, mas Sophia nunca teve um coração de vidro, o buraco que esconde debaixo do casaco não engana, por ali furou o metal a sua carne de jovem fêmea. ficarás, então, permitiu Bartolomeu, sem nada mais acrescentar. talvez pudesse ter aproveitado o momento para ensinar a Sophia uma das maiores lições de vida de um excomungado - endurecer o coração como um osso e esquecê-lo numa rua qualquer, no momento em que um feixe de luz nos cegue e o semicerrar das pálpebras seja o último beijo das nossas vidas.

8.5.18

ficou decidido, redigido em acta abstracta, logo depois de Cirilo ter partido alguns dentes a Sicrano e a Beltrano, que o bom nome das nossas limpezas corria risco na praça e era urgente seguir para longe, deixar a poeira assentar, talvez conquistar o velho oeste. escorraçados por nós mesmos, partiremos em breve, pela calada da noite, escondidos dos burocratas e das forças policiais. 
voltaremos, como volta qualquer fora da lei ao local do crime, se deus quiser, carregando pepitas de ouro e arco-íris florescentes.

6.5.18

haverá um filho dentro de todas as mulheres?
Souvent je ne parle que pour toi, afin que la terre m’oublie.

5.5.18

obrigada, miss smile. pelos textos que partilha e pelo carinho que me tem. é recíproco.
um dia voltamos à peleja. desta vez, não havendo vaca MuMu para resgatar, roubamos o cacilheiro à pirata ou outra coisa qualquer :) só para desenferrujar os ossos.

4.5.18

com o meu Campos Matos debaixo do braço suado, avancei por entre a turba de babel em busca da lisboa de Luísa e do patusco conselheiro Acácio. parece-me que ainda o ouço a tagarelar:

Era uma das mais belas da Europa, decerto, e como entrada, 
só Constantinopla! Os estrangeiros invejavam-na imenso.
Fora outrora um grande empório, e era uma pena que a
canalização fosse tão má, e a edilidade tão negligente!
– Isto devia estar na mão dos ingleses, minha rica
senhora! – exclamou.
Mas arrependeu-se logo daquela frase impatriótica.
Jurou que era uma maneira de dizer. Queria a
independência do seu país; morreria por ela, se fosse
necessário; nem ingleses nem castelhanos!... Só
nós, minha senhora! – E acrescentou com uma voz
respeitosa: – E Deus! 
a quantidade de irlandeses /turistas em geral e afins/ que toda a manhã olhou surpreendida para a minha camisola de gola alta foi tal, que eu própria me julguei coisa bizarra. entre as informações primordiais /de como meter o rossio na rua da betesga sem o atravancar ou memorizar o nome das cinquenta e cinco bebidas possíveis e imaginárias entre a bica e o galão/, tentei tossicar o máximo que pude, para que ao menos a ideia de um resfriado me salvasse da infeliz indumentária. soubessem eles do pior /ai que vergonha, senhores!/, que por debaixo do azul escuro morava ainda uma reles camisolinha interior...

3.5.18

desde que saí da redoma bafienta, cimentada em laje de mármore cor de rosa, onde cérebros estranhamente abençoados me ultrapassavam nos corredores, silenciando o cumprimento às reles criaturas, como deuses de um Olimpo, as teorias da vida deram lugar a carochos, bêbados caídos na rua, ciganos que ameaçam lojistas, mulheres que fumam e raspam subsídios no café. a vida, meus senhores -- excelsos doutores, todos vós --, é muito mais do que aquilo que se inventa.
Y un entrañable calor me abriga cuando el mundo me golpea,

ao contrário de Alejandra, la mejor poeta suicida, morro de frio.