30.10.20

meia hora depois...

dirigem-se juntos ao café da rua, onde servem umas rosquinhas de canela de levar um pecador aos céus!, sentam-se a menos de meio metro, tiram as máscaras, sorvem os cafés e falam disto agora de não se poder circular livremente entre concelhos...

:)

29.10.20

pilhando

uma pilha de lenha _ para a salamandra que hei de ter, porque me apaixonei pelo ferro

uma pilha de nervos _ cafés & videochamadas & partilha de ecrãs & falares atabalhoados

uma pilha de roupa _ que visto sem passar, nem quero saber, sou bicho engelhado agora

uma pilha de livros _ ganhando pó, à minha espera; leio artigos, quero poemas

uma pilha _ que não tenho, para o comando do portão da garagem que não uso 

28.10.20

loucos

_ Então? Vamos embora?

_ Vamos.

Não se mexem.

CORTINA


|À Espera de Godot|

24.10.20

...

 em desequilíbrio no fio da faca

do orgasmo

23.10.20

a arma do golpe

leite creme queimado!, exclamou, enquanto eu tentava sacar-lhe a arma do golpe. e a menina sorriu, excelente escolha! é só um? é, sim, obrigada, estou cheia, menti. voltamos ao tema, não tinha sido fácil, uma vez que não queria assustar ninguém, era só para garantir que as senhoras lá dos correios cumpriam as ordens e lhe metiam o dinheiro das caixas no saco rapidamente. pois claro, anui, ao som do ferro em brasa, que chiava na cozinha. uma faca não consigo, tentei meter uma no bolso, mas é perigoso, não me ajeito com aquilo e ainda me corto. e depois nem sabia se havia de levar lisa ou de serrilha, não me agradou. pois claro, voltei a acenar. a menina regressou, aos saltinhos como um pardal, com a taça de leite creme ainda a cheirar ao açúcar torrado. então decidi que tinha que ser uma pistola, disse, enquanto partia a superfície dura, numa excitação infantil. os franceses chamam lhe creme brulee, sabia? e fecha demasiado a boca para imitar o sotaque. sabia, sim. quer provar um bocadinho e aponta-me a taça já encetada. obrigada, não sou de doces, bom proveito. olhe que não sabe o que perde. finjo uma gargalhada leve e volto à carga, mas diga lá, onde é que vai arranjar uma pistola?

o golpe e a cabidela

ainda não tinha começado a contar da arma do crime, seleccionada para efectivar o assalto que está para breve, e já se alapardava, de concha funda na mão, ao tachinho da cabidela. 

- gosto muito com batata, mas com arroz é que é a original, num acha?

acho pois, mas vai de faca em riste ou revolver escondido no bolso?

loucos

 _ amor, aonde vais? 

_ vou à tua procura.

_ porquê?

_ para ver se te encontro.

_ mas eu estou aqui.

_ mas eu não.

depressão v

tenho saudades dos mortos e cansada dos lugares-comuns dos vivos. um dia morrem me os vivos e passo a ter saudades deles também. 

22.10.20

depressão iv

Uma pequena manivela para pegar no sono, sempre que me apetecesse fugir do mundo sem dar nas vistas.

Um fazedor de amanhecer para usamentos de poetas e de mulheres que leem a sina.

E um platinado de mandioca para o fordeco de meu irmão, para ele acelerar lá no céu.


[roubando versos a Manoel de Barros]

depressão iii

sinto me uma memória de alguém na minha memória.

20.10.20

depressão ii

pensei que estas dores fossem as dores habituais da natureza de ser fêmea, mas afinal são lampejos de veneno na minha boca, que só corroem a harmonia social. que versão tão desagradável e improdutiva esta que sou agora.

depressão

pensei que a bárbara tinha vindo para destruir a última réstia de sol, depois percebi que muito pior do que a bárbara sou eu e culpar a meteorologia é como acreditar no ascendente. 
não está fácil, não senhor.

13.10.20

o golpe, pausa para o almoço

isto anda que não se entende. já reparou que antes andávamos todos a correr, 'que a vida não esperava por ninguém, e agora estamos todos à espera qu'isto avance?... ah! uma sopinha do cozido, que maravilha, para aconchegar o estômago. também quer?

12.10.20

Morreste-me, David Crockett

o corpo hiberna há tanto tempo, que talvez aquele homem nunca tenha existido. tudo foi inventado pelos publicitários dos sonhos molhados. 

10.10.20

Céu estrelado

fui à procura de marte, encontrei a ursa menor. a olho nu e sorriso tolo na cara, fiquei satisfeita.