31.12.14

do alto da janela, pouco mais vê do que um nevoeiro denso, que, aqui e ali, parece ser habitado por sombras negras que deslizam rente ao chão. com a navalha, herança do avô Alberto, vai cravando na tábua de castanheiro, as resoluções para o novo ano.

30.12.14

Vamos onde nos levarem
as ligeiras tremuras
que nos inclinam.

Aquilo a que vamos chamando o futuro.

29.12.14

não há frio mais frio do que o frio da ausência.
daqui

28.12.14

os sonhos que tive, tive-os
já ninguém mos tira
não deram em nada, é certo, mas
esse era o seu destino mais provável
eram lindos, se são
ainda hoje pasma-se-me o corpo de dó
perante tanta aflição

ainda hoje ainda agora ainda já

25.12.14

No es que crea, no creo, si inclinado 
sobre mis manos te sentí divino, 
y me embriagué. Comprendo que este vino 
no es para mí, mas juega y rueda el dado. 

Yo soy esa mujer que vive alerta, 
tú el tremendo varón que se despierta 
en un torrente que se ensancha en río, 

y más se encrespa mientras corre y poda. 
Ah, me resisto, más me tiene toda, 
tú, que nunca serás del todo mío.
Sandra Kantanen

Somos a grande ilha do silêncio de deus 

23.12.14

sim a ti, que és nada e atravessas tudo
e és o sangue secreto do poema.
Ulrica decidiu passar as festas natalícias longe de tudo e de todos, numa hospedaria de paradeiro incerto. nos estábulos quentes e de manjedoura forrada, Salomão agradece. no seu quarto, de janela voltada a sul, vista para o regato que corre, afastado da lareira que crepita, Abenjacan mantém a vigia. sabe que o coração de Ulrica sangra em segredo. nada voltará a ser igual.

22.12.14

Entre mi amor y yo han de levantarse 
trescientas noches como trescientas paredes 
y el mar será una magia entre nosotros. 

17.12.14

Movement. True movement (without sequences or steps) is only found in the real world. Movement within a visual composition is only a representation of movement.

[Visual Grammar]
Gaea Woods

15.12.14

É agora - na pura ausência das coisas
e a madrugada por abrir. Um palco
a lua. Eu observada de fora da
janela.
deitou-se sob o trapézio de Orion, o caçador, escondendo o rosto dorido. o vento raivoso do mar ali tão perto, tinha-lhe esbofeteado a face sem rodeios, durante todo o dia. disfarçava as lágrimas, cerrando os dentes, ainda que não houvesse ninguém por perto que lhe pudesse ver o pranto. apenas Salomão, o seu melhor amigo, e Abenjacan,  que do alto do castanheiro, vigiava o acampamento.

14.12.14

lembrou-se da mulher que um dia pariu alguns pedaços de vidro das costas das mãos. a mulher não chorou, - nunca chorava -, mas ela guardou o dia na memória. sempre que parte um copo, o maior medo não é o do golpe, mas que o vidro se lhe escape dentro da carne e se aninhe dentro de si.
mulheres como nós, nasceram para olhar os pinhais nos montes, à luz da lua. nasceram para viver o negro, sofrer, amarradas a uma força maior. não tenhas medo, os lobos uivam aos céus, não te farão mal. a terra é a tua casa. a dor a tua condição.
pus a mão na boca para
amordaçar a dor, mas
era tão mais forte que
mesmo a mão gritou.

13.12.14

acendeu a fogueira a custo, os pequenos ramos que conseguiu apanhar estavam molhados e as mãos tremiam-lhe de frio. Salomão, ali perto, fuçava os silvados em busca de amoras maduras. andava presa no labirinto de Borges há quase dois anos, não se lembrava ao certo, porque amor como aquele não guarda hora de começo nem fim, transcende o calendário romano. nos últimos tempos, juntamente com o passo arrastado de Salomão, sentia que o labirinto se estreitava a jeito, para que lhe fosse mais difícil decifrar os caminhos. Borges fugia-lhe, ainda que às vezes lhe soprasse os mesmos beijos de outrora.

12.12.14

Ulrica passou a manhã perdida na vastidão do deserto, as areias geladas fustigando-lhe as mãos atentas às rédeas de Salomão. Abenjacan, o falcão, voou por duas vezes, levando na pata direita parte do coração inquieto de Ulrica, mas os ventos do norte obrigaram-no a retornar, sem alcançar a entrega. de Borges, hoje, nem sinal.

11.12.14

o corpo arde-lhe agora, numa indecência transfigurada. inspira e expira de forma dolente, olhos semicerrados, imaginado-se num coito iminente. Borges diz-lhe, numa pequena mensagem telegrafada, que se pudesse a trespassaria com a sua espada. tarde demais. rangem-lhe os dentes, no momento em que sobe para o assento da velha berlinda, que, pelas armas reais pintadas, acredita ter sido de D. Maria I, a rainha. é com ela que corre o mundo, procurando Borges, o seu amor, no seu labirinto de silêncios e maresias enroladas em luz. hoje, rejeitada mais uma vez pelo infortúnio do destino, decide virar-lhe as costas. o desejo desliza-lhe pelas costas, em gotas salgadas, o sexo, túmido, apressa-lhe as chicotadas na garupa do pobre Salomão.

6.12.14

Duncan Rawlinson

5.12.14

Flower Duet (Lakmé)


3.12.14

FIVE O'CLOCK TEAR 

Coisa tão triste aqui esta mulher
com seus dedos pousados no deserto dos joelhos
com seus olhos voando devagar sobre a mesa
para pousar no talher
Coisa mais triste o seu vaivém macio
p'ra não amachucar uma invisível flora
que cresce na penumbra
dos velhos corredores desta casa onde mora

Que triste o seu entrar de novo nesta sala
que triste a sua chávena
e o gesto de pegá-la

E que triste e que triste a cadeira amarela
de onde se ergue um sossego um sossego infinito
que é apenas de vê-la
e por isso esquisito

E que tristes de súbito os seus pés nos sapatos
seus seios seus cabelos o seu corpo inclinado
o álbum a mesinha as manchas dos retratos

E que infinitamente triste triste
o selo do silêncio
do silêncio colado ao papel das paredes
da sala digo cela
em que comigo a vedes

Mas que infinitamente ainda mais triste triste
a chávena pousada
e o olhar confortando uma flor já esquecida
do sol
do ar
lá de fora
(da vida)
numa jarra parada

2.12.14

e dezembro entra, frio e luminoso, como uma mulher decidida.

30.11.14

E por dentro do amor, até somente ser possível
amar tudo,
e ser possível tudo ser reencontrado por dentro do amor.

o frio traz as tréguas, água que corre da montanha e desce veloz pelo vale. tento hibernar-te junto ao peito.

27.11.14

CÓLERA


Comigo, a cólera não surge de repente. Por rápido que seja o seu nascimento, ela é precedida por uma grande felicidade, sempre, que se manifesta fremente.

É soprada de repente, e a cólera começa a ruminar.
Tudo em mim assume o seu posto de combate, e os meus músculos, que querem intervir, até doem.
Mas não há qualquer inimigo. Se houvesse, ficaria aliviado. Mas os inimigos que tenho não são corpos em quem bater, pois o corpo falta-lhes totalmente.
Todavia, passado certo tempo, a minha cólera cede... por cansaço talvez, pois a cólera é um equilíbrio muito difícil de manter... Há também a inegável satisfação de ter trabalhado, e ainda a ilusão de que os inimigos fugiram, renunciando ao combate.

26.11.14

Eu digo que ninguém se perdoa no tempo.
Que a loucura tem espinhos como uma garganta.
falou-me com duas pedras na mão
eu atirei-lhas de volta
por pouco não lhe rachei a cabeça
parti o vidro duma montra
ficou parecida com uma teia de aranha
chovesse, então, era uma maravilha
veio um polícia e levou-me
bem lhe expliquei a situação
visivelmente não compreendeu
que uma metáfora por vezes
tem consequências pouco legais
multou-me e aconselhou-me
a não reincidir
coisa que fiz logo de seguida

24.11.14

Square Heart


se um coiote uivasse agora, eu uivaria com ele. porque é longe dos homens que me quero.

23.11.14

Israel Ariño

Cai a chuva abandonada 
à minha melancolia, 
a melancolia do nada 
que é tudo o que em nós se cria. 

20.11.14

Emma Wood

19.11.14

Ah o medo vai ter tudo 
tudo 

(Penso no que o medo vai ter 
e tenho medo 
que é justamente 
o que o medo quer) 

17.11.14

com a garganta cheia de sombra
(sítios que antes sublinhavam a tua ausência)
quero dizer-te que a voz é um juntar de perdas
quando neste lado da fala não há janelas para o silêncio
fica apenas a insônia a escrever vazios

16.11.14

já penélope não sou
nem ulisses regressa
mudo de nome noite
a noite ao sabor da saliva
dos meus amantes
de dia troco lençóis
coso bainhas
descanso os olhos
dantes tecia para
enganar a corte que
me servia de prisão
agora chamo-me eu
não tenho estado civil e
na cela que me tem cativa
tornei-me finalmente livre

14.11.14

Uso a palavra para compor meus silêncios.

13.11.14

Se é verdade que nos habituamos à dor, como é que, com o andar dos anos, sofremos cada vez mais?

12.11.14

confia no rasto das lágrimas
e aprende a viver.

11.11.14

assalta-me a ideia de que a vida é um acto em momento/movimento e eu já não faço parte dela. olho-me ao espelho e só vejo solidão, cinza disperso, boca disforme, vozes murmúrio que ficaram presas à memória. percorro mais uma vez a casa que foi nossa, a cama onde nos deitámos, não estás, a chuva recomeça.

Vão-se as minhas perguntas aos depósitos do nada. 
a faca não corta o fogo,

não me corta o sangue escrito,

não corta a água,

e quem não queria uma língua dentro da própria língua?
aqui inicio as fundações da minha casa.