30.11.14

E por dentro do amor, até somente ser possível
amar tudo,
e ser possível tudo ser reencontrado por dentro do amor.

o frio traz as tréguas, água que corre da montanha e desce veloz pelo vale. tento hibernar-te junto ao peito.

27.11.14

CÓLERA


Comigo, a cólera não surge de repente. Por rápido que seja o seu nascimento, ela é precedida por uma grande felicidade, sempre, que se manifesta fremente.

É soprada de repente, e a cólera começa a ruminar.
Tudo em mim assume o seu posto de combate, e os meus músculos, que querem intervir, até doem.
Mas não há qualquer inimigo. Se houvesse, ficaria aliviado. Mas os inimigos que tenho não são corpos em quem bater, pois o corpo falta-lhes totalmente.
Todavia, passado certo tempo, a minha cólera cede... por cansaço talvez, pois a cólera é um equilíbrio muito difícil de manter... Há também a inegável satisfação de ter trabalhado, e ainda a ilusão de que os inimigos fugiram, renunciando ao combate.

26.11.14

Eu digo que ninguém se perdoa no tempo.
Que a loucura tem espinhos como uma garganta.
falou-me com duas pedras na mão
eu atirei-lhas de volta
por pouco não lhe rachei a cabeça
parti o vidro duma montra
ficou parecida com uma teia de aranha
chovesse, então, era uma maravilha
veio um polícia e levou-me
bem lhe expliquei a situação
visivelmente não compreendeu
que uma metáfora por vezes
tem consequências pouco legais
multou-me e aconselhou-me
a não reincidir
coisa que fiz logo de seguida

24.11.14

Square Heart


se um coiote uivasse agora, eu uivaria com ele. porque é longe dos homens que me quero.

23.11.14

Israel Ariño

Cai a chuva abandonada 
à minha melancolia, 
a melancolia do nada 
que é tudo o que em nós se cria. 

20.11.14

Emma Wood

19.11.14

Ah o medo vai ter tudo 
tudo 

(Penso no que o medo vai ter 
e tenho medo 
que é justamente 
o que o medo quer) 

17.11.14

com a garganta cheia de sombra
(sítios que antes sublinhavam a tua ausência)
quero dizer-te que a voz é um juntar de perdas
quando neste lado da fala não há janelas para o silêncio
fica apenas a insônia a escrever vazios

16.11.14

já penélope não sou
nem ulisses regressa
mudo de nome noite
a noite ao sabor da saliva
dos meus amantes
de dia troco lençóis
coso bainhas
descanso os olhos
dantes tecia para
enganar a corte que
me servia de prisão
agora chamo-me eu
não tenho estado civil e
na cela que me tem cativa
tornei-me finalmente livre

14.11.14

Uso a palavra para compor meus silêncios.

13.11.14

Se é verdade que nos habituamos à dor, como é que, com o andar dos anos, sofremos cada vez mais?

12.11.14

confia no rasto das lágrimas
e aprende a viver.

11.11.14

assalta-me a ideia de que a vida é um acto em momento/movimento e eu já não faço parte dela. olho-me ao espelho e só vejo solidão, cinza disperso, boca disforme, vozes murmúrio que ficaram presas à memória. percorro mais uma vez a casa que foi nossa, a cama onde nos deitámos, não estás, a chuva recomeça.

Vão-se as minhas perguntas aos depósitos do nada. 
a faca não corta o fogo,

não me corta o sangue escrito,

não corta a água,

e quem não queria uma língua dentro da própria língua?
aqui inicio as fundações da minha casa.