31.12.15

acrescento, para os comensais mais cautelosos, que a entrega de queijos nacionais acabou de ser feita, em balão de ar quente, como manda a etiqueta dos pastores mongóis. os ovos são de baleia, é certo, mas também temos ovas de bacalhau e de esturjão, as primeiras, grelhadas em pau-preto transgénico e regadas em azeite virgem - produção caseira, as outras, em latinhas do czar, acompanham com várias colherinhas de prata, do faqueiro da madrinha. temos ainda o fruto carnal, polpa doce de mulher, também conhecido por dióspiro, mantido a temperaturas abaixo do razoável, em Niflheim, e transportado por duzentos e quarenta cavalos a trote. e para finalizar, chá fino de cidreira e erva-doce para a digestão e uma mão-cheia de pinhões-resoluções.
haverá serviço de massagens caninas, Taeko e Yukiko encarregar-se-ão de vos amassar as pernas. depois da meia-noite, um bando de ex-gatos vadios, miará à luz de três quartos da lua, uma serenata de ano novo, com peças da família Strauss.

já na madrugada alta, todos os convidados receberão um magnifico exemplar Robert Welch, totalmente forjada em aço inoxidável alemão, lâminas afiadas no padrão das espadas japonesas, dando precisão ao corte e garantindo qualidade para o mínimo de esforço. excelentes para amadores. de seguida, partimos em busca da vaca sagrada, roubada e mantida num famoso barco pirata...

espero ter esclarecido. a todos, um excelente 2016!
o pão acabou de cozer e repousa em panos de linho da avó. já temos os ovos de baleia, que serão recheados com finíssimas rodelas de échalote caramelizada e ervas aromáticas, colhidas esta madrugada na região da bretanha. o espumante está a gelar há três dias, sob a aurora boreal do norte. as framboesas da sobremesa são mantidas na pequena estufa real, e só serão colhidas perto da hora do jantar. le chocolat noire arrefece em approximately ambient temperature, nas taças de porcelana da dinastia ming, oferecidas pelo pequeno oriental.
após tão magnífico repasto, haverá poemas murmurados, de todas as formas, línguas e feitios, acompanhados ao som de realejo e concertina, e voos de passarola com vista privilegiada para o fogo de lágrimas artificiais.

estão todos convidados.
Sobre o dito está o não dito,                                                                           
e o  por dizer.* 

e assim se mantém a esperança, na espera das palavras que virão.
que continue a preciosa viagem pela beira do precipício. há que não ter medo; nenhum.


[*Maria Gabriela Llansol, O Azul Imperfeito Livro de Horas V]

30.12.15

2016:
para vós, o que quiserdes.
para mim, manter-me silenciosamente em saudável hikikomori. não sentir por dentro o sofrimento alheio. que o corpo não adoeça e o coração não pare numa hora má. que o acaso me ofereça os lapsos temporais que puder. que, de olhos fechados, encontre sempre o que procuro. que não me falte a possibilidade para me manter [livros incluídos] e manter a bicharada que vive sob o mesmo tecto. não ver nenhum animal na estrada, vivo ou morto. que a minha mãe continue feliz.
alguém espera uma resposta em Daca, enquanto leio Tarfia Faizullah
estou cansada de um mundo assim.

My sister died. He raped me. They beat me. I fell
to the floor. I didn’t. I knew children,
their smallness. Her corpse. My fingernails.
The softness of my belly, how it could
double over. It was puckered, like children,
ugly when they cry. My sister died
and was revived. Her brain burst
into blood. Father was driving. He fell
asleep. They beat me. I didn’t flinch. I did.
It was the only dance I knew.
It was the kathak. My ankles sang
with 100 bells. The stranger
raped me on the fitted sheet.
I didn’t scream. I did not know
better. I knew better. I did not
live. My father said, I will go to jail
tonight because I will kill you. I said,
She died. It was the kathakali. Only men
were allowed to dance it. I threw
a chair at my mother. I ran from her.
The kitchen. The flyswatter was
a whip. The flyswatter was a flyswatter.
I was thrown into a fire ant bed. I wanted to be
a man. It was summer in Texas and dry.
I burned. It was a snake dance.
He said, Now I’ve seen a Muslim girl
naked. I held him to my chest. I held her
because I didn’t know it would be
the last time. I threw no
punches. I threw a glass box into a wall.
Somebody is always singing. Songs
were not allowed. Mother said,
Dance and the bells will sing with you.
I slithered. Glass beneath my feet. I
locked the door. I did not
die. I shaved my head. Until the horns
I knew were there were visible.
Until the doorknob went silent.

29.12.15

Leslie Ann O’Dell





























Tocamo-nos todos como as árvores de uma floresta

no interior da terra. Somos

um reflexo dos mortos, o mundo

não é real. Para poder com isto e não morrer de espanto

— as palavras, palavras.



                                      A lua de coral sobe

no silêncio, por trás

da montanha em osso. É o silêncio.

O silêncio e o que se cria no silêncio.

E o que remexe no silêncio.

                                            É uma voz.

A morte.
está frio, Nepal, o que fazes tu aqui tão cedo?
esperava por ti, Olhos Tristes.
não tenho mais nada para te dar, Nepal. agora já não está nas minhas mãos.
podias interceder...
não posso e nunca o faria, Nepal. se me conhecesses, saberias disso. não intercedo por ninguém, deixo que o rio siga as suas correntes naturais.
que bonito, Olhos Tristes, fazes poesia com a desgraça dos outros. sabes muito bem que as correntes são humanas, compradas. finges é que não vês. finges-te cega.
faço o que posso, para me manter lúcida. as acções são de quem as pratica.
é a isso que te agarras, quando vais dormir?
não, Nepal. nunca levo o trabalho para casa, muito menos durmo com ele. 
não tens consciência. és egoísta. uma activista de sofá. há muitos por aqui.
pensa o que quiseres, Nepal. estás a dar-me mais importância do que aquela que tenho, acredita.
alguma vez te faltou alguma coisa, Olhos Tristes? pão na mesa? roupa quente? combustível? dinheiro para os medicamentos?
Nepal, não posso fazer mais nada. 
és cobarde. egoísta e cobarde.
lamento.
lamentas nada. assim que eu virar costas, o assunto morreu.
esperando que do outro lado do mundo uma borboleta bata as suas asas, disse um dia. depois descobri, pela ausência, a morte do animal.
será ténue o meu rasto no caminho.

27.12.15

troveja. 
de um lado, um monstro de arrogância intelectual, esfomeado, pisca-me o olho. do outro, o misantropo olha-me de soslaio. 
não me entregues,
                                 tristíssima meia-noite,
ao impuro meio-dia branco


//no me entregues,
tristísima medianoche,
al impuro mediodía blanco//

26.12.15

um dia não haverá ninguém. mortos, velhos e novos, breve sonho, eterna poeira.

25.12.15

Não olhes.
O mundo está prestes a rebentar.

Não olhes.
O mundo está prestes a despejar a sua luz
E a lançar-nos no abismo das suas trevas,
Aquele lugar negro, gordo e sem ar
Onde nós iremos matar ou morrer ou dançar ou chorar
Ou gritar ou gemer ou chiar que nem ratos
A ver se conseguimos de novo um posto de partida.

Harold Pinter, Várias Vozes, Quasi Edições
Niflheim acordou gelada. era de esperar que numa noite de tanto filho regressado a casa, tantos sacos de plástico partilhados e tanto amor familiar, a temperatura subisse para valores suportáveis, mas o manto branco de geada que cobriu o vale inteiro não engana. consigo a preciosa água quente para o banho, mas despir o pijama, polar, é um sacrifício que me faz mirrar até a alma. o sacrifício seguinte, será obrigar-me a sair da banheira, quando a água começar a arrefecer. em situações normais, qualquer ser humano de bom senso teria um aquecedor na casa de banho, onde aqueceria o ar e as toalhas, mas em Niflheim dizem-me que esse luxo é uma parvoíce e que aquilo não é um spa, mais vale despachar o assunto com rapidez. suspiro, começo a desconfiar que escolhi a casa errada, outros nativos teriam sido mais condescendentes.
tudo parece uma provação, como se a vida decidisse separar os fortes dos fracos, fazer a sua própria selecção natural, com base na resistência ao frio de cada um. eu, espécime com defeito crónico e falta de camada adiposa que me cubra a alma, pergunto-me durante quanto mais tempo conseguirei sobreviver... 

24.12.15

Corto Gatês, o solitário, sempre demonstrou uma profunda aversão por Tulicreme, um dos gatos vizinhos com quem partilha os hectares de terreno campestre. vejo-os, de longe, agachados no meio da erva alta, imóveis durante vários minutos e fico sem perceber se é caçada conjunta - o que muito me admiraria -, se é porrada iminente. Tulicreme, afoito, mantém a cabeça mais erguida. suponho que queira mostrar ao velho Corto que os tempos são de mudança ou talvez procure apenas brincadeira. mas Corto é mânfio de gema, nado e criado nas varandas de Lisboa, bravo nas suas incursões. não tendo nada a ganhar, e vendo-me, parada, ao lado do espanhol, vira costas ao Tulicreme, com a indiferença de um velho snob inglês, e sobe a ladeira. 
Kylli Sparre




























Em cada mulher existe uma morte silenciosa. 

23.12.15

juntar o que resta da família, essa teia de ligações doentias, tristes exibições de poder, tentativas falhadas de autoridade, e fingir que está tudo bem, que a noite é feliz, é apenas uma noite, aquela noite, repetimos. e fingimos. fingimos que não sabemos dos rancores, dos ódios de estimação, dos preconceitos, dos defeitos e dos feitios, das gabarolices tacanhas, dos paternalismos bacocos. estamos ali, esperando o tempo passar, fingindo que somos cegos e surdos, e felizes, esperançosos de que ninguém se lembre de escamotear a nossa vida à volta da mesa de jantar.

22.12.15

dou graças pela água quente - e tudo o que aqueça, nesta altura, por terras de Niflheim - e pela migraspirina.
obrigada, senhor.

21.12.15

Repara. Há um rio correndo entre as falanges dos dedos. Navegá-lo-ás solitário, porque solitárias são as navegações humanas, todas, como inavegáveis são os rios, todos os rios da terra, anteriores ao mar. Onde tu vês a foz é a nascente que vês. Que os rios, como tudo o que é fluido e movente, nascem ao contrário.

in Rodomel Rododendro, Albano Martins
[mais um poeta esquecido, neste país de poetas]

20.12.15

Elena by Vitaly Vasilieva

Que grande és Tu, meu Deus! Tu és tão grande
que és só Ideia; escassa é a realidade,
se o mais que pode ela se expande

para abranger-te. Por ti sofro, é verdade,
pois se existisses, Deus não existente,
também eu existiria veramente.
adiei o assunto, enquanto pude, mas hoje teve de ser. um a um, após engenhosas tentativas, enganei todos os felinos, escondendo a miraculosa pílula dentro dos pedacinhos esponjosos de carne de galinha com salmão. todos, menos Ramirez, o espanhol. comme d'habitude, Ramirez não se deixa enganar facilmente e desafia a minha paciência durante vários minutos, comendo todos os pedaços de carne, excepto aquele. neste jogo, onde a força e a obediência são meros conceitos abstractos, filosofia para cães, a paciência e a calma são preponderantes. Ramirez será vencido pela minha persistência, sei-o, pelo menos enquanto a lata não acabar. Corto Gatês, o dócil, faz da minha aflição a sua brincadeira e tenta comer o pedaço vencedor, o mesmo que Ramirez declina. Imagino a sobredosagem, acompanhada de uma valente diarreia e peço-lhe que saia dali. Ramirez, atento, ao perceber que Corto Gatês lhe ronda o pedacinho de carne, esquece a teimosia e atira-se a ele, cheio de vontade. abençoada inveja, não posso deixar de me rir. Corto Gatês cerca-me as pernas, encostando a cabeça, e deixa-me um miado baixinho, Não tens de quê, Mammina...
tens tiques de obsessiva-compulsiva, disse-me há uns anos o Tiago, um amigo que tem tanto de génio, como de tresloucado-depravado. toda a manhã tenho observado o laranjal, lavrado atabalhoadamente, sem qualquer figura geométrica que o defina. onde antes existia um quadrado perfeito, há agora um caos de erva e rasgos. ora o quadrado, e as palavras não são minhas, mas de Dolors Collellmir Morales, "é o símbolo da terra, mostra firmeza e fundamento, portanto, simboliza estabilidade", e eu vivi o ano inteiro de olhos postos naquela estabilidade carregada de citrinos, tal e qual um laranjal do éden. 
estou aqui vai-não-vai para calçar as botas de borracha e pôr-me a caminho, para ir pedir ao homem que monte novamente o velho tractor vermelho e desenhe no chão a forma que nunca lhe deveria ter apagado. há pouco, de nariz colado na janela e ganas pela alteração da minha paisagem, lembrei do diagnóstico do Tiago. terei?

19.12.15

Lila decidiu partir antes das grandes chuvas de novembro. seguiu o trilho dos caçadores da aldeia, primeiro, abeirando o rio profundo, ao longo dos canaviais-sapeiros, depois subindo o vale do norte, até à montanha de Gerda. Lila caminhava em direcção ao grande oceano, onde Micá, seu tio, lhe iria ensinar a encantar as baleias-azuis. nascida depois das primeiras neves, Lila herdara o dom da família materna e desde criança que encantava borboletas de silfos, nos planaltos da aldeia. o tio Micá, numa carta do verão anterior, havia-lhe dito que bastava assobiar um pouco mais alto, porque as baleias eram borboletas antigas, que njord, muito irritado, durante uma terrível tempestade, atirou às águas revoltas do mar. a maioria ficou presa nos remoinhos e morreu, as restantes cantam a sua dor até hoje, mas apenas os encantadores e os golfinhos as conseguem ouvir. é muito triste e faz doer o peito, escreveu o tio Micá. 
Lila, que em breve completará os dezassete invernos, decidiu que aquele era o tempo de partir em busca das baleias-azuis. beijou a vó Bé, que a aconselhou a levar as botas de casco de alce-irlandês, para caminhar veloz e segura, e a procurar o tio Micá no clã dos baleeiros, muitos passos para lá da grande montanha, na vila costeira de Akureyri. Lila gostava do aconchego da vó Bé, que continuava a preparar-lhe as panquecas com muito açúcar em pó e geleia de framboesa, mas sabia que no seu destino brilhava a estrela do viajante, a mesma que muitas luas antes tinha guiado a vó Bé e a mãe Li nos seus próprios caminhos.

16.12.15

amanhã tirarei o curso de sonhador especializado

14.12.15

para ti, mefistófeles,

o final orgásmico, ao som de Mahler, pela batuta de Bernstein. a orgia perfeita.


será o diabo, esse sádico fornicador, que ainda ontem escoiceava as minhas janelas, o bafejador desta aragem nocturna?
a brisa do inferno tomando os corpos pecadores, obrigando-os à volúpia da nudez.
é dezembro, ninguém o esperava.
ah!, fosse eu heroína de um romance antigo e golpearia delicadamente os pulsos com a faquinha da correspondência, amolada de véspera, na pedra mármore da cozinha. seria encontrada numa cama de dossel, entravada entre as bonecas de porcelana e os lençóis de bordado inglês, espilrados de sangue, e eu lívida, de braço tombado ao chão, acenando o meu adeus. 

não há sublimação na banalidade dos dias tristes.

13.12.15


ia jurar que era o Pina, ainda há pouco, a passar na rua, cabisbaixo. o grande Pina, que pressagiou o fim da poesia, porque o mundo precisava era de observadores de pássaros encartados, mas não podia ser, seria?! ó menina, guarde-me lá o éclair e a meia de leite, se faz favor, que eu venho já, vou só ali à rua, correr atrás de um homem que me pareceu o grande poeta, é uma ternura que vem de longe, não lhe sei explicar. hei-de lhe dar um beijo e se me sobrar a coragem, dizer-lhe que, ao senhor míope, não sei, mas a mim, o poeta ensinou-me a sonhar. não, demasiado teatral,  de um folclore palavroso que nunca seria capaz, o mais certo é gaguejar. o Pina merece melhor abordagem (imagine-se que é mesmo o Pina, vivo!). talvez me deixe ficar por aqui, escondida entre cacarejares de gente fina, que se define, tal como redefine, pela enésima vez, a enorme lista de compras do natal, sorvendo espuma light com poeira de cacau...

11.12.15

Amy Judd























Passa uma borboleta por diante de mim 
E pela primeira vez no Universo eu reparo 
Que as borboletas não têm cor nem movimento, 
Assim como as flores não têm perfume nem cor. 
A cor é que tem cor nas asas da borboleta, 
No movimento da borboleta o movimento é que se move, 
O perfume é que tem perfume no perfume da flor. 
A borboleta é apenas borboleta 
E a flor é apenas flor. 

[Fernando Pessoa, disfarçado de Alberto Caeiro, o Guardador de Rebanhos]
passo ligeiro, que nem o cheiro dos eucaliptos se entranha nas narinas, bem disse que não, mas deu-me pena deixar o país das montanhas à minha espera. o almoço, prato trocado na cozinha, não volta para trás, o gelo no sumo de laranja é pescado com uma colher, nada de grave, que estou com pressa, a conta, sem papelinho algum, soma feita de cabeça, é paga sem consternação. é a segunda tentativa, não haverá terceira, tomo nota mental, mas a preocupação agora é não deixar que o Nepal me neve à porta. caminho apressada, a relva tão verde traz-me o sorriso, há cães felizes por todo o lado. talvez fosse justo fazer esperar o Nepal, afinal a confusão foi dele, todo trocado, a tentar trocar-me a mim também. o pensamento, nuvem negra de um mau karma de sexta-feira, desvanece-se rapidamente. apresso o passo, esperando não parar a digestão dos cinquenta gramas de carne seca e maionese de alecrim.
agora, enquanto espero o atrasado Nepal e rio do conceito mundial de urgência, agradeço aos céus que a bondosa Anasuya tenha decidido reencarnar em mim.
[vamos ver até quando...]

9.12.15

«dobrá-los, é a antecâmera do vandalismo, o regresso à barbárie, coisa de descendentes de hunos.» 

J. E. de Andrada, essa personagem com cheiro a colónia Bois du Portugal, ousou, enquanto lapidava o património emocional do pauvre J., atentar contra as minhas mais intimas cerimónias de leitura. Não que a obscura criatura, bolor de arquivo-morto da biblioteca nacional, o soubesse, pois tais criaturas apenas travam conhecimentos consigo mesmas e uma meia-dúzia de lacaios, pobres coitados ou oportunistas. Circulam sempre no mesmo pântano social, vulgarmente designado por elite portuguesa, onde a velha nobreza, bafienta, e tantas vezes bastarda, se espoja junto da gorda burguesia, dignitária dos mais altos pousos e aventais.

Ora J. E. de Andrada, num desses colóquios unipessoais, de que os intelectuais, outrora exilados em terras de Sua Majestade, tanto apreciam, achincalhando, como é de seu costume, o pauvre J. ,

- que, se estivesse na novela das nove, já teria fugido, casado, copulado três filhos, largado, arrependido, voltado, amado, desaparecido, talvez assassinado (ah! o horror de não saber!), reaparecido, em coma, etc, etc, etc... com a doce Orchidée, ao invés de fustigar as falanges, como se fosse um miúdo no recreio -,

             decidiu condenar alguns dos mais belos hábitos de leitura das gentes, que, ao contrário dessa anta, múmia disfarçada em tecidos de lã de alpaca, lêem um livro com a mesma vontade com que tomam um corpo amado, contemplando, cheirando, tacteando o papel sob o dedo húmido, dobrando o canto da folha como quem desliza sobre a pérola mais perfeita do mundo, ou forjando, a jactos de tinta, a certeza da lembrança eterna.

Experimentasse o Magnificente Professor Doutor J. E. de Andrada passar os dedos pelas folhas pálidas da sua bela Orchidée e dobrar-lhe os cantos de quando em vez, e não lhe sobejaria tempo para o parlapatório, declamando ignóbeis infâmias sobre o que, claramente, desconhece.

8.12.15


encontro-o rodeado pelo grupo. no chão, um pintassilgo-verde fêmea, morto. pelo tamanho, percebo que se trata de um exemplar adulto. uma pobre mãe. não consigo disfarçar o meu desagrado. Corto Gatês, logo que me vê, abandona a roda e vem esfrega-se nas minhas pernas. Ramirez, o espanhol, olha-me desconfiado, é o gato mais desconfiado que conheço, abocanha a presa pelo pescoço e abandona o espaço. nunca me dá satisfações, foi sempre assim, desde o dia em que nos encontrámos, preterido por uma irmã mais meiguinha. aperfilhei-o, portanto, sabendo de que se tratava do menos afectuoso ao contacto humano. nunca me arrependi. Corto Gatês insiste nas turras, Mammina, não sejas severa, o Ramirez não tem culpa, está na sua natureza. 
o homem continua na sua demanda, sentado do velho tractor vermelho. o campo, antes verde, surge agora numa mescla de fios castanhos entrelaçados de amarelo, como cabelo de uma mulher mais velha. acompanhando o homem, o mesmo grupo de garças-boieiras aproveita o revirar da terra, rica em bicharada invertebrada. de vez em quando, o homem pára, coça a cabeça, enquanto segura a boina, desce da máquina e vai ver o estado da charrua. no quintal, mais acima, a mulher, que, no entra e sai de casa, o mantém debaixo de olho, pára também. 
querido Piccolino, que permanecerás encarcerado nas masmorras do castelo do teu senhor para sempre,

perguntas tu, a dado momento em que acompanhas o teu príncipe na guerra e o vês participar de uma orgia com duas cortesãs, juntamente com o amante da princesa, Dom Ricardo, se não será «o amor um belo poema sem qualquer conteúdo, pelo menos sem nada definido, mas que agrada ouvir quando é recitado com perfeição e fervor?»*

deixa-me contar-te de como é o amor, esse senhor vil e impiedoso, a quem um dia, também eu, ingenuamente, servi. 

o verdadeiro amor, Piccolino, sente-se na alma. é certo que começa por atingir o coração, obrigando-o a bombear o sangue a uma velocidade que antes só o medo conseguia, mas a doença alastra-se rapidamente ao corpo inteiro, infiltrando-se nos ossos, especialmente nos do peito, contamina o sangue com várias impurezas, para finalmente se fixar, até à sua morte, que pode durar uma vida inteira, na alma do pobre amante. é como um bicho, uma pequena larva, soprada por mefistófeles para dentro dos nossos olhos, que, saciada de pus, decide eclodir nas nossas entranhas, para depois as apodrecer no seu muco bilioso. o amor consome-nos. ardiloso patife, beija-nos as pálpebras, para que não vejamos a lâmina que nos trespassa a carne fraca...

....


de que te ris, Piccolino? zombas de mim?... acaso não serás tu conhecedor da verdadeira razão desses ferros que te agrilhoam, meu pequeno guerreiro? negarás tu, a mim também, que te conheço por dentro, de muito antes do início do livro, debaixo dessa pele engelhada de velho de mil anos, negar-me-ás, Piccolino, de que não foste vítima dessa mesma doença de que te falava? tu, meu querido anão, debaixo de toda a raiva que cuspiste, um ódio visceral que fez de ti homem inteiro, tu amaste loucamente a princesa. ainda amas, mesmo depois da sua morte. então, de que te ris? de mim, ou de ti?


....




[*O Anão, Pär Lagerkvist]

7.12.15

Cupio dissolvi

«Mas o que ela mais queria era estar morta. Percebia agora como é que há gente capaz de se matar, mas no que ela pensava não era em morrer de morte, era numa outra espécie de morrer, sem corpo para enterrar, só o espírito esquecido de tudo, que a porta nunca mais se abrisse para ninguém, que o tempo detivesse pasmado a olhar para ela indefinidamente imóvel sobre a cama, sentindo a sua dor como uma coisa muito longe e sem medo de mudanças, que o relógio calaria o tic-tac, que as moscas ficariam paradas e silenciosas, que não precisaria sequer de respirar, que não haveria mais quem tivesse merecido o seu amor nem quem a tivesse amado, que tudo fosse quieto e escuro como será o coração das pedras ou a coberta do céu onde não há estrelas.»

Daniel de Sá, Ilha Grande Fechada
cheiro a ervas altas, molhadas, cortadas pela minha própria mão.
cheiro a sangue e a mel.

6.12.15

Corto Gatês, muito prazer!, miou ele, quando me viu arregalar os olhos ao buraco na orelha esquerda. chumbo perdido, só pode ter sido. afago-lhe o pêlo escuro, em busca de outras mazelas, enquanto amaldiçoo mentalmente a besta que o terá atingido, mas Corto Gâtes, como agora se auto-intitula, dá duas voltas na minha perna direita, como se nada se tivesse passado e ronrona, Tenho assuntos a tratar, Mammina. Podes despachar a latinha?...

Amelie Petit Moreau

quando o mar se elevou da terra e se fez céu, a montanha permaneceu. onde antes se escondiam monstros disformes de águas profundas, sibilam sereias feitas de vento, catando vida que lhes sirva de companhia. assim será, até que o mar retorne ao lugar que lhe pertence. mas o mar, agora céu estrelado, não voltará, apaixonou-se pela lua, menina mimada, que às vezes desaparece. em seu lugar, mandou construir espelhos salgados. abandonada, a montanha chora um frio branco que mata. o lobo, primeiro amante da lua, continua a uivar-lhe a cada madrugada, implorando-lhe que reconsidere.

5.12.15

tangerinas, inspiro-lhes o cheiro lentamente e recordo-me da minha mãe.
a minha mãe tem uma voz meiga, suave, que embala e protege, tem um olhar doce, de onde roubei o meu, um sorriso tímido e um coração de ouro. ensinou-me o mais importante da vida, muitas antes de eu saber juntar as letras no papel. soube cuidar de mim, nos meus pequenos descuidos, enquanto outras sovavam os filhos. recolheu um desses filhos durante uma semana, antes de o devolver à mãe raivosa, sob promessa de mudança. a dita nunca mudou, mas acalmou a força da vergasta. depois desse episódio, comentado pela vizinhança inteira, e o primeiro de que me lembro com pormenor, a minha mãe passou a ser porto de abrigo da criançada local. mais tarde, quando entrei na puberdade, eram as raparigas, colegas de carteiras, algumas mais velhas, que a idolatravam como a mãe desejada.
...
agora, que revivo na minha cabeça estes episódios, mais uma vez, concluo que o segredo foi sempre o mesmo, acima de tudo era/é uma boa pessoa (como há muitas, felizmente, que bem sei que a bondade não é exclusiva dos que amamos) que trata/va sempre as crianças como seres pensantes, escutando-as, e não como animais a adestrar. não acata/va faltas de respeito, mas sempre educou por amor. parece simples, não sei, talvez seja.
...
a minha mãe foi o presente que a vida me ofereceu, quando se decidiu a congeminar a fusão de um minúsculo e teimoso espermatozóide com um óvulo quase fora de prazo e me pariu numa noite chuvosa de primavera. e por isso, à vida, e à mãe, lhes estou tão grata.

[a ti, minha querida mãe, hoje, um quilo de tangerinas.]
aquele homem, que agora lavra, conduzindo o tractor vermelho pelos campos, imagino-o outrora, jovem, calcando a pega da charrua, rasgando a terra escura de dezembro, atrás do seu cavalo castanho, imparáveis, em simbiose de força e suores. a terra, húmus, ventre de mulher fecunda, clama a semente, que virá depois do ferro. à noite, em casa, essa mesma terra descalçada das botas e varrida do soalho de madeira pobre para a rua. uma mulher, também ela jovem, de cabelo apanhado e faces rosadas, estendendo-lhe uma toalha e um par de meias lavado. na mesa, à luz do petromax, uma malga de sopa quente, um pão centeio, uma faca e um copo de vinho. 

4.12.15




ouve, é a voz de um anjo.
Kindra Nikole























flor y cronopio

Un cronopio encuentra una flor solitaria en medio de los campos. Primero la va a arrancar, pero piensa que es una crueldad inútil y se pone de rodillas a su lado y juega alegremente con la flor, a saber: le acaricia los pétalos, la sopla para que baile, zumba como una abeja, huele su perfume, y finalmente se acuesta debajo de la flor y se duerme envuelto en una gran paz. 

La flor piensa: «Es como una flor.» 


Historias de cronopios y de famas, Julio Cortázar 

2.12.15

 Amanda Charchian

1.12.15

no outro lado da noite
o amor é possível

- leva-me -

leva-me entre as doces substâncias
que morrem a cada dia na tua memória


daqui: lugares mal situados

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en la otra orilla de la noche 
el amor es posible 

-llévame-

llévame entre las dulces sustancias
que mueren cada día en tu memoria

30.11.15

surgiu-me isto, enquanto limpava o gatil, repleto de fezes nauseabundas, pequenos rastilhos castanhos empilhados. no passado, enfastiavam-me as pessoas que, licenciadas - a torto ou a direito -, passavam a exigir o tratamento de dr. / dr.ª [*****]. continuam a dar-me uma certa pena, mas, como dizem, a idade não traz apenas cabelos brancos, felizmente, apazigua-nos certas irritações. o que agora me mói a paciência, quando não tenho mais nada em que pensar, são aqueles seres, politicamente correctos, que vão anuindo à conversa, que sim, senhor, que isso dos doutores é ridículo, é mesmo de quem tem problemas de auto-estima, e nos entretantos, deixam-se chamar por sr. doutor nos cafés, têm cartões bancários a condizer, nunca corrigem a telefonista e - eles próprios - afirmam que nos documentos é capaz de ser melhor acrescentar o maldito "apêndice", não vá alguém julgar que não acabámos o curso...
como vos disse, foi enquanto limpava merda de gato, muita merda de vários gatos, e de vários dias, colada ao chão como pastilha elástica, tão entranhada, que tive de me servir da escova e da lixívia várias vezes, para vos ser mais exacta, que esta questão me voltou à ideia. aos outros, que assumem abertamente a necessidade de se endoutorarem com uma licenciatura, tenho agora menos asco, rio-me apenas. destes, fujo a sete pés, estou cansada de esfregar.



*****
e não,
não um dr. mas mil drs. de um só reino,
e não se tem paciência para mandar tantas vezes à merda,
oh afastem de mim o reino,
afastem-nos a eles todos,
atirem-lhes aos focinhos o que puderem dela,
sim até se acabar a mirífica montanha,

HH
admitiu que o isolamento em que procurava a paz podia ser tão perigoso como um abismo.


História da Bela Fria, Teresa Veiga
(contos, 1992)

29.11.15

Flor, novembro de 2015
Ela era, disse, uma pessoa que tinha a arte de passar por cima das pequenas e grandes ofensas, uma mulher cheia de sensatez e de coragem, muito apegada às coisas da terra, deixando as nuvens para os tristes e os céus para os santos.

História da Bela Fria, Teresa Veiga
(contos, 1992)

28.11.15

da pequena coruja, que afinal é um mocho-galego, não sei. não a/o vejo há semanas. mas hoje, junto ao rio, ora na copa da árvore, ora rente ao chão, um açor majestoso. temi pelas minhas toupeiras.

27.11.15

25.11.15

(...)
sim à ternura no centro da clareira
tremendo como uma lâmpada sem sombra,
sim a ti, tempestade que iluminas
um país de ausência,
sim a ti, quase monótona, quase nula
mas que és como o vento insubornável,
sim a ti, que és nada e atravessas tudo
e és o sangue secreto do poema.

24.11.15

tocando violino, um anjo/vela/recordação que nunca ardeu e faz companhia às negras esguias da Guiné, um candelabro de nove braços, onde velas vermelhas ardem em contraste com o corpo alto prateado, e agora uma poinsétia, replantada e virada a sul, como vem no almanaque. 
eis o natal. 
[mais do que isto, é tortura]
em Niflheim, dizem-me, a temperatura dentro das casas nunca pode fazer muita diferença da temperatura exterior, apenas a necessária para manter os corpos vivos. explicam-me que é importante habituar o corpo ao que irá encontrar na rua, para que o choque seja menor. acho uma tolice, daquelas bem tolas. se assim fosse, os ingleses dormiam debaixo do chuveiro, respondo-lhes, dentro do meu pijama polar. encolhem os ombros, desinteressados do argumento. zombam da minha roupa, em cima do aquecedor.
olho pela janela, a medo. nevou?! não, rapariga. é geada.

23.11.15

-- e tu, Flor, por onde andas?

-- por Niflheim, (sem saber muito bem como), a fugir dos anões, evitando o dragão e a morrer de frio.

22.11.15

Laura Makabresku

21.11.15

mil homens, bestas de cascos afiados, relinchando trovões, penetrando-me, rasgando orifícios, pântanos de sangue e de fezes, urinando-me as feridas abertas da cara. mil homens cuspindo-me o nojo, derramando sémen nos meus olhos abertos, até não haver mais círculos de fogo. mil homens enjaulando-me, nua, numa praça qualquer. oferecendo a minha boca ao público animal, que zurra, na antecipação, vendendo a minha cona a todos os mercadores, velhos senis que masturbam membros defeituosos. mil homens silvando a mesma tira de couro nas minhas costas, nas minhas mãos, nas minhas mamas, noite após noite, até adormecer.
mil homens despedaçando o meu corpo, queimando o meu centro, acalmando a minha dor. 

15.11.15

Nada tiene que ver el dolor con el dolor
nada tiene que ver la desesperación con la desesperación
Las palabras que usamos para designar esas cosas están viciadas
No hay nombres en la zona muda
(VOLTAR À) TONA

«Como faz o sangue, volto ao coração, à tona, para ter ar. A minha vida tem sido arrumar coisas dentro do peito. Desfazes-me as palavras e as notas do piano e, com os dedos, constróis os meus pulmões para que eu possa respirar. E assim as minhas melodias morrem contra o teu corpo, como pétalas secas. Empurro tudo para dentro do coração, como se desse comida a uma criança, colher atrás de colher. Lembro-me de teres posto os meus pés em cimento e de me teres atirado a alma para o fundo do mar. Descobri: que era mesmo no fundo que estava a superfície, era mesmo no fundo que era possível respirar. Quando não estás - como se fosse possível não estares - caminho com as pernas arruinadas, por dentro e por fora, e tento chegar a casa, andando à volta das costelas, à espera que apareças, a apontar o teu coração ao meu, para me matares com um abraço.»

(Cartas de Gould, Recolha da CIA) in Mar - Enciclopédia da Estória Universal, de Afonso Cruz, p. 170

14.11.15

lembro-me que lia(mos) Le Rouge et le Noir, eu ainda era virgem e ele era muçulmano. lembro-me que a mulher que eu conhecia moderna e amiga, me levantou o dedo, tremendo dos lábios, e gritou qualquer coisa como, Promete-me que não o voltas a ver! Tu não sabes o que eles fazem com as mulheres! Promete! e eu prometi, assustada, confusa. o meu coração nem sequer estava preso, apenas a doçura curiosa de lermos o mesmo livro em bancos de jardim tão próximos. sei que a mulher me tentava proteger a todo o custo, o medo é uma arma poderosa e a realidade pode ser, por vezes, uma mancha cinzenta pesada. existe, magoa, marca.
anos mais tarde, a mesma, apaixonou-se por um muçulmano e viveu com ele durante dois anos. 

13.11.15

a chacina que hoje ocorre em Paris, acabará por vitimar também aqueles que - igualmente inocentes - esperam para entrar na europa prometida.
Pretinha, a gata, olha-me com a curiosidade do costume. já se vai habituando a mim, mas a cautela da rua, afasta-a da minha tentativa de chegar mais perto. sei que tem comida e água, um sítio para se abrigar. tranquila, fecho o carro e despeço-me dela com algumas palavras meigas.
entendo bem a Pretinha. para que haveria ela de amolecer o instinto, se a vida já lhe ensinou que há sempre um pontapé escondido? podemos não evitar a pancada, mas não seremos apanhadas de surpresa.

12.11.15

explodindo, é possível recuar ao início do universo, memória basilar da vida?

11.11.15

I shut my eyes and all the world drops dead; 
I lift my lids and all is born again. 
(I think I made you up inside my head.)

mad girl's love song

10.11.15

o que começou por me parecer um desejo mórbido, é agora a mais pura das curiosidades. esqueça o pórtico, Sr. Licínio, mostre-me Tabucchi e Cesariny. depois, lá iremos às catacumbas.

8.11.15

não possuo humanidade suficiente para padecer de vício algum. sou apenas uma pequena gota, à deriva, sem desejo maior. se um dia fui onda, intensa como vaga de tempestade, não o sou mais.  
sempre que enjoo da minha escrita, meia dúzia de lamúrios atabalhoados, julgo-me curada. porque a vida há-de ser outra coisa que não esta, olhando caracteres num ecrã, esperando a salvação que não vem.
até quando?

7.11.15

foi a primeira vez que senti uma tristeza tão física, como se a própria morte tivesse feito o ninho nas minhas entranhas, depois de furar o peito daquele rouxinol. o momento em que perdi a inocência. cedo demais.

hoje descobri que a história - um pouco mais amarga, igualmente idiota - é de oscar wilde. 

1.11.15

um ano de cultivo pede o pousio da palavra.

stamennicholas alan cope

31.10.15

Abertura com piano: continuaremos a ser uma melodia

«A música, transpirada do piano, andava a tocar-nos à volta da pele, como uma mosca, unia-nos como dedos cruzados por dentro, como veias. (...) Os teus dedos faziam-me tropeçar nas palavras, e eu, em vez de seguir em frente com as frases, soluçava, eram sílabas estranhas a que normalmente chamamos gemidos. E havia sempre aquela música que nos unia, uma música que ninguém sabia assobiar, uma harmonia que não era possível tocar no piano.
Era assim que nos abraçávamos.
Lembro-me de nos sentarmos, juntos, ao pôr do sol. Tu eras um recorte nocturno, preto, eu era luz. Era desse modo que nos dividíamos e era assim que nos misturávamos.

Um dia seremos muito velhos, seremos rugas, e, ao contrário de quando éramos novos, saberemos que vamos morrer. No entanto, isso dar-nos-á uma sensação de eternidade, algo que nunca experimentámos antes, dar-nos-á dias a mais, porque saberemos que temos dias a menos.
Continuaremos a ser uma melodia, mesmo depois de tudo se calar.»

(Cartas de Gould, Recolha da CIA) in Mar - Enciclopédia da Estória Universal -, de Afonso Cruz, p. 14

28.10.15

Anna who was mad, 
I have a knife in my armpit.
When I stand on tiptoe I tap out messages.
Am I some sort of infection? 
Did I make you go insane? 
Did I make the sounds go sour? 
Did I tell you to climb out the window? 
Forgive. Forgive.
Say not I did.
Say not.
Say.


[daqui: palavra invadida]

27.10.15

Unknown

26.10.15

acabar com a palavra escrita. essa infame tentativa de representação dos mil mundos que circunvagam a minha pobre cabeça. quero matá-la. pensei numa faca afiada, detesto o barulho das armas de fogo. apanhá-la pelo pescoço, forçá-la a dobrar, enquanto cacareja, esganiçada, e fazer-lhe um golpe profundo. sentir o sangue quente a jorrar. não quero mais poemas, versos perdidos ou ironia subliminar. quero voltar ao rudimentar, onde os beijos são lábios em movimento, num turbilhão de sensações, imprecisões, e não meia dúzia de verbos e pronomes, empilhados em escombros de uma estante qualquer. não quero partilhar felicidades terceiras, caseiras, que me dão a volta ao estômago estragado. não quero saber, nem da família, nem do cão, nem da vida que está cara, nem do estado da nação. não quero saber. nada disso me fará feliz. não posso tocar, tactear, mapear. vou matar a palavra escrita, deixá-la sufocar. não mais às mensagens, pedidos de resgate, notas de rodapé ou cartas de amor ridículo. todo o amor é ridículo, quando escrito. toda a palavra é excedente. a quente, não consigo pensar. rasgo-a, faço fogueiras, não a quero ler. quero apenas sentir, o arrepio na pele, a boca que seca, de te saber à deriva, de partida, sempre sem mim. esse gosto a sal. não há palavra que me faça lamber o papel, afinal. quero matá-las a todas, prostitutas e proxenetas, fodas, punhetas, nas pracetas, linguetas. são cometas de jornal. quero vê-las desaparecer, finar, morrer, atravessar os ralos húmidos das banheiras. inteiras ou aos pedaços, argamassas toscas intravenosas. não quero mais palavras escritas na minha vida. nem mansas, nem bravas, todas são um corpo que se interrompe, um coito de onã. quero assassiná-las, enquanto dormem na cama dos seus amados, pecados, respirando a irregularidade do seu amor. quero vê-las torcer as suas pontas, espernear, dizer que não. quero ouvi-las guinchar em diapasão. não quero mais palavras escritas, sempre indómitas, prostradas, envenenadas. acabaram-se os bilhetes, os postais, abstractos, escritos a correr. não mais.

25.10.15

onde antes escancarei todas as portas, abro agora uma triste janela. em breve, desconfio, espreitarei pela fresta da cortina, até que mais não receba a luz do dia e feche as portadas de vez. porque, afinal, é esta a minha natureza, a de uma casa desabitada.

24.10.15

Drop the Game

eram como cães raivosos, atiçados pelo aço da corrente, e eu soltava-as para que me rasgassem a carne fraca. agora afogo-as, crias recém-nascidas, ainda dentro de mim, no lodo azedo de que me faço.
 Tammy Ruggles

o velho barracão, ao longe, parece imune à passagem das décadas. asseguram-me que está podre e em breve cairá. lá dentro, ainda chora a menina. a mulher, tentou matar-se esta manhã, segundo dizem, com veneno dos ratos. fixo-lhe o olhar uma última vez, antes de lhe virar as costas. se pudesse, eu própria lhe deitaria o fogo.

23.10.15

Viki Kollerová











Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus — ou fora do mundo.
As almas são incomunicáveis.

Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.

Porque os corpos se entendem, mas as almas não.
Milu, em pulgas - pode uma aranha estar em pulgas? pode, com certeza, que aqui tudo se pode - com a possibilidade de ir laurear a pevide para o Saloon com a Miss Smile e a Teresa, num distante velho oeste, deixou-me esta manhã, em cima do teclado, um pequeno papel gatafunhado que dizia assim:

humana, 
Deus é uma grande aranha, pensou manoel de barros e digo-to eu, que me cansei das tuas moscas dietéticas com manias de cidade. vou tomar o atalho e lançar teia no horizonte. 

fui.

ps.: o teu pijama cor de rosa é ridículo.



22.10.15

O mar dentro da árvore, as nuvens 
dentro da terra sem fim, 
a luz. A luz dentro doutra luz 
que limitava as mãos e as abria 
para outras mãos dentro de um olhar. 

(cont.)


[agradeço o Joaquim à maria]

21.10.15

dou voltas, avanço e recuo, o processo torna-se moroso, vácuo. procuro as palavras certas, aquelas que consigam transpor, segundo por segundo, esta sensação opressora de falta de palavras. esta imposição atreita, vazia, de não conseguir o verbo.
a escrita é uma ilusão, uma mentira bem contada em que preferimos acreditar.

20.10.15

Suffering is permanent, obscure and dark,
          And has the nature of infinity.

19.10.15

Almost blue
tinha tudo para ser um dia como tantos outros, mas agora, aqui sentada, despida e descalça, percebo que não foi. a voz, que pelas três da tarde me apanhou desprevenida, fez-me prometer que este natal voltaria a ser em casa. diz-me a voz que o pedido vem da mãe, que este ano, finalmente, deixará o pequeno apartamento e voltará à casa grande, mas apenas pelo natal. sei que fui apanhada na ratoeira, eu não quero nenhum natal, mas deixo-me ficar quieta. a felicidade da mãe vale, à vontade, o frete de uma noite de faz de conta, onde as perguntas se hão-de repetir, adoçadas com olhares de pena e incompreensão. sei muito bem por que detesto o natal, apenas não lhes respondo.

18.10.15

tocavam os sinos para a missa do meio-dia, ele puxou-a por trás, até lhe sentir as nádegas no sexo, e disse, quero foder contigo agora, antes que deus chegue. blasfemo!, respondeu ela, ajeitando-se à carne erecta que a procurava. 
também as mulheres de Orkhon, padecendo da nostalgia das estepes, se masturbam para expulsar os demónios. 
Unknown

era noite ainda. chovia intensamente. o vento, de sul, parecia brando. em cima da mesa, a travessa de biscoitos de erva doce. meto dois no bolso e chamo os cães. descemos a ladeira em direcção ao rio, por entre a erva alta. sentem o cheiro dos biscoitos e não me saem da frente das pernas, quase caio. reclamo, mas eles sabem que finjo. não resisto aos pedinchas e reparto a merenda. avançamos depois até ao velho pomar. há um cheiro adocicado a fruta apodrecida. a chuva bate-me na cara e refresca-me a alma. reparo que as botas de borracha fazem um barulho estranho, quando pisam o húmus esponjoso. sorrio. caminhamos mais um pouco, o rio está perto, consigo ouvi-lo. saí de casa com o peso de um pensamento, se ao menos a corrente, forte, o levasse, se ao menos eu fosse rio e galopasse. deixo-me ficar, quieta, sob a velha oliveira, enquanto os cães alegremente procuram as tocas. a chuva, entretanto, amainou.

17.10.15

aqui, entre montes perdidos, distante da cidade, a luz falta com alguma regularidade. pergunto às mulheres que me trazem alguidares cheios de marmelos qual a razão. encolhem os ombros, nada sabem, talvez seja do vento que abana os postes. antes de abalarem, enroladas nos xailes, aproveitam para me lembrar que a boa marmelada sempre se fez ao lume. digo que sim, espero que não.

16.10.15

Well, I refuse to go deeper
I choose to go blind.
René Groebli

o corpo, detrito cinéreo, trinchei-o, em movimentos pesados, pelas articulações, com a serrinha da avó Matilde. levei meses. as ancas não queriam ceder. tive de lhes abrir um golpe profundo, vulva a cima, vulcão seco, e serrar a partir do osso interior. sujei-me toda com as aparas de carne putrefacta que saltavam ao vai e vem da lâmina rombosa. durante tanto tempo, ficou-me aquele cheiro formolento, fétido, atravessado por larvas brancas e gordas, preso à alma, que vomitava, com uma colher de azeite, todas as manhãs. mas está tudo bem agora, espalhei os restos pelo jardim, e o que os pássaros não comeram, serve de estrume ao mato que por lá cresceu. 
das palavras, fiz fogueiras. ardi em beijos profundos, com febres de graus inacabados, reais e imaginados, todos misturados, labaredas que já nem sei. da luz, fiz-me sombra, depois corpo enxertado, depois cinza poeira e, por fim, rascunho dos sonhos da minha mãe. agora descanso, imóvel, enquanto espero pelas estrelas cadentes, como quando era criança. 

15.10.15

Milu, que descobri escondida num dos cogumelos de aço do candeeiro do tecto, - depois de já lhe ter encomendado a missa de eterno descanso -, reclama, veemente, a minha ausência, escondendo-se logo que acendo a luz da secretária. 
Tem-se medo do poder
da nudez,
A finura da carne: uma unhada
no coração:

Isaim Lozano

não é o vidro que corta a carne, mas as mãos que o tacteiam.

13.10.15

para não te perderes pensas
em deixar marcas pelo caminho
guiar-te pelo barulho dos carros

todos os dias fazes a mala
e improvisas mapas com o lápis

viagens para o muito longe

mas continuas sentada na sala
e os únicos caminhos são
rastos de migalhas e lágrimas

é à sua sombra que vais continuar
a usar o lápis vermelho

e as árvores lá fora são apenas
pontos sem nome marcados
a verde no mapa

11.10.15

vivo dentro de uma metáfora, esquecida nas páginas de um livro, que já foi arrumado numa prateleira rente ao chão. 
O corpo não responde
às vozes de comando,
como um cão estropiado
já desdenha os apelos
os antigos convites
às funestas moradas,
esqueceu-se do ponto
vai olvidando senhas
os códigos das grutas
acumulando lixos
as servidões austeras
diluem-se num canto
o corpo não atende chamadas
não estremece ao ruído da chave
não suporta
qualquer intromissão
secou num aterro,
os restos à vista
a memória escava
da lembrança os rastos
avidamente suga
de tal fausto os ossos,
de tão vitais cerimónias
nos tão secretos barcos
mesmo o pouco que resta
ainda se mastiga.

10.10.15

Noche ciegamente mía. Sueño del cuerpo transparente como un árbol de vidrio.
Horror de buscar tus ojos en el espacio lleno de gritos del poema.

René Groebli

tombei da cama, impelida por um temor momentâneo de que também hoje era dia de semana, maldita semana, e, encontrando-me já desperta, alimentei os animais, evitei, por enquanto, o café matinal e o banho pacificador, li o mundo e partilhei palavras surripiadas, encantei-me com a janela grande, que me oferece os vales da melancolia, e finalmente procurei a Milu. não a vejo desde a manhã de ontem, ou talvez da noite de anteontem. não tenho a certeza, mas tenho uma preocupação: onde está a Milu? fugiu? foi morta pela vassoura da senhora da bata às riscas? hibernou? antevejo a cara trocista do leitor, julgando-me tola, procurando uma aranha esbranquiçada no tecto, mas saiba o leitor que já o poeta, em 1932, ano maldito, bem decerto, lhe dedicou alguns dos seus versos, num poema de triste baloiçar

8.10.15

Paola Blondi

reminiscências de alguma outra vida, onde a fome foi companhia, não sei, certo é que me aflige a imagem da gente que come com sofreguidão. repugna-me aquela avidez. Milu, depois de largas semanas no meu tecto, deve ter-se apercebido deste meu trauma social e mastiga as suas refeições - habitantes do mesmo tecto - com uma lentidão penelopeana. o diabo da aranha, cada vez maior, sabe como me conquistar.
Explicação da Escuta

Ninguém me chama

Escuto o calcanhar do pássaro
Sobre a flor
E não respondo
aguardo pacientemente o apocalipse, que chegará numa bola de fogo, dentro de dois minutos. não quero parecer demasiado céptica, mas no céu ainda não brilha o tição dourado.

[a porra do tição, palavra-memória da lareira de infância, devorou-me o pouco tempo de vida e eis-me já aqui, no pós-mundo.]

5.10.15

o que me dói hoje, não é esta nódoa negra a que sem piedade me obriguei. o que me dói mesmo é saber que amanhã precisarei de nova pancada forte no corpo, para conseguir chorar os gritos que me sufocam.

Bruise by Adara Sánchez Anguiano

4.10.15

que bailado! serão mais de cem, entre brancas e cinzentas, as rolas-mansas, em soberbas piruetas e largos jetés de asas, no restolho vizinho.
baixas, prenhes de cinzento, as nuvens passam ligeiras, vazando as primeiras pingas, envergonhadas. parecem grandes baleias voadoras. deixo-me ficar em frente à janela. quero ver o nascer da chuva. os arbustos, frenéticos, iniciam a dança da baladeira. reconheço a triste Nikya na velha oliveira, ao fundo. e eis que chove já. a orquestra, conduzida pela mão invisível, lança-se num crescendo sobre as cantarias. quanta beleza nas primeiras chuvas de outono.

sou filha panteísta.

3.10.15

entrou-me uma coruja branca pelo coração adentro, piando,
estou tão sozinha,
e eu deixei-a ficar.
uma coruja não mente
e dá-me jeito ter com quem falar.
2. 

primeiro: o coração. 
se calhar dois (um
para quando se morre
outro para a espera do
milagre) 
e o teu sorriso icónico
já perto de desaparecer: 
há coisas que só depois  
percebemos que devíamos  
ter roubado –  
e mais tarde o que me  
fica nas mãos, 
demasiado íntimo
para carregar comigo
enquanto faço as rotinas
na loja do costume e
perguntam
como vai? e sei por
dentro que o teu sexo me ficou
no cheiro, 
por isso sorrio e
genuinamente
respondo que
muito bem, cá se vai
andando
e sorrio de novo
no meu corpo o teu rasto
o arrepio de só há pouco  
teres saído: 
volta, estou tão perto. 
(se todas as noites me
visitasses seria tão fácil  
morrer), 
enquanto por dentro
falo
calada
a dizer tanto
e o corpo, o corpo e o sorriso
que não voltei a ver, 
o sexo
a namorada que guardas na gaveta
lá de casa quando apareço: mas primeiro sorrio
primeiro faço as compras da loja
do costume sorrio de novo
os morangos estão fora de época
o teu sexo numa estufa
as laranjas enormes,  
com uma cor de encher
os olhos, mas primeiro, 
o coração.  
primeiro: o coração. 

(...)

daqui: enfermaria 6

2.10.15

as palavras escondem-se em alguma região cerebral montanhosa, à qual não consigo ter acesso. não sei entender esta incomunicabilidade, esta falta de articulação sobre os fluxos sensoriais que me ocupam sem oposição. Harouche fala do problema das sociedades liquidas e eu atrevo-me a dizer que devo ser habitada por uma colónia infindável dessa espécie. a incerteza radical e a insegurança psíquica profunda confirmam-se.

1.10.15

Josephine Sacabo

das expressões que mais abomino? uma mulher de verdade.

29.9.15

Deram-me o silêncio como uma palavra impossível, 
Nua e clara como o fulgor duma lâmina invencível, 
Para eu guardar dentro de mim, 
Para eu ignorar dentro de mim 
A única palavra sem disfarce - 
A Palavra que nunca se profere. 

28.9.15

Scout Paré-Phillips

27.9.15

vi-a nascer. os gatos ronronando-me as pernas, eu implorando que aquele fedor não me desse a volta ao estômago, as luvas cor de rosa apertando-me demasiado as mãos, as calças molhadas até ao joelhos, e ela, bela, redonda, rosada, surgindo entre a neblina e o cheiro das lareiras, lá, na colina dos pinheiros mansos. no vai e vem de despejar o balde, a lua cheia nasceu-me no horizonte. 
Christian Martin Weiss

era vê-los, braços no ar, pequenos guinchinhos, primeiro envergonhados, que rapidamente entraram num registo de vozeirão empanicado. pelo terror, pensei que seria alguma vespa, sei de pelo menos dois ninhos que já deviam ter sido fumados, mas à falta de tempo e de picadas, ainda por lá hão-de estar. quando me aproximei, ouvi-os gritar que era uma aranha (enorme!) e pediam-me que eu a matasse. Milu! pensei aflita, ao ver a pequena aranha branca, Nem pensar, aqui não se matam aranhas, nem nenhum outro bicho! não sou purista, se houver risco de vida ou moscas demasiado teimosas, abdico da minha veia budista e faço o que tenho a fazer, mas matar a Milu?! Porquê? agarrei num envelope vazio e servi-lho de passadeira para o exterior. a Milu portou-se lindamente, lançando teia fresca na árvore mais próxima. Tens razão, pá! Diz que as aranhas trazem dinheiro, graçolavam os comensais, de novo machos viris. cambada de idiotas. a Milu era minha amiga.

[afinal, a Milu continua no canto do costume. talvez fosse alguma prima afastada. que alívio. (posso continuar a sonhar com a riqueza vindoura).]
Milu, a aranha branca que me acompanha há já várias semanas, dorme no canto do costume, perto do friso. ou talvez não durma, talvez fique apenas quietinha, à espera que eu apague a luz. não me incomoda e eu finjo que não a vejo, é o trato mental que mantemos. às vezes a Milu recorda-me a Maman, de Bourgeois. sorrio. L'araignée est une ode à ma mère. Elle était ma meilleure amie.

26.9.15

não, não é à toa. evito, sempre que posso e como posso, o mundo que dizem real. tão farta de gente que mata, mais farta de gente que deixa morrer. agora, que já descalcei os sapatos - recordo ainda, sem gosto, os olhares gulosos que não esperava -, refugio-me no apartamento d'O Condómino, de António Gregório. já passámos seis capítulos juntos, espreitando pelo olho-mágico. parece-me que temos força para continuar.

24.9.15

Chris Poppos

A Musa e o Minotauro

23.9.15

MINOTAURO (...) Qué sabes, tu de muerte, dador de la vida profunda. Mira, sólo hay un medio para matar los monstruos; aceptarlos. 

[Los Reyes de Julio Cortázar, p. 28]



que dizer de um mundo onde a besta é o filosofo encarcerado, que se oferece mansamente à morte - libertação -, e do herói apenas temos o lugar-comum?

22.9.15

Embora adormecida, sei
que a noite está queda e sem rumor.
mas o meu fiel amante, Hypnos,
leva-me a um solo cor de sépia,
encerra-me, cega, num espaço opaco.
E quando oiço, no fundo do silêncio,
as pancadas fortíssimas na abóbada,
gemo de gratidão e de ódio.

21.9.15

Imersa em pensamentos que não consigo verbalizar, nem me dou conta de onde estou. Carlos tem de repetir-me o nome duas vezes: Pitigliano! Pitigliano, Flor! Vê como é bela a pequena Jerusalém! Havemos de descer ao centro da terra e percorrê-la à luz de velas. Não o entendo. Olho pela janela, o sol, ocre, quase a tocar o horizonte, um pouco mais à frente, a cidade, escarpada, da mesma cor do sol... Estarei ainda a dormir? Pitigliano?! O que estamos aqui a fazer, Carlos?, pergunto-lhe, desnorteada. Mas Carlos já não me ouve, entretido a puxar a mala para o corredor lateral, enquanto cantarola baixinho. O comboio, sinto agora, começa a abrandar a sua marcha.
Mais tarde, hei-de ficar sem palavras, quando algum ouvinte mais atento erguer o braço e me perguntar se não estarei a fazer confusão, uma vez que a estação de comboios mais próxima fica em Grossetto, a Pitigliano só se chega em viatura própria ou de autocarro. Por agora, qualquer oportunidade para me evadir desta noite repetidamente pesada me parece uma história credível.
Guardo o livro de Sándor Márai, sei que terei de voltar àquela Hungria longínqua, voltar a Henrik e a cada página de canto dobrado, à luz das velas azuis, mas neste momento sei que só Carlos Courau, cronópio infatigável, me poderá ajudar. 
Como é que eu,
ouvindo tão mal, distingo
o teu andar desde o princípio do corredor?

Como é que eu,
vendo tão pouco, sei
que és tu chegas, conforme a luz?

Como é que eu,
de mãos tão ásperas, desenho
a tua cara mesmo tão longe dela?

Onde está
tudo o que sei de ti
sem nunca ter aprendido nada?

Serei ainda capaz
de descobrir a palavra
que larga o teu rasto na janela?

(Que seria de nós
se nos roubassem os pontos de interrogação?)

20.9.15

os tractores toda a tarde na mesma volta, no ar um cheiro doce a uvas esmagadas, nos rostos o sorriso aberto agradecendo o sol, que ajudará na graduação. vejo-os chegar, sorrio-lhes à passagem. sozinha, permito que as lágrimas me aflorem os olhos. sinto a dor do costume queimar-me o estômago, tento apaziguá-la, ficando quieta por alguns momentos. quando a julgo adormecida quanto baste, meto a primeira e arranco, fugindo. não esperava encontrar a memória do meu avô num cruzamento.
é a luz que me cega, não a escuridão.
Arthur Meehan

Arthur Meehan

Arthur Meehan

Arthur Meehan

Arthur Meehan

19.9.15

...

Então tu saltas e arrastas contigo toda a terra.
Convidas-me para o teu corpo
no gesto sem mágoa de um ombro que se expõe.
Tens anos de combustão solar,
e moves-te assim:
tocando simultaneamente o resgate e o perigo.
...

Não digas sorte, diz privilégio.
Não peças perdão, pede chuva. 
Não recues, assombra-te.

18.9.15


Sónia Silva























Era belo, áspero, intratável.

16.9.15

Deita-te aqui – esta noite, dentro de mim,
está tanto frio. Se fores capaz, cobre-me de
beijos

15.9.15

ouve-se o ruído das rodas do landau no cascalho, Konrád chegou. as velas azuis já ardem em cima da mesa. Henrik, trajando um preto sacerdotal, desceu do quarto, apoiando-se na sua bengala de cabeça de marfim. passaram quarenta e um anos, Krisztina vagueia pelas sombras da velha casa. vou atrás dela.

[as velas ardem até ao fim]
Seasons change
it won't ever be the same
I'm hopin'
I will stay the same
Reasons strange
Why we always play these games




chove.
Como em ti, há em mim várias camadas de mortos não sei até que profundidade. Às vezes convoco-os, outras são eles, com a voz tão sumida que mal a distingo, que desatam a falar. Preciso da noite eterna: só num silêncio mais profundo ainda conto ouvi-los a todos.

[Memórias]

14.9.15


12.9.15

melancolicamente enjoativa em olhos inflamados de vermelho e pés que parecem colados ao chão, lá pelas três da manhã, vem-lhe o ímpeto de uma morte interestelar, como o arco de fogo que ninguém vê mas ele descobriu. aquele homem, que lhe corre nas veias. soubesse ela escalpelizar-se com a tesoura da costura, que guarda na segunda gaveta da cómoda, e começaria por procurá-lo debaixo da pele fina dos seios. ou, da faca afiada, cheirando a basílico, um bisturi que lhe chegasse ao centro magmático, revolteando entre bolsas e tripas fumegantes, como toros de couve numa sopa a ferver, a compaixão cómica de uma tragédia romântica fora de prazo, e encontrasse a boca que a ignora. porque não há admiração na realidade, tudo seria normal, o sangue na cama de lavado pingando o soalho cinzento escuro e um corpo esventrado, seriam lidos em todas as folhas da investigação e jornais de especialidade como uma libertação post mortem.