8.6.15

o general Isidro Vidal conseguiu derrotar o inimigo em todas as frentes. os tempos são agora de paz e abundância. as aldeias fronteiriças dizimadas começam, aos poucos, a ser reconstruídas e habitadas por deslocados e desertores de guerra. o comércio retomou as rotas habituais e os impostos voltaram a ser cobrados. da guerra ficam as feridas das perdas humanas, mulheres sem maridos, filhos, irmãos e pais, mas orgulhosas da sua linhagem guerreira. 
por um bilhete da prima, Ulrica soube que Borges foi um dos capitães condecorados por bravura e valentia e da guerra herdou um mancar na perna direita, bala dirigida ao general. soube também que regressou a casa, não à casa que Ulrica julgou ser a sua, mas ao doce lar, onde uma esposa extremosa e dois filhos pequenos o aguardavam. tudo isto lhe contou a prima, julgando informá-la apenas de meras curiosidades sobre tão garboso capitão, um herói.
Ulrica caiu de cama por mais de duas semanas, com tão rude golpe. quis morrer, deu-se por vencida. entendia agora o intransponível labirinto de Borges, a sua fuga sem fim. levantou-se finalmente no dia em que se deu o eclipse solar, movida pela curiosidade. Abenjacan, que nunca abandonou a cabeceira da cama, saiu nesse mesmo dia para caçar. Atlas, ainda e para sempre coxa, seguiu-o. mais tarde, Ulrica, montando Salomão, que entretanto engordara e caminhava sem pressas, juntou-se-lhes na clareira perto do templo. nesse entardecer o equilíbrio reestabeleceu-se. os quatro estavam ligados pelo laço mais forte de Odin, o laço do afecto.
de Borges, hão-de restar apenas as memórias, um dia.