31.8.15

esperar que voltes é tão inútil como o
sorriso escancarado dos mortos na necrologia dos jornais

e no entanto de cada vez que
a noite se rasga em barulhos e
um telefone se debruça de
uma qualquer janela

sinto que ainda ficou uma
palavra minha esquecida na
tua boca e que
vais voltar
para
a
devolver

27.8.15

o fecho lateral da calças, afiado, corta-lhe a pele. a dor é tão fina, que se afunda instantaneamente na carne, recuperando-lhe a consciência. 
o sangue dos mortos é invisível.

26.8.15

there's a bluebird in my heart that
wants to get out
but I'm too clever, I only let him out
at night sometimes
when everybody's asleep.

24.8.15

Victoria Siemer

23.8.15

El amor es un orgasmo entre dos lágrimas
La lágrima es un lago rodeado de estertores
El estertor es un volcán de viento
El viento es la forma en las esquinas
La esquina de la boca es un misterio
La boca es un espacio antes de que el pecho
El pecho es otro abismo entre dos sangres
La sangre es el motor que alimenta el acto
El acto es una danza contra el tiempo

El tiempo es el espacio que las medidas no prenumerados

(...)

***

O amor é um orgasmo entre duas lágrimas
A lágrima é um lago rodeado de estertores
O estertor é um vulcão de vento
O vento é o caminho dos cantos
O canto é um mistério da boca
A boca é um abismo antes do peito
O peito é outro abismo entre dois sangues
O sangue é o motor que nutre o ato
O ato é uma dança contra o tempo

O tempo é o que mede espaços até então não numerados

(...)

[trad. Thiago de Mello]

22.8.15

das primeiras gotas, finas como brisas, chega-me o odor intenso do restolho amarelo. primeiro a palha, depois a erva, por fim, a terra.

21.8.15

Escrever.
Não posso.
Ninguém pode.
É preciso dizer: não se pode.
E se escreve.
É o desconhecido que trazemos connosco;
escrever, é isto o que se alcança. Isto ou nada.

leio Marguerite e sorrio. felizmente, ela pensou-o antes de mim.

20.8.15

¿Quién los ve andar por la ciudad
si están todos ciegos?
Ellos se toman de la mano: algo habla
entre sus dedos,
lenguas dulces
lamen la húmeda palma, corren por las falanges,
y arriba está la noche llena de ojos.

19.8.15

- amas-me?
- amo-te.
ama-se sempre quando alguém nos pergunta.

18.8.15

voto de silêncio - uso restrito do parlatório - simplicidade e curiosidade. pedras frescas e altas,  livros e música, árvores e pássaros. a ideia, romantizada, seduz.

17.8.15

esventrar a dor, se pudesse pedir. depois adormecer. acordar pedra, seixo do rio.




All stars in the sky are for you
All songs in the world are for you
Everybody is for you
Everything's specially for you
All the Universe is just for you

16.8.15

Ainda que chorar seja inútil, creio que, contudo, é necessário chorar. Porque o desespero é tangível. A recordação do desespero permanece. Às vezes mata.
hoje festejo o primeiro dia de outono. maravilhoso.
a neblina que esconde o cume do vale não disfarça o eco dos tiros. abriu a maldita época de caça.

15.8.15

Unknown

Não sei de prazer maior, em toda a minha vida, que poder dormir. O apagamento integral da vida e da alma, o afastamento completo de tudo quanto é seres e gente, a noite sem memória nem ilusão, o não ter passado nem futuro.


Jeremy Mann

14.8.15

não procuro maiorias, grupos, tendências, cadeiras de encosto, nem encosto de cadeiras, lugares-comuns ou massivamente incomuns. o sabor da possibilidade de um pensamento individual - um ciclo completo da ideia, pelo menos - é intenso e maduro, como gosto. o contrário seria fingir-me na realidade dos outros, tantas vezes construída com propósitos antagónicos aos meus, e isso - o tempo ensina - de nada me serve. prefiro /des/construir o vazio /? existirá o vazio?/ a aplaudir o oco, em frente à plateia. 
Georgia O’Keeffe– Hands with Thimble

13.8.15

Uma criança (...).
"Tenho um grande medo de ser a sua mãe", disse a mim própria. Senti-me invadida por grande ansiedade porque quem amamenta não imagina a quimera que traz no seio.

(28 de Junho de 1984 - Herbais)
[final do prólogo do autor/dedicatória]

O que foi, torna a ser. O que é, perde existência.
O palpável é nada. O nada assume essência.

[Fausto, traduzido por António Feliciano de Castilho]


..../?/....

O que possuo dilui‑se na distância,
E o que fugira ganha forma e substância.

[Fausto, traduzido por João Barrento]

12.8.15

comprei todos os seus Diários. amo-o, como amo outras folhas de papel.
Sonho um barco em naufrágio, e um mar tão fundo que a descida do abismo é lentidão sem fim.

11.8.15

sob um sol que me incomoda os olhos, depois o corpo, não sei quantas passadas dou, a direito, antes e depois da sopa triturada, que comi com tamanho gosto. ao longe, vejo a tarde, sei-a de cor, mas à memória vens-me tu, à boca, o teu sexo, quase lhe sinto o sabor.

Unknown















O teu pénis
é o rouxinol
que canta
e adeja
nas minhas mãos
em mim
e que posso beijar
Se existisses, serias tu,
talvez um pouco menos exacta,
mas a mesma existência, o mesmo nome, a mesma morada.

Atrás de ti haveria
as mesmas palmeiras, e eu estaria
sentado a teu lado como numa fotografia.

Entretanto dobrar-se-ia o mundo
(o teu mundo: o teu destino, a tua idade)
entre ser e possibilidade,

e eu permaneceria acordado
e em prosa, habitando-te como uma casa
ou uma memória.

[Nenhuma Palavra e Nenhuma Lembrança]

houve um tempo em que enganava o desespero do corpo, mantendo-o adormecido. de tanto dormir, longe da claridade que queima, a dor foi-se anestesiando. é o que tento agora, embalar o corpo, para que durma, mas o corpo, cansado de mim, já não se deixa enganar. a tristeza que lhe roubo ao anoitecer, devolve-ma em madrugadas brancas de facas afiadas. algures, perdi a habilidade com as palavras, perdi a vontade. todos os gritos são mudos. 

10.8.15

- Meu pai, que nos ardem os pinhais.

Unknown

venho aqui deixar paus, pedras, regatos verdes de agriões e pequenas rãs, poças de água, pinheiros velhos, silvados e amoras, restolhos rentes que já foram mar, uma serra onde pertenço. velhas fotografias. pele, flores, brisas, beijos. tesouros que guardo nas memórias que /des/construo. fugi de mim e agora não sei/.../ húmus. árvores. cavernas. morcegos. escuridão. uivos. lamentos.
não voltarei à alcateia. já não existe/o/.
Sónia Silva











































Deixa a madrugada aumentar a ferrugem dos teus sonhos.

O Juízo Original - André Breton & Paul Éluard

8.8.15

Trees resigned to dying - Natalia Drepina




























Para descobrir a nudez daquela que amas, olha as suas mãos. O seu rosto baixou.

O Juízo Original - André Breton & Paul Éluard

7.8.15

Nós nunca nos realizamos.
Somos dois abismos - um poço fitando o céu.
“(o) fading do outro, quando se produz, angustia-me, porque parece não ter causa nem termo. Eis uma triste miragem, o outro afasta-se, dirige-se ao infinito e eu canso-me tentando alcançá-lo”

6.8.15

Ser parte de uma árvore,
como os pássaros o são.
Achar uma voz sem boca,
ou mesmo encontrar
uma boca que fale azul.

5.8.15

as árvores também sangram

Will Benedict

4.8.15

Finalmente a verdade Que tu mais não és que uma citação 
De um livro que não escreveste 

3.8.15

Por isso é que estamos morrendo na boca
um do outro. Por isso é que
nos desfazemos no arco do verão, no pensamento
da brisa, no sorriso, no peixe,
no cubo, no linho,
no mosto aberto
— no amor mais terrível do que a vida.
É pôr a boca na fenda, e de um sorvo só aspirar toda a carne.

2.8.15

são como um vestido, cabe nelas, mas não foram desenhadas para as suas medidas. ajeita-as, disfarça-lhes a largura com um cinto dourado. 

1.8.15

Escrevo-te com o fogo e a água. Escrevo-te 
no sossego feliz das folhas e das sombras.
Escrevo-te quando o saber é sabor, quando tudo é surpresa.
there's a bluebird in my heart 


metamorphosis by Slava Triptih