29.9.15

Deram-me o silêncio como uma palavra impossível, 
Nua e clara como o fulgor duma lâmina invencível, 
Para eu guardar dentro de mim, 
Para eu ignorar dentro de mim 
A única palavra sem disfarce - 
A Palavra que nunca se profere. 

28.9.15

Scout Paré-Phillips

27.9.15

vi-a nascer. os gatos ronronando-me as pernas, eu implorando que aquele fedor não me desse a volta ao estômago, as luvas cor de rosa apertando-me demasiado as mãos, as calças molhadas até ao joelhos, e ela, bela, redonda, rosada, surgindo entre a neblina e o cheiro das lareiras, lá, na colina dos pinheiros mansos. no vai e vem de despejar o balde, a lua cheia nasceu-me no horizonte. 
Christian Martin Weiss

era vê-los, braços no ar, pequenos guinchinhos, primeiro envergonhados, que rapidamente entraram num registo de vozeirão empanicado. pelo terror, pensei que seria alguma vespa, sei de pelo menos dois ninhos que já deviam ter sido fumados, mas à falta de tempo e de picadas, ainda por lá hão-de estar. quando me aproximei, ouvi-os gritar que era uma aranha (enorme!) e pediam-me que eu a matasse. Milu! pensei aflita, ao ver a pequena aranha branca, Nem pensar, aqui não se matam aranhas, nem nenhum outro bicho! não sou purista, se houver risco de vida ou moscas demasiado teimosas, abdico da minha veia budista e faço o que tenho a fazer, mas matar a Milu?! Porquê? agarrei num envelope vazio e servi-lho de passadeira para o exterior. a Milu portou-se lindamente, lançando teia fresca na árvore mais próxima. Tens razão, pá! Diz que as aranhas trazem dinheiro, graçolavam os comensais, de novo machos viris. cambada de idiotas. a Milu era minha amiga.

[afinal, a Milu continua no canto do costume. talvez fosse alguma prima afastada. que alívio. (posso continuar a sonhar com a riqueza vindoura).]
Milu, a aranha branca que me acompanha há já várias semanas, dorme no canto do costume, perto do friso. ou talvez não durma, talvez fique apenas quietinha, à espera que eu apague a luz. não me incomoda e eu finjo que não a vejo, é o trato mental que mantemos. às vezes a Milu recorda-me a Maman, de Bourgeois. sorrio. L'araignée est une ode à ma mère. Elle était ma meilleure amie.

26.9.15

não, não é à toa. evito, sempre que posso e como posso, o mundo que dizem real. tão farta de gente que mata, mais farta de gente que deixa morrer. agora, que já descalcei os sapatos - recordo ainda, sem gosto, os olhares gulosos que não esperava -, refugio-me no apartamento d'O Condómino, de António Gregório. já passámos seis capítulos juntos, espreitando pelo olho-mágico. parece-me que temos força para continuar.

24.9.15

Chris Poppos

A Musa e o Minotauro

23.9.15

MINOTAURO (...) Qué sabes, tu de muerte, dador de la vida profunda. Mira, sólo hay un medio para matar los monstruos; aceptarlos. 

[Los Reyes de Julio Cortázar, p. 28]



que dizer de um mundo onde a besta é o filosofo encarcerado, que se oferece mansamente à morte - libertação -, e do herói apenas temos o lugar-comum?

22.9.15

Embora adormecida, sei
que a noite está queda e sem rumor.
mas o meu fiel amante, Hypnos,
leva-me a um solo cor de sépia,
encerra-me, cega, num espaço opaco.
E quando oiço, no fundo do silêncio,
as pancadas fortíssimas na abóbada,
gemo de gratidão e de ódio.

21.9.15

Imersa em pensamentos que não consigo verbalizar, nem me dou conta de onde estou. Carlos tem de repetir-me o nome duas vezes: Pitigliano! Pitigliano, Flor! Vê como é bela a pequena Jerusalém! Havemos de descer ao centro da terra e percorrê-la à luz de velas. Não o entendo. Olho pela janela, o sol, ocre, quase a tocar o horizonte, um pouco mais à frente, a cidade, escarpada, da mesma cor do sol... Estarei ainda a dormir? Pitigliano?! O que estamos aqui a fazer, Carlos?, pergunto-lhe, desnorteada. Mas Carlos já não me ouve, entretido a puxar a mala para o corredor lateral, enquanto cantarola baixinho. O comboio, sinto agora, começa a abrandar a sua marcha.
Mais tarde, hei-de ficar sem palavras, quando algum ouvinte mais atento erguer o braço e me perguntar se não estarei a fazer confusão, uma vez que a estação de comboios mais próxima fica em Grossetto, a Pitigliano só se chega em viatura própria ou de autocarro. Por agora, qualquer oportunidade para me evadir desta noite repetidamente pesada me parece uma história credível.
Guardo o livro de Sándor Márai, sei que terei de voltar àquela Hungria longínqua, voltar a Henrik e a cada página de canto dobrado, à luz das velas azuis, mas neste momento sei que só Carlos Courau, cronópio infatigável, me poderá ajudar. 
Como é que eu,
ouvindo tão mal, distingo
o teu andar desde o princípio do corredor?

Como é que eu,
vendo tão pouco, sei
que és tu chegas, conforme a luz?

Como é que eu,
de mãos tão ásperas, desenho
a tua cara mesmo tão longe dela?

Onde está
tudo o que sei de ti
sem nunca ter aprendido nada?

Serei ainda capaz
de descobrir a palavra
que larga o teu rasto na janela?

(Que seria de nós
se nos roubassem os pontos de interrogação?)

20.9.15

os tractores toda a tarde na mesma volta, no ar um cheiro doce a uvas esmagadas, nos rostos o sorriso aberto agradecendo o sol, que ajudará na graduação. vejo-os chegar, sorrio-lhes à passagem. sozinha, permito que as lágrimas me aflorem os olhos. sinto a dor do costume queimar-me o estômago, tento apaziguá-la, ficando quieta por alguns momentos. quando a julgo adormecida quanto baste, meto a primeira e arranco, fugindo. não esperava encontrar a memória do meu avô num cruzamento.
é a luz que me cega, não a escuridão.
Arthur Meehan

Arthur Meehan

Arthur Meehan

Arthur Meehan

Arthur Meehan

19.9.15

...

Então tu saltas e arrastas contigo toda a terra.
Convidas-me para o teu corpo
no gesto sem mágoa de um ombro que se expõe.
Tens anos de combustão solar,
e moves-te assim:
tocando simultaneamente o resgate e o perigo.
...

Não digas sorte, diz privilégio.
Não peças perdão, pede chuva. 
Não recues, assombra-te.

18.9.15


Sónia Silva























Era belo, áspero, intratável.

16.9.15

Deita-te aqui – esta noite, dentro de mim,
está tanto frio. Se fores capaz, cobre-me de
beijos

15.9.15

ouve-se o ruído das rodas do landau no cascalho, Konrád chegou. as velas azuis já ardem em cima da mesa. Henrik, trajando um preto sacerdotal, desceu do quarto, apoiando-se na sua bengala de cabeça de marfim. passaram quarenta e um anos, Krisztina vagueia pelas sombras da velha casa. vou atrás dela.

[as velas ardem até ao fim]
Seasons change
it won't ever be the same
I'm hopin'
I will stay the same
Reasons strange
Why we always play these games




chove.
Como em ti, há em mim várias camadas de mortos não sei até que profundidade. Às vezes convoco-os, outras são eles, com a voz tão sumida que mal a distingo, que desatam a falar. Preciso da noite eterna: só num silêncio mais profundo ainda conto ouvi-los a todos.

[Memórias]

14.9.15


12.9.15

melancolicamente enjoativa em olhos inflamados de vermelho e pés que parecem colados ao chão, lá pelas três da manhã, vem-lhe o ímpeto de uma morte interestelar, como o arco de fogo que ninguém vê mas ele descobriu. aquele homem, que lhe corre nas veias. soubesse ela escalpelizar-se com a tesoura da costura, que guarda na segunda gaveta da cómoda, e começaria por procurá-lo debaixo da pele fina dos seios. ou, da faca afiada, cheirando a basílico, um bisturi que lhe chegasse ao centro magmático, revolteando entre bolsas e tripas fumegantes, como toros de couve numa sopa a ferver, a compaixão cómica de uma tragédia romântica fora de prazo, e encontrasse a boca que a ignora. porque não há admiração na realidade, tudo seria normal, o sangue na cama de lavado pingando o soalho cinzento escuro e um corpo esventrado, seriam lidos em todas as folhas da investigação e jornais de especialidade como uma libertação post mortem. 
há quem pense que todas as madrugadas brancas são iguais. não são. algumas trazem o sabor do ferro, que horas antes cravámos no ventre. 

11.9.15

Carlos Courau, cronópio infatigável, segundo as palavras de Julio, disse-me que aguardasse na pequena sala de espera da estação, apinhada de jovens recrutas, que jogavam à sueca, enquanto gritavam impropérios e soltavam gargalhadas sonoras. Ao meu lado, envoltos em longas capas negras, alguns padres da Ordem de Santo Agostinho mantinham-se imersos em livros vermelhos de medicina conventual. Senti-me tentada a espreitar-lhes por cima do ombro, curiosa pela leitura, mas retraí-me no último segundo. Naquela sala, eu era a única mulher. 
Após um quarto de hora, quando as pulgas já se começavam a alojar atrás das orelhas, Carlos regressou, sorrindo. Trazia na mão dois bilhetes para Paris; de lá, da Gare Montparnasse, partiríamos para o mundo (para Carlos, Paris será sempre o centro do mundo), talvez parássemos na Córsega, - Carlos tinha prometido um pacotinho de canistrellis à tia -, depois zarpávamos para a Sicília, onde Carlos queria rever a Fata Morgana, em dia de feição, soalheiro. Disse-mo em tom de confidência, quase sussurrado, que supus tratar-se de algum amor antigo. Só depois rumaríamos ao destino por mim tão ansiado, a pouco mais de 60 quilómetros de Atenas, o terrível Cabo Sunião. Estas foram as condições impostas por Carlos, para me acompanhar ao promontório de Egeu. Aceitei-as, sem vacilar.
Da minha vontade, falarei noutra noite. Por agora, tento, a custo, arrastar o saco de viagem, autêntica pele de cabra transmontana, teimosa como mula, atrás de Carlos. Embora carregando um saco bem maior do que o meu, parece flutuar por entre as árvores humanas que à noite nascem na estação de Santa Apolónia.
Era só isto que queria dizer. Depois da morte hei-de talvez acrescentar que cheguei a amar a perda do que amei, mas será tarde demais, o tempo é afinal uma possibilidade tão inútil como o resto.

8.9.15

Despedida
Avísame cuando dejes de quererme. Cuando ya no te inunden mis recuerdos, cuando se te haya escapado el olor de mi nuca y no me puedas ver corriendo por el jardín. Avisa cuando nuestras canciones solo sean música, cuando el color azul no sean mis ojos y el delantal repose desnudo en el colgador. Me bastará con que una noche, mientras nos lavamos los dientes, me preguntes ¿perdona, te conozco de algo?

7.9.15

pai, digo-te 
a minha sombra és tu 

*

6.9.15

Nós fomos
mãos,
esvaziámos a treva, encontrámos
a palavra, que subia do verão:
flor.

Flor - uma palavra de cegos.
Os teus olhos e os meus olhos:
vão em busca de água.

Laura Makabresku

5.9.15

7 de agosto [de 1960]

Cuando era más chica, despertaba llorando y era feliz por la noche. Ahora es lo contrario. A las seis de la tarde —hora fatal para las solitarias— muero y remuero. Me transformo en una bestia encerrada, impotente en su enorme fuerza inútil. ¿Es esto la adultez?, pregunto. ¿Ser una persona grande es odiar la niebla y la oscuridad? La vida es demasiado larga, creo, siento. No es larga cuando hay muchas cosas que hacer. Pero cuando no se hace nada o se espera todo, que es lo mismo, entonces la vida es larga. Pero yo me veo forzada a pensar en la vida. Desde hace muchos años, desde que me di cuenta que sufría demasiado tuve que pensar en mi vida. Y entonces pensé en mi vida:

--Tienes que salir de esta situación.

--No sé cómo.

--Tú crees que estás sufriendo para algo, para alguien. Aún no sabes que no hay a quién demostrar que se sufre.

--Pero yo debo sufrir. Es como si debiera vengarme.

(...)


Alejandra Pizarnik
quem sempre viveu atravessando cordilheiras, nunca habituará as pernas ao deserto.

4.9.15

Cause she won't sleep unless she heals her loneliness

 ONE (Official Short Film)

3.9.15

que órgão feio, a consciência, um olho gigante, feito peixe-elefante, a perscrutar a minha in/decência.

1.9.15


Unknown