11.9.15

Carlos Courau, cronópio infatigável, segundo as palavras de Julio, disse-me que aguardasse na pequena sala de espera da estação, apinhada de jovens recrutas, que jogavam à sueca, enquanto gritavam impropérios e soltavam gargalhadas sonoras. Ao meu lado, envoltos em longas capas negras, alguns padres da Ordem de Santo Agostinho mantinham-se imersos em livros vermelhos de medicina conventual. Senti-me tentada a espreitar-lhes por cima do ombro, curiosa pela leitura, mas retraí-me no último segundo. Naquela sala, eu era a única mulher. 
Após um quarto de hora, quando as pulgas já se começavam a alojar atrás das orelhas, Carlos regressou, sorrindo. Trazia na mão dois bilhetes para Paris; de lá, da Gare Montparnasse, partiríamos para o mundo (para Carlos, Paris será sempre o centro do mundo), talvez parássemos na Córsega, - Carlos tinha prometido um pacotinho de canistrellis à tia -, depois zarpávamos para a Sicília, onde Carlos queria rever a Fata Morgana, em dia de feição, soalheiro. Disse-mo em tom de confidência, quase sussurrado, que supus tratar-se de algum amor antigo. Só depois rumaríamos ao destino por mim tão ansiado, a pouco mais de 60 quilómetros de Atenas, o terrível Cabo Sunião. Estas foram as condições impostas por Carlos, para me acompanhar ao promontório de Egeu. Aceitei-as, sem vacilar.
Da minha vontade, falarei noutra noite. Por agora, tento, a custo, arrastar o saco de viagem, autêntica pele de cabra transmontana, teimosa como mula, atrás de Carlos. Embora carregando um saco bem maior do que o meu, parece flutuar por entre as árvores humanas que à noite nascem na estação de Santa Apolónia.