21.9.15

Imersa em pensamentos que não consigo verbalizar, nem me dou conta de onde estou. Carlos tem de repetir-me o nome duas vezes: Pitigliano! Pitigliano, Flor! Vê como é bela a pequena Jerusalém! Havemos de descer ao centro da terra e percorrê-la à luz de velas. Não o entendo. Olho pela janela, o sol, ocre, quase a tocar o horizonte, um pouco mais à frente, a cidade, escarpada, da mesma cor do sol... Estarei ainda a dormir? Pitigliano?! O que estamos aqui a fazer, Carlos?, pergunto-lhe, desnorteada. Mas Carlos já não me ouve, entretido a puxar a mala para o corredor lateral, enquanto cantarola baixinho. O comboio, sinto agora, começa a abrandar a sua marcha.
Mais tarde, hei-de ficar sem palavras, quando algum ouvinte mais atento erguer o braço e me perguntar se não estarei a fazer confusão, uma vez que a estação de comboios mais próxima fica em Grossetto, a Pitigliano só se chega em viatura própria ou de autocarro. Por agora, qualquer oportunidade para me evadir desta noite repetidamente pesada me parece uma história credível.
Guardo o livro de Sándor Márai, sei que terei de voltar àquela Hungria longínqua, voltar a Henrik e a cada página de canto dobrado, à luz das velas azuis, mas neste momento sei que só Carlos Courau, cronópio infatigável, me poderá ajudar.