31.10.15

Abertura com piano: continuaremos a ser uma melodia

«A música, transpirada do piano, andava a tocar-nos à volta da pele, como uma mosca, unia-nos como dedos cruzados por dentro, como veias. (...) Os teus dedos faziam-me tropeçar nas palavras, e eu, em vez de seguir em frente com as frases, soluçava, eram sílabas estranhas a que normalmente chamamos gemidos. E havia sempre aquela música que nos unia, uma música que ninguém sabia assobiar, uma harmonia que não era possível tocar no piano.
Era assim que nos abraçávamos.
Lembro-me de nos sentarmos, juntos, ao pôr do sol. Tu eras um recorte nocturno, preto, eu era luz. Era desse modo que nos dividíamos e era assim que nos misturávamos.

Um dia seremos muito velhos, seremos rugas, e, ao contrário de quando éramos novos, saberemos que vamos morrer. No entanto, isso dar-nos-á uma sensação de eternidade, algo que nunca experimentámos antes, dar-nos-á dias a mais, porque saberemos que temos dias a menos.
Continuaremos a ser uma melodia, mesmo depois de tudo se calar.»

(Cartas de Gould, Recolha da CIA) in Mar - Enciclopédia da Estória Universal -, de Afonso Cruz, p. 14

28.10.15

Anna who was mad, 
I have a knife in my armpit.
When I stand on tiptoe I tap out messages.
Am I some sort of infection? 
Did I make you go insane? 
Did I make the sounds go sour? 
Did I tell you to climb out the window? 
Forgive. Forgive.
Say not I did.
Say not.
Say.


[daqui: palavra invadida]

27.10.15

Unknown

26.10.15

acabar com a palavra escrita. essa infame tentativa de representação dos mil mundos que circunvagam a minha pobre cabeça. quero matá-la. pensei numa faca afiada, detesto o barulho das armas de fogo. apanhá-la pelo pescoço, forçá-la a dobrar, enquanto cacareja, esganiçada, e fazer-lhe um golpe profundo. sentir o sangue quente a jorrar. não quero mais poemas, versos perdidos ou ironia subliminar. quero voltar ao rudimentar, onde os beijos são lábios em movimento, num turbilhão de sensações, imprecisões, e não meia dúzia de verbos e pronomes, empilhados em escombros de uma estante qualquer. não quero partilhar felicidades terceiras, caseiras, que me dão a volta ao estômago estragado. não quero saber, nem da família, nem do cão, nem da vida que está cara, nem do estado da nação. não quero saber. nada disso me fará feliz. não posso tocar, tactear, mapear. vou matar a palavra escrita, deixá-la sufocar. não mais às mensagens, pedidos de resgate, notas de rodapé ou cartas de amor ridículo. todo o amor é ridículo, quando escrito. toda a palavra é excedente. a quente, não consigo pensar. rasgo-a, faço fogueiras, não a quero ler. quero apenas sentir, o arrepio na pele, a boca que seca, de te saber à deriva, de partida, sempre sem mim. esse gosto a sal. não há palavra que me faça lamber o papel, afinal. quero matá-las a todas, prostitutas e proxenetas, fodas, punhetas, nas pracetas, linguetas. são cometas de jornal. quero vê-las desaparecer, finar, morrer, atravessar os ralos húmidos das banheiras. inteiras ou aos pedaços, argamassas toscas intravenosas. não quero mais palavras escritas na minha vida. nem mansas, nem bravas, todas são um corpo que se interrompe, um coito de onã. quero assassiná-las, enquanto dormem na cama dos seus amados, pecados, respirando a irregularidade do seu amor. quero vê-las torcer as suas pontas, espernear, dizer que não. quero ouvi-las guinchar em diapasão. não quero mais palavras escritas, sempre indómitas, prostradas, envenenadas. acabaram-se os bilhetes, os postais, abstractos, escritos a correr. não mais.

25.10.15

onde antes escancarei todas as portas, abro agora uma triste janela. em breve, desconfio, espreitarei pela fresta da cortina, até que mais não receba a luz do dia e feche as portadas de vez. porque, afinal, é esta a minha natureza, a de uma casa desabitada.

24.10.15

Drop the Game

eram como cães raivosos, atiçados pelo aço da corrente, e eu soltava-as para que me rasgassem a carne fraca. agora afogo-as, crias recém-nascidas, ainda dentro de mim, no lodo azedo de que me faço.
 Tammy Ruggles

o velho barracão, ao longe, parece imune à passagem das décadas. asseguram-me que está podre e em breve cairá. lá dentro, ainda chora a menina. a mulher, tentou matar-se esta manhã, segundo dizem, com veneno dos ratos. fixo-lhe o olhar uma última vez, antes de lhe virar as costas. se pudesse, eu própria lhe deitaria o fogo.

23.10.15

Viki Kollerová











Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus — ou fora do mundo.
As almas são incomunicáveis.

Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.

Porque os corpos se entendem, mas as almas não.
Milu, em pulgas - pode uma aranha estar em pulgas? pode, com certeza, que aqui tudo se pode - com a possibilidade de ir laurear a pevide para o Saloon com a Miss Smile e a Teresa, num distante velho oeste, deixou-me esta manhã, em cima do teclado, um pequeno papel gatafunhado que dizia assim:

humana, 
Deus é uma grande aranha, pensou manoel de barros e digo-to eu, que me cansei das tuas moscas dietéticas com manias de cidade. vou tomar o atalho e lançar teia no horizonte. 

fui.

ps.: o teu pijama cor de rosa é ridículo.



22.10.15

O mar dentro da árvore, as nuvens 
dentro da terra sem fim, 
a luz. A luz dentro doutra luz 
que limitava as mãos e as abria 
para outras mãos dentro de um olhar. 

(cont.)


[agradeço o Joaquim à maria]

21.10.15

dou voltas, avanço e recuo, o processo torna-se moroso, vácuo. procuro as palavras certas, aquelas que consigam transpor, segundo por segundo, esta sensação opressora de falta de palavras. esta imposição atreita, vazia, de não conseguir o verbo.
a escrita é uma ilusão, uma mentira bem contada em que preferimos acreditar.

20.10.15

Suffering is permanent, obscure and dark,
          And has the nature of infinity.

19.10.15

Almost blue
tinha tudo para ser um dia como tantos outros, mas agora, aqui sentada, despida e descalça, percebo que não foi. a voz, que pelas três da tarde me apanhou desprevenida, fez-me prometer que este natal voltaria a ser em casa. diz-me a voz que o pedido vem da mãe, que este ano, finalmente, deixará o pequeno apartamento e voltará à casa grande, mas apenas pelo natal. sei que fui apanhada na ratoeira, eu não quero nenhum natal, mas deixo-me ficar quieta. a felicidade da mãe vale, à vontade, o frete de uma noite de faz de conta, onde as perguntas se hão-de repetir, adoçadas com olhares de pena e incompreensão. sei muito bem por que detesto o natal, apenas não lhes respondo.

18.10.15

tocavam os sinos para a missa do meio-dia, ele puxou-a por trás, até lhe sentir as nádegas no sexo, e disse, quero foder contigo agora, antes que deus chegue. blasfemo!, respondeu ela, ajeitando-se à carne erecta que a procurava. 
também as mulheres de Orkhon, padecendo da nostalgia das estepes, se masturbam para expulsar os demónios. 
Unknown

era noite ainda. chovia intensamente. o vento, de sul, parecia brando. em cima da mesa, a travessa de biscoitos de erva doce. meto dois no bolso e chamo os cães. descemos a ladeira em direcção ao rio, por entre a erva alta. sentem o cheiro dos biscoitos e não me saem da frente das pernas, quase caio. reclamo, mas eles sabem que finjo. não resisto aos pedinchas e reparto a merenda. avançamos depois até ao velho pomar. há um cheiro adocicado a fruta apodrecida. a chuva bate-me na cara e refresca-me a alma. reparo que as botas de borracha fazem um barulho estranho, quando pisam o húmus esponjoso. sorrio. caminhamos mais um pouco, o rio está perto, consigo ouvi-lo. saí de casa com o peso de um pensamento, se ao menos a corrente, forte, o levasse, se ao menos eu fosse rio e galopasse. deixo-me ficar, quieta, sob a velha oliveira, enquanto os cães alegremente procuram as tocas. a chuva, entretanto, amainou.

17.10.15

aqui, entre montes perdidos, distante da cidade, a luz falta com alguma regularidade. pergunto às mulheres que me trazem alguidares cheios de marmelos qual a razão. encolhem os ombros, nada sabem, talvez seja do vento que abana os postes. antes de abalarem, enroladas nos xailes, aproveitam para me lembrar que a boa marmelada sempre se fez ao lume. digo que sim, espero que não.

16.10.15

Well, I refuse to go deeper
I choose to go blind.
René Groebli

o corpo, detrito cinéreo, trinchei-o, em movimentos pesados, pelas articulações, com a serrinha da avó Matilde. levei meses. as ancas não queriam ceder. tive de lhes abrir um golpe profundo, vulva a cima, vulcão seco, e serrar a partir do osso interior. sujei-me toda com as aparas de carne putrefacta que saltavam ao vai e vem da lâmina rombosa. durante tanto tempo, ficou-me aquele cheiro formolento, fétido, atravessado por larvas brancas e gordas, preso à alma, que vomitava, com uma colher de azeite, todas as manhãs. mas está tudo bem agora, espalhei os restos pelo jardim, e o que os pássaros não comeram, serve de estrume ao mato que por lá cresceu. 
das palavras, fiz fogueiras. ardi em beijos profundos, com febres de graus inacabados, reais e imaginados, todos misturados, labaredas que já nem sei. da luz, fiz-me sombra, depois corpo enxertado, depois cinza poeira e, por fim, rascunho dos sonhos da minha mãe. agora descanso, imóvel, enquanto espero pelas estrelas cadentes, como quando era criança. 

15.10.15

Milu, que descobri escondida num dos cogumelos de aço do candeeiro do tecto, - depois de já lhe ter encomendado a missa de eterno descanso -, reclama, veemente, a minha ausência, escondendo-se logo que acendo a luz da secretária. 
Tem-se medo do poder
da nudez,
A finura da carne: uma unhada
no coração:

Isaim Lozano

não é o vidro que corta a carne, mas as mãos que o tacteiam.

13.10.15

para não te perderes pensas
em deixar marcas pelo caminho
guiar-te pelo barulho dos carros

todos os dias fazes a mala
e improvisas mapas com o lápis

viagens para o muito longe

mas continuas sentada na sala
e os únicos caminhos são
rastos de migalhas e lágrimas

é à sua sombra que vais continuar
a usar o lápis vermelho

e as árvores lá fora são apenas
pontos sem nome marcados
a verde no mapa

11.10.15

vivo dentro de uma metáfora, esquecida nas páginas de um livro, que já foi arrumado numa prateleira rente ao chão. 
O corpo não responde
às vozes de comando,
como um cão estropiado
já desdenha os apelos
os antigos convites
às funestas moradas,
esqueceu-se do ponto
vai olvidando senhas
os códigos das grutas
acumulando lixos
as servidões austeras
diluem-se num canto
o corpo não atende chamadas
não estremece ao ruído da chave
não suporta
qualquer intromissão
secou num aterro,
os restos à vista
a memória escava
da lembrança os rastos
avidamente suga
de tal fausto os ossos,
de tão vitais cerimónias
nos tão secretos barcos
mesmo o pouco que resta
ainda se mastiga.

10.10.15

Noche ciegamente mía. Sueño del cuerpo transparente como un árbol de vidrio.
Horror de buscar tus ojos en el espacio lleno de gritos del poema.

René Groebli

tombei da cama, impelida por um temor momentâneo de que também hoje era dia de semana, maldita semana, e, encontrando-me já desperta, alimentei os animais, evitei, por enquanto, o café matinal e o banho pacificador, li o mundo e partilhei palavras surripiadas, encantei-me com a janela grande, que me oferece os vales da melancolia, e finalmente procurei a Milu. não a vejo desde a manhã de ontem, ou talvez da noite de anteontem. não tenho a certeza, mas tenho uma preocupação: onde está a Milu? fugiu? foi morta pela vassoura da senhora da bata às riscas? hibernou? antevejo a cara trocista do leitor, julgando-me tola, procurando uma aranha esbranquiçada no tecto, mas saiba o leitor que já o poeta, em 1932, ano maldito, bem decerto, lhe dedicou alguns dos seus versos, num poema de triste baloiçar

8.10.15

Paola Blondi

reminiscências de alguma outra vida, onde a fome foi companhia, não sei, certo é que me aflige a imagem da gente que come com sofreguidão. repugna-me aquela avidez. Milu, depois de largas semanas no meu tecto, deve ter-se apercebido deste meu trauma social e mastiga as suas refeições - habitantes do mesmo tecto - com uma lentidão penelopeana. o diabo da aranha, cada vez maior, sabe como me conquistar.
Explicação da Escuta

Ninguém me chama

Escuto o calcanhar do pássaro
Sobre a flor
E não respondo
aguardo pacientemente o apocalipse, que chegará numa bola de fogo, dentro de dois minutos. não quero parecer demasiado céptica, mas no céu ainda não brilha o tição dourado.

[a porra do tição, palavra-memória da lareira de infância, devorou-me o pouco tempo de vida e eis-me já aqui, no pós-mundo.]

5.10.15

o que me dói hoje, não é esta nódoa negra a que sem piedade me obriguei. o que me dói mesmo é saber que amanhã precisarei de nova pancada forte no corpo, para conseguir chorar os gritos que me sufocam.

Bruise by Adara Sánchez Anguiano

4.10.15

que bailado! serão mais de cem, entre brancas e cinzentas, as rolas-mansas, em soberbas piruetas e largos jetés de asas, no restolho vizinho.
baixas, prenhes de cinzento, as nuvens passam ligeiras, vazando as primeiras pingas, envergonhadas. parecem grandes baleias voadoras. deixo-me ficar em frente à janela. quero ver o nascer da chuva. os arbustos, frenéticos, iniciam a dança da baladeira. reconheço a triste Nikya na velha oliveira, ao fundo. e eis que chove já. a orquestra, conduzida pela mão invisível, lança-se num crescendo sobre as cantarias. quanta beleza nas primeiras chuvas de outono.

sou filha panteísta.

3.10.15

entrou-me uma coruja branca pelo coração adentro, piando,
estou tão sozinha,
e eu deixei-a ficar.
uma coruja não mente
e dá-me jeito ter com quem falar.
2. 

primeiro: o coração. 
se calhar dois (um
para quando se morre
outro para a espera do
milagre) 
e o teu sorriso icónico
já perto de desaparecer: 
há coisas que só depois  
percebemos que devíamos  
ter roubado –  
e mais tarde o que me  
fica nas mãos, 
demasiado íntimo
para carregar comigo
enquanto faço as rotinas
na loja do costume e
perguntam
como vai? e sei por
dentro que o teu sexo me ficou
no cheiro, 
por isso sorrio e
genuinamente
respondo que
muito bem, cá se vai
andando
e sorrio de novo
no meu corpo o teu rasto
o arrepio de só há pouco  
teres saído: 
volta, estou tão perto. 
(se todas as noites me
visitasses seria tão fácil  
morrer), 
enquanto por dentro
falo
calada
a dizer tanto
e o corpo, o corpo e o sorriso
que não voltei a ver, 
o sexo
a namorada que guardas na gaveta
lá de casa quando apareço: mas primeiro sorrio
primeiro faço as compras da loja
do costume sorrio de novo
os morangos estão fora de época
o teu sexo numa estufa
as laranjas enormes,  
com uma cor de encher
os olhos, mas primeiro, 
o coração.  
primeiro: o coração. 

(...)

daqui: enfermaria 6

2.10.15

as palavras escondem-se em alguma região cerebral montanhosa, à qual não consigo ter acesso. não sei entender esta incomunicabilidade, esta falta de articulação sobre os fluxos sensoriais que me ocupam sem oposição. Harouche fala do problema das sociedades liquidas e eu atrevo-me a dizer que devo ser habitada por uma colónia infindável dessa espécie. a incerteza radical e a insegurança psíquica profunda confirmam-se.

1.10.15

Josephine Sacabo

das expressões que mais abomino? uma mulher de verdade.