31.10.15

Abertura com piano: continuaremos a ser uma melodia

«A música, transpirada do piano, andava a tocar-nos à volta da pele, como uma mosca, unia-nos como dedos cruzados por dentro, como veias. (...) Os teus dedos faziam-me tropeçar nas palavras, e eu, em vez de seguir em frente com as frases, soluçava, eram sílabas estranhas a que normalmente chamamos gemidos. E havia sempre aquela música que nos unia, uma música que ninguém sabia assobiar, uma harmonia que não era possível tocar no piano.
Era assim que nos abraçávamos.
Lembro-me de nos sentarmos, juntos, ao pôr do sol. Tu eras um recorte nocturno, preto, eu era luz. Era desse modo que nos dividíamos e era assim que nos misturávamos.

Um dia seremos muito velhos, seremos rugas, e, ao contrário de quando éramos novos, saberemos que vamos morrer. No entanto, isso dar-nos-á uma sensação de eternidade, algo que nunca experimentámos antes, dar-nos-á dias a mais, porque saberemos que temos dias a menos.
Continuaremos a ser uma melodia, mesmo depois de tudo se calar.»

(Cartas de Gould, Recolha da CIA) in Mar - Enciclopédia da Estória Universal -, de Afonso Cruz, p. 14