26.10.15

acabar com a palavra escrita. essa infame tentativa de representação dos mil mundos que circunvagam a minha pobre cabeça. quero matá-la. pensei numa faca afiada, detesto o barulho das armas de fogo. apanhá-la pelo pescoço, forçá-la a dobrar, enquanto cacareja, esganiçada, e fazer-lhe um golpe profundo. sentir o sangue quente a jorrar. não quero mais poemas, versos perdidos ou ironia subliminar. quero voltar ao rudimentar, onde os beijos são lábios em movimento, num turbilhão de sensações, imprecisões, e não meia dúzia de verbos e pronomes, empilhados em escombros de uma estante qualquer. não quero partilhar felicidades terceiras, caseiras, que me dão a volta ao estômago estragado. não quero saber, nem da família, nem do cão, nem da vida que está cara, nem do estado da nação. não quero saber. nada disso me fará feliz. não posso tocar, tactear, mapear. vou matar a palavra escrita, deixá-la sufocar. não mais às mensagens, pedidos de resgate, notas de rodapé ou cartas de amor ridículo. todo o amor é ridículo, quando escrito. toda a palavra é excedente. a quente, não consigo pensar. rasgo-a, faço fogueiras, não a quero ler. quero apenas sentir, o arrepio na pele, a boca que seca, de te saber à deriva, de partida, sempre sem mim. esse gosto a sal. não há palavra que me faça lamber o papel, afinal. quero matá-las a todas, prostitutas e proxenetas, fodas, punhetas, nas pracetas, linguetas. são cometas de jornal. quero vê-las desaparecer, finar, morrer, atravessar os ralos húmidos das banheiras. inteiras ou aos pedaços, argamassas toscas intravenosas. não quero mais palavras escritas na minha vida. nem mansas, nem bravas, todas são um corpo que se interrompe, um coito de onã. quero assassiná-las, enquanto dormem na cama dos seus amados, pecados, respirando a irregularidade do seu amor. quero vê-las torcer as suas pontas, espernear, dizer que não. quero ouvi-las guinchar em diapasão. não quero mais palavras escritas, sempre indómitas, prostradas, envenenadas. acabaram-se os bilhetes, os postais, abstractos, escritos a correr. não mais.