16.10.15

o corpo, detrito cinéreo, trinchei-o, em movimentos pesados, pelas articulações, com a serrinha da avó Matilde. levei meses. as ancas não queriam ceder. tive de lhes abrir um golpe profundo, vulva a cima, vulcão seco, e serrar a partir do osso interior. sujei-me toda com as aparas de carne putrefacta que saltavam ao vai e vem da lâmina rombosa. durante tanto tempo, ficou-me aquele cheiro formolento, fétido, atravessado por larvas brancas e gordas, preso à alma, que vomitava, com uma colher de azeite, todas as manhãs. mas está tudo bem agora, espalhei os restos pelo jardim, e o que os pássaros não comeram, serve de estrume ao mato que por lá cresceu. 
das palavras, fiz fogueiras. ardi em beijos profundos, com febres de graus inacabados, reais e imaginados, todos misturados, labaredas que já nem sei. da luz, fiz-me sombra, depois corpo enxertado, depois cinza poeira e, por fim, rascunho dos sonhos da minha mãe. agora descanso, imóvel, enquanto espero pelas estrelas cadentes, como quando era criança.