30.11.15

surgiu-me isto, enquanto limpava o gatil, repleto de fezes nauseabundas, pequenos rastilhos castanhos empilhados. no passado, enfastiavam-me as pessoas que, licenciadas - a torto ou a direito -, passavam a exigir o tratamento de dr. / dr.ª [*****]. continuam a dar-me uma certa pena, mas, como dizem, a idade não traz apenas cabelos brancos, felizmente, apazigua-nos certas irritações. o que agora me mói a paciência, quando não tenho mais nada em que pensar, são aqueles seres, politicamente correctos, que vão anuindo à conversa, que sim, senhor, que isso dos doutores é ridículo, é mesmo de quem tem problemas de auto-estima, e nos entretantos, deixam-se chamar por sr. doutor nos cafés, têm cartões bancários a condizer, nunca corrigem a telefonista e - eles próprios - afirmam que nos documentos é capaz de ser melhor acrescentar o maldito "apêndice", não vá alguém julgar que não acabámos o curso...
como vos disse, foi enquanto limpava merda de gato, muita merda de vários gatos, e de vários dias, colada ao chão como pastilha elástica, tão entranhada, que tive de me servir da escova e da lixívia várias vezes, para vos ser mais exacta, que esta questão me voltou à ideia. aos outros, que assumem abertamente a necessidade de se endoutorarem com uma licenciatura, tenho agora menos asco, rio-me apenas. destes, fujo a sete pés, estou cansada de esfregar.



*****
e não,
não um dr. mas mil drs. de um só reino,
e não se tem paciência para mandar tantas vezes à merda,
oh afastem de mim o reino,
afastem-nos a eles todos,
atirem-lhes aos focinhos o que puderem dela,
sim até se acabar a mirífica montanha,

HH
admitiu que o isolamento em que procurava a paz podia ser tão perigoso como um abismo.


História da Bela Fria, Teresa Veiga
(contos, 1992)

29.11.15

Flor, novembro de 2015
Ela era, disse, uma pessoa que tinha a arte de passar por cima das pequenas e grandes ofensas, uma mulher cheia de sensatez e de coragem, muito apegada às coisas da terra, deixando as nuvens para os tristes e os céus para os santos.

História da Bela Fria, Teresa Veiga
(contos, 1992)

28.11.15

da pequena coruja, que afinal é um mocho-galego, não sei. não a/o vejo há semanas. mas hoje, junto ao rio, ora na copa da árvore, ora rente ao chão, um açor majestoso. temi pelas minhas toupeiras.

27.11.15

25.11.15

(...)
sim à ternura no centro da clareira
tremendo como uma lâmpada sem sombra,
sim a ti, tempestade que iluminas
um país de ausência,
sim a ti, quase monótona, quase nula
mas que és como o vento insubornável,
sim a ti, que és nada e atravessas tudo
e és o sangue secreto do poema.

24.11.15

tocando violino, um anjo/vela/recordação que nunca ardeu e faz companhia às negras esguias da Guiné, um candelabro de nove braços, onde velas vermelhas ardem em contraste com o corpo alto prateado, e agora uma poinsétia, replantada e virada a sul, como vem no almanaque. 
eis o natal. 
[mais do que isto, é tortura]
em Niflheim, dizem-me, a temperatura dentro das casas nunca pode fazer muita diferença da temperatura exterior, apenas a necessária para manter os corpos vivos. explicam-me que é importante habituar o corpo ao que irá encontrar na rua, para que o choque seja menor. acho uma tolice, daquelas bem tolas. se assim fosse, os ingleses dormiam debaixo do chuveiro, respondo-lhes, dentro do meu pijama polar. encolhem os ombros, desinteressados do argumento. zombam da minha roupa, em cima do aquecedor.
olho pela janela, a medo. nevou?! não, rapariga. é geada.

23.11.15

-- e tu, Flor, por onde andas?

-- por Niflheim, (sem saber muito bem como), a fugir dos anões, evitando o dragão e a morrer de frio.

22.11.15

Laura Makabresku

21.11.15

mil homens, bestas de cascos afiados, relinchando trovões, penetrando-me, rasgando orifícios, pântanos de sangue e de fezes, urinando-me as feridas abertas da cara. mil homens cuspindo-me o nojo, derramando sémen nos meus olhos abertos, até não haver mais círculos de fogo. mil homens enjaulando-me, nua, numa praça qualquer. oferecendo a minha boca ao público animal, que zurra, na antecipação, vendendo a minha cona a todos os mercadores, velhos senis que masturbam membros defeituosos. mil homens silvando a mesma tira de couro nas minhas costas, nas minhas mãos, nas minhas mamas, noite após noite, até adormecer.
mil homens despedaçando o meu corpo, queimando o meu centro, acalmando a minha dor. 

15.11.15

Nada tiene que ver el dolor con el dolor
nada tiene que ver la desesperación con la desesperación
Las palabras que usamos para designar esas cosas están viciadas
No hay nombres en la zona muda
(VOLTAR À) TONA

«Como faz o sangue, volto ao coração, à tona, para ter ar. A minha vida tem sido arrumar coisas dentro do peito. Desfazes-me as palavras e as notas do piano e, com os dedos, constróis os meus pulmões para que eu possa respirar. E assim as minhas melodias morrem contra o teu corpo, como pétalas secas. Empurro tudo para dentro do coração, como se desse comida a uma criança, colher atrás de colher. Lembro-me de teres posto os meus pés em cimento e de me teres atirado a alma para o fundo do mar. Descobri: que era mesmo no fundo que estava a superfície, era mesmo no fundo que era possível respirar. Quando não estás - como se fosse possível não estares - caminho com as pernas arruinadas, por dentro e por fora, e tento chegar a casa, andando à volta das costelas, à espera que apareças, a apontar o teu coração ao meu, para me matares com um abraço.»

(Cartas de Gould, Recolha da CIA) in Mar - Enciclopédia da Estória Universal, de Afonso Cruz, p. 170

14.11.15

lembro-me que lia(mos) Le Rouge et le Noir, eu ainda era virgem e ele era muçulmano. lembro-me que a mulher que eu conhecia moderna e amiga, me levantou o dedo, tremendo dos lábios, e gritou qualquer coisa como, Promete-me que não o voltas a ver! Tu não sabes o que eles fazem com as mulheres! Promete! e eu prometi, assustada, confusa. o meu coração nem sequer estava preso, apenas a doçura curiosa de lermos o mesmo livro em bancos de jardim tão próximos. sei que a mulher me tentava proteger a todo o custo, o medo é uma arma poderosa e a realidade pode ser, por vezes, uma mancha cinzenta pesada. existe, magoa, marca.
anos mais tarde, a mesma, apaixonou-se por um muçulmano e viveu com ele durante dois anos. 

13.11.15

a chacina que hoje ocorre em Paris, acabará por vitimar também aqueles que - igualmente inocentes - esperam para entrar na europa prometida.
Pretinha, a gata, olha-me com a curiosidade do costume. já se vai habituando a mim, mas a cautela da rua, afasta-a da minha tentativa de chegar mais perto. sei que tem comida e água, um sítio para se abrigar. tranquila, fecho o carro e despeço-me dela com algumas palavras meigas.
entendo bem a Pretinha. para que haveria ela de amolecer o instinto, se a vida já lhe ensinou que há sempre um pontapé escondido? podemos não evitar a pancada, mas não seremos apanhadas de surpresa.

12.11.15

explodindo, é possível recuar ao início do universo, memória basilar da vida?

11.11.15

I shut my eyes and all the world drops dead; 
I lift my lids and all is born again. 
(I think I made you up inside my head.)

mad girl's love song

10.11.15

o que começou por me parecer um desejo mórbido, é agora a mais pura das curiosidades. esqueça o pórtico, Sr. Licínio, mostre-me Tabucchi e Cesariny. depois, lá iremos às catacumbas.

8.11.15

não possuo humanidade suficiente para padecer de vício algum. sou apenas uma pequena gota, à deriva, sem desejo maior. se um dia fui onda, intensa como vaga de tempestade, não o sou mais.  
sempre que enjoo da minha escrita, meia dúzia de lamúrios atabalhoados, julgo-me curada. porque a vida há-de ser outra coisa que não esta, olhando caracteres num ecrã, esperando a salvação que não vem.
até quando?

7.11.15

foi a primeira vez que senti uma tristeza tão física, como se a própria morte tivesse feito o ninho nas minhas entranhas, depois de furar o peito daquele rouxinol. o momento em que perdi a inocência. cedo demais.

hoje descobri que a história - um pouco mais amarga, igualmente idiota - é de oscar wilde. 

1.11.15

um ano de cultivo pede o pousio da palavra.

stamennicholas alan cope