31.12.15

acrescento, para os comensais mais cautelosos, que a entrega de queijos nacionais acabou de ser feita, em balão de ar quente, como manda a etiqueta dos pastores mongóis. os ovos são de baleia, é certo, mas também temos ovas de bacalhau e de esturjão, as primeiras, grelhadas em pau-preto transgénico e regadas em azeite virgem - produção caseira, as outras, em latinhas do czar, acompanham com várias colherinhas de prata, do faqueiro da madrinha. temos ainda o fruto carnal, polpa doce de mulher, também conhecido por dióspiro, mantido a temperaturas abaixo do razoável, em Niflheim, e transportado por duzentos e quarenta cavalos a trote. e para finalizar, chá fino de cidreira e erva-doce para a digestão e uma mão-cheia de pinhões-resoluções.
haverá serviço de massagens caninas, Taeko e Yukiko encarregar-se-ão de vos amassar as pernas. depois da meia-noite, um bando de ex-gatos vadios, miará à luz de três quartos da lua, uma serenata de ano novo, com peças da família Strauss.

já na madrugada alta, todos os convidados receberão um magnifico exemplar Robert Welch, totalmente forjada em aço inoxidável alemão, lâminas afiadas no padrão das espadas japonesas, dando precisão ao corte e garantindo qualidade para o mínimo de esforço. excelentes para amadores. de seguida, partimos em busca da vaca sagrada, roubada e mantida num famoso barco pirata...

espero ter esclarecido. a todos, um excelente 2016!
o pão acabou de cozer e repousa em panos de linho da avó. já temos os ovos de baleia, que serão recheados com finíssimas rodelas de échalote caramelizada e ervas aromáticas, colhidas esta madrugada na região da bretanha. o espumante está a gelar há três dias, sob a aurora boreal do norte. as framboesas da sobremesa são mantidas na pequena estufa real, e só serão colhidas perto da hora do jantar. le chocolat noire arrefece em approximately ambient temperature, nas taças de porcelana da dinastia ming, oferecidas pelo pequeno oriental.
após tão magnífico repasto, haverá poemas murmurados, de todas as formas, línguas e feitios, acompanhados ao som de realejo e concertina, e voos de passarola com vista privilegiada para o fogo de lágrimas artificiais.

estão todos convidados.
Sobre o dito está o não dito,                                                                           
e o  por dizer.* 

e assim se mantém a esperança, na espera das palavras que virão.
que continue a preciosa viagem pela beira do precipício. há que não ter medo; nenhum.


[*Maria Gabriela Llansol, O Azul Imperfeito Livro de Horas V]

30.12.15

2016:
para vós, o que quiserdes.
para mim, manter-me silenciosamente em saudável hikikomori. não sentir por dentro o sofrimento alheio. que o corpo não adoeça e o coração não pare numa hora má. que o acaso me ofereça os lapsos temporais que puder. que, de olhos fechados, encontre sempre o que procuro. que não me falte a possibilidade para me manter [livros incluídos] e manter a bicharada que vive sob o mesmo tecto. não ver nenhum animal na estrada, vivo ou morto. que a minha mãe continue feliz.
alguém espera uma resposta em Daca, enquanto leio Tarfia Faizullah
estou cansada de um mundo assim.

My sister died. He raped me. They beat me. I fell
to the floor. I didn’t. I knew children,
their smallness. Her corpse. My fingernails.
The softness of my belly, how it could
double over. It was puckered, like children,
ugly when they cry. My sister died
and was revived. Her brain burst
into blood. Father was driving. He fell
asleep. They beat me. I didn’t flinch. I did.
It was the only dance I knew.
It was the kathak. My ankles sang
with 100 bells. The stranger
raped me on the fitted sheet.
I didn’t scream. I did not know
better. I knew better. I did not
live. My father said, I will go to jail
tonight because I will kill you. I said,
She died. It was the kathakali. Only men
were allowed to dance it. I threw
a chair at my mother. I ran from her.
The kitchen. The flyswatter was
a whip. The flyswatter was a flyswatter.
I was thrown into a fire ant bed. I wanted to be
a man. It was summer in Texas and dry.
I burned. It was a snake dance.
He said, Now I’ve seen a Muslim girl
naked. I held him to my chest. I held her
because I didn’t know it would be
the last time. I threw no
punches. I threw a glass box into a wall.
Somebody is always singing. Songs
were not allowed. Mother said,
Dance and the bells will sing with you.
I slithered. Glass beneath my feet. I
locked the door. I did not
die. I shaved my head. Until the horns
I knew were there were visible.
Until the doorknob went silent.

29.12.15

Leslie Ann O’Dell





























Tocamo-nos todos como as árvores de uma floresta

no interior da terra. Somos

um reflexo dos mortos, o mundo

não é real. Para poder com isto e não morrer de espanto

— as palavras, palavras.



                                      A lua de coral sobe

no silêncio, por trás

da montanha em osso. É o silêncio.

O silêncio e o que se cria no silêncio.

E o que remexe no silêncio.

                                            É uma voz.

A morte.
está frio, Nepal, o que fazes tu aqui tão cedo?
esperava por ti, Olhos Tristes.
não tenho mais nada para te dar, Nepal. agora já não está nas minhas mãos.
podias interceder...
não posso e nunca o faria, Nepal. se me conhecesses, saberias disso. não intercedo por ninguém, deixo que o rio siga as suas correntes naturais.
que bonito, Olhos Tristes, fazes poesia com a desgraça dos outros. sabes muito bem que as correntes são humanas, compradas. finges é que não vês. finges-te cega.
faço o que posso, para me manter lúcida. as acções são de quem as pratica.
é a isso que te agarras, quando vais dormir?
não, Nepal. nunca levo o trabalho para casa, muito menos durmo com ele. 
não tens consciência. és egoísta. uma activista de sofá. há muitos por aqui.
pensa o que quiseres, Nepal. estás a dar-me mais importância do que aquela que tenho, acredita.
alguma vez te faltou alguma coisa, Olhos Tristes? pão na mesa? roupa quente? combustível? dinheiro para os medicamentos?
Nepal, não posso fazer mais nada. 
és cobarde. egoísta e cobarde.
lamento.
lamentas nada. assim que eu virar costas, o assunto morreu.
esperando que do outro lado do mundo uma borboleta bata as suas asas, disse um dia. depois descobri, pela ausência, a morte do animal.
será ténue o meu rasto no caminho.

27.12.15

troveja. 
de um lado, um monstro de arrogância intelectual, esfomeado, pisca-me o olho. do outro, o misantropo olha-me de soslaio. 
não me entregues,
                                 tristíssima meia-noite,
ao impuro meio-dia branco


//no me entregues,
tristísima medianoche,
al impuro mediodía blanco//

26.12.15

um dia não haverá ninguém. mortos, velhos e novos, breve sonho, eterna poeira.

25.12.15

Não olhes.
O mundo está prestes a rebentar.

Não olhes.
O mundo está prestes a despejar a sua luz
E a lançar-nos no abismo das suas trevas,
Aquele lugar negro, gordo e sem ar
Onde nós iremos matar ou morrer ou dançar ou chorar
Ou gritar ou gemer ou chiar que nem ratos
A ver se conseguimos de novo um posto de partida.

Harold Pinter, Várias Vozes, Quasi Edições
Niflheim acordou gelada. era de esperar que numa noite de tanto filho regressado a casa, tantos sacos de plástico partilhados e tanto amor familiar, a temperatura subisse para valores suportáveis, mas o manto branco de geada que cobriu o vale inteiro não engana. consigo a preciosa água quente para o banho, mas despir o pijama, polar, é um sacrifício que me faz mirrar até a alma. o sacrifício seguinte, será obrigar-me a sair da banheira, quando a água começar a arrefecer. em situações normais, qualquer ser humano de bom senso teria um aquecedor na casa de banho, onde aqueceria o ar e as toalhas, mas em Niflheim dizem-me que esse luxo é uma parvoíce e que aquilo não é um spa, mais vale despachar o assunto com rapidez. suspiro, começo a desconfiar que escolhi a casa errada, outros nativos teriam sido mais condescendentes.
tudo parece uma provação, como se a vida decidisse separar os fortes dos fracos, fazer a sua própria selecção natural, com base na resistência ao frio de cada um. eu, espécime com defeito crónico e falta de camada adiposa que me cubra a alma, pergunto-me durante quanto mais tempo conseguirei sobreviver... 

24.12.15

Corto Gatês, o solitário, sempre demonstrou uma profunda aversão por Tulicreme, um dos gatos vizinhos com quem partilha os hectares de terreno campestre. vejo-os, de longe, agachados no meio da erva alta, imóveis durante vários minutos e fico sem perceber se é caçada conjunta - o que muito me admiraria -, se é porrada iminente. Tulicreme, afoito, mantém a cabeça mais erguida. suponho que queira mostrar ao velho Corto que os tempos são de mudança ou talvez procure apenas brincadeira. mas Corto é mânfio de gema, nado e criado nas varandas de Lisboa, bravo nas suas incursões. não tendo nada a ganhar, e vendo-me, parada, ao lado do espanhol, vira costas ao Tulicreme, com a indiferença de um velho snob inglês, e sobe a ladeira. 
Kylli Sparre




























Em cada mulher existe uma morte silenciosa. 

23.12.15

juntar o que resta da família, essa teia de ligações doentias, tristes exibições de poder, tentativas falhadas de autoridade, e fingir que está tudo bem, que a noite é feliz, é apenas uma noite, aquela noite, repetimos. e fingimos. fingimos que não sabemos dos rancores, dos ódios de estimação, dos preconceitos, dos defeitos e dos feitios, das gabarolices tacanhas, dos paternalismos bacocos. estamos ali, esperando o tempo passar, fingindo que somos cegos e surdos, e felizes, esperançosos de que ninguém se lembre de escamotear a nossa vida à volta da mesa de jantar.

22.12.15

dou graças pela água quente - e tudo o que aqueça, nesta altura, por terras de Niflheim - e pela migraspirina.
obrigada, senhor.

21.12.15

Repara. Há um rio correndo entre as falanges dos dedos. Navegá-lo-ás solitário, porque solitárias são as navegações humanas, todas, como inavegáveis são os rios, todos os rios da terra, anteriores ao mar. Onde tu vês a foz é a nascente que vês. Que os rios, como tudo o que é fluido e movente, nascem ao contrário.

in Rodomel Rododendro, Albano Martins
[mais um poeta esquecido, neste país de poetas]

20.12.15

Elena by Vitaly Vasilieva

Que grande és Tu, meu Deus! Tu és tão grande
que és só Ideia; escassa é a realidade,
se o mais que pode ela se expande

para abranger-te. Por ti sofro, é verdade,
pois se existisses, Deus não existente,
também eu existiria veramente.
adiei o assunto, enquanto pude, mas hoje teve de ser. um a um, após engenhosas tentativas, enganei todos os felinos, escondendo a miraculosa pílula dentro dos pedacinhos esponjosos de carne de galinha com salmão. todos, menos Ramirez, o espanhol. comme d'habitude, Ramirez não se deixa enganar facilmente e desafia a minha paciência durante vários minutos, comendo todos os pedaços de carne, excepto aquele. neste jogo, onde a força e a obediência são meros conceitos abstractos, filosofia para cães, a paciência e a calma são preponderantes. Ramirez será vencido pela minha persistência, sei-o, pelo menos enquanto a lata não acabar. Corto Gatês, o dócil, faz da minha aflição a sua brincadeira e tenta comer o pedaço vencedor, o mesmo que Ramirez declina. Imagino a sobredosagem, acompanhada de uma valente diarreia e peço-lhe que saia dali. Ramirez, atento, ao perceber que Corto Gatês lhe ronda o pedacinho de carne, esquece a teimosia e atira-se a ele, cheio de vontade. abençoada inveja, não posso deixar de me rir. Corto Gatês cerca-me as pernas, encostando a cabeça, e deixa-me um miado baixinho, Não tens de quê, Mammina...
tens tiques de obsessiva-compulsiva, disse-me há uns anos o Tiago, um amigo que tem tanto de génio, como de tresloucado-depravado. toda a manhã tenho observado o laranjal, lavrado atabalhoadamente, sem qualquer figura geométrica que o defina. onde antes existia um quadrado perfeito, há agora um caos de erva e rasgos. ora o quadrado, e as palavras não são minhas, mas de Dolors Collellmir Morales, "é o símbolo da terra, mostra firmeza e fundamento, portanto, simboliza estabilidade", e eu vivi o ano inteiro de olhos postos naquela estabilidade carregada de citrinos, tal e qual um laranjal do éden. 
estou aqui vai-não-vai para calçar as botas de borracha e pôr-me a caminho, para ir pedir ao homem que monte novamente o velho tractor vermelho e desenhe no chão a forma que nunca lhe deveria ter apagado. há pouco, de nariz colado na janela e ganas pela alteração da minha paisagem, lembrei do diagnóstico do Tiago. terei?

19.12.15

Lila decidiu partir antes das grandes chuvas de novembro. seguiu o trilho dos caçadores da aldeia, primeiro, abeirando o rio profundo, ao longo dos canaviais-sapeiros, depois subindo o vale do norte, até à montanha de Gerda. Lila caminhava em direcção ao grande oceano, onde Micá, seu tio, lhe iria ensinar a encantar as baleias-azuis. nascida depois das primeiras neves, Lila herdara o dom da família materna e desde criança que encantava borboletas de silfos, nos planaltos da aldeia. o tio Micá, numa carta do verão anterior, havia-lhe dito que bastava assobiar um pouco mais alto, porque as baleias eram borboletas antigas, que njord, muito irritado, durante uma terrível tempestade, atirou às águas revoltas do mar. a maioria ficou presa nos remoinhos e morreu, as restantes cantam a sua dor até hoje, mas apenas os encantadores e os golfinhos as conseguem ouvir. é muito triste e faz doer o peito, escreveu o tio Micá. 
Lila, que em breve completará os dezassete invernos, decidiu que aquele era o tempo de partir em busca das baleias-azuis. beijou a vó Bé, que a aconselhou a levar as botas de casco de alce-irlandês, para caminhar veloz e segura, e a procurar o tio Micá no clã dos baleeiros, muitos passos para lá da grande montanha, na vila costeira de Akureyri. Lila gostava do aconchego da vó Bé, que continuava a preparar-lhe as panquecas com muito açúcar em pó e geleia de framboesa, mas sabia que no seu destino brilhava a estrela do viajante, a mesma que muitas luas antes tinha guiado a vó Bé e a mãe Li nos seus próprios caminhos.

16.12.15

amanhã tirarei o curso de sonhador especializado

14.12.15

para ti, mefistófeles,

o final orgásmico, ao som de Mahler, pela batuta de Bernstein. a orgia perfeita.


será o diabo, esse sádico fornicador, que ainda ontem escoiceava as minhas janelas, o bafejador desta aragem nocturna?
a brisa do inferno tomando os corpos pecadores, obrigando-os à volúpia da nudez.
é dezembro, ninguém o esperava.
ah!, fosse eu heroína de um romance antigo e golpearia delicadamente os pulsos com a faquinha da correspondência, amolada de véspera, na pedra mármore da cozinha. seria encontrada numa cama de dossel, entravada entre as bonecas de porcelana e os lençóis de bordado inglês, espilrados de sangue, e eu lívida, de braço tombado ao chão, acenando o meu adeus. 

não há sublimação na banalidade dos dias tristes.

13.12.15


ia jurar que era o Pina, ainda há pouco, a passar na rua, cabisbaixo. o grande Pina, que pressagiou o fim da poesia, porque o mundo precisava era de observadores de pássaros encartados, mas não podia ser, seria?! ó menina, guarde-me lá o éclair e a meia de leite, se faz favor, que eu venho já, vou só ali à rua, correr atrás de um homem que me pareceu o grande poeta, é uma ternura que vem de longe, não lhe sei explicar. hei-de lhe dar um beijo e se me sobrar a coragem, dizer-lhe que, ao senhor míope, não sei, mas a mim, o poeta ensinou-me a sonhar. não, demasiado teatral,  de um folclore palavroso que nunca seria capaz, o mais certo é gaguejar. o Pina merece melhor abordagem (imagine-se que é mesmo o Pina, vivo!). talvez me deixe ficar por aqui, escondida entre cacarejares de gente fina, que se define, tal como redefine, pela enésima vez, a enorme lista de compras do natal, sorvendo espuma light com poeira de cacau...

11.12.15

Amy Judd























Passa uma borboleta por diante de mim 
E pela primeira vez no Universo eu reparo 
Que as borboletas não têm cor nem movimento, 
Assim como as flores não têm perfume nem cor. 
A cor é que tem cor nas asas da borboleta, 
No movimento da borboleta o movimento é que se move, 
O perfume é que tem perfume no perfume da flor. 
A borboleta é apenas borboleta 
E a flor é apenas flor. 

[Fernando Pessoa, disfarçado de Alberto Caeiro, o Guardador de Rebanhos]
passo ligeiro, que nem o cheiro dos eucaliptos se entranha nas narinas, bem disse que não, mas deu-me pena deixar o país das montanhas à minha espera. o almoço, prato trocado na cozinha, não volta para trás, o gelo no sumo de laranja é pescado com uma colher, nada de grave, que estou com pressa, a conta, sem papelinho algum, soma feita de cabeça, é paga sem consternação. é a segunda tentativa, não haverá terceira, tomo nota mental, mas a preocupação agora é não deixar que o Nepal me neve à porta. caminho apressada, a relva tão verde traz-me o sorriso, há cães felizes por todo o lado. talvez fosse justo fazer esperar o Nepal, afinal a confusão foi dele, todo trocado, a tentar trocar-me a mim também. o pensamento, nuvem negra de um mau karma de sexta-feira, desvanece-se rapidamente. apresso o passo, esperando não parar a digestão dos cinquenta gramas de carne seca e maionese de alecrim.
agora, enquanto espero o atrasado Nepal e rio do conceito mundial de urgência, agradeço aos céus que a bondosa Anasuya tenha decidido reencarnar em mim.
[vamos ver até quando...]

9.12.15

«dobrá-los, é a antecâmera do vandalismo, o regresso à barbárie, coisa de descendentes de hunos.» 

J. E. de Andrada, essa personagem com cheiro a colónia Bois du Portugal, ousou, enquanto lapidava o património emocional do pauvre J., atentar contra as minhas mais intimas cerimónias de leitura. Não que a obscura criatura, bolor de arquivo-morto da biblioteca nacional, o soubesse, pois tais criaturas apenas travam conhecimentos consigo mesmas e uma meia-dúzia de lacaios, pobres coitados ou oportunistas. Circulam sempre no mesmo pântano social, vulgarmente designado por elite portuguesa, onde a velha nobreza, bafienta, e tantas vezes bastarda, se espoja junto da gorda burguesia, dignitária dos mais altos pousos e aventais.

Ora J. E. de Andrada, num desses colóquios unipessoais, de que os intelectuais, outrora exilados em terras de Sua Majestade, tanto apreciam, achincalhando, como é de seu costume, o pauvre J. ,

- que, se estivesse na novela das nove, já teria fugido, casado, copulado três filhos, largado, arrependido, voltado, amado, desaparecido, talvez assassinado (ah! o horror de não saber!), reaparecido, em coma, etc, etc, etc... com a doce Orchidée, ao invés de fustigar as falanges, como se fosse um miúdo no recreio -,

             decidiu condenar alguns dos mais belos hábitos de leitura das gentes, que, ao contrário dessa anta, múmia disfarçada em tecidos de lã de alpaca, lêem um livro com a mesma vontade com que tomam um corpo amado, contemplando, cheirando, tacteando o papel sob o dedo húmido, dobrando o canto da folha como quem desliza sobre a pérola mais perfeita do mundo, ou forjando, a jactos de tinta, a certeza da lembrança eterna.

Experimentasse o Magnificente Professor Doutor J. E. de Andrada passar os dedos pelas folhas pálidas da sua bela Orchidée e dobrar-lhe os cantos de quando em vez, e não lhe sobejaria tempo para o parlapatório, declamando ignóbeis infâmias sobre o que, claramente, desconhece.

8.12.15


encontro-o rodeado pelo grupo. no chão, um pintassilgo-verde fêmea, morto. pelo tamanho, percebo que se trata de um exemplar adulto. uma pobre mãe. não consigo disfarçar o meu desagrado. Corto Gatês, logo que me vê, abandona a roda e vem esfrega-se nas minhas pernas. Ramirez, o espanhol, olha-me desconfiado, é o gato mais desconfiado que conheço, abocanha a presa pelo pescoço e abandona o espaço. nunca me dá satisfações, foi sempre assim, desde o dia em que nos encontrámos, preterido por uma irmã mais meiguinha. aperfilhei-o, portanto, sabendo de que se tratava do menos afectuoso ao contacto humano. nunca me arrependi. Corto Gatês insiste nas turras, Mammina, não sejas severa, o Ramirez não tem culpa, está na sua natureza. 
o homem continua na sua demanda, sentado do velho tractor vermelho. o campo, antes verde, surge agora numa mescla de fios castanhos entrelaçados de amarelo, como cabelo de uma mulher mais velha. acompanhando o homem, o mesmo grupo de garças-boieiras aproveita o revirar da terra, rica em bicharada invertebrada. de vez em quando, o homem pára, coça a cabeça, enquanto segura a boina, desce da máquina e vai ver o estado da charrua. no quintal, mais acima, a mulher, que, no entra e sai de casa, o mantém debaixo de olho, pára também. 
querido Piccolino, que permanecerás encarcerado nas masmorras do castelo do teu senhor para sempre,

perguntas tu, a dado momento em que acompanhas o teu príncipe na guerra e o vês participar de uma orgia com duas cortesãs, juntamente com o amante da princesa, Dom Ricardo, se não será «o amor um belo poema sem qualquer conteúdo, pelo menos sem nada definido, mas que agrada ouvir quando é recitado com perfeição e fervor?»*

deixa-me contar-te de como é o amor, esse senhor vil e impiedoso, a quem um dia, também eu, ingenuamente, servi. 

o verdadeiro amor, Piccolino, sente-se na alma. é certo que começa por atingir o coração, obrigando-o a bombear o sangue a uma velocidade que antes só o medo conseguia, mas a doença alastra-se rapidamente ao corpo inteiro, infiltrando-se nos ossos, especialmente nos do peito, contamina o sangue com várias impurezas, para finalmente se fixar, até à sua morte, que pode durar uma vida inteira, na alma do pobre amante. é como um bicho, uma pequena larva, soprada por mefistófeles para dentro dos nossos olhos, que, saciada de pus, decide eclodir nas nossas entranhas, para depois as apodrecer no seu muco bilioso. o amor consome-nos. ardiloso patife, beija-nos as pálpebras, para que não vejamos a lâmina que nos trespassa a carne fraca...

....


de que te ris, Piccolino? zombas de mim?... acaso não serás tu conhecedor da verdadeira razão desses ferros que te agrilhoam, meu pequeno guerreiro? negarás tu, a mim também, que te conheço por dentro, de muito antes do início do livro, debaixo dessa pele engelhada de velho de mil anos, negar-me-ás, Piccolino, de que não foste vítima dessa mesma doença de que te falava? tu, meu querido anão, debaixo de toda a raiva que cuspiste, um ódio visceral que fez de ti homem inteiro, tu amaste loucamente a princesa. ainda amas, mesmo depois da sua morte. então, de que te ris? de mim, ou de ti?


....




[*O Anão, Pär Lagerkvist]

7.12.15

Cupio dissolvi

«Mas o que ela mais queria era estar morta. Percebia agora como é que há gente capaz de se matar, mas no que ela pensava não era em morrer de morte, era numa outra espécie de morrer, sem corpo para enterrar, só o espírito esquecido de tudo, que a porta nunca mais se abrisse para ninguém, que o tempo detivesse pasmado a olhar para ela indefinidamente imóvel sobre a cama, sentindo a sua dor como uma coisa muito longe e sem medo de mudanças, que o relógio calaria o tic-tac, que as moscas ficariam paradas e silenciosas, que não precisaria sequer de respirar, que não haveria mais quem tivesse merecido o seu amor nem quem a tivesse amado, que tudo fosse quieto e escuro como será o coração das pedras ou a coberta do céu onde não há estrelas.»

Daniel de Sá, Ilha Grande Fechada
cheiro a ervas altas, molhadas, cortadas pela minha própria mão.
cheiro a sangue e a mel.

6.12.15

Corto Gatês, muito prazer!, miou ele, quando me viu arregalar os olhos ao buraco na orelha esquerda. chumbo perdido, só pode ter sido. afago-lhe o pêlo escuro, em busca de outras mazelas, enquanto amaldiçoo mentalmente a besta que o terá atingido, mas Corto Gâtes, como agora se auto-intitula, dá duas voltas na minha perna direita, como se nada se tivesse passado e ronrona, Tenho assuntos a tratar, Mammina. Podes despachar a latinha?...

Amelie Petit Moreau

quando o mar se elevou da terra e se fez céu, a montanha permaneceu. onde antes se escondiam monstros disformes de águas profundas, sibilam sereias feitas de vento, catando vida que lhes sirva de companhia. assim será, até que o mar retorne ao lugar que lhe pertence. mas o mar, agora céu estrelado, não voltará, apaixonou-se pela lua, menina mimada, que às vezes desaparece. em seu lugar, mandou construir espelhos salgados. abandonada, a montanha chora um frio branco que mata. o lobo, primeiro amante da lua, continua a uivar-lhe a cada madrugada, implorando-lhe que reconsidere.

5.12.15

tangerinas, inspiro-lhes o cheiro lentamente e recordo-me da minha mãe.
a minha mãe tem uma voz meiga, suave, que embala e protege, tem um olhar doce, de onde roubei o meu, um sorriso tímido e um coração de ouro. ensinou-me o mais importante da vida, muitas antes de eu saber juntar as letras no papel. soube cuidar de mim, nos meus pequenos descuidos, enquanto outras sovavam os filhos. recolheu um desses filhos durante uma semana, antes de o devolver à mãe raivosa, sob promessa de mudança. a dita nunca mudou, mas acalmou a força da vergasta. depois desse episódio, comentado pela vizinhança inteira, e o primeiro de que me lembro com pormenor, a minha mãe passou a ser porto de abrigo da criançada local. mais tarde, quando entrei na puberdade, eram as raparigas, colegas de carteiras, algumas mais velhas, que a idolatravam como a mãe desejada.
...
agora, que revivo na minha cabeça estes episódios, mais uma vez, concluo que o segredo foi sempre o mesmo, acima de tudo era/é uma boa pessoa (como há muitas, felizmente, que bem sei que a bondade não é exclusiva dos que amamos) que trata/va sempre as crianças como seres pensantes, escutando-as, e não como animais a adestrar. não acata/va faltas de respeito, mas sempre educou por amor. parece simples, não sei, talvez seja.
...
a minha mãe foi o presente que a vida me ofereceu, quando se decidiu a congeminar a fusão de um minúsculo e teimoso espermatozóide com um óvulo quase fora de prazo e me pariu numa noite chuvosa de primavera. e por isso, à vida, e à mãe, lhes estou tão grata.

[a ti, minha querida mãe, hoje, um quilo de tangerinas.]
aquele homem, que agora lavra, conduzindo o tractor vermelho pelos campos, imagino-o outrora, jovem, calcando a pega da charrua, rasgando a terra escura de dezembro, atrás do seu cavalo castanho, imparáveis, em simbiose de força e suores. a terra, húmus, ventre de mulher fecunda, clama a semente, que virá depois do ferro. à noite, em casa, essa mesma terra descalçada das botas e varrida do soalho de madeira pobre para a rua. uma mulher, também ela jovem, de cabelo apanhado e faces rosadas, estendendo-lhe uma toalha e um par de meias lavado. na mesa, à luz do petromax, uma malga de sopa quente, um pão centeio, uma faca e um copo de vinho. 

4.12.15




ouve, é a voz de um anjo.
Kindra Nikole























flor y cronopio

Un cronopio encuentra una flor solitaria en medio de los campos. Primero la va a arrancar, pero piensa que es una crueldad inútil y se pone de rodillas a su lado y juega alegremente con la flor, a saber: le acaricia los pétalos, la sopla para que baile, zumba como una abeja, huele su perfume, y finalmente se acuesta debajo de la flor y se duerme envuelto en una gran paz. 

La flor piensa: «Es como una flor.» 


Historias de cronopios y de famas, Julio Cortázar 

2.12.15

 Amanda Charchian

1.12.15

no outro lado da noite
o amor é possível

- leva-me -

leva-me entre as doces substâncias
que morrem a cada dia na tua memória


daqui: lugares mal situados

----------
en la otra orilla de la noche 
el amor es posible 

-llévame-

llévame entre las dulces sustancias
que mueren cada día en tu memoria