7.12.15

Cupio dissolvi

«Mas o que ela mais queria era estar morta. Percebia agora como é que há gente capaz de se matar, mas no que ela pensava não era em morrer de morte, era numa outra espécie de morrer, sem corpo para enterrar, só o espírito esquecido de tudo, que a porta nunca mais se abrisse para ninguém, que o tempo detivesse pasmado a olhar para ela indefinidamente imóvel sobre a cama, sentindo a sua dor como uma coisa muito longe e sem medo de mudanças, que o relógio calaria o tic-tac, que as moscas ficariam paradas e silenciosas, que não precisaria sequer de respirar, que não haveria mais quem tivesse merecido o seu amor nem quem a tivesse amado, que tudo fosse quieto e escuro como será o coração das pedras ou a coberta do céu onde não há estrelas.»

Daniel de Sá, Ilha Grande Fechada