19.12.15

Lila decidiu partir antes das grandes chuvas de novembro. seguiu o trilho dos caçadores da aldeia, primeiro, abeirando o rio profundo, ao longo dos canaviais-sapeiros, depois subindo o vale do norte, até à montanha de Gerda. Lila caminhava em direcção ao grande oceano, onde Micá, seu tio, lhe iria ensinar a encantar as baleias-azuis. nascida depois das primeiras neves, Lila herdara o dom da família materna e desde criança que encantava borboletas de silfos, nos planaltos da aldeia. o tio Micá, numa carta do verão anterior, havia-lhe dito que bastava assobiar um pouco mais alto, porque as baleias eram borboletas antigas, que njord, muito irritado, durante uma terrível tempestade, atirou às águas revoltas do mar. a maioria ficou presa nos remoinhos e morreu, as restantes cantam a sua dor até hoje, mas apenas os encantadores e os golfinhos as conseguem ouvir. é muito triste e faz doer o peito, escreveu o tio Micá. 
Lila, que em breve completará os dezassete invernos, decidiu que aquele era o tempo de partir em busca das baleias-azuis. beijou a vó Bé, que a aconselhou a levar as botas de casco de alce-irlandês, para caminhar veloz e segura, e a procurar o tio Micá no clã dos baleeiros, muitos passos para lá da grande montanha, na vila costeira de Akureyri. Lila gostava do aconchego da vó Bé, que continuava a preparar-lhe as panquecas com muito açúcar em pó e geleia de framboesa, mas sabia que no seu destino brilhava a estrela do viajante, a mesma que muitas luas antes tinha guiado a vó Bé e a mãe Li nos seus próprios caminhos.