8.12.15

querido Piccolino, que permanecerás encarcerado nas masmorras do castelo do teu senhor para sempre,

perguntas tu, a dado momento em que acompanhas o teu príncipe na guerra e o vês participar de uma orgia com duas cortesãs, juntamente com o amante da princesa, Dom Ricardo, se não será «o amor um belo poema sem qualquer conteúdo, pelo menos sem nada definido, mas que agrada ouvir quando é recitado com perfeição e fervor?»*

deixa-me contar-te de como é o amor, esse senhor vil e impiedoso, a quem um dia, também eu, ingenuamente, servi. 

o verdadeiro amor, Piccolino, sente-se na alma. é certo que começa por atingir o coração, obrigando-o a bombear o sangue a uma velocidade que antes só o medo conseguia, mas a doença alastra-se rapidamente ao corpo inteiro, infiltrando-se nos ossos, especialmente nos do peito, contamina o sangue com várias impurezas, para finalmente se fixar, até à sua morte, que pode durar uma vida inteira, na alma do pobre amante. é como um bicho, uma pequena larva, soprada por mefistófeles para dentro dos nossos olhos, que, saciada de pus, decide eclodir nas nossas entranhas, para depois as apodrecer no seu muco bilioso. o amor consome-nos. ardiloso patife, beija-nos as pálpebras, para que não vejamos a lâmina que nos trespassa a carne fraca...

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de que te ris, Piccolino? zombas de mim?... acaso não serás tu conhecedor da verdadeira razão desses ferros que te agrilhoam, meu pequeno guerreiro? negarás tu, a mim também, que te conheço por dentro, de muito antes do início do livro, debaixo dessa pele engelhada de velho de mil anos, negar-me-ás, Piccolino, de que não foste vítima dessa mesma doença de que te falava? tu, meu querido anão, debaixo de toda a raiva que cuspiste, um ódio visceral que fez de ti homem inteiro, tu amaste loucamente a princesa. ainda amas, mesmo depois da sua morte. então, de que te ris? de mim, ou de ti?


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[*O Anão, Pär Lagerkvist]