5.12.15

tangerinas, inspiro-lhes o cheiro lentamente e recordo-me da minha mãe.
a minha mãe tem uma voz meiga, suave, que embala e protege, tem um olhar doce, de onde roubei o meu, um sorriso tímido e um coração de ouro. ensinou-me o mais importante da vida, muitas antes de eu saber juntar as letras no papel. soube cuidar de mim, nos meus pequenos descuidos, enquanto outras sovavam os filhos. recolheu um desses filhos durante uma semana, antes de o devolver à mãe raivosa, sob promessa de mudança. a dita nunca mudou, mas acalmou a força da vergasta. depois desse episódio, comentado pela vizinhança inteira, e o primeiro de que me lembro com pormenor, a minha mãe passou a ser porto de abrigo da criançada local. mais tarde, quando entrei na puberdade, eram as raparigas, colegas de carteiras, algumas mais velhas, que a idolatravam como a mãe desejada.
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agora, que revivo na minha cabeça estes episódios, mais uma vez, concluo que o segredo foi sempre o mesmo, acima de tudo era/é uma boa pessoa (como há muitas, felizmente, que bem sei que a bondade não é exclusiva dos que amamos) que trata/va sempre as crianças como seres pensantes, escutando-as, e não como animais a adestrar. não acata/va faltas de respeito, mas sempre educou por amor. parece simples, não sei, talvez seja.
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a minha mãe foi o presente que a vida me ofereceu, quando se decidiu a congeminar a fusão de um minúsculo e teimoso espermatozóide com um óvulo quase fora de prazo e me pariu numa noite chuvosa de primavera. e por isso, à vida, e à mãe, lhes estou tão grata.

[a ti, minha querida mãe, hoje, um quilo de tangerinas.]