31.1.16

não acredito que sempre que um desconhecido nos observa demoradamente, em detrimento do Expresso, esquecido na mesa, ao lado de uma garrafa de água sem gás, a coisa tenha que ver com atracção. observando a minha fraca figura, reflectida no espelho em frente ao balcão, branca como uma boneca de cera, mais insossa do que a manteiga da torrada, aposto a nota de dez euros que me sobrou na carteira, como muitas vezes - como esta agora - tudo não passa de simples curiosidade. 

30.1.16

tenho dois homens à minha espera, na mesinha de cabeceira. o pateta do Peter Kien, acabado de casar com a desprezível governanta - e negar-lhe a noite de núpcias, depois de quase sofrer um choque anafilático, ao vê-la, sequiosa de cama, atirar-lhe os livros ao chão; e Chance, o tolo do jardineiro - jeitoso - analfabeto, ainda deitado, a repousar do acidente, na casa da tiazorra EE...

chega de mundo, por hoje.
ao segundo acordar do dia, jorra-me a luz, tão clara, onde descubro um rosa suave, em botão, como o sexo molhado de uma mulher, nas primeiras flores de um pessegueiro. um cão ladra, compondo a manhã. o sonho cheira-me ainda nas mãos e na boca o sabor é de maresia. naveguei na via láctea dos prazeres, espiral que me rouba a vida, para depois ma devolver.
agora, já desperta, sem ponto de fuga onde me possa extinguir, as palavras devoradas, no prato nem uma migalha que me engane o vazio dos dedos, chega a tristeza, naturalmente, e inunda-me, dentro da luz. se tiver sorte, a apatia salvar-me-á.
há, nestas últimas madrugadas, pássaros que chilreiam a primavera que há-de vir. uma orquestra belíssima que se compõe. o frio seca-me os lábios, enquanto avanço na noite, a esvaecer-se por entre os primeiros bocejos da manhã - aperto o casaco e componho a gola de lã, Taeko e Yukiko seguem-me, felizes. não me nasceu ainda a força para avançar no dia, apenas o núcleo que clama atenção vagueia comigo.
espasmos,
a urgência-domesticada.

29.1.16

para o Sr. Hassan Rouhani, com votos de boas relações internacionais.

Jorn  Stubbe

28.1.16

são memórias encadeadas - veio o homem baixote, de tacão dançarino, e no seu ar de desdém à minha figura, lembrei-me daquela vez em que um outro, urso fedorento, à resposta negativa, pediu para falar com O meu chefe. não havendo pila superior para lhe acalmar o beicinho e tendo de se aguentar com o "pipi diz que não", foi cuspir perdigotos para outra freguesia. intolerável!, bufava a jovem colega, devias fazer alguma coisa! não podemos aceitar estes comportamentos machistas! não lhe levei a mal a admoestação, visivelmente bem intencionada. achei até normal, naquela idade, confundir acção com reacção e barulho com atitude. também eu já fui adolescente.
em cima da hora do almoço, a sopa de couve-lombarda à espera, vem-me o Paquistão, dividido em dois, azucrinar a cabeça, que a coisa assim é complicada, saber o que se pode fazer. hoje, azeda de limão verde, impaciento a voz e repito três vezes: atenção, a data é apertada. Paquistão, o de bigode, acena que sim, mas insiste na lengalenga. suspiro, quase me apetece chorar, com pena do tempo que deixo passar, assim, a tentar aproximar o Paquistão dividido em milhares, enquanto a minha aldeia cada vez fica mais longe. o Paquistão mais novo, aliviado por não ter de se expressar - e eu aliviada por não ter de tentar adivinhar -, sorri. tem um dente partido e um sorriso bonito. quando finalmente lhes aperto as mãos, sinto-lhes a convicção de quem sabe que tem de continuar a perguntar. eu, apática ocidental, regresso à inércia da cadeira. estou cansada de responder. 
é a repetição enjoativa dos dias.
A poesia, por definição, é intraduzível. [Só é possível a transposição criativa]

a palavra, Jakobson, a palavra, essa nuvem espessa, ora pedra, ora água.

27.1.16

à atenção do ortopedista, Dr. Reboredo,
 
Diz Ferreira Gullar (socorro-me sempre dos poetas, quando entro na peleia) que,
 
sim, este osso
a mais dura parte de mim
dura mais do que tudo o que ouço
e penso
mais do que tudo o que invento
e minto
este osso
dito perônio
é, sim,
a parte mais mineral
e obscura
de mim
 
assim sendo, peço-lhe que avise o seu quase-paciente/cliente que as forças estão em movimento, ele que não se atreva a trocar o hebdomadário pelas catacumbas do palácio nacional de mafra! ou pior, pelas dos Prazeres...

26.1.16

...

Imagino a delicadeza. A subtileza.
O toque quase aéreo, quase
aereamente brutal.
Ser tocado pelas vozes como ser ferido
pelos dedos, pelos rudes cravos
da planície.
Ser acordado, acordado.
Porque cantar é um subterrâneo.
Depois é um pátio.
Imagino que as vozes são escadas.
Vozes para atingir o canto.
O canto é o meu corpo purificado.

Porque o meu corpo tem uma sua morte
tocada incendiariamente.
A morte - diz o canto - é o amor enorme.
É enorme estar cego.
Canta o meu grande corpo cego.
Reluzir ao alto pelo silêncio dentro.
O silêncio canta alojado na morte.
Deito-me, levanto-me, penso que é enorme cantar.
suas Excelências, as pessoas importantes, decidiram que estava na altura de aumentar o ranking de caridade e coisas do tipo. vai daí, Ó Maria, bote-se ao caminho e vá lá ver comé aquilo dos refugiados. Diga c'a gente também quer ajudar! 
veio a Maria assistir ao processo, interiorizar-se da condição humana subjacente à coisa de se ser refugiado, e foi logo de manhãzinha, ainda nem ao café a tinha levado, que o rapaz apareceu e lhe sorriu, E que rapaz!, Benza o Deus, Benza o Alá. que felicidade, Maria derrete, sob a camada fina de fond de teint e pó de bronze. Quero tanto ajudar..., suspira Maria, no seu little inglês, mas o rapaz, que traz nos olhos tanto de gratidão como de timidez, não entende o bailado de sedução das mulheres finas do secretariado, mal termina de assinar o verso da folha, agradece - pasma-se Maria, que o pobre já sabe a palavra em português: Você já viu?! - e sai, para não mais voltar.
vai ser um longo dia, com a Maria sempre a suspirar.

25.1.16

Laura Makabresku

noé, querido, dá gás nas máquinas, usa o carvão de estrume de paquiderme, atira carga fora, o que quiseres, mas despacha-te a passar por aqui. o diluvio começou!

24.1.16

Sou um apanhador de desperdícios
Amo os restos
Como boas moscas.
Queria que minha voz tivesse formato de canto
Porque não sou da informática
Eu sou da invencionática.
Só uso minhas palavras para compor meus silêncios.
os pés dela, frios, enroscavam-se nos seus, friccionando-lhe os pêlos das pernas. aquece-me, pedia-lhe, como quem roga o coração, e ele envolvia-a num abraço e beijava-lhe o rosto devagar. riam, riam muito, nestas tardes de domingo na cama. 
Conheci uma vez um americano basculante, que agora me parece replicado pelo mundo. Empunhava uma bandeira tão alto e de punho tão cerrado, que julgava elevar-se ele também, na sua luta pelo Índio dizimado. Era um americano menor, um ser arrogante e mesquinho, um pobre enjeitado, a quem tive de acompanhar os passos durante algum tempo. Lembro-me de assistir, incrédula, às suas evangelizações musculadas. Quem não se vergasse à razão da causa, vergar-se-ia ao poder do pau nas costas. Pelo Índio, ameaçado de extinção, caçado e exposto como troféu, deslocado como bicho para as reservas, aniquilado nas suas crenças espirituais, também a mim e a tantos outros, a luta parecia válida, e o americano, um merdas estilizado pelos papers da universidade e com a espinha dorsal de um polvo, sabia disso.

23.1.16

de lata e garfinho na mão, abro a porta dos fundos e avanço para o gatil. acabei de expulsar uma pobre aranha da cozinha - quiçá Milu, bem maiorzinha e disfarçada de preto -, e só na volta me hei-de rir, ao olhar as sapatilhas que calço, porque as irmãs voltaram a comer-me as botas, tal como no ano passado. foi a cereja no topo do bolo daquele maldito dia. por agora, agarro-me à luz da lua, enorme, que me hipnotiza, e vou conversando com os gatos. nenhum deles me parece incomodado com as perguntas que lhes faço, mas Sr. Gato, cujas goelas se desenvolveram, quando o pobre ficou mouco, refila alto a demora. nada como um bando de ex-vadios e abandonados para me trazer de volta à terra. 
É esta condenação, lava ardente, suco, sémen, semente, esta inconstância só minha. Sonho uma morte violenta, a quente, bala na têmpora, carro despistado, cara desfeita, em contra-mão. Sonho com o vidro que me há-de perfurar a pele macia, quente, fêmea pronta em cio, cadela em ladeira esquecida, macho alfa de alcateia, sonho-me liberta de mim.

20.1.16

diz-me que está no desemprego, que a velha morreu. reconheço-lhe na descrição do evento a ironia do costume, sob a qual esconde a fragilidade que mulheres como ela não podem mostrar. por defeito, por medo também, tem tendência para atacar a felicidade. já quis ser assim, mas definiu a natureza que a minha sensibilidade fosse doença e a bruteza, em mim, parecesse cinismo.

não sei o que faria ela, perante o desconsolo que ao fim da tarde me tomou. eu sei que me recolherei à toca, quieta e calada, esperando que ao menos a terra me aceite.

18.1.16


Nunzio Paci

17.1.16

há vinte anos, lembro-me de olhar tantas vezes pela janela da casa dos meus pais e ver aquele céu azulado a cobrir o horizonte. desse azul, que não se esquece, nascia um violeta macio que me suavizava a ansiedade, a ansiedade de sair, ser independente e viver. há vinte anos, o horizonte parecia-me um obstáculo a transpor, um muro, uma cerca que não me deixava ver o mundo. hoje - domingo, dia dezassete de Janeiro de dois mil e dezasseis - olho o horizonte, que entretanto se alargou, o azul em vários tons, o violeta ausente, e sinto um abraço que me acolhe. não sei o que virá amanhã, mas sei que não sou imortal, e hoje, de olhos postos naquele mesmo ponto, mantenho-me tranquila. olhando para trás, sei que fui abençoada. 

16.1.16

Tortugas y cronopios

Ahora pasa que las tortugas son grandes admiradoras de la velocidad, como es natural. Las esperanzas lo saben, y no se preocupan. Los famas lo saben, y se burlan. Los cronopios lo saben, y cada vez que encuentran una tortuga, sacan la caja de tizas de colores y sobre la redonda pizarra de la tortuga dibujan una golondrina.

Julio Cortázar, Historias de cronopios y de famas


[Tartarugas e cronópios

Agora acontece que as tartarugas são grandes admiradoras da velocidade, como é natural. As esperanças sabem disso e não se preocupam. Os famas sabem e troçam. Os cronópios sabem e cada vez que encontram uma tartaruga, puxam do giz de cor e na redonda ardósia da tartaruga desenham uma andorinha.]


15.1.16

Vendredi saltita de cadeira em cadeira, alheia aos olhares reprovadores das mais velhas. Parece impossível!, cochicham as fulanas, bufando sopros impacientes. Vendredi observa a inclinação da luz, ao tombar no horizonte, procura o Este e o Oeste, roda o monitor e rodopia a cadeira, enquanto regula altura e temperatura e a espessura do assento, verifica o lote do café, o ph do garrafão, a espessura do papel. Depois observa a marca das esferográficas, só usa bic cristal. Questiona tudo o que considera vital para o bom funcionamento da sua performance extraordinária.  Mais do que dignificar, Vendredi pretende glorificar a tão nobre profissão de lamber papeis. (Mas só na segunda-feira.)
em pequenos, deviam dizer-nos, vai e morre feliz. e a partir daí, o peso de carregar a preciosidade da vida seria uma nuance. a culpa de não merecer tamanho milagre, de não estar à altura do expectável, daria lugar a uma raiva purificadora, dirigida à divindade que nos obriga a morrer, todos os dias. afinal, o que é a vida, senão a morte em movimento?

mãe preocupada

[vale ouro.]

14.1.16

doem-me as mamas, é a forma mais simples que tenho de lhe dizer o que se passa. se lhe ofereço sinceridade no relato, não me torça o nariz, nem me responda com chamadas de atenção, que não é bonito uma moça dizer mamas, devendo optar pelo singelo peito, mas peito é o da galinha, assado no forno com batatinhas, daqui a pouco, percebe? o que me dói são as mamas, e ai de quem me tocar nelas, arranco-lhe os olhos com a colher de chá! ainda há dias, no aperto da lagarta subterrânea, levei uma cotovelada bem no centro da polpa da laranja direita e até as lágrimas se me afloraram à vista, um uivo mental excruciante. todos os meses é isto, dores nas mamas, hormonas em ebulição, fluidos num sobe e desce, o corpo bastardo, sedento de morte e de sexo, e como se não bastasse, agora esta porra de dor, incansável, ataca-me os neurónios também, uma dor monstruosa, comum e transversal a todas as mulheres com mamas no escalão das minhas, aquilo dói mesmo, dizem elas, numa voz de terror, e são estas três palavrinhas que me encolhem, encolhem, encolhem e me aumentam a dor nas mamas, mesmo a dor que ainda lá não está. quase me engasgo em tanta dor, de tão inchada que é. dizem-me que não é uma dor fatal, como aquela das paixões, é uma dor de mamas que deixa outros traumas na memória. mas a bem da verdade, antes esses, às cicatrizes que nos mutilam o corpo.

13.1.16

estou tão cansada. 
como é pesada esta máscara em que me transformei. 
e depois há noites, de tão brancas e pesadas, em que me queria feto pequenino na barriga da minha mãe. como pode o mundo ser um lugar tão estranho? 

12.1.16

dias há em que me queria uma besta impetuosa, dessas que vivem em labirintos de mármore breccia oniciata, trincando pequenos corpos de músculos atrofiados.

dias há em que me vendo por um punhado tão mísero, que cada estocada me dói até na alma.

11.1.16

Jenny Woods

segredos de Niflheim: estancar o sangue da boca com um bochecho de aguardente.

[ora vê lá no armário das bebidas, tenho a certeza que ainda lá há uma garrafa de aguardente, se não a encontrares, abre a da tequila, é a mesma coisa e ninguém bebe aquilo.]

por quem sois, gentis nativos de Niflheim, não me desagrada o sabor adocicado do metal, mas se a alternativa é cuspir fogo pelos olhos, venha de lá essa garrafa, que bem preciso de anestesiar a alma.

10.1.16

ao ver esta Pear with Insects, de Justus Juncker vem me à memória algo de que realmente me arrependo: não ter comprado aquela garrafa de aguardente de pêra, na sexta-feira.
Passa no mundo a estranha ventania. Os mortos 
empurram os vivos. 
É o tumulto, 
o peso do espanto, as forças 
monstruosas e cegas. A pedra espera ainda 
dar flor, o som 
tem um peso, há almas embrionárias 
- Tudo isto se fez pelo lado de dentro 
tudo isto cresceu pelo lado de dentro.

9.1.16

nos Insólitos do Courrier deste mês, um pequeno artigo fala do projecto Teatro SOLO, onde as peças são concebidas para serem interpretadas diante de um único espectador. pergunto-me se isto que aqui fazemos nos blogs, não é quase a mesma coisa.
dizem-lhe, orgulhosos, que alcançou um lugar. não os desilude, contando-lhes da sensação de se sentir cada vez mais subterrada.
em silêncio, observa o velho casarão, a hera continua a trepar pelas paredes da cozinha, virada a nascente, as framboeseiras, plantadas debaixo da janela do quarto que ardeu, alastraram às janelas circundantes, o deodara, trazido pelo homem que morreu jovem, acompanha a altura da casa onde ela é mais alta e faz sombra ao espírito do seu plantador. um tapete de erva alta cobre o chão lateral, por baixo dele, o sangue do galo que atacou, durante as fundações. mais abaixo, a laje sobre a qual colocavam o ringue de papel com dois escorpiões. a excitação e o medo, assistindo à luta - até à morte. hoje, abandonada numa decadência romântica, quem morre é a casa. 
Much as he would like to
Concentrate completely
On the precious Object,
          Love has not the power:
Goethe put it neatly;
No one cares to watch the
Loveliest sunset after
          Quarter of an hour.

So I pass the time, dear,
Till I see you, writing
Down whatever nonsense
          Comes into my head;

---

Por muito que se gostasse
De ter apenas cuidados
Com o Objecto Amado,
           Não tem amor tal demora;
Disse-o Goethe claramente:
Não há ninguém que contemple
O mais belo dos ocasos
           Após um quarto de hora.

Portanto, amor, passo o tempo,
Até te ver, a escrever
Todo e qualquer disparate
          Que à cabeça me vem;


[Outro Tempo, W. H. Auden, Relógio D'Água - tradução de Margarida Vale de Gato]

8.1.16

que tristeza é ter frio. ter tudo e ter frio, habitar este corpo vazio como outro qualquer.

7.1.16

antes o golpe, à palavra escrita. 

6.1.16

observo-o de longe. imagino-lhe a tesoura pequena nas mãos, desbastando os talões supérfluos, que apenas roubam força à videira. pela curteza da vara segura no engado, percebo que o homem prefere a qualidade das uvas, em detrimento dos cestos cheios. não se escusa à morosa arte de seleccionar, cortar e atar com delicadeza, mas firme, em tempos de inverno chuvoso. como um escritor, penso, limpando as suas linhas, decepando, para criar.
o meu avô dizia que o carácter de um vinhateiro se podia observar pela poda que escolhia fazer. acredito piamente na metáfora.
Que dois amantes se reconheçam prometidos desde antes
dos deuses é exacto, é verdadeiro como a própria evidência.

[in Estrela Polar]

5.1.16

Um elo mais forte do que o ódio, o amor, unia-a ao cosmos,
transmitia à terra o sangue que recebera de há milénios,
do primeiro homem que surgira sobre a face do mundo
e olhara o Sol e a noite…

[in Cântico Final]
eu bem que queria, caro leitor, garanto-lhe que queria, sempre foi essa a ideia, fazer aqui o relato isento da aventura de fim de ano e respectivo resgate da vaca MuMu. mas já devia saber, que, com isto dos blogs, não há verdade que sobreviva a tanta pantominice. que importa agora dizer que foi a agente Miss Smilenska que roubou o dirigível ao conde Ferdinand von Zeppelin e galgou implacáveis correntes de ar poluído, executando piruetas altamente mortais, para nos salvar das dentuças dos tubarões? já nenhuma de nós acreditava no milagre, embora a Teresa insistisse que tinha aprendido a rezar na era da técnica e a era da técnica haveria de nos salvar. pois técnica foi o que não faltou nos comandos daquele balão-salsicha, pelas mãos da maravilhosa Miss Smilenska.

a todos os intervenientes, o meu agradecimento. a vossa fértil imaginação - pois que ninguém acredite em tamanhas patacoadas! - há-de fazer perdurar, pelas várias gerações vindouras, o famoso caso de MuMu, a vaca sagrada... 
Nem que eu viva cem anos, o teu corpo sairá do meu corpo
e dos meus músculos, do meu desejo violento,
e deste amor e deste amor que eu te não sei dizer e me faz
andar tão triste.

[in vagão J]
Bianca Serena Truzzi

a pequena casa de madeira na encosta, entre o verde, as chamas já a dançarem em vórtice. noto a curiosidade de quem olha. alguns sorriem. não tenho tempo para entender por que o fazem, o fogo alastra-se à copa das árvores circundantes, impiedoso. a imagem não faz sentido, é um dia de luz clara. a serra toda arde, tomada por labaredas altas. uma velha fotografia arde também, exalando os mesmos ruídos da madeira que chia, estertorante. os que riam, gritam, atarantados. parecem-me meros figurantes, planos na dimensão. o rio, largo, é tomado pelo fogo incandescente e a água feita lava. a lambra, liquida, escorre na minha direcção. assisto, em sonho, à minha própria morte.

3.1.16

SOMBRA DE LOS DÍAS A VENIR

Mañana
me vestirán con cenizas el alba,
me llenarán la boca de flores.
Aprenderé a dormir
en la memoria de un muro,
en la respiración
de un animal que sueña.

2.1.16

talvez seja verdade o que dizem alguns, procuramos a eterna adoração, a sensação de sermos únicos, especiais, os mais importantes na vida de alguém. que nos custe a admitir tamanho egoísmo, atravessado por laivos de narciso, por certo que sim, afinal, quem assume de bom grado o que sempre lhe mandaram esconder?
recentemente, vi-o, deitado ao lado do velho Sr. Gato, lambendo-lhe o pêlo com terna afeição. não me espantou a postura, tão-pouco é da sua exclusividade, de igual modo, há pessoas assim, que debaixo da sua casca grossa, sempre rugosa ao trato, guardam o coração mais nobre. há pouco, e por isso me lembrei de aqui grafar estas palavras, porque as quero, muito, como futuras memórias, banais, do que de mais sincero tenho na vida, o cuidar; dizia, há pouco, ao abrir a porta, no tapete castanho, um pequeno rato do campo, com as vísceras vazadas. pode parecer repugnante, será, admito, mas há no gesto, mesmo que apenas instinto animal, algo que me inflama: saber que Ramirez, o espanhol, o gato mais esquivo que conheço, me oferenda com o que de mais importante há na sua natureza, o seu alimento.
as temporadas de downton abbey, cerveja japonesa e ursinhos haribo. assim tem sido o meu começo de ano. auspicioso, disse ela... nunca mais deixo que me leiam a sina, a menos que prove ser cigana encartada. 
ouvem-se os zunzuns, Cuca, a Pirata, lançou o boato, trata as minhas ilustres convivas como um grupo de rebeldes indigentes. afirma que violámos a convenção de Genebra, atacando em altura de tréguas de fim-de-ano, quando foi ela, e a sua trupe de pernetas, que ousou o sacrilégio de roubar, sim! roubar a vaca sagrada no período santo do natal. 

não poderei permitir semelhante chorrilho de acusações, que já levaram a nossa bela ana a desertar, preferindo a companhia do lado inimigo, sob protecção do primo do Príncipe deposto da Roménia. um ultraje! logo que termine de narrar a história, tal como aconteceu, e não o conto de fadas que a Susana afirma, irei desafiar a Pirata para um duelo de pistolas! espero que a brava capitã não tema em recolher esta luva.

recordo-lhe, caro leitor, que tínhamos acampado na enseada e planeávamos o ataque surpresa. intrépidas guerreiras, não era o medo que nos atrasava os movimentos, mas antes a dúvida daquela última meia légua. ninguém queria mergulhar na água gélida do oceano, como faz aquela gente em carcavelos e na nazaré, tão pouco estragar as mises e os coques de salão. ciente do sacrifício, pedi voluntárias. ergueu-se a ana, a Teresa e, claro está, a Susana. bravas, como três mosqueteiras. as restantes convivas encolheram os ombros, assobiaram um velho êxito de Marco Paulo e deixaram-se ficar junto das fogueiras, assando marshmallows. diziam que alguém tinha de ficar de vigia à locomotiva, propriedade do estado, não queriam ter problemas. respeitei a sua cobardia e fui vestir o biquini-traje de bond girl, juntamente com as outras.

desde que metemos o primeiro pé na água, até que chegámos ao convés do inimigo, o perigo foi companheiro. lutámos contra lulas gigantes, importadas do Japão, e não será difícil ao leitor imaginar um jacto de tinta lançado por uma besta com quase meia tonelada. vimo-nos negras, mas conseguimos despistá-las com umas rodelas de batata-doce da Susana. na altura, regozijei-me, mas agora, no conforto e segurança desta tenda de campanha, pergunto-me se a razão de tal farnel não seria uma crítica às porções gourmet servidas no grande jantar...

lembro-me que, enquanto éramos torturadas por caravelas portuguesas (bicho traidor!), se podia ouvir La Bohème, pela voz de Charles Aznavour e um coro hediondo de piratas embriagados. ao meu lado, enquanto aplicavam golpes marciais cirúrgicos nas alforrecas, as três magníficas trauteavam também. eu própria me deixei embalar pela cadência. até ouvir a ana gritar:
Tubarão! 

1.1.16

como combinado, logo que o último gato miou a nota final, avançámos, munidas de Robert Welch a estrear, forquilhas e armas de fogo, compradas no ebay. Susana, intitulando-se, [contra a minha vontade], como a fiel depositária de MuMu, a vaca sagrada, liderava o bando, de mosquete em punho. uma verdadeira amazona. inseparável, reco-reco, o porco selvagem, "salvo" da agreste natureza, num qualquer parque natural do interior, roncava guinchos de incentivo. logo atrás, montando um puro-sangue lusitano, ana mantinha a ordem entre as convivas mais encharcadas pelas licorosas. Teresa tinha desviado uma locomotiva no apeadeiro e protegia a retaguarda, lançando apitos cronometrados.
caros leitores, asseguro-vos, a partida não foi fácil. por muito que se insista que treze centímetros de salto e cunha é demasiado para quem quer ir guerrear, as senhoras mantiveram-se irredutíveis. acabaram por ir sentadas no vagão, entretidas com o jogo da raspadinha.
chegadas à enseada combinada, avistámos o navio pirata, a não mais de meia légua. um fogo de artifício chinês empestava de amoníaco o ar fresco da noite, em cores todas trocadas. decidimos acampar as tropas e estudar melhor o local. a nosso favor, tínhamos o efeito surpresa, mas não podíamos correr riscos, no resgate da MuMu. sabíamos, de fonte segura, mas incontactável, que Cuca, a pirata poeta, era ajudada pela máfia russa, na pessoa-blogger mais influente do mundo virtual, Palmier Encoberto,  pelo Cigano maltês, primo directo do Príncipe deposto da Roménia e por Carla, Chef da maior quadrilha de açúcar e refinados do norte.