14.1.16

doem-me as mamas, é a forma mais simples que tenho de lhe dizer o que se passa. se lhe ofereço sinceridade no relato, não me torça o nariz, nem me responda com chamadas de atenção, que não é bonito uma moça dizer mamas, devendo optar pelo singelo peito, mas peito é o da galinha, assado no forno com batatinhas, daqui a pouco, percebe? o que me dói são as mamas, e ai de quem me tocar nelas, arranco-lhe os olhos com a colher de chá! ainda há dias, no aperto da lagarta subterrânea, levei uma cotovelada bem no centro da polpa da laranja direita e até as lágrimas se me afloraram à vista, um uivo mental excruciante. todos os meses é isto, dores nas mamas, hormonas em ebulição, fluidos num sobe e desce, o corpo bastardo, sedento de morte e de sexo, e como se não bastasse, agora esta porra de dor, incansável, ataca-me os neurónios também, uma dor monstruosa, comum e transversal a todas as mulheres com mamas no escalão das minhas, aquilo dói mesmo, dizem elas, numa voz de terror, e são estas três palavrinhas que me encolhem, encolhem, encolhem e me aumentam a dor nas mamas, mesmo a dor que ainda lá não está. quase me engasgo em tanta dor, de tão inchada que é. dizem-me que não é uma dor fatal, como aquela das paixões, é uma dor de mamas que deixa outros traumas na memória. mas a bem da verdade, antes esses, às cicatrizes que nos mutilam o corpo.