2.1.16

ouvem-se os zunzuns, Cuca, a Pirata, lançou o boato, trata as minhas ilustres convivas como um grupo de rebeldes indigentes. afirma que violámos a convenção de Genebra, atacando em altura de tréguas de fim-de-ano, quando foi ela, e a sua trupe de pernetas, que ousou o sacrilégio de roubar, sim! roubar a vaca sagrada no período santo do natal. 

não poderei permitir semelhante chorrilho de acusações, que já levaram a nossa bela ana a desertar, preferindo a companhia do lado inimigo, sob protecção do primo do Príncipe deposto da Roménia. um ultraje! logo que termine de narrar a história, tal como aconteceu, e não o conto de fadas que a Susana afirma, irei desafiar a Pirata para um duelo de pistolas! espero que a brava capitã não tema em recolher esta luva.

recordo-lhe, caro leitor, que tínhamos acampado na enseada e planeávamos o ataque surpresa. intrépidas guerreiras, não era o medo que nos atrasava os movimentos, mas antes a dúvida daquela última meia légua. ninguém queria mergulhar na água gélida do oceano, como faz aquela gente em carcavelos e na nazaré, tão pouco estragar as mises e os coques de salão. ciente do sacrifício, pedi voluntárias. ergueu-se a ana, a Teresa e, claro está, a Susana. bravas, como três mosqueteiras. as restantes convivas encolheram os ombros, assobiaram um velho êxito de Marco Paulo e deixaram-se ficar junto das fogueiras, assando marshmallows. diziam que alguém tinha de ficar de vigia à locomotiva, propriedade do estado, não queriam ter problemas. respeitei a sua cobardia e fui vestir o biquini-traje de bond girl, juntamente com as outras.

desde que metemos o primeiro pé na água, até que chegámos ao convés do inimigo, o perigo foi companheiro. lutámos contra lulas gigantes, importadas do Japão, e não será difícil ao leitor imaginar um jacto de tinta lançado por uma besta com quase meia tonelada. vimo-nos negras, mas conseguimos despistá-las com umas rodelas de batata-doce da Susana. na altura, regozijei-me, mas agora, no conforto e segurança desta tenda de campanha, pergunto-me se a razão de tal farnel não seria uma crítica às porções gourmet servidas no grande jantar...

lembro-me que, enquanto éramos torturadas por caravelas portuguesas (bicho traidor!), se podia ouvir La Bohème, pela voz de Charles Aznavour e um coro hediondo de piratas embriagados. ao meu lado, enquanto aplicavam golpes marciais cirúrgicos nas alforrecas, as três magníficas trauteavam também. eu própria me deixei embalar pela cadência. até ouvir a ana gritar:
Tubarão!