2.1.16

talvez seja verdade o que dizem alguns, procuramos a eterna adoração, a sensação de sermos únicos, especiais, os mais importantes na vida de alguém. que nos custe a admitir tamanho egoísmo, atravessado por laivos de narciso, por certo que sim, afinal, quem assume de bom grado o que sempre lhe mandaram esconder?
recentemente, vi-o, deitado ao lado do velho Sr. Gato, lambendo-lhe o pêlo com terna afeição. não me espantou a postura, tão-pouco é da sua exclusividade, de igual modo, há pessoas assim, que debaixo da sua casca grossa, sempre rugosa ao trato, guardam o coração mais nobre. há pouco, e por isso me lembrei de aqui grafar estas palavras, porque as quero, muito, como futuras memórias, banais, do que de mais sincero tenho na vida, o cuidar; dizia, há pouco, ao abrir a porta, no tapete castanho, um pequeno rato do campo, com as vísceras vazadas. pode parecer repugnante, será, admito, mas há no gesto, mesmo que apenas instinto animal, algo que me inflama: saber que Ramirez, o espanhol, o gato mais esquivo que conheço, me oferenda com o que de mais importante há na sua natureza, o seu alimento.