29.2.16

Yamamoto Masao

troca-se uma semana tranquila em chalé na serra, tempo gelado e ar puro, por sete dias no inferno abafado, entre labaredas gigantes e belzebus de chicote na mão.

28.2.16

na pequenez da sua banheira, sempre nadara de costas, de olhos postos nas manchas do tecto. quando, sentada nas bancadas da piscina municipal, alguns anos antes, descobrira que a maioria preferia nadar de bruços, focando o olhar no objectivo final, ainda tentou igual façanha em casa. um desastre. os braços, sem espaço, a bater nas bordas brancas de esmalte, ficaram negros de magoados. os joelhos, de igual maneira. nada mais viu do futuro, para além do fundo da banheira.
voltou ao estilo habitual, sem mais ilusões. 
se Brasa é(era?) a bebida que aquece o coração, alguém me diga, por favor, qual é a bebida que aquece as extremidades.

na rua ursomifico-me dentro de três camisolas, uma de algodão e duas de lã, a de fora com gola alta, dois casacos, umas luvas com pelinho, dois pares de meias, umas calças, outras peúgas, e uma bela bombazina, estilo anos setenta, onde encaixa na perfeição um par de botas de montanha; já em casa, escondida dos olhares de esguelha das desdenhosas velhinhas, rijas, agasalhadas com simples xaile, insistindo que estou tão magrinha e reprovando qualquer justificação que lhes dê, rebento com o consumo médio de electricidade. depois da água quente, o ar condicionado é o meu luxo favorito.
Abrázame
miente
abrázame y dime que mañana todo será distinto
que me espera una vida diferente.

27.2.16

consigo vê-las daqui, entre o verde, ladrando em volta da oliveira. não sendo cães de caça pela raça, são-no por convicção. fico com pena dos pequenos roedores.
a chuva cai agora com força, ainda que no céu o sol atravesse algumas nuvens. elas, indiferentes, continuam a sua demanda, ora ladrando, ora saltando como cangurus. é quando lhes vejo o desinteresse pela brincadeira, que sei que regressarão em breve. vou buscar as toalhas.
[afinal é granizo!]

até já.

26.2.16

Vendredi, a pequena de quem já vos falei, hoje leva desaforo para casa. fossem os tempos outros, repete para si própria, tentando justificar a inclinação com que agradeceu a chibatada. mas lá no fundo, Vendredi sabe-o bem: quem está mal, muda-se e ela não tem mais para onde levar a vida. 

25.2.16

deus, um deles, não sei qual, lembrou-se de me castigar. velhaco, decidiu dar-me alguns minutos livres, - mais do que o habitual - quando deles nada posso engendrar. noutras alturas, já com a Blimunda a postos e a cabeça nas nuvens, como é de convir, o traste aperta-me o peito com obscuridades e impedimentos, obrigando-me, inflexível, a recuar.
tenho sido joguete nas mãos deste terrível enfant gâté, como boneca em mãos de uma pirralha. um quero, não quero divino, que me traz o coração em fanico - corrijo: em síncope, que a Pirata apelidou-me de intelectual e há que aproveitar a ofensa. pior, - porque há sempre uma nuvem pronta a nascer da nossa miséria - quando o mafarrico olimpiano parece acordar com os calcâneos de fora, o meu castigo avoluma-se nesta tortura costumeira: ficar sentada na cadeira, suspirando, enquanto o meu anoplogaster-cornuta - novamente a linguagem cuidada da cientificidade - me devora o fundo do mar.

24.2.16

A paixão é voraz, o silêncio
Alimenta-se
Fixamente de mel envenenado. E eu escrevo-te 
Toda
No cometa que te envolve as ancas como um beijo.

...

A doçura mata.
A luz salta às golfadas.
A terra é alta.

Tu és pó nó de sangue que me sufoca.

...


(a carta da paixão)


Matthieu Soudet

22.2.16

seria mais um dia para esquecer, não fosse aquela lua magnética, prenhe de luz, beijando-me os olhos, quando finalmente ganho a rua. habitasse eu um mundo perfeito e teria chorado ali mesmo o peso inteiro da frustração.
o corpo, aliviado, haveria de sossegar.

21.2.16

Aço e Flor 

Quem nunca viu 
que a flor, a faca e a fera 
tanto fez como tanto faz, 
e a forte flor que a faca faz 
na fraca carne, 
um pouco menos, um pouco mais, 
quem nunca viu 
a ternura que vai 
no fio da lâmina samurai, 
esse, nunca vai ser capaz. 
troveja, enquanto recordo a pequena história de domingo. o almoço tardio, petiscado a dois passos do rio, entre raios de sol e repentinas cargas de chuva grossa. a bebida de porto seco, as tibornadas e o queijo com mel, o bolo de chocolate, já fora da conta. tocava uma música francesa, blue em madeira seca, não conhecia o cantor. pouco depois, algumas notas de old jazz, que deram lugar a lana del rey, lenta e doce. o corpo estremece, reagindo à sensualidade da voz. nas mesas em volta, alguns turistas orientais. no passeio, o mundo, num domingo sem pressas, cruza em várias direcções. há gaivotas que bailam, mesmo em frente, nas correntes de ar. fecha os olhos e inspira profundamente o cheiro molhado que se levanta do chão. é então, diz, que sente a mão, macia, tocar-lhe o pescoço, primeiro num carinho, depois tomando-lhe a carne por inteiro, impedindo-a de dobrar. sustém a respiração. sem abrir os olhos, sorri. sabe que ele chegou.
entre vários shots de vodka e o tártaro de salmão, troçámos do politicamente correcto, dos contínuos idiotas, invertebrados, lambe-botas/cus/e o que mais houver, superiores rastejantes, até que as lágrimas nos chegaram aos olhos. ironizámos, caricaturámos, reinterpretámos os papéis da trupe inteira. no final do jantar, regressámos ao ponto de partida - e nós? felizmente, por essa altura, já nenhuma das duas estava sóbria.

20.2.16

José Noguero

não vou mentir, nem empandeirar a história, só para ficar mais bonita, como agora se faz. a culpa é do Noguero, ponto final. nunca antes, na vida inteira, me tinha imaginado como uma baleia, esses hipopótamos voadores - gigantes ondulares - de águas profundas. quando muito, uma minke, subnutrida, se considerarmos o meu vício por sashimi. mas quando leio que as pobres nunca adormecem completamente, com medo de se afogar, entendo porque me sinto, também eu, enjaulada num aquário perverso rectangular.

13.2.16

Mi silencio, diría Binetti, es una operación cósmica por la cual las begonias se convierten en miel.

silenciosamente, banhou-a, em mel.

Lola Roig


a dor penetra-me, como um falo majestoso, potro bravo relinchando, concupiscente. atravessa-me o ventre, em ondas de fogo, que me lambem, demoradas, as entranhas. a cada estocada, cada vez mais profundas, sinto-lhe uma glande macia, que me atinge a entrada do núcleo vital, universo intragaláctico, mundo das sombras, onde as almas se fundem em explosões, torrentes de lava seminal.

abandono-me, para que me recolha inteira e me guie na viagem. 


aspiro-lhe o espasmo. bebo-lhe a semente alva, fonte da vida.

9.2.16

Magoa-me a saudade 
do tempo em que te habitava 
como o sal ocupa o mar 
a história que vou contar há-de passar-se daqui a mil novecentos e oitenta e quatro anos, num futuro longínquo, onde as nuvens chovem ácidos leitosos todas as noites. um mundo decadente e escuro.
há boatos nas ruas da vinda de um novo messias, logo após a notícia da morte iminente da grande estrela solar. a massa suja de gente esfomeada que habita as ruas, urra de alegria, gritando que Ele Os Salvará!
sou uma guerreira andrógina intergaláctica, vagueando em busca de corações humanos que batam a mais de cem pulsações por minuto, sinal inequívoco de sangue contaminado pela maior epidemia de todos os tempos, que tem arrastado a espécie para os caminhos da sua extinção. tenho uma pequena arma branca, esculpida em marfim de mamute-lanoso, com capacidade infinita no depósito de munições, que dispara agulhas finas de titânio, ultra-perfuradoras, com potência para trespassar meia dúzia de paquidermes em fila indiana, não que os paquidermes sofram da moléstia,  pelo menos que se saiba, talvez se dê o caso nos pinguins e nos cisnes, mas a ciência nunca foi clara e eu não sou uma assassina a soldo. mato por necessidade.

***
a chuva, de tão fina, é arrastada pelo vento, antes de tombar ao chão. voa, a chuva. molha-se o vento. anseia a terra.
a inevitabilidade da incompletude. a necessidade da complementação.

7.2.16

Cellerini. é a marca do cinto que há anos me aperta as calças, quando os tons são de castanho. tudo o que a madrinha me oferece é caro e de qualidade. não fosse a sua generosidade e há muito teria esquecido as coisas boas da europa, luxos de outrora...
caminhamos juntos, os cinco, com destino ao portão grande. deito o passo à velocidade de sr. gato, o mais velho, que, para minha alegria, continua activo e curioso, não obstante os dois séculos que já deve ter vivido. e lembrar-me de que, quando me conquistou no gatil, já era idoso... mantenho a vigilância redobrada, o bicho está surdo que nem uma porta, não quero que se perca de mim. bastou-me o susto do ano passado, no dia em que o chefe dos trolhas, um d. juan imbecil, deixou o portão aberto e fui dar com ele, perdido, junto à estrada dos racings. dos outros quatro, Ramirez, o mais solitário, salta entre os tufos altos de erva, no caminho dos ciprestes, alternando o lugar da frente com Marlon Brando, o jeitoso mais novo do bando. Corto Gatês, absorto nos seus pensamentos, circula ao sabor da sua vontade, ora esperando por mim, ora afastando-se para perto das árvores. neste curto passeio, que alongo propositadamente, encontro a doçura e a serenidade que me vieram no leite materno. gosto de mim, assim. muito.

6.2.16

o vento aumentou. no céu, as nuvens, em rebanhos espessos, deslizam apressadas. a chuva virá esta noite, fustigando os vidros das janelas e a porta dos gatos. espero que ao menos lave os dejectos [das manas cagonas] da calçada e a pobre viatura a descoberto.


[enganei-me. começou a chover.] 
observo o vento enrolado que agita as delicadas flores do pessegueiro. nevam, belas.
o homem ouviu as minhas preces e gradeou um quadrado, onde algumas laranjas já repousam, para mim.

5.2.16

de Barcelona, recebo a ternura maior da minha mãe, tão feliz, num telefonema que me acaba com o saldo do telemóvel. somos alheias ao tempo, quando rimos juntas. nada nos distancia, continua a ser a minha melhor amiga, dona da voz mais doce e da gargalhada mais franca.
a sua mãe é um tesouro, diz-me, embevecido. eu sei, e os olhos marejam-se-me, o maior  tesouro que a vida me deu.
Vendredi corre à máquina dos chocolates, que a tarde ainda vai curta e ela, pobre Vendredi, assalariada explorada, tudo ela, tudo ela, ainda tem um milhão de coisas para tratar e muitas pessoas para convencer. as colegas sairão mais cedo, como compete a quem, pela ordem natural da vida, tem na antiguidade um posto, permitindo assim aos seus Jaquins, Antónios e Manueis fugir ao trânsito infernal de sexta-feira. Vendredi torce o nariz, duvida muito que as encarquilhadas corram para a santa terrinha todos os fins-de-semana, mas finge que acredita e mantém-se imbuída nas suas funções de lamber papéis. já lá vai o tempo do saudoso M12M, momento único na vida de Vendredi, que, de punho em riste, pediu atenção e gritou: EU EXISTO (porra)! por breves momentos, uma réstia de luz numa vida de geração à rasca, permitiu-se acreditar que alguma coisa podia acontecer. com o arrastar dos dias (meses, anos, a eternidade) e a politização descarada e medíocre da marcha, Vendredi jurou a si própria: se voltasse a erguer o punho, seria para dar com ele na fuça de quem a tentasse novamente ludibriar.
Natasha Lewis

um índice, conspícuo sextante, para os olhos de mareante que em mim viesses navegar. páginas tacteadas, percorridas sob um pequeno leme axial. dentro, parágrafos galgados em sofreguidão, -- a espuma, borbulhando, molhando-me a mão, a boca rasga o sorriso --, e as palavras, urgentes, prenhes de vento, à bolina, exalando o teu sal. baloiço, dentro de um pequeno barco de madeira. as velas, tão delicadas, são como asas azuis de Lepidópteros que o vento, água salgada em voo picado, teima em rasgar. 


...
queria-me livro, para, em noites como esta, me poder apagar.

[reeditado]

4.2.16

em Lugano, haveríamos de nos sentar numa mesinha sossegada, com vista para o lago, enquanto a estrela michelin nos tratava do palato. o doce da tua boca, cortando o travo amargo do café. 
a mulher mais bonita do mundo, ofereceu-ma(e) o universo, quando a semente fecundou. 

Fiona Sami

3.2.16

Michael Pederson

2.2.16

estranham-me os comportamentos [egoístas], como consigo eu ser assim, não querer fazer parte do grande grupo homogeneizador, enquanto eu os estranho a eles, plágios de uma vida importada, tão assustados como outro bicho qualquer. admito que os ignoro, também na tentativa sincera de que me ignorem igualmente, que não tentem fazer da minha vida uma vida igual às suas, apenas para esquecerem que não tinha de ser assim.

1.2.16

fogo, lava, fornalha,
correm, líquidas, as palavras.
sempre que desço ao grande túnel, alejandra vai comigo, dentro da sua antologia poética. quase já lhe conheço as palavras de cor(ação). não me incomoda. em alejandra, não é a novidade que procuro, mas a confluência.


37

para lá de qualquer zona proibida
há um espelho para a nossa triste transparência
entornam-se os dias, como um copo vazio que nos escorrega das mãos. 

permaneço deitada, rabinho em cima da almofada, perninhas bem abertas, como, infantilmente, me indica a auxiliar do dr., a mesma que ainda há pouco me confirmava os dados da ficha e me pedia, pela terceira vez, o nome da companhia de seguros. quando me manda despir da cintura para baixo, - ela, não ele, rindo que não custa nada, nadinha, vai ver, como se a pobrezinha da vagina ainda fosse donzela assustada -, começo a suspeitar que o pobre dr., das duas uma, ou sofre de tremuras nas mãos e, sozinho, não consegue manter a sonda (gigante, há que reconhecer) quieta, dentro de mim, ou de um atraso motor que lhe invalida os cálculos, e precisa de ajuda para saber quando a deve retirar.
segunda-feira difícil, tão longa quanto a sonda que me deslizou suave até ao colo do útero, mas bem menos lubrificada, posso garantir.
memory suitcase

Yuval Yairi