31.3.16

Damas, o cavaleiro do espaço, repousa a lábia de poeta bandido, pobre incompreendido, na cadeira giratória do Sr. Ernesto. Apare-me isso com cuidado, repete vezes sem conta, temendo que o fogo se lhe murche sob a raiz dos pêlos cortados. Descanse rapaz, que não há-de perder menina, responde-lhe o bom homem, sem fazer caso da nervoseira. Damas, o sansão do social, brioso do seu piloso, salta por fim da cadeira, dá uma volta completa e atira-se à rapariga das lavagens, Diz-me lá, Fátinha, estou bonito? De verdade? Dá cá um beijinho então! 
E a Fátinha ri-se, envergonhada, abanando a cabeça que sim. Beijinhos, Damas, é que não.
boiei dentro de um corpo branco, numa água perfumada com óleos de jasmim, a rainha da noite que - dizia a menina da loja - tudo ajuda a curar. nada mau para um cadáver porvir. estava neste alumbramento floral, afrodisíaco em águas mortuárias, quando a vejo, no seu habitual ballet de tecto, Milu, a pequena. incansável bichinho, só recolheu as patas tecedeiras, quando o corpo se ergueu e a mão me avançou para a toalha.
obrigada, pequena Milu. ici commencent vraiment les mémoires...

30.3.16

tinha prometido a mim mesma que depois de nadar até à porta de casa, me afogaria com dois litros de água vermelha e velaria o meu corpo na banheira de hidromassagens. uma morte líquida numa noite chuvosa de quarta-feira - poético/patético/perfeito. mas agora, que o gosto do sal me tempera a boca, talvez já de uma morte anunciada, fico prostrada, no chão frio da casa de banho, sem saber o que fazer. 

29.3.16

ACONTECIMENTO

Tu choravas e eu ia apagando
com os meus beijos os rastos das tuas lágrimas
– riscos na areia mole e quente do teu rosto.
Choravas como quem se procura.
E eu descobria mundos, inventava nomes,
enquanto ia espremendo com as mãos
o meu sangue todo no teu sangue.

Não sei se o mundo existia e nós existíamos realmente.
Sei que tudo estava suspenso,
esperando não sei que grave acontecimento,
e que milhares de insectos paravam e zumbiam nos 
meus sentidos.
Só a minha boca era uma abelha inquieta
percorrendo e picando o teu corpo de beijos.

Depois só dei pela manhã,
a manhã atrevida
entrando devagar, muito devagar e acordando-me.
Desviei os meus olhos para ti:
ao longo do teu corpo morriam as estrelas.
A noite partira. E, lentamente,
o sol rompeu no céu da tua boca. 
Pourquoi êtes-vous si triste? 
Sim, estou triste, triste como uma leoa de circo, triste como uma águia sem asas, triste como um violino com uma corda só e mesmo essa partida, triste como uma mulher que está a envelhecer. Triste, triste, triste... Ou talvez que se eu me limitasse a dizer "merde" tivesse o mesmo efeito.

[Jean Rhys, Bom-dia, Meia-noite

28.3.16

|Borges|

-- Yo recuerdo que durante los duros años del peronismo, cuando yo fui expulsado de la presidencia de la Sociedad de Escritores, por negarme a poner el retrato de Perón, fuimos amenazados por un matón. El sujeto llamó a altas horas de la noche y lo atendió mi madre: «Yo voy a matarte a vos y a tu hijo», dijo una voz debidamente tosca y profesionalmente maleva. «¿Por qué, señor?», preguntó mi madre. «Porque soy peronista», agregó el anónimo individuo. Entonces mi madre le respondió: «Bueno, en cuanto a matarlo a mi hijo es muy fácil. Él sale todas las mañanas a las ocho para ir a su trabajo; usted no tiene más que esperarlo. En cuanto a mí, señor, he cumplido 80 años y le aconsejo que se apure si quiere matarme, porque a lo mejor yo me le muero antes».

[Roberto Alifano, Conversaciones con Borges]
Jenny Woods


A que se reduz afinal a vida? A um momento de ternura e mais nada... De tudo o que se passou comigo só conservo a memória intacta de dois ou três rápidos minutos. Esses, sim! Teimam, reluzem lá no fundo e inebriam-me, como um pouco de água fria embacia o copo.

[Raul Brandão, Memórias]
tenho pensado nisto, quantas vezes os outros, num simples querer ou não querer, boa-vontade sem mais intenções, podem facilitar-nos as burocracias da vida. 
um prazo que se estende aos absurdos quinze dias/três semanas, uma informação que nos poupa algum dinheiro, aborrecimentos futuros, um documento em falta, uma acta por assinar - exemplos há mais que muitos -, e depois um momento raro acontece: a senhora que sorri e diz, não se preocupe, eu faço já. ficamos ali, sensibilizados, sem perceber por que nos calhou a nós a sorte, uma senha premiada com um ser humano pronto para nos ajudar.

retribuo ao universo, sempre que posso, não adiando o papel aguardado, ajudando a ultrapassar. não que acredite em recompensas cármicas ou almas de índole superior; apenas gosto do sabor da facilitação.

27.3.16

Marlon Brando enfia a cabeça no meio da erva, enquanto Ramirez, o espanhol, se mantém sentado no chão de pedra. suspeito a façanha, Ramirez é um caçador de primeira, mas talvez tenha a pança cheia. ou então não! eis que o pescoço se enfelina, as orelhas se deitam para a frente e o corpo se imobiliza, entesado. falso alarme. recua o passo, mantendo o tufo de ervas debaixo de olho. nenhum deles irá caçar, percebo agora. decidiram apenas chamar-me a atenção para a sua hipotética auto-suficiência, sabendo que eu não lhes resisto ao charme e ao pavoneio das habilidades, e daqui a pouco os irei chamar de meus pequeninos fofinhos - a eles, que mais parecem uns bezerros! - e abrir-lhes a latinha do costume.
sacanas.
do que me lembro? do metal frio da cruz, que o padre trazia nas mãos, dando-a a beijar a todos os presentes, enquanto o sacristão recolhia singelamente o envelope. o meu pai, agnóstico e folião, ainda o bando comia as últimas amêndoas, já largava piadas às sotainas do sininho, que só naquela altura sabiam o caminho. a minha mãe encolhia os ombros e recolhia os copos sujos da mesa, enquanto eu, embora temendo um castigo divino, limpava os lábios com às costas da mão, num asco aflito. mais tarde, a minha mãe haveria de me explicar que não era preciso encostar, bastava a inclinação da vontade. jesus era meu amigo.
a odisseia recomeça.

26.3.16

depreendo, pelas pausas constantes no discurso, mais uma tentativa de conversão ao seu próprio projecto de vida, que têm pena de mim, a niilista assumida. não os contradigo, nem isso me apetece, apenas desejo veementemente que desliguem a chamada, para poder regressar à minha existência vazia de mulher não realizada. 

25.3.16

esperei o sol nascer, agora vou dormir, enquanto ele vos aquece a manhã que se diz santa. cristo vai morrer na cruz, daqui a pouco (não sei muito bem os detalhes da tragédia), mas há-de ressuscitar ao terceiro dia. isto, claro, se os bons cristãos jejuarem o pecado e pedirem perdão, batendo a mão no peito. se deus, que é grande e pai-todo-poderoso, deixou morrer o filho na cruz [uma aposta com o diabo, segundo a má-língua do nobel excomungado], que esperança teremos nós?

24.3.16

estimado leitor, não posso deixar de partilhar consigo esta pequena puerilidade, após quatro anos, continuo a medir um metro e sessenta e sete centímetros. nada mirrei, nada estendi. uma cidadã constante.
em contrapartida, a minha fotogenia escasseia. feia que dá dó.
naquele dia perdi a cabeça, coisa tão rara que ainda saboreio o devaneio. entrei na loja mais cara e comprei os sapatos vermelhos, que imediatamente me elevaram aos céus. eu, fútil me confesso, e hoje, ao passar a porta da clínica, não pude deixar de a ouvir, com um par de sapatos, compravas-lhes comida para um mês. não tens vergonha?
tenho, consciência. vergonha e um par de sapatos novos. 
não gosto de amêndoas, Senhora, disse a garota, sorvendo o ranho, quando D. Amélia de Ferraz Qualquer Coisa lhe estendeu um saquinho bordado com elas. petulante enfezada!, trilhou D. Amélia de Ferraz Qualquer Coisa entre os dentes, nada habituada à recusa das suas esmolas pascoais.

23.3.16


se eu tivesse dois ou três dentes de ouro

mordia-te o corpo todo se eu tivesse

mel e fósforo para tocá-lo

tocava-te no sexo

se eu cantasse num murmúrio quente cheio de êrros

chamava-te junto ao ouvido

se tivesse o teu nome escrito pelas unhas fora

pedia que me deixasses entrar mudo e selado

na alma e na memória

se me dissesses: beija-me onde queiras

onde quereria eu beijar-te

senão nas pálpebras e nos dedos e nos cabelos

se perguntasses: e onde vamos viver?

eu respondia: onde não sei o quê cheio de ar revôlto

mas se por exemplo eu tivesse um diamante

e o diamante desabrochasse

e esse diamante eu mesmo o pusesse

no meio do mundo

e o deixasse crescer até ser uma árvore

e se dormias debaixo dela eu despia-te

peça a peça a roupa quieta até

as minhas mãos serem tão íntimas que dormias

e acordavas nas minhas mãos

e eu tocava-te então na boca do corpo

por onde estremecias toda

e eu tocava a tua fundura que não acabava nunca

extremo a extremo a tua delicadeza extrema

e punha nela o selo

e punha o sêlo da minha boca e tu acordavas toda

e ficavas tocada toda todo o tempo

lá no cabo do mundo onde morávamos durante um momento


[Letra Aberta]
...
e não precisas de nada para te salvares do mundo:

apenas saltar o abismo
como uma criança que salta à corda de ar

[Letra Aberta]
Recomeça a chover. Calo-me. Por que não chove ininterruptamente durante um século? 
Criámos um deus de amor, mas não fazemos a menor ideia do que seja amar.

19.3.16

em hibernação.



obrigada, vidro azul

18.3.16

há quem justifique a relutância com a astrologia, cabendo a culpa à posição dos astros. outros culpam a lua, que enfeitiçou o corpo da minha mãe em dia de sexta-feira. de onde me vem este desconforto, não sei, mas onde muitos vêm novas e apetecíveis experiências, eu sinto um mundo que desaba. 
a mudança parece-me sempre um par de sapatos apertados. hão de alargar e servir-me, mas não sem antes me magoarem, por muitos e longos dias, os pés inchados.

17.3.16

que o amor meu amor 
é o nu contra o nu. 

eric kroll


15.3.16

Damas, meu poeta transcendente, fulminante, garanhão potente da perna alçada, ou tão só e tão somente, o meu triste menino: espero por ti, na porta da entrada. 
El crimen perfecto te abro las venas me siento encima tuyo te saco hasta la ultima gota de sangre te hundo en la poza trapeo la sangre quemo el trapo y chao pescao.
acordei com a recordação. estávamos os dois no sopé da serra, onde começa a estrema, e eu fazia festas no pequeno potro pela primeira vez, enquanto ele, totalmente embevecido sob uma voz de trovão, falava com a égua parida. lembro-me do sol a banhar-me a cara, numa primavera ainda envergonhada, e de ter fechados os olhos, gritando, não me morras tu também. foi um grito tão mudo, quanto profundo. o potro, assustado, fugiu para junto da mãe.

14.3.16

cobarde, dir-lhe-ia ele, se a visse, parada, olhando o bicho-de-prata quieto na parede, sem saber o que fazer. cobarde por não matar sequer um pequeno bicho rastejante. e ela acreditava, desconhecendo que a coragem estava em deixá-los viver.

13.3.16

enfastiam-me as mulheres que, empunhando a bandeira, decidem atravessar o corredor, e, a qualquer porta fechada, esperam pela mão de um homem na maçaneta. não será já o tempo de preferir a educação de quem chega primeiro ao obstáculo?

[e agradecerei sempre quem ma abrir, não sendo eu a fazê-lo. nunca me julguei diva, para ter porteiros.]
não sou especialista em gin, na verdade, não sou especialista em nada, e poucas são as coisas que me importam grandemente, mas gosto quando o Sr. Alberto me cumpre a vontade de me surpreender. gosto de gin, venha ele com cascas de citrinos, flores de anis ou bagas de zimbro. gosto de gin estrangeiro, nacional, alentejano ou norte tinto. gosto de gin e isso basta-me. deixo as análises, as razões e as tradições, os spots da moda, os livrinhos de receitas, a marca da água tónica e o diâmetro das pedras de gelo, para essa gente que sabe. a mim, tragam-me um gin em condições e deixam-me em paz. não estou sozinha, faço-me companhia.

11.3.16



















este fim de semana, junto-me à Lilaem busca dos gigantes do mar. é notória a paixão que me cresce pelo bicho cetáceo. 
é rara a sexta-feira que não procuro a Vendredi e não a encosto à parede, picando-lhe a barriga com os indicadores esticados, coisa que a moça detesta. não é que tenha cocegas - justifica-se - mas não gosto que me toquem. irrito-a um pouco mais, perguntando-lhe porque é que o seu nome não aparece no sistema, continuando o seu cartão a dizer provisório. e, enquanto se esquiva, contorcida, de um golpe à direita, aplico-lhe outro, ainda mais forte, pelo outro lado. sinto-lhe os nervos a ferver e avanço. recordo-lhe as humilhações a que se oferece, quando aceita prontamente que se esqueçam de si, azucrino-lhe a cabeça com os pedidos a que ninguém lhe respondeu, obrigo-a a olhar-se no espelho, colocado ao alto na parede do fundo, a pensar na sua triste figura, até que lhe vejo chegar as lágrimas e me enjoo dela. uma insignificante lambedora de papeis, de sensibilidade canina. após tantos anos, não há pontapé que lhe cure a cegueira.
aposto que chora na casa de banho.

9.3.16

Molho o pincel e aproximo-o da tela, dividido entre a segurança das regras aprendidas no manual e a hesitação do que irei escolher para ser. Depois, decerto confundido, firmemente preso à condição de ser quem sou (não sendo) desde há tantos anos, faço correr a primeira pincelada e no mesmo instante estou denunciado aos meus próprios olhos.

[Manual de Pintura e Caligrafia]




This Was Written by Hand
e também eu sou avó, menina Teresa! descobri-o esta manhã. Milu, a esplêndida aranha branca, construtora do universo, multiplicou-se em reguilas silenciosas que se balançam nas suas teias invisíveis. ainda há pouco, uma minúscula philippe petit atravessou o grande vale sobre da minha banheira, subindo depois em direcção ao sol económico, pendurado no tecto. é uma alegria, ver as pequenas nas suas traquinices e saber que, em cada canto desta casa - o que diz muito da dona e da senhora que diz que limpa as coisas uma vez por semana -, há uma Miluzinha. pois que haja e que venha a primavera!

8.3.16

dia da flor

gosto muito de ler a menina, e, recordando este seu post, aproveito para ilustrar a condescendência com que - mais uma vez - fui tratada no restaurante, onde simpaticamente me ofereceram a gerbera da praxe. como de costume, escolhi o vinho. como de costume, foi dado a provar a um dos homens que me acompanhava, invalidando a minha presença.
no final chamei o empregado e disse-lhe - acredite, caro leitor, que disse mesmo - amanhã volto cá, quero outra gerbera e ser eu a provar o vinho que escolher da carta. pode ser? - o homem gaguejou, pediu desculpas e disse que sim. a ver vamos.
dia da mulher

«a sua mamografia está normal»
Grita-me o tosco Damas, o belo Damas, o Damas do liceu, Nem que as estrelas se fodam, Alice!, quando repliquei que sim, que era poeta, um poeta ultracontemporâneo. Até do indecoroso, o Damas faz poesia. Se mandasse nos sentimentos, amaria o Damas e viveria com ele num pequeno sótão da Paris antiga. Os dois, estupidamente poéticos e tuberculosos, escrevendo poemas com bolor. E quando do amor se levantasse o fastio e a faca escorregasse da mão, eu cairia ao rio, como l'iconnue de la Seine, num fim de tarde de domingo, e ele regressaria a Monfortinho, para tratar dos olivais.

7.3.16

No debiera ser posible
dormirse sin tener cerca
una voz para poderse despertar.
No debiera ser posible
dormirse sin tener cerca
la propia voz para poderse despertar.
No debiera ser posible
dormirse sin despertar
en el momento justo en que el sueño se encuentra
con esos ojos abiertos
que ya no necesitan dormir más.


[Roberto Juarroz, Antología escencial]
nunca fui grande apreciadora das lides domésticas, evito a gula do ferro de engomar, usando-o com 'extremada moderação'. mas hoje impera-me o apetite voraz de libertar o cérebro à loucura, sem rédeas, nem cabresto, enquanto as mãos repetem os gestos mecanizados e a máquina bufa vapor. 
Lila, tal como a maioria das mulheres caminhantes, atravessou a montanha seguindo o trilho dos lobos da floresta negra de Akum, em alternativa à rota das mulas, onde, por vezes, grupos de contrabandistas de peles de castor e salteadores das redondezas atormentavam as mais descuidadas  - ou intrépidas -, que por ali palmilham o seu caminho.
após o nascimento da segunda lua cheia, Boreas surgiu, raivoso como um epicyon, e durante sete dias e sete noites perseguiu Lila na sua caminhada, revolvendo-lhe a vasta cabeleira ruiva. os uivos furiosos assustavam Lila, que caminhava vagarosamente sobre o manto de neve, rezando a oração de Gaia, que a vó Bé lhe ensinara. Lila sabia do que Boreas era capaz, se decidisse tomá-la para a escuridão - conhecia o infortúnio de Orítia.