23.3.16


se eu tivesse dois ou três dentes de ouro

mordia-te o corpo todo se eu tivesse

mel e fósforo para tocá-lo

tocava-te no sexo

se eu cantasse num murmúrio quente cheio de êrros

chamava-te junto ao ouvido

se tivesse o teu nome escrito pelas unhas fora

pedia que me deixasses entrar mudo e selado

na alma e na memória

se me dissesses: beija-me onde queiras

onde quereria eu beijar-te

senão nas pálpebras e nos dedos e nos cabelos

se perguntasses: e onde vamos viver?

eu respondia: onde não sei o quê cheio de ar revôlto

mas se por exemplo eu tivesse um diamante

e o diamante desabrochasse

e esse diamante eu mesmo o pusesse

no meio do mundo

e o deixasse crescer até ser uma árvore

e se dormias debaixo dela eu despia-te

peça a peça a roupa quieta até

as minhas mãos serem tão íntimas que dormias

e acordavas nas minhas mãos

e eu tocava-te então na boca do corpo

por onde estremecias toda

e eu tocava a tua fundura que não acabava nunca

extremo a extremo a tua delicadeza extrema

e punha nela o selo

e punha o sêlo da minha boca e tu acordavas toda

e ficavas tocada toda todo o tempo

lá no cabo do mundo onde morávamos durante um momento


[Letra Aberta]