11.3.16

é rara a sexta-feira que não procuro a Vendredi e não a encosto à parede, picando-lhe a barriga com os indicadores esticados, coisa que a moça detesta. não é que tenha cocegas - justifica-se - mas não gosto que me toquem. irrito-a um pouco mais, perguntando-lhe porque é que o seu nome não aparece no sistema, continuando o seu cartão a dizer provisório. e, enquanto se esquiva, contorcida, de um golpe à direita, aplico-lhe outro, ainda mais forte, pelo outro lado. sinto-lhe os nervos a ferver e avanço. recordo-lhe as humilhações a que se oferece, quando aceita prontamente que se esqueçam de si, azucrino-lhe a cabeça com os pedidos a que ninguém lhe respondeu, obrigo-a a olhar-se no espelho, colocado ao alto na parede do fundo, a pensar na sua triste figura, até que lhe vejo chegar as lágrimas e me enjoo dela. uma insignificante lambedora de papeis, de sensibilidade canina. após tantos anos, não há pontapé que lhe cure a cegueira.
aposto que chora na casa de banho.