30.4.16

Dei-me inteiro. Os outros
fazem o mundo (ou crêem
que fazem) . Eu sento-me
na cancela, sem nada
de meu e tenho um sorriso
triste e uma gota
de ternura branda no olhar.
Dei-me inteiro. Sobram-me
coração, vísceras e um corpo.
Com isso vou vivendo.
corpo ante o abismo, 
terra no rasgão do sismo. 

«De cada vez que vejo um bicho agonizante numa berma, penso que o horror é precisamente aquilo: morrer à beira da estrada, contorcido de dores, sem compreender, completamente só.»

[Ouro e Cinza, Paulo Varela Gomes]


quando aqui contei a história de Zana, a ratazana, ainda não tinha lido estas palavras de Paulo Varela Gomes. estranhamente - ou não - foi a morte do autor, que me levou a elas. 
Zana também não existia, quando me imaginei na sua pele, consciente da finitude da vida, enquanto agonizava em dores, sozinha, nos seus momentos finais. coincidência infeliz, poucos dias depois, algo que nunca me tinha sucedido, sucedeu: creio - sem certezas, mas com poucas dúvidas - que atropelei uma ratazana na auto-estrada. pergunto-me o que pensará o leitor, se souber que a situação me deixou a memória marcada de uma vergonha quase absurda, da mesma forma que me pergunto, quão hipócrita é esta que lhe escreve, que, ao aperto no peito que perdura, carregou o pé no acelerador e continuou.
Às vezes não queria
morder uma canção na laranja;
nem ouvir que no relógio se enrosca lentamente
a anaconda do dia;
Nem ir procurar aos muros brancos do visível
as fendas onde cresce
a flor escura da realidade.

Às vezes sinto inveja de quem não está obrigado
a abrir em cada nome uma clarabóia
que ilumine
o seu inferno, e o seu sentido;
quem não vê na escada
                                       a terrível
                                                        coluna
                                                                    vertebral
do dragão dos sótãos
ou não pressente nas cruzes a âncora da morte.

Que bonito deve ser um dicionário
em que as palavras não sejam senhas
nem chaves,
nem vitórias,
nem redes,
nem alfândegas,
mas apenas elas mesmas: furacão, cicatriz,
selva,
música,
amante,
silêncio,
molhe...

Às vezes
não queria imaginar que existes,
nem sonhas que as linhas do meu poema deixam
um arranhão na tua pele.

Porque é doce cortar o arame farpado
dos versos rasurados;
saber que no milho se decifra um tigre;
baixar as palavras à procura da sua música,
ser o seu centro
como a capital da dor é a ferida;

e ao mesmo tempo é tão duro
admitir que sofres
a maldição de tudo o que ao não ser exacto
se tem que conformar
com ser só infinito:
cada poema trata
do que não conseguiu o poema anterior

Diz-me tu se no final terei que me arrepender.


[Benjamín Prado, adivinha em que mão está a moeda]

obra editada pela do lado esquerdo, com tradução de Maria Sousa e tiragem única de 100 exemplares. espero que um venha a ser meu.

obrigada, maria

28.4.16

são corpos que se colam, enterrando-se nos olhares que os oferecem. que dizer, meu amor, quando tu me beijas com as sobrancelhas em arco, elevando-me a respiração? pestanejo suspiros; inglórias mãos que não se tocam, mais do que à chávena do café, suja do meu batom. são bocas que se dão, acompanhando os saltos dos sapatos, pedras, um papagaio que voa em arco, azul e verde no céu, um cheiro que nos cobre, aromas tantos, jeitos e trajectos, um poema visual, e sempre tudo, tudo, outra vez tudo, nos provoca este fluído tesão. há flores na ementa, lemos, mas preferimos uma torrada em pão de forma, para trincarmos o quadrado onde nos escondíamos, se pudéssemos, ah, se pudéssemos, meu amor, da lábia encardida da mulher da etiqueta, que nos assombra o coração. limpas-me os cantos da boca e eu estimulo-te os sentidos, lambo-te os lóbulos quentes, sentes, e deixamo-nos ficar. os pés a dois passos. há jornais de ontem, a um canto, que não folheio, e o barulho da máquina dos gelados. são sexos que se esfregam, no silêncio de um parlatório ruidoso, mamilos róseos em cores dilatadas, sabor, suor que transborda na pele, deixando manchas de amanhãs. fodemos, poeticamente falando.
emocionei-me o dia todo 
disse o rapaz 
vim-me de manhã 
vim-me de tarde 
vim-me à noite 
sou trabalhador dependente
por conta deste e doutros 
mundos, acrescentou 
a minha imaginação 
concentra-se na minha mão
desce-me o sangue
da cabeça aos pés
e volta a subir
se volta a subir

...

27.4.16

Vendredi viu as coisas lá das pessoas famosas dos blogs, enquanto uma das colegas mastigava fastidiosamente a sandes do almoço e chupava o sumol de laranja pela palhinha. Vendredi, que não é web-designer, e também não é decoradora de interiores, muito menos uma pessoa famosa dos blogs, mas apenas e tão só uma secretária fraquinha, esforça-se para entender as tontarias que essas pessoas famosas dos blogs fazem, quando querem muito, mesmo, mesmo muito, publicitar lagartixa por jacaré. observa, deleitada, as florzinhas coloridas, a posição dos monitores, a incidência da luz solar, e, sim senhoras, muito bem pensado, ao mais ínfimo detalhe. vê-se que a coisa só pode correr bem.
Zana, a ratazana, de um pêlo rato arruçado-escuro, não se mexeu mais, encostada ao separador metálico da auto-estrada. o carro, flecha brilhante, nem abrandou. Humano sarnento! guinchou Zana, com as poucas forças que lhe sobraram. a dor atrás da nuca parecia a garra de um falcão, afiada e feroz, pronta a enterrar-se-lhe na massa encefálica. tentou mexer a cauda, mas sem sucesso, estava paralisada. os carros continuavam a passar a alta velocidade, quais enxames zunidoiros, ensurdecendo os pensamentos difusos da pobre atordoada. imóvel e sem solução à vista, Zana não se conteve e começou a chorar. condenada desde a ninhada - se ao menos fosse um golfinho ou um urso-panda bebé ou apenas um cão mediático -, restava-lhe esperar pelo última batida do coração.

26.4.16

O que nos condena*

a inevitabilidade da morte do que ainda está por nascer; descobrir que todas as promessas são frases provisórias e todas as certezas são meras intenções; estender as mãos ao vazio e sentir-lhe o bafo gelado; carregar o segredo da nossa existência; sentir as lâminas das máquinas que bombeiam o coração; respirar a ameaça de uma sombra que nos pesa; o falhanço iminente; um murmúrio fantasma que nunca se extingue; o nada, espesso e surdo; o silêncio branco da luz; a foice; a agudez da aflição; a matança do porco na mesa improvisada; afogar a criança no saco dos gatos recém-nascidos; a fuga em sonhos, tentar correr e tropeçar a noite inteira; um livro raro que não se encontra, um verso que não se esquece, a tinta de uma caneta que não se apaga; o reflexo no espelho; saber que a pedra quieta pode rolar, que ícaro nunca será a gaivota, que o mundo é o labirinto; a eternidade da polissemia; a matemática celestial; as fronteiras da pele, intransponíveis; a profundidade imensurável do mar e do centro; todas as crateras da lua; as geadas de abril; o corpo materno que nos enjeita; a pluviosidade contida pelas barragens internas; o olhar de um moribundo deitado; o cheiro a gás; o gosto a podre; o riso trocista de uma velha muito velha; uma fotografia esquecida no casaco de um morto; uma aliança na gaveta de uma mesinha de cabeceira; a auto-indução;  um momento parado no tempo que nos persegue; um espaço desaparecido; o primeiro beijo; o último abraço; saber.

25.4.16

toda a revolução é uma utopia.

24.4.16


Flores

22.4.16

novamente e até ver.
esperei que a claridade da madrugada me deixasse caminhar pelo nevoeiro fino da ladeira, sem o perigo de cair. as ervas altas de cheiro intenso que me prendiam a passada, molhavam-me as pernas nuas, electrizando-me o corpo inteiro. o toque, o beijo, a língua.

21.4.16

O gume dum punhal / Não tem a lividez sinistra da montanha / Quando a noite a inunda dum manto sem igual / De neve branca e fria onde o luar se banha.

Inez Baturo

é sempre assim a vergonha dos pobres. vai a gente varrendo a soleira da porta, dando a salvação a quem passa, na quietude das horas lentas, cá no sossego dos arrabaldes, quando, sem porquê, nem porque não, vem o sacristão, (que o senhor padre, depois de almoço, não visita ninguém), informar-nos de um programa de festas repentino. gagueja o rapaz que está prevista a chegada de um grupo de pessoas muito importantes e respectivos seguranças e as suas panças e armas de fogo. os motoristas ficarão nas viaturas, graças a deus e ao protocolo ministerial, benze-se o sacristão, que o espacinho, mesmo assim, já vai ficar apertadinho. que o povo seja ordeiro e o rebanho não se tresmalhe. haverá comes e bebes, termina o jovem em oração. ámen.
cada um dirá como preferir, e eu, como Sophia, direi sempre o/a POETA. não aceito o sufixo de compaixão. as palavras forjadas pela alma de uma mulher, corpo inteiro, mais do que a patética costela, não serão também POESIA?

20.4.16

à avó Maria, velhinha esguia sempre de preto, turvou-se-lhe cedo a visão, das cataratas que nunca quis operar. os dois netos mais pequenos, na sua maldade infantil, divertiam-se a jogar com ela à apanhada. tão depressa lhe gritavam ao ouvido, Avózinha!, para logo deslizarem reptilmente, abafando o riso com as mãos, para o lado contrário, deixando a pobre em visível desorientação. das travessuras, se as percebia, a avó Maria não se queixava.
a idade roubou-lhe a vista, mas não lhe levou a candura no sentido. reconhecendo pouco mais do que vultos, sombras disformes, tão vagas quanto a claridade que lhe tingia a retina, de igual forma falava às pessoas, como aos postes da luz ou aos casacos pendurados. às árvores, preferia murmurar em cantilena, intercalando entre o silêncio e as conversas repetidas. talvez a avó Maria ouvisse a espuma finíssima das suas gargantas verdes, porque acontecia às vezes chorar um bocadinho.

19.4.16

da segunda lição,

A consciência não é o cérebro, nem o corpo, pois tenho consciência do cérebro, mas o cérebro não pode ser consciente.
ATENÇÃO:  não imaginar a consciência como um organismo ou um animal.

in Curso de Filosofia Em Seis Horas e um Quarto


[tens consciencia, Witold, que partilhas o fundo da mala com Borges, o teu arqui-inimigo?] 
ia escrever qualquer coisa sobre, observar mais de perto as barras da cama, mas Procusto não é para mim. não por tolerância, antes um sincero desinteresse. além do mais, não há dor de dentes que não acabe por passar.
azul, marinho, igual ao corvo que crocita na minha cabeça.
estou em meditação profunda, dentro de um postal ilustrado, que um pequeno japonês de campo de ourique me ofereceu. Milu, a aranha, mantém-se imóvel, acompanhando-me na inacção. talvez lhe agrade o japão, onde a crendice popular lhe salva a pele. lá, tal como cá, a aranha atrai dinheiro e matá-las não é boa ideia. não discordo, a Milu sempre foi a minha jóia sagrada.

18.4.16

Fanny, tenemos que ir a alimentar al camello.


[as mulheres de Borges]

17.4.16


Flores

logo hoje, santo deus, logo hoje*. logo hoje que as parvas das gordas decidiram dar a dentada final na rede e saltitar a galope para o lado de fora, julgando-se as Thelma & Louise caninas. pensei que morria, a correr pelos campos (3740€ por cada cadela, de coima máxima, meus senhores. acreditem, eu sei), o coração na boca, prestes a explodir, o resto do corpo a ceder, abandonando-me à aflição.
senti-me mal, escorreguei, cai, tentei levantar-me, voltei a cair. tentei controlar a respiração, levantei-me devagar - preciso mesmo de chegar viva ao final de abril - comecei a andar, depois a correr, mais devagar, muito mais devagar. felizmente, uma ideia milagrosa salvou-me a pele, porque se dependesse do desempenho físico, estaria bem tramada. por isso, mesmo toda partida, ainda com o peito demasiado apertado e emocionalmente fraquinha, hoje foi um dia excelente, um dia para agradecer à mãe sorte e ao pai acaso. um dia para sorrir.

logo hoje, a dupla fantástica da blogosfera, Pipoco & Palmier, perdeu a cabeça e adicionou esta faca rombuda às suas barras laterais. 
foi um bom dia.

[*a bem dizer, ontem, que já passa da meia-noite]

15.4.16

Trituro as palavras de vidro com os dentes de trás. Se me sangra a boca, é porque como poesia.

14.4.16

Uns têm preço, outros valor.*

Vendredi desligou a chamada e, ao contrário do tempo na janela, sorriu. a contragosto, é certo, mas não se alterou à falta de consideração. há muito que Vendredi se habituou a mandar as frases feitas à merda. pudesse ela fazer o mesmo com algumas ligações.


[*desconhece-se a autoria da pérola.]
Saad, o líbio, pede-me ajuda para escrever uma carta bonita à rapariga do lenço azul, que trabalha nos ctt de alvalade. condescendente, porque o rapaz ainda deve estar meio amorteirado do barulho da guerra, digo-lhe que aguarde um pouco, enquanto limpo a cantana do pequeno-almoço. mais depressa despachava o assunto numa sms decentemente telegrafada.
Saad é um bom rapaz, engenheiro de qualquer coisa, evito perguntar o quê, para não ter de fazer mais uma cruz no relatório mensal ao serviço de espionagem e fronteiras, mas tem um grave problema neurológico, de cariz sentimental, acredita na existência do amor. na europa, tentei explicar-lhe eu, assim que lhe soube da maleita, erradicámos essa ideia contrafeita, herança doentia de um século distante. provou-se, através de experiências sociais variadas, redes inteiras em interacção, criando novas formas de namorar, de que se trata simplesmente de atracção. o amor é para a literatura. It's simply attraction?, balbuciou Saad, muito tristinho. But of course, meu rapaz!, insisti eu, com a veemência de quem já por lá passou, Don't you worry, Saad, feelings come and go. 
o caos está instalado em Niflheim. o dilúvio de abril trouxe uma praga de moluscos gastrópodes, que causam doses elevadas de repugnância e tonturas a esta que aqui vos relata. no entanto, a maioria dos nativos, munidos de guarda-chuvas pretos e baldes da mesma cor, palmilha os campos e esgravata os muros circundantes, em busca de espécimes para ingerir ou negociar.  
nos últimos dias, a situação agravou-se exponencialmente, com a chegada de nova praga, três vezes mais asquerosa, segundo a escala desta relatora, que passou a sofrer de gosma asmática, sempre que está em presença de algum exemplar viscoso. os moluscos gastrópodes da sub-ordem Stylommatophora tomaram as paredes e o chão das garagens de  Niflheim, e o seu tamanho atinge uma média de dez centímetros, o que pode ser considerado, em muitas culturas, como o tamanho de um pénis normal. em Niflheim, vivem-se dias de agonia vomitória. a reclusão, no conforto e segurança das portas e janelas vedadas das habitações aquecidas, é obrigatória. darei noticias em breve.

12.4.16

é incrível como as banalidades do quotidiano nos moldam o feitio. quem, a sério, quem é que pode manter a calma e ter paciência para tantos idiotas no cruzamento do costume, com os pés gelados - duas pedras de gelo - o dia inteiro? 

um dia destes desgraço a minha vida e o leitor vai perceber que eu não sou mesmo flor que se cheire, numa dessas peças televisivas de valor, tipo Cops...

10.4.16

Laura Makabresku

o mito da criação 
esporrando homens, pequenos homens que nunca serão mais do que homens. eu quero deuses e semi-deuses, heróis e criaturas. quero a fantasia do demónio dentro de mim. eu quero o que ejacula, o que consagra, o que dá a vida. cavalgar dédalo, fornicar o minotauro bravio, receber o mel de ícaro, em cegas golfadas. eu, criatura hedionda, na mais ordinária bestialidade, fecundando o vazio.
Os ausentes sopram e a noite é densa. 







quando eu, exibicionista de merda, dançava nas colunas de todas as discotecas. sempre de olhos fechados. um deleite.

9.4.16

Boneca, responde a minha mãe a rir-se, - e que belo é o riso das mulheres apaixonadas - é tão mansinha, que podes voltar a montar. Quando é que cá vens, minha rica filha?


... o que faço eu aqui?
foi quando já me debruçava sobre a segunda aba do robalo que a notícia chegou, a recém-viúva irá passar duas semanas ao Irão. choveram as críticas, os receios, a incredulidade e o desdém ao uso obrigatório do lenço na cabeça. o mensageiro continuou, dizendo que a afoita só tinha receio do aeroporto da Turquia, o resto "em tudo seria enriquecedor". da minha parte, o habitual silêncio a que a difícil arte de pescar espinhas sempre me obriga. enquanto as vozes se continuavam a atropelar, engendrando várias possibilidades, pensei em Persépolis, depois no palácio do Golestão e na mesquita do Sheikh Lotfollah, no Nowruz recente e nos faloodeh com pistácios, e estremeci. ah, a Pérsia, que inveja.
Verdade

Falei da verdade que seria como essa descida de Orfeu aos infernos, para ir buscar Eurídice, e que não pode haver uma dúvida, porque se se olha para trás desaparece aquele objectivo, que é trazer aquela figura que morreu; e imediatamente deixa de ser uma verdade se é sujeita à dúvida, se se olha e se se duvida que ela nos segue, imediatamente ela fica perdida como tal. E eu acho que essa obscuridade pertence à verdade, a verdade nunca há-de ser luminosa, nunca há-de ser clara, ela é sempre procurada mas nas trevas e pertence às trevas.

[Dicionário Imperfeito]
Um dia, com olhos vítreos, a minha mãe disse-me: «Quando estiveres na cama e escutares os uivos dos cães que andam pelo campo, esconde-te debaixo dos lençóis e não escarneças do que fazem: têm sede insaciável de infinito, como tu, como eu, como o resto dos homens, de rosto pálido e comprido. Deixo-te mesmo ir até à janela para contemplares esse espectáculo tão sublime.» Desde então, respeito o desejo da falecida. Sinto, tal como os cães, a necessidade de infinito...

[Os Cantos de Maldoror]

8.4.16

a caminho.

Gwenda Kaczor

a ignorância traz felicidade, respondeu Vendredi, resoluta, a um senhor Doutor Qualquer Coisa Importante, esta semana, enquanto o abutre lhe batia as asas demasiado perto. na altura, orgulhei-me da pequena, nunca eu me julguei capaz de indirecta tão certeira. mas agora, em tarde de sexta-feira, não posso deixar de pensar no desespero de Vendredi para afirmar tal disparate e deu-me para sentir pena. 

6.4.16


Nunzio Paci



























O meu corpo permanece no teu corpo delicioso 
e dentro do meu peito há plumas que se agitam ao vento 
da distância e me fazem sofrer.

[Nós dois ainda, Henri Michaux]




[The original text in Yiddish by Joseph Rolnick

Leyg ikh mir in bet arayn Un lesh mir oys dos fayer Kumen vet er haynt tsu mir Der vos iz mire tayer Banen loyfn tsvey a tog Eyne kumt in ovnt KhÕher dos klingen Ð glin glin glon Yo, er iz shoyn noent Shtundn hot di nakht gor fil Eyns der tsveyter triber Eyne iz a fraye nor Ven es kumt mayn liber Ikh her men geyt, men klapt in tir, Men ruft mikh on baym nomen Ikh loyf arop a borvese Yo! er iz gekumen!]


I lie in bed and turn out the light my beloved will come today The trains come twice a day one comes at night hear them clanging – glin, glin, glon Yes, he is near The night has many hours each one sadder than the next only one is happy when my beloved comes Someone comes, someone knocks someone calls my name I run out barefoot Yes, he has come.
Al final tú con los labios secos por el tabaco negro de una noche aparentemente fría, te me acercarás en silencio para decirme: “moriremos solos”.
Todo se comenzará a quedar en silencio, apagarse con la seguridad de un «para siempre», a fundirse con la nada, a moverse sólo gracias al viento de la muerte que andará como gato rabioso, recorriendo los barrios, con la felicidad que antes podíamos ver sólo en algunos cangrejos, así se irá meciendo como esa arena invisible que duerme tranquila en los parajes olvidados de la casa y al final parecerá que ninguno de nosotros estuvo aquí.
Querer-te no peito
uma constelação de barcos

[tão belo]

HMM

5.4.16

hoje calhou-me a sorte de almoçar harmonia universal. o arroz enxuto, a carne sabiamente temperada, na companhia de uma gota de molho sublimee os vegetais, em escassa fritura, deixavam-se trincar, tenros, al dente. não tive direito ao ovo estrelado, numa clara referência à falta de sol primaveril - percebi mais tarde, quando caminhava de casaco apertado, suspirando pelo vestido florido de cetim. para compensar, a simpática cozinha não me faltou com a malga de pedra vulcânica, como manda a tradição. felizmente [a harmonia] está na pedra e a pedra em mim.

4.4.16

A aquiescência, o sorriso: pois sim... pois sim... – a necessidade de transigir, o preceito, a lei, fizeram de mim este ser inútil, que não sabe viver e que já agora não pode viver. Não grito de desespero porque nem de desespero sou capaz.

[Raul Brandão, Memórias]


Vendredi sabe que as palavras não são suas, nem sequer as conseguirá memorizar - Vendredi só memoriza números e os monstros da floresta -, e que este inverno teimoso lhe traz o caruncho ao corpo, mas abrir o Diário de Raul - meu doce Raul - no exacto momento em que o sentimento é tão igual...

caraças, Vendredi, foge daí, põe o vestido novo e vai ver o sol. 

3.4.16

Quando Deus Acordou

Um pouco como uma aranha pode dormir no canto da teia que teceu, Deus dormiu durante vinte milhões de anos num canto longínquo do Universo. 
Um lugar quase sem galáxias. Nada o perturbava. Flutuava como uma gigantesca medusa de trinta parsecs de diâmetro, uma visão magnifica, alternando as suas cores, rosa, verde e azul-escuro, que cintilavam sob a superfície transparente da sua cúpula.


[A Morte de um Apicultor, Lars Gustafsson: que morreu hoje...]




Onde estás, meu pai?

No coração da terra, nos troncos das árvores, no zângão que zumbe e na nuvem que passa. Da minha carne, milhões de animais rastejam pela floresta. Em breve serão húmus, erva ou caruma, um pequeno musaranho ou uma libelinha do rio, grito de ave em esplendor. Pó, cinza, lôdo, lama, névoa e tempestade. O raio e o trovão. Sou a pedra quieta, o instante em que tremes, o jeito da tua mão. Olha dentro de ti.

Estás morto.

2.4.16

tenho pensado seriamente em deixar de beber aquele líquido espirituoso, tamanha é a necessidade e doentia a ressaca, da mesma forma que sinto - incomparavelmente acima do eixo comum da racionalidade tolerável - que jamais, de minha livre vontade, serei capaz de o fazer. 
acordei antes do miado profundo do Sr. Gato - na verdade, enquanto escrevo estas palavras, recordo a longevidade incógnita do bicho e considero passar a tratá-lo simplesmente por Doutor; afinal, trata-se de um felino que sabe da vida em translação -, sorumbática e de mãos geladas.  assim me mantive enquanto pude, evitando a atenção ao trinado campal da passarada. juntou-se-lhe um galo e decido acordar pela segunda vez. arrasto os pés pela casa. Taeko e Yukiko continuam a refilar com o plástico preto, contentes da vida, dando-me tempo para sorver lentamente o café. decido avançar no livro cujas palavras cravam os dentes afiados no peito, para que - talvez, é ainda uma hipótese, mas coloco-a sem receios de condenação alheia - a tristeza da leitura me traga o alívio de meia dúzia de lágrimas. a dor deve ser esvaziada.

1.4.16

Depõe no túmulo do morto as palavras
que ele pronunciou para viver.
Deita-lhe a cabeça entre elas,
fá-lo sentir
as falas da nostalgia,
as facas.

Laura Makabresku