20.4.16

à avó Maria, velhinha esguia sempre de preto, turvou-se-lhe cedo a visão, das cataratas que nunca quis operar. os dois netos mais pequenos, na sua maldade infantil, divertiam-se a jogar com ela à apanhada. tão depressa lhe gritavam ao ouvido, Avózinha!, para logo deslizarem reptilmente, abafando o riso com as mãos, para o lado contrário, deixando a pobre em visível desorientação. das travessuras, se as percebia, a avó Maria não se queixava.
a idade roubou-lhe a vista, mas não lhe levou a candura no sentido. reconhecendo pouco mais do que vultos, sombras disformes, tão vagas quanto a claridade que lhe tingia a retina, de igual forma falava às pessoas, como aos postes da luz ou aos casacos pendurados. às árvores, preferia murmurar em cantilena, intercalando entre o silêncio e as conversas repetidas. talvez a avó Maria ouvisse a espuma finíssima das suas gargantas verdes, porque acontecia às vezes chorar um bocadinho.