30.4.16

Às vezes não queria
morder uma canção na laranja;
nem ouvir que no relógio se enrosca lentamente
a anaconda do dia;
Nem ir procurar aos muros brancos do visível
as fendas onde cresce
a flor escura da realidade.

Às vezes sinto inveja de quem não está obrigado
a abrir em cada nome uma clarabóia
que ilumine
o seu inferno, e o seu sentido;
quem não vê na escada
                                       a terrível
                                                        coluna
                                                                    vertebral
do dragão dos sótãos
ou não pressente nas cruzes a âncora da morte.

Que bonito deve ser um dicionário
em que as palavras não sejam senhas
nem chaves,
nem vitórias,
nem redes,
nem alfândegas,
mas apenas elas mesmas: furacão, cicatriz,
selva,
música,
amante,
silêncio,
molhe...

Às vezes
não queria imaginar que existes,
nem sonhas que as linhas do meu poema deixam
um arranhão na tua pele.

Porque é doce cortar o arame farpado
dos versos rasurados;
saber que no milho se decifra um tigre;
baixar as palavras à procura da sua música,
ser o seu centro
como a capital da dor é a ferida;

e ao mesmo tempo é tão duro
admitir que sofres
a maldição de tudo o que ao não ser exacto
se tem que conformar
com ser só infinito:
cada poema trata
do que não conseguiu o poema anterior

Diz-me tu se no final terei que me arrepender.


[Benjamín Prado, adivinha em que mão está a moeda]

obra editada pela do lado esquerdo, com tradução de Maria Sousa e tiragem única de 100 exemplares. espero que um venha a ser meu.

obrigada, maria