26.4.16

O que nos condena*

a inevitabilidade da morte do que ainda está por nascer; descobrir que todas as promessas são frases provisórias e todas as certezas são meras intenções; estender as mãos ao vazio e sentir-lhe o bafo gelado; carregar o segredo da nossa existência; sentir as lâminas das máquinas que bombeiam o coração; respirar a ameaça de uma sombra que nos pesa; o falhanço iminente; um murmúrio fantasma que nunca se extingue; o nada, espesso e surdo; o silêncio branco da luz; a foice; a agudez da aflição; a matança do porco na mesa improvisada; afogar a criança no saco dos gatos recém-nascidos; a fuga em sonhos, tentar correr e tropeçar a noite inteira; um livro raro que não se encontra, um verso que não se esquece, a tinta de uma caneta que não se apaga; o reflexo no espelho; saber que a pedra quieta pode rolar, que ícaro nunca será a gaivota, que o mundo é o labirinto; a eternidade da polissemia; a matemática celestial; as fronteiras da pele, intransponíveis; a profundidade imensurável do mar e do centro; todas as crateras da lua; as geadas de abril; o corpo materno que nos enjeita; a pluviosidade contida pelas barragens internas; o olhar de um moribundo deitado; o cheiro a gás; o gosto a podre; o riso trocista de uma velha muito velha; uma fotografia esquecida no casaco de um morto; uma aliança na gaveta de uma mesinha de cabeceira; a auto-indução;  um momento parado no tempo que nos persegue; um espaço desaparecido; o primeiro beijo; o último abraço; saber.