30.4.16

«De cada vez que vejo um bicho agonizante numa berma, penso que o horror é precisamente aquilo: morrer à beira da estrada, contorcido de dores, sem compreender, completamente só.»

[Ouro e Cinza, Paulo Varela Gomes]


quando aqui contei a história de Zana, a ratazana, ainda não tinha lido estas palavras de Paulo Varela Gomes. estranhamente - ou não - foi a morte do autor, que me levou a elas. 
Zana também não existia, quando me imaginei na sua pele, consciente da finitude da vida, enquanto agonizava em dores, sozinha, nos seus momentos finais. coincidência infeliz, poucos dias depois, algo que nunca me tinha sucedido, sucedeu: creio - sem certezas, mas com poucas dúvidas - que atropelei uma ratazana na auto-estrada. pergunto-me o que pensará o leitor, se souber que a situação me deixou a memória marcada de uma vergonha quase absurda, da mesma forma que me pergunto, quão hipócrita é esta que lhe escreve, que, ao aperto no peito que perdura, carregou o pé no acelerador e continuou.