14.4.16

Saad, o líbio, pede-me ajuda para escrever uma carta bonita à rapariga do lenço azul, que trabalha nos ctt de alvalade. condescendente, porque o rapaz ainda deve estar meio amorteirado do barulho da guerra, digo-lhe que aguarde um pouco, enquanto limpo a cantana do pequeno-almoço. mais depressa despachava o assunto numa sms decentemente telegrafada.
Saad é um bom rapaz, engenheiro de qualquer coisa, evito perguntar o quê, para não ter de fazer mais uma cruz no relatório mensal ao serviço de espionagem e fronteiras, mas tem um grave problema neurológico, de cariz sentimental, acredita na existência do amor. na europa, tentei explicar-lhe eu, assim que lhe soube da maleita, erradicámos essa ideia contrafeita, herança doentia de um século distante. provou-se, através de experiências sociais variadas, redes inteiras em interacção, criando novas formas de namorar, de que se trata simplesmente de atracção. o amor é para a literatura. It's simply attraction?, balbuciou Saad, muito tristinho. But of course, meu rapaz!, insisti eu, com a veemência de quem já por lá passou, Don't you worry, Saad, feelings come and go.