31.5.16

Anda comigo para o sul do cáucaso, Alice, vamos viver num planalto. Anda, só se vive uma vez.

apago a mensagem. talvez Damas ainda durma, mas eu há muito que vivo acordada.
no momento em que o caixão desceu à terra, os homens nivelando as duas cordas, o barulho seco dos torrões batendo na madeira, a mulher sentiu a derradeira punhalada e gritou. tanto, que as falsas carpideiras emudeceram e a seguraram à vida pelos braços.

30.5.16


Jeanloup Sieff

o homem aproveita cada frase para passar as mãos, devagar, pelos braços nus da menina. duas vezes se atreveu, com a naturalidade dos experientes, ao toque sagaz sobre o vestido fino, na zona dos mamilos, gracejando mas que bonita que tu estás! a avó e a nora conversavam, entretidas, sobre as férias de julho em Portimão, enquanto decidiam, em simultâneo, o melhor sítio para estacionar, perto do parque. a menina, calada, de olhos postos na toalha da mesa, ia dobrando repetidamente o guardanapo de pano. quando terminaram a refeição, o avô insiste num gelado, que a menina recusa, abanando a cabeça. segura-a então perto de si e pergunta-lhe se quer ir no carro dele até à feira, deixando a avó ir com a mamã. a menina ergue o olhar em direcção à mulher mais nova, tem os olhos esbugalhados, e grita  baixinho, eu quero ir com a mãe! ouço então o ralhete, vai com o avô, sim senhora, e que pare de se comportar como uma menina mimada. e logo com o avô, que gosta tanto dela! mas o que vem a ser aquilo agora?!
não consigo mastigar, acabo de beber a cerveja preta, que me sabe demasiado a caramelo, e desvio o olhar da mesa. tenho um nó na garganta. controlo a vontade de bater na mãe e na avó, cegas e surdas, cúmplices na morte daquela menina. 
olho de novo. o avô segura uma carteira preta, de onde tira algumas notas de vinte, que coloca dentro do prato da conta. tira depois uma de cinquenta e dá-a à menina, toma, para comprares os teus livrinhos na feira. a menina mantém-se imóvel. agradece ao teu avô, maria clara! dá-lhe já um beijo! tu hoje estás mesmo parvinha!
a mãe disse-me que escolhesse o que quisesse, o resto seria encaixotado e entregue na igreja, e eu procurei uma t-shirt que ainda guardasse o teu cheiro. fiquei com aquela preta, dos iron maiden, já com uns buraquinhos, que estava para lavar.
a mãe foi tão corajosa.
depois desse dia, nunca mais me esqueci, nem te voltei a chamar da cozinha.

29.5.16

ao final do sétimo dia, fechou a porta do escritório, entregou a alma à tristeza, o corpo à cama vazia, e parou.

Peter Lindbergh

E a vida é assim, coisa bela dos livros, palpitações obscuras, tão puras, procurando sentidos, na vertigem de mundos paralelos.

28.5.16


in CZARADOX
gosto de me acariciar. diria, quase tanto, como gosto do seu contrário. é talvez essa a razão maior para continuar a deitar-me na banheira a meio tanque, todos os dias. dentro da água morna, observo todo o meu corpo sem julgamentos, tacteando as memórias de que é feito. logo abaixo da virilha direita, um corte pouco profundo, que não sei de onde surgiu. a cicatriz, rubra, é recente. descendo pelas coxas, encontro mais alguns arranhões, já quase imperceptíveis, que não me merecem muita atenção. deslizo os dedos pelo joelho, sinto o despontar de alguns pêlos, não me importo, e continuo até à barriga da perna. a pequena circunferência arroxeada, que também não me lembro onde me veio, dói-me, ao toque mais profundo. pressiono com força, como uma louca teimosa.
imagino então se alguém me visse assim, marcada, à luz clara da nudez, e envergonho-me de mim.
papas de aveia e um filme de ficção cientifica, assim assim.


pobre Damas, ocorre-me dizer, depois de lhe ler a mensagem. não me atrevo a perguntar pela jovem das letras, a tal que enrolava os charros com a ponta da língua num perfeito v, como se lhe lambesse o prepúcio, dissera-me uma vez, a salivar da boca. andará lendo poemas dentro de outros lençóis. 
da trovoada que se ouviu esta noite, resta um céu quase limpo, algumas nuvens pequenas, que correm como gazelas. da janela, senti o prenúncio da bonança. não tinha eu ainda aberto a porta...
vem de longe o meu desconforto com esta bicharada cigana, de trouxa às costas. não pela trouxa, que também eu já analisei com carinho as vantagens do autocaravanismo, muito menos pela errância descomprometida, particularidade que invejo. o que me atrapalha mesmo a disposição é a sua viscosidade, a falta de uma coluna vertebral, a sonsice de quem chega sem ser anunciado. um bicho que confunde, trazendo os olhos no alto das antenas, como se desafiasse as leis da anatomia. uma aberração, portanto.
botas calçadas, rabo de cavalo a postos, abro então a porta. uma praga egípcia de babosos tinha sido lançada à casa durante toda a noite! porquê, meu deus?! terei eu escravizado algum hebreu?

um, entre as dezenas, que galgavam velozmente as paredes

27.5.16

Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos
frente ao precipício 
e cair verticalmente no vício 

Sergio Larraín
as ervas ásperas colam-se à roupa e à pele, como tiras de fita-cola. os cardos e as silvas arrebunham-me os joelhos, no espaço livre entre o cano alto das botas e o vestido de algodão azul escuro. mas a dor não me detém, na minha travessia pelo oceano tropical. avanço, intrépida, sob os comandos das bravas capitãs. tão-pouco penso na possibilidade das cobras marinhas. se as houver, hão fugir a sete pés (imaginários), com medo do meu trinta e sete certeiro. agora, de volta a casa, dou-me conta dos pequenos rasgos vermelhos, um sangue muito fino sobre a pele pateticamente alva, e vem-me à memória uma gargalhada de criança.

26.5.16

pedi-lhe que me trouxesse uma faca mais aguçada, para que não me visse a mão a tremer. passámos a tarde a treinar os golpes em melancias espanholas, roubadas pelo namorado da Kika no pingo doce da musgueira, mas escalpelizar o contabilista, que berrava com um cabrito antes da páscoa, não era a mesma brincadeira. tivesse sido um mero engano, um número esquecido, mal colocado, e a Madrinha tê-lo-ia perdoado. resolvia-se a coisa com uma leve repreensão, uns pontapés bem assentes na raiz da gaita, umas tijoladas nos bagos, e o artista nunca mais se trocava. mas deu-se a má-sorte de ter sido um desfalque.
diz o sr. Ministro, como outrora já o referiu também dom Pipoco, que "não descobre nenhuma blogger que o entusiasme verdadeiramente" ["excepto talvez uma delas", acrescenta, para manter a quentura na boca de quem o lê]. 
permita-me, sr. Ministro, que parta das suas palavras, quem sabe, batidas no teclado pela mão amiga de Maria Alice, para concluir o exacto contrário: há tantas bloggers que me entusiasmam verdadeiramente! mulheres/personagens femininas(?) incríveis, que sobejam em qualidade, intrinsecamente belas e admiráveis na sua partilha de olhares e palavras. e sempre agraciadas pelo sentido de humor.
não tenho por feitio separar as leituras por géneros, - não sou capaz, se é que me entende - mas não podia deixar passar um alvoreado desse tamanho, sr. Ministro, sem manifestar a minha inconcordata opinião. grata pelo despacho. 

25.5.16

Tsuneaki Hiramatsu

Damas, o poeta, às vezes pateta, mas de grande coração, levou-me esta noite a passear. enquanto ele me falava de seu novo grande amor, jovem mocinha das letras, um espanto no sexo oral, eu sorria encantada. centenas de pirilampos transmitiam, em código morse, o meu concerto de natal.
Vendredi telefona-me do gabinete, para saber se venho na sexta-feira. ela, já se sabe, por lá estará, a postos, para arrumar, de vez! - afirma, peremptória, o ambiente de trabalho e pôr a papelada toda em dia. dos emails, tratará em casa, amanhã, que não os pode deixar acumular, ou perde o fio à meada. e vida própria, Vendredi, p'ra quando?, brinco eu. ri-se, tristinha, um riso meio apagado, antes de responder, sabe... a vida de uma pessoa não é o que lhe acontece, mas aquilo de que se recorda e a maneira como o recorda.... ...ando a ler García Marquez, deixa-se dizer. 
digo-lhe que sim, que também concordo, e debitamos mais uma ou duas frases, as dos votos habituais, até que a chamada se desliga. as palavras ainda me ecoam na cabeça. será, Vendredi? ouço-me perguntar, no vazio da sala. lembro-me então que me esqueci de lhe dizer, sexta-feira, Vendredi, também eu cá estarei!
se tudo correr bem e as palavras de Vendredi forem oráculo, recordando, feliz, o dia anterior. 
fico tanto tempo imóvel, de pé, que as andorinhas fazem voos rasantes, talvez julgando-me árvore. perco os olhos pela seara verde, onde os deuses navegam em sopros de vento. o cheiro do funcho inebria-me os sentidos.
acusam-me as línguas linguarudas de incumprimento social. concordo com elas, mas não lhes digo, ignoro-as de boa-vontade. neste casulo onde me resgato da podridão das grandes salas, em que gente espezinha gente e todos se alimentam da carcaça de alguém, não tenho nenhum papel a cumprir, existo, e isso basta (me).

23.5.16

duas voltas à casa, tropeçando no emaranhado de ervas, sorrindo aos pirilampos, em busca de Taeko e Yukiko, é o tempo que a lua demora, tão grande e amarela, a surgir completa, no horizonte, sobre o casario.
o problema, nisto de quem se exila do mundo, escondendo-se no meio do mato, é que só lhe resta a bicharada para narrar. é verdade que há o vizinho recém-divorciado, um ou outro ciclista, algum corredor nocturno, uma senhora a passear o Zé, o cowboy aos domingos de manhã e o homem do tractor, mas nada que me traga o formigueiro à ponta dos dedos. deixo-me ficar, quieta. Milu, abençoada pelo milagre da multiplicação, ora grande, ora pequena, aparece-me, sempre preta, em todos os cantos da casa. fala-me da primavera que vai triste e da falta de calor, de como isso lhe atrasa o pitéu das moscas varejeiras, muito mais nutritivas do que as melgas raquíticas que não hibernaram. perto, por entre mais um concerto nocturno das rãs da ribeira, ouço piar o mocho-galego. sorrio.  
aí desse lado, bem sei, caro leitor, há um mundo inteiro de novidades, um verdadeiro reboliço, - cremes santificados anti-casca-de-laranja, pacotes de férias para comprar às prestações, ou mais uma linha de sapatinhos de merda de balé -, que eu, por agora, prefiro ignorar. 
é na passada curta, um ou outro olhar mais demorado, que sabe que o desejo de anulação ao mundo dos outros já se deu, mas tarda em se realizar. confusa com os vários papéis a desempenhar na vida, como cabe à cumpridora cidadã, nos preceitos actuais da sociedade moderna, permite que a sereia negra lhe endoideça as ideias e a atrapalhe no seu papel de tribuna. os domínios, outrora objectos de estudo pela sua própria mão, entrepõem-se, enviesados. vem-lhe o desconforto, tonturas de precipício, labirintites mal diagnosticadas, trémulas explosões, que se tomba a um canto e por ali se deixa ficar.

19.5.16

a vontade de uma lâmina que lhe acalme a raiva, abrindo o peito esmagado.
Yung Cheng Lin

«Descobri tarde que se chega sempre a uma espera, há muitos anos pensei que chegaria a um encontro, hoje, a certeza é o muro de pedra solta onde estou sentado, lá em baixo o rio com uma aldeia na margem que se foi tornando branca, não o branco da cal, mas o da tinta, como um espelho despolido, todos os dias têm a sua certeza: pode este muro de pedra solta, ou a sombra dispersa de uma faia, ou um pato que voa do açude à ponte, pode ser também uma bicicleta a passar, em cada dia espero, irritado com a espera, porque aquilo que espero e me espera não me acolherá, não me afastará, não será um muro, uma sombra de faia, o voo de um pato, o deslizar de uma bicicleta, o que me espera é o minuto seguinte, quando a criança atravessar a rua e disser: não há aqui ninguém, e continuar a crescer, sem que eu tenha sido sequer um esquecimento,
:
a dor impede a mão de prosseguir,
:
um assassino esconde-se
no sinal mais íntimo:»


[Rui Nunes, Armadilha]

18.5.16

um dia quis escrever e escrevi.


Queria escrever. Escrever sobre os cavalos negros que galopam espáduas brilhantes em pradarias abertas sob um luar lazulite, escrever sobre mulheres feiticeiras sentadas em pedras altas, de cabelos longos que tocam mamas marcadas por dentes caninos, coxas voluptuosas, bocas que sugam segredos e cospem magia, vulvas que urinam o ouro ougado, escrever sobre o mar revolto dentro da tempestade suja de negro, o coração de um condenado, que cai de estrondo no alçapão, escrever sobre mãos que se agitam cegas, torpes dedos suando nervos aflitos, procurando uma palma que não lhes pertence, escrever sobre o sol ou sobre a noite que toma o sol derramando-lhe o líquido diáfano, bênção andrógina de um deus pagão, escrever sobre os ramos que se agitam no vento vendaval, som de desespero em gargantas engodilhadas, estridentes de terror, que enterram palavras, escrever sobre a carne que queima, perfurada por veias ascendentes de leite espesso fervente, escrever sobre os lobos que uivam nas florestas de uma memória infantil, escrever o som de cada gota, escrever o cheiro do ferro ácido que marca, sinalética de amor possuidor, escrever chicotes a silvar na pele que se quer rasgada, escrever finos fios de sangue lambidos com urgência em momentos parados, escrever o sal da vida que fere a face, escrever os olhos que não fecham procurando os olhos que brilham, escrever a terra escura, sangue húmico, guardado debaixo das unhas, escrever relâmpago a relâmpago cada trovoada sentida sob o pano molhado, escrever um salto de gato pardo em cio sobre os telhados desta cidade, escrever o desenho bosquejado de um alfabeto novo, letras-gemido, estrelas cadentes, arabescos de criança, escrever a penetração da íris, canal apertado, cega numa ilusão cinzenta magistral, esperma que vaza, língua que sela, escrever os sexos que se engolem com fúrias de matar. Escrever, liquefazer, molhar a terra menstruada. 






hoje quero a folha vazia.









17.5.16

Un homme et une femme

Durante sete arriscadíssimos anos praticou esse luxo: a coragem. 


[«O assassino desinteressado Bill Harrigan», in História Universal da Infâmia]
a faca, em sangue, hoje desliza pelo vidro azul.
a sua chegada foi-me anunciada tardiamente, por um raro lapso tecnológico. agraciada pela bênção do desconhecimento, só agora me começo a contorcer com o desconforto. às dores excruciantes que me atacam a zona dos rins, junta-se esta repugnância espessa, que me obriga a cerrar os dentes. vão chegando, do alto dos seus postos de tenentes-coronéis, arrogantes, prepotentes, bafientos. alguns odeiam-se, tanto ou mais do que eu a eles, mas o ambiente é ameno. não sorrio à sua passagem. não subjugo a escassa dignidade que me resta, fingindo-me menina exemplar, mas sinto a pata invisível marcar-me o pescoço nu, em cada rosto que passa. sou a sua coisa.

16.5.16

Niflheim, (?)1870

a erva cortada amorteceu o som dos cascos e eu, confesso, só dei por ele, quando refreou as rédeas ao garanhão castanho. andaria na casa dos cinquenta e cobria a cabeça com o chapéu à cowboy, preto. espingarda, se a tinha, não estava à vista. ajoelhada, consertava a rede por onde os animais, dias antes, tinham tentado fugir. dezenas de metros de rede metálica galvanizada, que tinham de ser fixadas com pequenas, mas resistentes, abraçadeiras de nylon. deu-me a salvação sem pressas e estancou o cavalo a dois ou três metros, mantendo-se calado. eu, seguindo-lhe a indiferença, continuei a cortar a rede à medida dos buracos, com o alicate pequeno. não sei se lhe fez confusão ver uma mulher em tais trabalhos, desprezando a capacidade manual de um par de mãos mais pequenas, se apreciava o resultado do meu empenho, julgando-se o capataz, o certo é que só passado alguns minutos de atenta observação me fez a pergunta: isto por aqui tem passagem? 
não! - menti.

15.5.16

hoje, trajando o estranho pijama dos mochos, levo o dr. Humberto Huberman para a cama. juntos, vamos terminar de desvendar o misterioso caso da morte de Mary, esse anjo demoníaco. vou proibir-lhe as drageias de arsénico e pedir-lhe que me leia Petrónio, enquanto me mede a tensão arterial. é isso ou longas horas de sexo selvagem.


Titulo sugestivo, Quem Ama, Odeia, traduzido por Jorge Fallorca.

do casal: Silvina Ocampo & Adolfo Bioy Casares

toda a noite branca deixa as suas agulhas enterradas nos olhos e as angustias à flor da pele.

13.5.16

...

12.5.16

em algum momento do dia, não sei ao certo qual, deixei-me levar pela real significação daquilo que sou e, de tão diminuída, desapareci. 
constato, algumas horas após o ocorrido, que sou a única a dar por falta de mim.

11.5.16

a primeira remessa de pirilampos desta primavera chorosa chegou ontem à noite. a transportadora deve tê-los deixado ao cuidado de algum transeunte que passava e se disse vizinho. valeu a pena chegar a casa tão tarde, eram centenas deles, já espalhados pelo relvado, pintando a escurindão. Taeko e Yukiko, fieis às manias do ano passado, saltavam e corriam eufóricas, electrizadas pelo pisca-pisca intermitente. 
o dia tinha sido absurdamente comprido e a aragem estava fria, mas não resisti a deixar-me ficar pelo coberto do telheiro mais um pouco, apreciando a dádiva de uma noite assim, iluminada por magia e a mão torta de algum louco. 
continua a parecer-me que os pirilampos - essas maravilhas energéticas - são afinal pequenas máquinas telegráficas, que carregam em si a extraordinária missão de entregar as mensagens de algum deus mais envergonhado. estivesse o Damas comigo e ter-me-ia logo cortado a invenção. Alicinha, minha tola, não é nada disso. Aquilo são as fêmeas na cowboyada, para atrair os ceguetas dos copuladores. Queres maior poesia de que uma foda cintilante?

10.5.16

Lichtenberg roubou-me as palavras: Nada contribui mais para a serenidade da alma do que não termos qualquer opinião.
em tempos, almoçar sozinha era um castigo. escolhia a mesa mais afastada, sempre virada para a parede, e despachava o assunto, quase sem levantar os olhos do prato. agora, abençoados cabelos brancos, de cada vez que a vida me oferece a oportunidade, acompanha-me a silenciosa tranquilidade e juntas escolhemos uma mesa qualquer, observamos quem quer que passe ou se sente ao lado, mastigamos sem pressas, adoçamos o coração com a papaia em pedaços, havendo manga, demoramos a escolher, maldizemos - mentalmente - o café de tão fraca qualidade, que nos esquecemos de não pedir. almoçar em silêncio é como estar em oração - isso ou eu tenho mesmo de começar a tomar os comprimidos.

9.5.16

Hoje, também os carros dançam. As casas movem-se levemente. E eu – que mudei de casa e de roupa, de cidade e de cama, de palavras... Eu, que mudei de música e de carro, de saudade, de quarto... Eu – que mudei de computador e de rua, de eternidade e de paisagem, de abraço e de clima... Eu – que mudei de língua e de lágrimas, de deus e de caderno, de crenças e de céu... Eu – que mudei de lume, que mudei de medos... Eu – que mudei de planos, de lençóis, de secretária... Eu – que mudei de óculos e de rumo, de amigos, de champô, de rituais e de supermercado... Eu – que mudei de tudo que em quase nada mudou, mudei de dentro de mim para dentro de ti, meu amor.

[Talvez os Lírios Compreendam, Filipa Leal]
Viki Kollerová

8.5.16

Martinica bufa, escondida atrás da cortina, Aquele bandalho, deve estar a gozar comigo! Do lado de fora da casa, rente ao pequeno muro branco, Zé Manel, equipado com o seu fatinho amarelo-maricas, tapa-ouvidos e óculos de protecção, vai aparando o relvado burguês. A Dona Palmier tinha sido bem explícita, deviam ficar os dois em casa, sem chamar a atenção, até o pombo chegar, para levantar a encomenda. Dona Palmier era uma patroa implacável, capaz das maiores atrocidades, quando as suas ordens não eram cumpridas. Martinica rói as unhas, só de lembrar. Talvez fosse melhor telefonar-lhe, pô-la ao corrente, salvar a pele das chibatadas. Dona Palmier não dava satisfação de onde ía, mas Martinica sabia, quando a patroa usava o vestido verde, aquele com laçada, era dia de consulta na Clínica, para retocar.



[não é sequela, Palmy, nem pretende sê-lo, apenas uma brincadeira. e obrigada por todas - e são tantas - as gargalhadas que me/nos ofereces. parabéns!]

7.5.16

se fosse possuidora integral da minha existência, acordava todos os dias com um pequeno-almoço francês. após o banho de espuma, essência de jasmim, vestiria um quimono de seda e faria da cama uma biblioteca de babel. almoçava ao sol, sob uma parreira, no sul de itália, onde chegaria numa vespa cor de sangue; à tarde, daria uso aos binóculos, percorrendo colinas e estepes, em busca da rota da aves do mundo. já sob um manto de estrelas, o cheiro da maresia entrando pela varanda, setembro a terminar, deleitava o palato com frutas exóticas, ouvindo ragas medicinais, dançando, - a alma a transbordar no corpo quente -, até adormecer.
«..., não posso deixar de recordar um verso escrito pela poetisa Marianne Moore: A cura para o isolamento é a solidão

em A de Açor, Helen Macdonald

6.5.16

Depois de jantar
saio
e passeio o meu coração
acenando cabeça cúmplice
aos vizinhos
que vivem também este peso
de passear os seus bichos à trela
diz que é por causa dos olivais, tem o paizinho à perna, uma espinha na garganta da sua veia de agricultor sazonal. assegura-lhe o Dr. Dentinho, advogado de família, já do tempo da vovó, que a sua presença é vital para o registo das heranças. tenta-se ainda o regresso do título nobiliárquico, conde ou duque ou qualquer coisa assim, mas nisso já ninguém acredita. ri-se, irónico, parece-lhe uma viagem da burguesia queirosiana. promete que voltará depressa, assim o liberte a família de tarefa tão enfadonha. Alicinha, o que eu gosto é da cidade, do cheiro do alcatrão quente, do ruído metálico da maquinaria da vida e dos livros, entendes?
meu Damas, meu pobre cachopo da beira, esconde-se o rasto num lenço de seda, e eis um autêntico varão milenar.

4.5.16

bem sei, meu amor, bem sei, o que ela tem é dor na articulação do cotovelo, de saber dos nossos atropelos em corpos pelados e belos, canibais pela manhã.
a metafísica da excretada, é mandá-la foder.
quero partilhar Dimitri convosco, e as quatro, safiras, topázios e ouro azul, faremos das noites um orgasmo profundo, o eterno pathos do jardineiro.
Ela fala, incansável. Magoa-me aquela voz, estridente, aguçada. Deixo-a falar, não serei eu, sonegadora das palavras, a mandar calar alguém. Tento segui-la pelo carreiro estreito que construo ao lado da sua estrada larga de lugares-comuns, copiados aos que admira, verdadeiros plágios de adoração. Não me interessa o que diz, - e não me sinto culpada por isso - mas sei que se alimenta da necessidade constante de expurgar a pouca sorte que a vida lhe traz. Há um bicho que lhe vai roendo a estima pequena, vejo-o esconder-se na curvatura das costas, outras vezes estender-se-lhe pelo cabelo comprido. Vai conversando, aqui e ali, como uma galinha que debica as folhinhas de couve, carregando o peso da subestimação. Erroneamente, julguei que não lhe conseguiria responder a grande coisa, apenas porque não me lembrei na altura do poder das conversas de corredor.
Ela fala, incansável. E eu não me lembro de nada, para além da valente gargalhada que o seu gesto poluto me causou. Ajeita o casaquinho de malha azul-bebé, despedindo-se, que já é tarde, o tempo passa a correr, e eu aceno-lhe que sim, e que também eu tenho muita coisa para fazer.
Christian Coigny

{da nova poesia portuguesa}

A minha fragilidade é a geografia, os corpos
remotos
como se fossem remortos, a ausência calada, a
embriaguez imperfeita
da sanidade suja e por acabar.
Como se regressa do lodo de uma memória?
É possível que os objectos sejam um veneno
necessário, um sossego obsceno. A penumbra custa
tanto
e também fica cara. Contaste-me que a
adolescência era uma metáfora,
que os livros eram braços sozinhos. Contei-te que o
sexo
era um revólver humano, que o mar servia para
transportar
o silêncio. Finalmente o comboio chegou, as
lágrimas
perderam o anonimato.
Só um sobrevive quando dois se afastam.


[Hoje Vou Sufocar a Melancolia, António de Deus-Rosto]
{da nova poesia portuguesa}

A Física não enlouquece mais do que um decote.
E há uma dinastia de prazeres em nós:
primeiro queremos desesperadamente o que
assusta,
depois queremos preguiçosamente o que faz parte
da Terra.
A morte serve para ensinar a piedade, para que a
filosofia acalme momentaneamente a sede. Deus
pode ser encontrado num livro
mas também num tacho: na indiferença é que não.
A biologia não cabe na literatura.
«Quando te sentires a envelhecer foge
para dentro de um poema.»
Os filhos são estilhaços dos pais.
O sítio menos óbvio para amar é o futuro.

Há um castigo qualquer na distribuição dos
sentimentos:
o poeta escreve mas o idiota ama.


[Hoje Vou Sufocar a Melancolia, António de Deus-Rosto]