19.5.16

«Descobri tarde que se chega sempre a uma espera, há muitos anos pensei que chegaria a um encontro, hoje, a certeza é o muro de pedra solta onde estou sentado, lá em baixo o rio com uma aldeia na margem que se foi tornando branca, não o branco da cal, mas o da tinta, como um espelho despolido, todos os dias têm a sua certeza: pode este muro de pedra solta, ou a sombra dispersa de uma faia, ou um pato que voa do açude à ponte, pode ser também uma bicicleta a passar, em cada dia espero, irritado com a espera, porque aquilo que espero e me espera não me acolherá, não me afastará, não será um muro, uma sombra de faia, o voo de um pato, o deslizar de uma bicicleta, o que me espera é o minuto seguinte, quando a criança atravessar a rua e disser: não há aqui ninguém, e continuar a crescer, sem que eu tenha sido sequer um esquecimento,
:
a dor impede a mão de prosseguir,
:
um assassino esconde-se
no sinal mais íntimo:»


[Rui Nunes, Armadilha]