4.5.16

{da nova poesia portuguesa}

A Física não enlouquece mais do que um decote.
E há uma dinastia de prazeres em nós:
primeiro queremos desesperadamente o que
assusta,
depois queremos preguiçosamente o que faz parte
da Terra.
A morte serve para ensinar a piedade, para que a
filosofia acalme momentaneamente a sede. Deus
pode ser encontrado num livro
mas também num tacho: na indiferença é que não.
A biologia não cabe na literatura.
«Quando te sentires a envelhecer foge
para dentro de um poema.»
Os filhos são estilhaços dos pais.
O sítio menos óbvio para amar é o futuro.

Há um castigo qualquer na distribuição dos
sentimentos:
o poeta escreve mas o idiota ama.


[Hoje Vou Sufocar a Melancolia, António de Deus-Rosto]