4.5.16

Ela fala, incansável. Magoa-me aquela voz, estridente, aguçada. Deixo-a falar, não serei eu, sonegadora das palavras, a mandar calar alguém. Tento segui-la pelo carreiro estreito que construo ao lado da sua estrada larga de lugares-comuns, copiados aos que admira, verdadeiros plágios de adoração. Não me interessa o que diz, - e não me sinto culpada por isso - mas sei que se alimenta da necessidade constante de expurgar a pouca sorte que a vida lhe traz. Há um bicho que lhe vai roendo a estima pequena, vejo-o esconder-se na curvatura das costas, outras vezes estender-se-lhe pelo cabelo comprido. Vai conversando, aqui e ali, como uma galinha que debica as folhinhas de couve, carregando o peso da subestimação. Erroneamente, julguei que não lhe conseguiria responder a grande coisa, apenas porque não me lembrei na altura do poder das conversas de corredor.
Ela fala, incansável. E eu não me lembro de nada, para além da valente gargalhada que o seu gesto poluto me causou. Ajeita o casaquinho de malha azul-bebé, despedindo-se, que já é tarde, o tempo passa a correr, e eu aceno-lhe que sim, e que também eu tenho muita coisa para fazer.