30.5.16

o homem aproveita cada frase para passar as mãos, devagar, pelos braços nus da menina. duas vezes se atreveu, com a naturalidade dos experientes, ao toque sagaz sobre o vestido fino, na zona dos mamilos, gracejando mas que bonita que tu estás! a avó e a nora conversavam, entretidas, sobre as férias de julho em Portimão, enquanto decidiam, em simultâneo, o melhor sítio para estacionar, perto do parque. a menina, calada, de olhos postos na toalha da mesa, ia dobrando repetidamente o guardanapo de pano. quando terminaram a refeição, o avô insiste num gelado, que a menina recusa, abanando a cabeça. segura-a então perto de si e pergunta-lhe se quer ir no carro dele até à feira, deixando a avó ir com a mamã. a menina ergue o olhar em direcção à mulher mais nova, tem os olhos esbugalhados, e grita  baixinho, eu quero ir com a mãe! ouço então o ralhete, vai com o avô, sim senhora, e que pare de se comportar como uma menina mimada. e logo com o avô, que gosta tanto dela! mas o que vem a ser aquilo agora?!
não consigo mastigar, acabo de beber a cerveja preta, que me sabe demasiado a caramelo, e desvio o olhar da mesa. tenho um nó na garganta. controlo a vontade de bater na mãe e na avó, cegas e surdas, cúmplices na morte daquela menina. 
olho de novo. o avô segura uma carteira preta, de onde tira algumas notas de vinte, que coloca dentro do prato da conta. tira depois uma de cinquenta e dá-a à menina, toma, para comprares os teus livrinhos na feira. a menina mantém-se imóvel. agradece ao teu avô, maria clara! dá-lhe já um beijo! tu hoje estás mesmo parvinha!