23.5.16

o problema, nisto de quem se exila do mundo, escondendo-se no meio do mato, é que só lhe resta a bicharada para narrar. é verdade que há o vizinho recém-divorciado, um ou outro ciclista, algum corredor nocturno, uma senhora a passear o Zé, o cowboy aos domingos de manhã e o homem do tractor, mas nada que me traga o formigueiro à ponta dos dedos. deixo-me ficar, quieta. Milu, abençoada pelo milagre da multiplicação, ora grande, ora pequena, aparece-me, sempre preta, em todos os cantos da casa. fala-me da primavera que vai triste e da falta de calor, de como isso lhe atrasa o pitéu das moscas varejeiras, muito mais nutritivas do que as melgas raquíticas que não hibernaram. perto, por entre mais um concerto nocturno das rãs da ribeira, ouço piar o mocho-galego. sorrio.  
aí desse lado, bem sei, caro leitor, há um mundo inteiro de novidades, um verdadeiro reboliço, - cremes santificados anti-casca-de-laranja, pacotes de férias para comprar às prestações, ou mais uma linha de sapatinhos de merda de balé -, que eu, por agora, prefiro ignorar.