18.5.16

um dia quis escrever e escrevi.


Queria escrever. Escrever sobre os cavalos negros que galopam espáduas brilhantes em pradarias abertas sob um luar lazulite, escrever sobre mulheres feiticeiras sentadas em pedras altas, de cabelos longos que tocam mamas marcadas por dentes caninos, coxas voluptuosas, bocas que sugam segredos e cospem magia, vulvas que urinam o ouro ougado, escrever sobre o mar revolto dentro da tempestade suja de negro, o coração de um condenado, que cai de estrondo no alçapão, escrever sobre mãos que se agitam cegas, torpes dedos suando nervos aflitos, procurando uma palma que não lhes pertence, escrever sobre o sol ou sobre a noite que toma o sol derramando-lhe o líquido diáfano, bênção andrógina de um deus pagão, escrever sobre os ramos que se agitam no vento vendaval, som de desespero em gargantas engodilhadas, estridentes de terror, que enterram palavras, escrever sobre a carne que queima, perfurada por veias ascendentes de leite espesso fervente, escrever sobre os lobos que uivam nas florestas de uma memória infantil, escrever o som de cada gota, escrever o cheiro do ferro ácido que marca, sinalética de amor possuidor, escrever chicotes a silvar na pele que se quer rasgada, escrever finos fios de sangue lambidos com urgência em momentos parados, escrever o sal da vida que fere a face, escrever os olhos que não fecham procurando os olhos que brilham, escrever a terra escura, sangue húmico, guardado debaixo das unhas, escrever relâmpago a relâmpago cada trovoada sentida sob o pano molhado, escrever um salto de gato pardo em cio sobre os telhados desta cidade, escrever o desenho bosquejado de um alfabeto novo, letras-gemido, estrelas cadentes, arabescos de criança, escrever a penetração da íris, canal apertado, cega numa ilusão cinzenta magistral, esperma que vaza, língua que sela, escrever os sexos que se engolem com fúrias de matar. Escrever, liquefazer, molhar a terra menstruada. 






hoje quero a folha vazia.