30.6.16

conheço esta calma traiçoeira que antecede o caos aguardado. já nada receio. atravesso o corredor e encontro o azul do céu 
/quantos tons de azul há nos olhos de quem procura?/ 
raramente vejo o céu durante o dia, mas tenho a sorte de poder ler poesia no intervalo das coisas vãs, outras pesadas demais. a poesia é o meu azul debaixo de tecto, a cor dentro de portas fechadas. às vezes, tantas vezes, o único ar fresco que respiro, 
enquanto ouço o crepitar os corpos que lanço para dentro da fogueira do não pensar-executar. 
direi depois, também eu, que não era mais do que uma pequena peça, parafuso de fenda, cumprindo ordens, da vil engrenagem? e quem acreditará na minha mentira?


       No seu abismo
                        o segredo
                        o ideal do outro


       Extravagante fantasma
       a memória
       a divindade do sentido


       Não querer mais procurar
       a linha ténue


       No estreito círculo
                                    dentro
                                            dentro
       uma indizível esperança


[Ana Hatherly, Rilkeana
não voltarei a duvidar do poder dos anti-histamínicos, é a promessa que aqui venho grafar. sonolência e fadiga são eufemismos usados na literatura do demónio atarax!
por onde começo, amigo leitor? pela descrição da cabeça na secretária, babando o teclado, nem trinta segundos passados da publicação do último post, em que ousava duvidar do poder efectivo do medicamento; pela pizza que comi a dormir, vinda numa mota voadora /25.50€ - 'da-se!/ repleta de pequenos camarõezinhos que detesto e devorei; ou pela velhinha de noventa e três anos, confirmados pela própria, a quem dei um pontapé no secador de pé, /aquela cápsula espacial onde enfiam as mulheres durante horas, para as próprias poderem ler as revistas descansadas/, e entortei a cabeça por alguns minutos, porque, por mais que as senhoras do salão tentassem, não havia meio da velhinha retomar à posição perfeita?
/que se saiba que lhe dei o pontapé, em resultado da tentativa desesperada de não pisar os joanetes a uma outra velhinha, que estava esticada no lavatório/

creio que vou guardar o resto do blister para as próximas férias. será uma hibernação e pêras. por agora, venham litros de fenistil, esse cheiroso lubrificante dos púdicos e dos campistas.

29.6.16

dizia a farmacêutica, simpática, para ter cuidado, que o medicamento dava sonolência pesada. fique descansada, menti, tomo-o só quando chegar a casa. cinco minutos depois, no café do lado, uma garrafa de água natural, se faz favor, vai de enjorcar a bolinha branca milagrosa. induzida pelo poder da sugestão, regressei vagarosamente, temendo qualquer cerrar de olhos mais prolongado. não queria ficar a dormir na relva, onde cagam todos os cães e vomitam os finalistas.
cheguei, comi a sopa, (que delícia de sopa, senhores), fucei a manga sem gosto, recusei o café, não fosse entrar em ebulição, mas do sono ainda nada. olho para a pilha de papéis, depois para a lista de emails, por fim, para o papel dos agendamentos, e fico a matutar se não deveria tomar a dose reforçada.

28.6.16

amigos leitores,
boa gente que me lê,

continuo na apanha do tomate, o calor satura-me o cérebro, o tempo escasseia entre as valas, de tomateiro em tomateiro. não fosse o anúncio na rádio pirata do Zé Reguengos e nunca teria tomado conhecimento do concurso Blog Kate Middleton 2016. mais (!), nunca teria sabido dos milhares de votos, vindos de toda a blogosfera mundial e reino unido, para o meu melancólico, depressivo e chóninhas blog cinzentão. 
mas, e perdoe-me a blogosfera, não foi por causa desses milhares que comprei esta pausa extra, /por um bruffen com dois meses de mala/carteira/bolsa/riscaroquenãointeressa/, e estou agora a teclar no ai-fóne da Lucinha de Guimarães, minha companheira na luta dos tomates. estou aqui - e GRITO esta vontade - para agradecer a ternura e generosidade das minhas duas extraordinárias leitoras: a Be linda e a Linda Blue. carais, carais, carais, mulheres!, que até eu parecia um tomate, ao ler as vossas intenções! 

volto aos tomates, com carinho, para não (v)os maçar.


(ps: e um abraço ao Impontual, que também acinzentou ontem lá no blog dele)

27.6.16

o que eu queria era estar pronta para abdicar, não de parte, mas de tudo.
não tracei o plano, nem qualquer linha paralela ao mesmo, nada lhe intersectei. alguma força maior o depositou na minha cabeça e esta manhã começou a informar-me das primeiras diligencias. pareceu-me perfeito, cirúrgico e eficaz. mas agora, depois do banho, ideias mais frescas, a mesma dor de sempre, as dúvidas assaltam-me, apercebo-me das suas fragilidades. o plano é altamente falível, ingenuamente substituível, deficientemente sentimental. 

26.6.16

Entre ela e a água, um fio de
ouro. 

Nobuyoshi Araki
a notícia alastrou-se à capital. são vários os relatos de uma criatura medonha, lançando o pânico em Nanga Parbat. os aldeões alternam as suas histórias, alimentados pela sede dos periódicos. uns falam de um gorila-fêmea doente, outros de uma hiena-das-cavernas encolerizada, mas a maioria, humildes apanhadores de chá, apenas recorda os guinchos estridentes, na escuridão da selva cerrada. a última batida, organizada pela polícia local e vários fazendeiros da zona, acabou em tragédia. cinco homens morreram, quando um dos jipes caiu por uma ribanceira de lama. a maldição da besta, apelidaram-lhe os repórteres da coluna social. desço ao lobby e peço uma ligação ao capitão Stamp. se houver uma expedição, tenho de estar nela.
fosse eu poeta - vaca ruminante sensual / tetas penduradas em verso / rimas brancas de beber - e faria poesia com as areias pesadas, repletas de mijo e de fezes felinas, um cheiro a merda podre que me preparo para limpar. essa é a poesia essencial, amigo leitor, a que nos toca na vida baça que às vezes nos calha, que não nos humilha na compreensão da intertextualidade, tão-pouco nos rebaixa à condição de analfabetos emocionais. fosse eu poeta e faria poesia da escatologia e da mentira rameira que é a felicidade.
Diane Morales

Já não há poetas.

Há vacas para o matadouro,

prontas para o abate.

Morte limpa e certeira: um livro de poemas.

Morte organizada e asséptica entre capa, lombada

e fotografia da jovem vaca enquanto poeta.

Todos os dias é preciso matar uma vaca,

imprimir um livro, chamar-lhe poeta

Cabeças de gado para servirem a horda faminta de

comedores de carne poética processada.


Cada vaca dá poesia para dois meses.


Três no máximo.

[poesia no matadouro, ler completo aqui:o melhor amigo]

25.6.16

DOS DESCAMPADOS

Cresceram-me entre os ossos já as primeiras ervas.
Talvez dos descampados que me vêm
do espírito acabar à boca dos sentidos
por fim surjam aqueles que quando escavam
o fazem como se avançassem
assim para uma vida mais autêntica.
Terão o tempo nas mãos como uma enxada.
Brilhar-lhes-ão nas pás
pedaços do meu corpo que respiram.

[Luís Miguel Nava]
coisas simples como inclinar a cabeça, fechar os olhos à luz directa do sol, e beijar-te o canto da boca.
muitas horas seguidas, mal sentada, em frente ao computador, eis o motivo que dei à senhora do salão, quando mo perguntou. eram sete e cinco e já estava nua, deitada numa marquesa branca, dentro de uma pequena sala aquecida e com pouca luz. para acompanhar a sessão, disse-me numa voz macia, tinha colocado um som de fundo, com o arrulho das ondas a espraiar. pareceu-me perfeito.
pedi a massagem completa, de sessenta minutos. como um homem que paga a sua puta, eu queria as mãos daquela mulher no meu corpo, uma hora inteira de prazer. o primeiro espasmo veio, logo que as mãos desceram, oleadas e firmes, polegares pressionando sobre a espinha, até ao final da zona lombar. depois, o mar tomou conta de mim. não me lembro de mais nada. 
Gozo XI

Conduzes na saliva
um candelabro aceso

um chicote de gozo
nas palavras

E a seda do meu corpo
já te cede
neste odor de borco em que me abres

Sedenta e sequiosa
vou sabendo
a demorar o tempo que se espraia
ao longo dos flancos que vou tendo:

as tuas pernas
vezes teu ventre

A tua língua
vezes os teus dentes

na pressa veloz com que me rasgas

[Maria Teresa Horta]

24.6.16

o sr. Alberto pisca-me o olho, tem guardada a minha mesa habitual. do mais que perfeito da noite, uma novidade, vinda, coincidentemente, lá do reino auto-excluído, com duas fatias finíssimas de maçã verde, um toque oriental de sakê e yuzu, ao som da smooth fm. há um espanhol, sozinho, na mesa do lado, que tenta a sua sorte, mas o meu corpo ferve longe. recuso-lhe a bebida, seco a conversa com um sorriso. só o gin me satisfaz.




das coisas sem interesse: em cinco emails no spam, quatro são de gente do Burkina Faso a querer oferecer-me dinheiro. mas que grande país deve ser o Burkina Faso. fosse eu merecedora de tal generosidade e respondia já àquelas almas caridosas.

o quinto? então, o quinto é de um casal simpatiquíssimo que mora no Reino Unido e quer que eu os ajude com a deslocação de um milhão de libras. 

ah, que admirável mundo pulula, todos os dias, no meu spam.

23.6.16

não sabe explicar, balbucia, foi assim de repente que a ideia lhe ocorreu: ela, Vendredi, é servente de escritório. se noutros tempos foi mestre d'obra, tenta nem se lembrar, agora é picar o burro p'rá frente, que o cavalinho, já ela o tirou da chuva. é a vida, o qu'éque a gente há-de fazer?...
fosse eu supersticiosa e mandava chamar a bruxa da ponte. à porta, a cabeça e parte das entranhas de uma lagartixa. sorrio à matança. Ramirez, o espanhol, ainda gosta de mim.

22.6.16

as nuvens galgavam o céu, baleias migratórias em busca das pastagens de leste. quando saí da pequena casa de pedra, no cume da serra, o rasto do manada era um nevoeiro frio e ventoso. a alma em ebulição, acelero a casa, pronta para o abraço ao casaco de lã. quero este tempo do norte, sentir a vida num arrepio de pele.
acordar e constatar
que as ilhas não afundaram
que estão fixas as raízes das árvores

21.6.16

quão longe estarei desse mundo onde a vida segue o seu curso massivo, se ainda há pouco perscrutava o céu, em busca da lua e dela nem sinal? talvez o meio quilo de cerejas me tenha alterado o processo cognitivo, pensei, enquanto me despia. mergulhei então nas águas tranquilas do lago que tão bem conheço, estudei a maciez da pele, encontrei dentadas de monstros de escassa resolução, devolvi confiança à vontade e dormitei um pouco.
valeu tanto a pena, que ela, a minha face de luz, ventre cavalgado em marés de vento, já me esperava, igualmente nua, no gradeado da varanda. a eterna questão que se avizinha, enquanto passeio à trela o tigre azul de Borges, é saber se me dou de alimento aos mosquitos, à luz do candeeiro, se me bronzeio de prata na chaise longue exterior.
da próxima vez que o solstício coincidir com a lua inteira, daqui a setenta anos, nenhum de nós estará vivo. 

20.6.16

ao cansaço, o rosto negativo, os gestos insuficientes e o cheiro intenso do corpo.
fenda-urina-suor-mar-mel-mulher.

sob o ar condicionado, penso no dia longo que hei-de lavar do corpo daqui a pouco. por agora, mereço a bebida, o silêncio e a lua de morango, à minha espera, na varanda.
há uma lua cheia e um corpo nu, ambos tombados na minha cama.

19.6.16

donos de uma personalidade vincada, Ramirez, o espanhol, e Marlon Brando são completamente diferentes na forma de gostar. enquanto o último, um loiro de encher o olho, me abocanha as mãos sem as morder, de unhas ficadas nas minhas pernas (será isto o tough love?), Ramirez, tímido no trato, prefere oferecer-me ratinhos do campo, outras vezes, passarada.
ambos deitados na pedra quente, perto de mim, aproveitando os últimos raios de sol, cortejam-me agora de igual maneira. longos olhares, miados espaçados, tudo por uma latinha de atum.




a lindíssima Anoushka estará em Lisboa no dia 3 de julho
quando parou na pastelaria da esquina, junto à entrada da estação de metro, ainda trazia o sabor na boca. as pernas tremiam-lhe, sentou-se numa das mesas vazias, perto da janela. na avenida, quase deserta, um casal de turistas observava a fachada do prédio, procurando o melhor ângulo para a fotografia. 
um café, foi tudo quanto conseguiu articular, quando a jovem empregada se aproximou.
e depois há estas noites tão brancas, iluminando-me de escuridão.

18.6.16

No fundo, no fundo,
bem lá no fundo,
a gente gostaria
de ver nossos problemas
resolvidos por decreto

a partir desta data,
aquela mágoa sem remédio
é considerada nula
e sobre ela — silêncio perpétuo

extinto por lei todo o remorso,
maldito seja quem olhar pra trás,
lá pra trás não há nada,
e nada mais

mas problemas não se resolvem,
problemas têm família grande,
e aos domingos
saem todos a passear
o problema, sua senhora
e outros pequenos probleminhas.

[Paulo Leminski]
diz-se que o homem é fraco, e eu, que quero é que os rapazes cresçam e se façam homens bravos, aproveito para reler.

Não é por acaso que não consegues, por mais que tentes,
atingir em cheio o dia - qualquer que ele seja - 
como se faz às baleias com um arpão.
Os dias têm um invólucro espesso,
uma armadura do material mais resistente que existe:
tudo aquilo de que não se sabe onde está o centro
está seguro.
Assim são os nossos dias que bem queríamos aniquilar
com um arpão. Baleia absurda, sem corpo,
o tempo.

[Uma Viagem à Índia, Gonçalo M. Tavares]
esta manhã, enquanto observava o Professor - finalmente, um nome adequado ao felino mais arguto que conheço - refastelar-se na tigela, recordei a pergunta daquele que regressou recentemente de uma viagem inspiradora de duas semanas pela Tailândia, e escreves para quê? sorri-lhe e desculpei-me com uma ida ao wc. a resposta ficou-me presa na boca. talvez hoje, o dia ainda curto e o cheiro a torradas no ar, lhe conseguisse responder que escrevo porque me cansei de viajar para hotéis altos e praias de encher o olho. de cumprir desejos alheios e viver em lugares-comuns. que agora, viajo para dentro de mim.

17.6.16

Eterno
Tra un fiore colto e l’altro donato
l’inesprimibile nulla

Julie Cerise, Postcards
Vendredi é mulher que esconde a alma e a cona no mesmo lugar. postiça, sem gosto, sem sal, discreta por inerência, só desperta tesão aos aleijados da vida. há o trolha punheteiro, acimentando o chão do acesso, que, de cada vez que ela passa, grunhe que lhe esfodaçava as bordas todas; o segurança que faz as noites de sexta-feira, negro como um tição, de carnes a bandear; e o sr. engenheiro, de precoce ejaculação, que a cumprimenta sempre com um beijinho, queixando-se da humidade da mão. 
sinto, de igual maneira, tanto de pena, quanto de repulsa, pela Vendredi que hoje se apresenta. sem cor, mal humorada, azeda como a mulher que sempre perde, continuamente angustiada. não gosto do seu comportamento amador, às vezes grosseiro, aquele jeito nervoso que irrita. ela sabe-o e evita olhar-me, concentrando-se no ecrã do computador. não houvesse gente à vista e já a teria encostado à parede, esbofeteando-lhe o rosto imbecil, até que as lágrimas lhe rebentassem em catadupa. de quatro, no chão, mãos postas na gaveta do arquivo, o corpo despido até joelhos - seria vergastada como uma garota mimada, aquilo que sempre foi. a pele ardendo em vermelho-escuro, a dor aguda escoando-lhe pela boca. gozo, imaginando o festim. 
cinzento-neutro-nada, Vendredi não se revolta, é mansa como um triste cão capado. 

16.6.16

Vyacheslav Korotki's radio, Evgenia Arbugaeva


peço o rádio a Vyacheslav, com quem partilho o tecto do mundo e a descrença pela vida urbana, para desejar ao estimado leitor os votos que merece: umas excelentes férias, na companhia possível de quem mais gosta. informou-me o meu homem do tempo, como recompensa ao papel de parede que apliquei na sala de transmissões, que o sol brilhará consoante a intensidade da sua vontade, amigo leitor, e chuva, se a houver, será apenas para assentar a poeira. a vida é curta, já diz o sábio ditado, que a sua seja preenchida de bonitas e longas memórias.

over and out.

13.6.16

-- Damas, que tristeza é esta, que fez ninho no meu peito?
Não fora o mar, 
e eu seria feliz na minha rua, 

Marcus Møller Bitsch

12.6.16

batem-me à porta, as minhas velhas de preto, e perguntam onde podem pousar a cestinha. vejo uma malga de cerejas, desavergonhadamente intumescidas, um pão centeio, ainda quente, cujo cheiro me saliva na boca, uma tigela pequena com manteiga branca, batida na cozinha da minha mãe, e uma garrafa de sumo de framboesa, colhido em passevite.

-- soubesse a tua mãe q'estavas c'u chico, e tinha-te mandado um cházinho de hortelã.

ah, minhas ricas velhinhas, mulheres de quem guardo vaga imagem, destino que nunca quis. 
...
pelo inchaço dos olhos e a expressão fechada da boca, que ainda não consegui alterar, devo ter passado a noite no planeta dos infelizes. imagino-me, juntamente com dezenas de nativos, todos sentados à volta de uma pedra, chorando em sobressaltos pelas tristezas de cada um e do universo inteiro. pela dor intolerável nas zonas lombar e estomacal/triposa, suspeito que me tenha sido oferecido algum incentivo ao choro com dezenas de biqueiras de aço. isso justificaria também o sangue escuro que desce.
há planetas que mereciam um armageddon.

11.6.16

volto à promessa que já tinha feito antes, desta vez, decidida a cumprir. não voltarei a oferecer livros. há partes de nós que os outros não querem e eu dou-me mal com o pó das estantes.
observo o meu quadrado verde, a um canto da seara, e pergunto-me por onde andará o homem. não o vejo há vários dias. talvez semanas. tão pouco me lembro de ter visto a mulher, ou o cão. sou fraca vizinha, escassa no trato social. deveria telefonar-lhes, ou passar de carro à sua porta, tentando adivinhar presença humana? 
trespasso a vinha inteira com os olhos e já não é no homem que penso. se pudesse, quem desaparecia era eu.
Escrever não é uma simples volúpia, ou uma responsabilidade moral.
Deve ser um acto de cruel religiosidade, uma espécie de inteligentíssima expiação do crime obscuro de não ter morrido.

/apresentação do rosto/
uma morte simples, talvez caída numa vereda de musgo, batendo com a cabeça na pedra fresca. humificando à sobra das árvores avós, como era de sua vontade. 
a casa haveria de ficar arrumada, a cama feita, com lençóis lavados. os livros seriam oferecidos a quem provasse ser louco de bom coração. D. Maria trataria da bicharada até que o último se fosse. amor, se o teve, iria consigo, dentro do peito.
sem missas, nem almas veladas. sem penas, piedades ou cortejo fúnebre pela aldeia. tão simples como uma brisa ligeira.

10.6.16

Damas encosta-se a mim e pede-me que leia a mensagem que acabou de receber,

-- tanto, que te engolia inteiro!

sorrio.

-- e tu, quanto o queres, Alice?

as palavras demoram.

-- tanto, que faria de mim o seu alimento, habitando-lhe o corpo por dentro.

Damas desce o monte até vénus e diz-me que feche os olhos, vai levar-me ao outro lado, onde ele está.
acordo cedo e levanto-me. à porta, já me aguarda a mulher da montanha, dona da casa onde me abriguei da noite mortal. lamenta não ter café, mas oferece-me cinco alperces pequenos, que me cabem numa mão. agradeço-lhe por tudo e desço ao vale. tenho pressa, quero levar as cadelas ao rio, antes de voltar à maldita apanha do tomate.
quando chego a casa, ainda sem o café, surge-me Herberto, quer que lhe leia algumas páginas do seu rosto. fico fascinada. murmuro que não queria lê-lo sozinha, ele diz-me que tenho dois olhos bons, cada um fará companhia ao outro. sinto-lhe a urgência ao toque. encho o pequeno termo de café com leite, dou-lhe o braço e desço a ladeira com Taeko e Yukiko. ia jurar que três gansos do canadá voaram a menos de dois metros de mim, logo à chegada, mas com Herberto tão perto, tudo o mais me parece indefinido. sob a capa escura, tem uma cor amarela, como uma seara pronta ao corte da gadanha ou a primeira urina da manhã. o seu cheiro a papel velho mistura-se com a erva doce e eu inspiro-o várias vezes, sem vergonha.

Vou para os lugares do norte -- é talvez um projecto.
Sim, tenho esse projecto.
No norte a neve é grande, e eu andarei sobre ela, possivelmente descalço.
Lá em cima, se me aplicar bastaste, segundo uma regra minha interior que hei-de descobrir, ficarei com os pés queimados.
Quando voltar a ver as antigas memórias, terei os pés cobertos de cicatrizes.
Que pensarão de mim?
Que sou um mártir? um vagabundo a quem faltaram os sapatos? um homem a quem faltou a prudência?
Deixemos-lhes os alvitres, os sensos morais.
Temos de pensar nos nossos pés.
Não para lamentos.
Porque, evidentemente, quem possui pés marcados não pode deixar de ser suspeito.
Quero eu dizer: se a neve e o gelo os marcaram, como fogo, é porque o coração tinha o seu crime, a sua regra violenta.

/apresentação do rosto/

as cadelas ladram, regresso ao lugar onde me sentei, fecho o livro. sinto o fogo nos pés molhados.

9.6.16

quando todos rumaram às praias do sul, ela largou a cidade e partiu para a montanha. à sua espera estavam as águas profundas de um oceano etéreo. tal como o mar escuro, na vastidão do horizonte, a montanha coberta de nuvens traz-lhe a aguda sensação da mortalidade.
digamos, em prol da mentira, esse anti-depressivo colectivo de eficácia comprovada, que começou a época da apanha do tomate.
um dia, não há muito tempo, uma mulher, julgando-se humorista de lupanar, disse-lhe, em alto e bom som, que ela não tinha filhos porque era de má rés, seca e tinha a mania. 

esperava que a moça entendesse que tinha sido uma graçola, a moça mandou-a foder.

Os teus olhos
serão uma palavra inútil,
um grito calado, um silêncio.


Nicolas Gavino

8.6.16

e foi naquela milésima de segundo, sobrepondo-se a todo o fastio, que lhe chega a irritação. ligue-me até às 15h, depois vou para a piscina!
com certeza, Sr. Palerma, mas é que nem ouse duvidar. - dito isto, amarrotou o post-it amarelo e atirou-o ao lixo. não é ao favor pedido feito ordem que Vendredi se recusa, mas não será um bardamerdas /em situação irregular/ a lembrar-lhe que há vida da boa, para lá destas grossas paredes.
O dia em que perdi o coração

o pénis, ere[c]to, com sabor a camarinha.


[in Novo Mundo, de Isabela Figueiredo]
a sola perdeu-se, na volta anterior. hoje vou fazer a minha viagem final, a derradeira, com as pobres botas, tão parecidas às do robin dos matagais. foram companheiras de longos passeios, sempre em boa companhia de cães e gatos. deram protecção e equilíbrio, desbravaram caminhos, calcaram de tudo. abrigaram - momentaneamente - pequenos caracóis, um ou outro insecto e restos de vegetação. acompanharam-me em horas de desespero, aflição, doença, viram morrer. ajudaram a devolver corpos à terra. abraçaram-me as barrigas das pernas, devolveram-me o chão.
agora, manca, preparo-me para as pisar pela última vez. 

7.6.16

pedi-lhe, quero poesia, mas o rapaz insistia no livro da semana, os cisnes de leonardo, que me daria nove euros no cartão. não quero, dê-me poesia, a salvação, um esconderijo, dê-me veias repletas de sangue, palavras vivas que eu possa beber. e ele novamente, passa-se na bela Itália renascentista, e eu quase, que se foda, não quero saber.
o casal discutia, ela dominando a gritaria, ele tentando não parecer tão mal, e eu, desde cedo enfiada naquele buraco, sem ar condicionado, o cérebro em papa, o corpo em cinza, comecei a temer o pior, ou desmaiava ali ou os trinchava com a tesoura grande. 
sobrevivemos os três, deles hei-de ouvir novamente, não tenho remédio, mas de mim, esta que lhe tecla, estimado leitor, sei que só há pouco, quando me sentei ao lado de Yukiko, no seu planalto de vigia, e me deixei tomar pela noite fresca que estrela o vale inteiro, voltei a respirar. entrego-me a Nix.
Passam rápidas as horas,
com os sonhos debaixo do manto.
A vida, infindável para o trabalho
e para o fastio,
dá-nos apenas um dia para o amor.


Tim Goodwin

6.6.16

Chegará um silêncio absoluto, 
e, então, a música será perfeita. 

Benoit Paillé
vais se a ver, e tudo não passa de mau-humor matutino, alguma irritação intestinal ou farsa inventada pelo azedo início de semana. pois então se as crianças, nos seus petitpatapuns a estrear, entoam belas canções infantis, em vozes melodiosas, acompanhadas por bandos de rouxinóis, enquanto dançam em roda, de mãos dadas. as mães, belas, das suas idas diárias ao ginásio, ricos cremes de beleza, sorriem como actrizes de cinema, sob as abas largas dos chapéus, enquanto selfam e postam momentos. os companheiros, atléticos e atentos, transpiram charme e cultura geral. é vê-los, saltitando em velas, de flute na mão, chamando em voz perfeita, Bernardinho, não se afaste daqui!, enquanto conversam sobre qual o melhor investimento de commodities actual. da grafonola by apple, saltam notas de jazz, devidamente alinhadas com o brunch pinterestiano, que homens de avental, imaculadamente branco, vão servindo, à sombra do toldo de pano.
esta é a realidade, nua e crua, que a autora, deficitária de glóbulos cor de rosa, tentou adulterar. alegremo-nos e cantemos com alegria.


[não, nada disso, amigo leitor, não é sobranceira da minha parte, é mesmo falta de paciência para a azeiteirice.]
mas que beleza, isto das famílias felizes virem acampar numa das estremas do meu vasto território agrícola. o rio vai calmo, ao que parece, ideal para as crianças - esses pequenos seres humanos que guincham como doninhas /informação confirmada: as doninhas guincham/ - brincarem com os seus jacarés flutuantes e as suas bolas flurescentes. aposto mentalmente como daqui a pouco, entre o cheiro das febras assadas, hei-de ouvir uma valente pimbalhada. nesta confusão alegre, as mães de família, escondidas nas suas túnicas largas, trocando informações ternurentas sobre as crias e os seus Zé Manéis, os pais mamando jolas e grasnando sobre a boazona do iate do criastiano ronaldo, e as crianças - herdeiros dos melhores genes de seus progenitores - gritam e gritam e gritam, tanto e tão alto, que me confundem entre sossegar a atenção ou ligar o 112.
onde está a minha Niflheim abandonada às silvas e aos grasnidos dos patos bravos do rio? ah, estivesse a minha mãe perto de mim e diria de imediato, mas que bicho do mato me saíste!, (percebe, estimado leitor? o mato é meu.)

onde estão os enxames quando se precisa deles?...


[não, nada disso, amigo leitor, não é sobranceira da minha parte, é mesmo falta de paciencia a azeiteirice.]
promovendo o equilíbrio.

Unknown

5.6.16

a bem das competências emocionais das várias personalidades desta que daqui vos tecla, imagine-se um breve exílio no deserto.

Unknown

4.6.16

Tolerância à intolerância, é isso que estes anémonas me pedem! Encéfalos de cimento!, gritou, crispada, Vendredi. dói-me a cabeça, dói-me no fundo das costelas, é sábado, tenho espinhos para engolir, não preciso agora da Vendredi aos berros, imaginando-se em algum palanque das nações unidas. 
peço-lhe que se sente, que se acalme, que a vida é curta e de nada lhe vale a arrelia. sente-se picada com a minha condescendência melanina, gira o torso de rompante, estende-me os papeis que traz na mão e sai porta fora. reconheço de imediato os documentos, observo as fotografias... chador, chador, hijab, hijab, hijab, descoberta, hijab, hijab, descoberta, chador, hijab. percebo então onde Vendredi quer chegar, sei cada palavra que lhe atormenta aquela alma enjeitada. não falará da situação com mais ninguém, Esta gente confunde bom-senso com discriminação, mas só para o que lhes convém! o que Vendredi não sabe, nem pode saber, é que eu decidi - em acordo unilateral, com maioria garantida - ignorar a realidade do mundo, desviando-me do seu eixo gravitacional, deixando a coisa acontecer. 
um dia conheci um homem que me confessou que nunca seria capaz de viver longe do mar. falávamos de frente para o vasto horizonte de prata escura, onde só já restavam alguns surfistas boiando nas pranchas. o seu arrebatamento nas palavras deixou-me curiosa e quis saber qual a razão para um compromisso tão intenso. respondeu-me que era no movimento da ondulação, compassado pelos gritos das gaivotas, que basculava o pêndulo do seu coração. 
quando voltei a vê-lo, anos mais tarde, e lhe perguntei pelo mar, olhou-me estranhamente, antes de responder: o meu mar subiu ao céu e levou consigo as estrelas. agora vivo na montanha. e o pêndulo do seu coração?, continuei. badala como um sino de ar puro, respondeu a sorrir. senti-lhe a mentira no trémulo dos olhos. bebemos o café e despedimo-nos em silêncio.
nunca mais vi aquele homem. começo até a duvidar da sua existência. talvez o tenha sonhado, talvez me tenha sonhado ele a mim. tenho saudades do mar. 


3.6.16

vejo-a sozinha no gabinete e não resisto a entrar. apetece-me importuná-la, magoá-la, fazê-la chorar. absorta nos pagamentos, faz de conta que não me vê. primeiro paga a edp, depois a água que ainda está na validade - a factura mais antiga terá de ser paga in loco na tesouraria -, e por fim, aquilo lá da boa vontade. Vendredi parece-me cansada, não tem medrado que se veja, uma mulher sem luz. sento-me numa cadeira um pouco afastada, quero meter-me com ela, mas posso aguardar. 
não sendo bonita, também não é feia, talvez com alguma dedicação e dinheiro, se pudesse fazer dela uma lambe-papeis exemplar, dessas dos óculos de massa preta e os tailleur chanel, como convém. noto-lhe as pernas cerradas, aposto que está à rasca para ir à casa de banho. não contenho a gargalhada. nem um músculo se lhe contrai, finge que não existo. vai mijar, mulher de deus!, grito-lhe eu, sem mais paciência, pareces uma aleijadinha! e é então que se vira para mim, - os olhos a faiscar, lembrando bestas encurraladas - e cospe com raiva, vai-te foder!

não se lhe pode levar a mal pela franqueza. e o ar dramático assentou-lhe lindamente.
pus-me no ir.

éramos canibais apaixonadas, antropofágicos modernos,
sorvendo vértebra a vértebra,
sinfonias em gemidos de sol maior.
largou o trabalho e permaneceu dois meses à cabeceira. esperava que fosse o curso natural da vida a levar-lhe o fiel companheiro de mais de uma década. o cão sofria, incapaz de se movimentar, mas a morte não o tomava. há corações de cão fortes como leões, sei bem que sim. por fim, emocionalmente esgotada, conseguiu a coragem para pedir ao veterinário que o ajudasse a partir. 
ontem perguntou-me, sabendo que já escalei a mesma montanha, quanto tempo demora a passar aquele sentimento de culpa. sem rodeios, mas talvez já envolta na capa algodoada do tempo, disse-lhe que, se fosse hoje, teria pedido mais cedo o golpe final. sei que o matei, para que não sofresse, fazendo as vezes da natureza. não me arrependo, mas não posso negar: ser - premeditadamente - responsável pelo fim da vida do(s) que amamos, é um peso que se carrega enquanto houver memória. serei uma má pessoa, escondida em bons sentimentos? talvez seja, é provável que sim, não sei. fiz o que senti que tinha de ser feito. e são altas as probabilidades de que volte a acontecer. 
há nas noites brancas uma moléstia barrenta que se pega ao corpo todo. levanta-se a gente de rastos, parecendo que está para morrer. 

1.6.16

ando, há anos, apaixonada por um mocho-galego. sem data, nem local marcado, encontro-o onde menos espero. no beiral do vizinho, nas ruínas de uma casa abandonada, no cimo de um poste, nos ramos da velha oliveira. de cada vez que o avisto, acelera-se-me o coração. é lindo.
enquanto não o consigo fotografar, partilho este.

imagem daqui
-- não me venhas com merdas, seu bêbado vagabundo! gastaste tudo em vinho, foi o que foi!
-- em vinho e em rimas, minha estrelinha da manhã, que o teu amor também é um poeta...
-- petas! petas e tretas e canecas de vinho, seu animal!
enquanto espero que elas regressem, para me afundar na banheira, sento-me aqui e relato um pouco mais deste quotidiano banal. o número escasso de leituras ao espaço é sabiamente revelador. infelizmente, não há nada que eu possa fazer. a linha editorial é definida e teimosamente mantida por uma das minhas personalidades mais fortes, a aborrecida.
dizia eu que espero por Taeko & Yukiko, as rottweilers rafeirus supremus, descendentes da linhagem directa do grande thor. não aguentei a luz clara da manhã na retina e ansiava pela caneca de café com leite - acordei intragável, azeda, hostil. dei-lhes um tschüss, elas responderam o habitual auf auf wiedersehen, e regressei a casa. tenho a sola da bota esquerda descolada, irrita-me o barulho boca de pato, mas ainda não decidi se as deito fora ou se a mando arranjar. mais ou menos como as coisas da minha vida.