10.6.16

acordo cedo e levanto-me. à porta, já me aguarda a mulher da montanha, dona da casa onde me abriguei da noite mortal. lamenta não ter café, mas oferece-me cinco alperces pequenos, que me cabem numa mão. agradeço-lhe por tudo e desço ao vale. tenho pressa, quero levar as cadelas ao rio, antes de voltar à maldita apanha do tomate.
quando chego a casa, ainda sem o café, surge-me Herberto, quer que lhe leia algumas páginas do seu rosto. fico fascinada. murmuro que não queria lê-lo sozinha, ele diz-me que tenho dois olhos bons, cada um fará companhia ao outro. sinto-lhe a urgência ao toque. encho o pequeno termo de café com leite, dou-lhe o braço e desço a ladeira com Taeko e Yukiko. ia jurar que três gansos do canadá voaram a menos de dois metros de mim, logo à chegada, mas com Herberto tão perto, tudo o mais me parece indefinido. sob a capa escura, tem uma cor amarela, como uma seara pronta ao corte da gadanha ou a primeira urina da manhã. o seu cheiro a papel velho mistura-se com a erva doce e eu inspiro-o várias vezes, sem vergonha.

Vou para os lugares do norte -- é talvez um projecto.
Sim, tenho esse projecto.
No norte a neve é grande, e eu andarei sobre ela, possivelmente descalço.
Lá em cima, se me aplicar bastaste, segundo uma regra minha interior que hei-de descobrir, ficarei com os pés queimados.
Quando voltar a ver as antigas memórias, terei os pés cobertos de cicatrizes.
Que pensarão de mim?
Que sou um mártir? um vagabundo a quem faltaram os sapatos? um homem a quem faltou a prudência?
Deixemos-lhes os alvitres, os sensos morais.
Temos de pensar nos nossos pés.
Não para lamentos.
Porque, evidentemente, quem possui pés marcados não pode deixar de ser suspeito.
Quero eu dizer: se a neve e o gelo os marcaram, como fogo, é porque o coração tinha o seu crime, a sua regra violenta.

/apresentação do rosto/

as cadelas ladram, regresso ao lugar onde me sentei, fecho o livro. sinto o fogo nos pés molhados.