30.6.16

conheço esta calma traiçoeira que antecede o caos aguardado. já nada receio. atravesso o corredor e encontro o azul do céu 
/quantos tons de azul há nos olhos de quem procura?/ 
raramente vejo o céu durante o dia, mas tenho a sorte de poder ler poesia no intervalo das coisas vãs, outras pesadas demais. a poesia é o meu azul debaixo de tecto, a cor dentro de portas fechadas. às vezes, tantas vezes, o único ar fresco que respiro, 
enquanto ouço o crepitar os corpos que lanço para dentro da fogueira do não pensar-executar. 
direi depois, também eu, que não era mais do que uma pequena peça, parafuso de fenda, cumprindo ordens, da vil engrenagem? e quem acreditará na minha mentira?


       No seu abismo
                        o segredo
                        o ideal do outro


       Extravagante fantasma
       a memória
       a divindade do sentido


       Não querer mais procurar
       a linha ténue


       No estreito círculo
                                    dentro
                                            dentro
       uma indizível esperança


[Ana Hatherly, Rilkeana