3.6.16

largou o trabalho e permaneceu dois meses à cabeceira. esperava que fosse o curso natural da vida a levar-lhe o fiel companheiro de mais de uma década. o cão sofria, incapaz de se movimentar, mas a morte não o tomava. há corações de cão fortes como leões, sei bem que sim. por fim, emocionalmente esgotada, conseguiu a coragem para pedir ao veterinário que o ajudasse a partir. 
ontem perguntou-me, sabendo que já escalei a mesma montanha, quanto tempo demora a passar aquele sentimento de culpa. sem rodeios, mas talvez já envolta na capa algodoada do tempo, disse-lhe que, se fosse hoje, teria pedido mais cedo o golpe final. sei que o matei, para que não sofresse, fazendo as vezes da natureza. não me arrependo, mas não posso negar: ser - premeditadamente - responsável pelo fim da vida do(s) que amamos, é um peso que se carrega enquanto houver memória. serei uma má pessoa, escondida em bons sentimentos? talvez seja, é provável que sim, não sei. fiz o que senti que tinha de ser feito. e são altas as probabilidades de que volte a acontecer.