4.6.16

um dia conheci um homem que me confessou que nunca seria capaz de viver longe do mar. falávamos de frente para o vasto horizonte de prata escura, onde só já restavam alguns surfistas boiando nas pranchas. o seu arrebatamento nas palavras deixou-me curiosa e quis saber qual a razão para um compromisso tão intenso. respondeu-me que era no movimento da ondulação, compassado pelos gritos das gaivotas, que basculava o pêndulo do seu coração. 
quando voltei a vê-lo, anos mais tarde, e lhe perguntei pelo mar, olhou-me estranhamente, antes de responder: o meu mar subiu ao céu e levou consigo as estrelas. agora vivo na montanha. e o pêndulo do seu coração?, continuei. badala como um sino de ar puro, respondeu a sorrir. senti-lhe a mentira no trémulo dos olhos. bebemos o café e despedimo-nos em silêncio.
nunca mais vi aquele homem. começo até a duvidar da sua existência. talvez o tenha sonhado, talvez me tenha sonhado ele a mim. tenho saudades do mar.