3.6.16

vejo-a sozinha no gabinete e não resisto a entrar. apetece-me importuná-la, magoá-la, fazê-la chorar. absorta nos pagamentos, faz de conta que não me vê. primeiro paga a edp, depois a água que ainda está na validade - a factura mais antiga terá de ser paga in loco na tesouraria -, e por fim, aquilo lá da boa vontade. Vendredi parece-me cansada, não tem medrado que se veja, uma mulher sem luz. sento-me numa cadeira um pouco afastada, quero meter-me com ela, mas posso aguardar. 
não sendo bonita, também não é feia, talvez com alguma dedicação e dinheiro, se pudesse fazer dela uma lambe-papeis exemplar, dessas dos óculos de massa preta e os tailleur chanel, como convém. noto-lhe as pernas cerradas, aposto que está à rasca para ir à casa de banho. não contenho a gargalhada. nem um músculo se lhe contrai, finge que não existo. vai mijar, mulher de deus!, grito-lhe eu, sem mais paciência, pareces uma aleijadinha! e é então que se vira para mim, - os olhos a faiscar, lembrando bestas encurraladas - e cospe com raiva, vai-te foder!

não se lhe pode levar a mal pela franqueza. e o ar dramático assentou-lhe lindamente.
pus-me no ir.