31.7.16

amo um poeta. um homem azul, infinitamente belo.
Violeta irá ser submetida à dieta de secura da tia Susana. confesso o meu temor ao radicalismo da solução e afianço que se a pobre morrer de sede, Susana, a tirana das orquídeas, será obrigada a ressarcir-me em montante igual ou superior ao de um bosque tropical, excepto os mosquitos. será ainda da sua inteira responsabilidade, o aproveitamento bio-orgânico dos restos mortais da Violeta, bem como a sua substituição por um quarteirão de buganvílias no meu jardim.
relativamente às perdas afectivas, deverão ser colmatadas, o tanto quanto possível, com várias caixas do melhor chocolate suíço e dúzias de garrafas de jinzu.

nada disto me trará a bela e altiva Violeta de volta, mas será uma tentativa para que Susana, a tirana das orquídeas, não volte a matar...

30.7.16

submerjo a Violeta vezes de mais, segundo o manual de instruções para orquídeas de supermercado, uma pequena patilha em plástico, que a acompanhava. se na água está a vida, penso, como não hei-de querer vê-la continuamente a beber?
se a Violeta morrer, afogada em pleno verão, não haverá desculpa que me valha.


Violeta

29.7.16

Mas por mais bela que seja cada coisa
Tem um monstro em si suspenso.


Unknown - daqui: twenty thousand leagues under the sea

cola-se a raiva às pernas suadas, às cuecas, ao vestido; o cheiro intenso do sexo, os pés descalços, pousados no chão sujo de madeira. cola-se a raiva ao teclado do telefone, as palavras que lhe pediram que dissesse, como se da boca dela não custassem a sair. cola-se a raiva aos olhos. 
no último dia útil de julho, Vendredi dispensa colaboradores.


/sim, hoje é o dia da Vendredi.../
percebo finalmente a diferença real entre memorizar textos de autor, para debitar nos exames do anfiteatro, e as respostas próprias, nem sempre completas, nascidas das colagens de dentro, quando ela, com cara de boneca, repete no vazio: adoro arte, adoro todos os tipos de arte. 

adorar, eis a palavra que julga salvá-la da sua ignorância, quando se trata de um objecto de estudo nubloso.

vem-me à memória /não uma frase batida, mas/ aquele dia em que, no refeitório da escola, disse à auxiliar que adorava uma comida qualquer, de que já nem me lembro, e ela me respondeu muito séria: só se adora a Deus, Flor. da comida gosta-se muito. na altura, nem atingi o cerne educativo/moral da chamada de atenção. também adorava o B., mas ele não queria saber de mim.
era pura, a minha lista de adorações.

28.7.16

Deslocações de dedos em volta de umas ancas ferozes,
mão atentamente aberta sobre uma vagina viva
como uma boca nas virilhas, a flor do ânus, a flor do ânus —
e depois a luz desloca-se de toda a parte para toda a parte.

O dia apoia-se no seu próprio movimento.

O peixe apoia-se na sua própria submersão.

O amor apoia-se no seu próprio êxtase.

E as vozes apoiam-se no seu próprio som.

Apenas as flores se apoiam no perfume veloz.

Apenas os corpos se apoiam nas flores que eles próprios são —
atados como ramos de um cego e amargo e monstruoso e veloz perfume,
como um perfume de corpos.

As ribeira de luz respiram a prumo.

As ribeiras de treva respiram a prumo.

Vive-se a tremer com o pavor e a glória.

Vive-se de uma ponta à outra o extremo amor, o amor,
e a solidão como um lugar inteiro.

Alguém respira onde é vivo —
uma boca, um ânus, uma vagina viva.

Alguém ferve pela luz adiante até entrar nas trevas
e ficar respirando nas trevas.

Um perfume de esperma.

Um perfume de salsa.

Um perfume de enxofre que estonteia.

Alguém se transforma numa coisa inominável.

/apresentação do rosto/
perdi, desde aquele dia, a vontade de escrever.

25.7.16

Unknown

o embaciado susto e júbilo
de ter vivido ao largo do destino.

24.7.16

eu, com grãos de areia invisível nos olhos, que me ardiam pelo corpo todo, marcha-atrás em posição, ânsia de caminho; ele, iPhone na mão, torto, vasculhando portas de serviços, dobrando esquinas sem olhar. por pouco não o mandei para a santa terra dos pokémons, onde estaria o que andava a caçar...
Carlota, a osga que repousava no tablier do carro velho, apareceu-me ontem de surpresa. confesso que nem a reconheci, de tão preta que estava. preocupada, questionei-lhe a doença, mal-estar ou condição, mas Carlota, muda, de nada se queixou. réptil envergonhado, bem diferente das primas que mais tarde avistei no canteiro, perto da esplanada do museu, - pequenas lagartixas multicoloridas, alegres e destemidas, de rabo ao sol -, Carlota não se atreve, sabendo-se osga-comum.

22.7.16

O MEDO

O vento abeira-se das grades
cresce por debaixo das pedras
e pode ser a qualquer momento
um comboio que abranda
ou uma acidez que corrompe o tempo


Dentro da casa
a fisiologia da noite
propaga-se em vibrações
e movimentos peristálticos
na transmutação da sombra


Duas voltas à porta e à respiração
uma para o medo e a outra para o vento
para a sombra das árvores
ou para uma coisa mais terrível
como o recomeço do Inverno


 Tiago Patrício

19.7.16


 “Drink because you are happy, but never because you are miserable.”

18.7.16

influenciada, confesso, pela Julieta da mãe preocupada, depois pela menina Palmy, e, recentemente, pela doce Susana, deixei-me levar pelo desejo estético de me tornar numa flor urbana, da raiz à ponta das pétalas -- comprei uma orquídea. /para mim/. coisa que nunca fiz e me trouxe à lembrança os tempos, talvez quinze anos passados, em que a madrinha mas oferecia. dizia que combinavam comigo, bonitas e difíceis. /que mais pode querer uma jovem mulher escutar, mesmo que de uma madrinha?/
a minha orquídea, a quem apelidei de Violeta, convive, por agora, tranquila com a poinsétia, uma sobrevivente do último holocausto natalício. são estas três flores /e um pc azul petróleo/ que lhe desejam uma segunda-feira sem espinhos.
são peças de lego amarelas, espalhadas pelos campos. ou bancos de madeira clara, onde nos podíamos sentar a escutar o mundo. ou são um dominó de palha, de pontos já gastos, esperando a mão de um velho para se mover. os fardos. aqueles são os fardos que aguardam que alguém os carregue, aliviando o peso à terra. hão-de servir, em tempos de frio e de chuva, para as camas e mesas dos animais. valerão todo o esforço e canseira.
e os meus, para que servem?

17.7.16

Hot Rod Cowgirl

























um bom verão tem cheiro a protector solar e sabe a tomate maduro com sal. 
usa vestidos curtos e chapéus de aba larga. 
pinta as unhas dos pés de cereja,
arde, fogoso, dentro das mãos,
deita-se, suando de desejo.
apanha o cabelo em rabo equídeo,
bebe gin para matar a sede,
e escuta, maravilhado, a música do mundo.

basicamente.
o que te corta, sussurra-me o Damas ao ouvido, é a certeza da impossibilidade. nunca terás o beijo no coração. se fosses crente, alimentarias a esperança.
enraiveço com a verdade e obrigo-o a entrar em mim novamente. violento-lhe os gestos, sabendo igual retribuição. juntos, matamos o amor. 
não eram ainda seis da manhã, quando o cowboy passou, a trote, perto do lugar onde me costumo sentar. hoje trazia um chapéu castanho, que preferi ao preto que lhe conhecia. menos de dez minutos, eu fingindo que me apetecia o livro, mas sempre de olhos postos nas gordas, vejo-o de regresso. não entendo por que me olha sempre daquela maneira, como se eu estivesse a mais na sua paisagem, um engodo da cidade. detesto-lhe a sobranceira, mas respondo-lhe à saudação. idiota...
sinto-me como num coliseu de recreios. lá ao fundo, no palco restolhado, dezenas delas, bravas e turcas, alguns torcazes, corpos suaves, executam o seu bailado, levantando e pousando na cadência da vontade, procurando o grão.

16.7.16

Estás outra vez em modo self-pity, Alicinha. It's terribly boring, my love, diz-me o Damas, enrolando a língua no acento de oxford. tem razão o Damas, que é um homem que sabe das coisas (e) das mulheres. 
nos entretantos, combinámos ir até São Torpes, fazer nudismo debaixo da toalha. fui.
drogar-me com prescrições médicas seria a outra hipótese. o corpo entra em piloto automático, enquanto o cérebro funciona em slow motion. a realidade chega tão lenta, que nos atinge sem perigo de mossa. só recusei proposta assim aliciante, porque receio babar-me à luz do dia. isso ou escrever sobre a felicidade.
não vale a pena esventrar a insónia que decidiu partilhar cama comigo, prefiro debitar sobre a cor ambígua que me cobre a pele: o início de um fraco bronze à camionista que serve de prova ao verão medíocre em que navego. não sei o que são férias há demasiados verões e as últimas com aparência digna de merecerem tal nome, decidi acabá-las quatro dias antes. hoje, francamente, arrependo-me disso. imaginar-me entre a cama e o ócio, o som do mar, a sombra da palhota, a bebida ao entardecer e não pensar em coisas sérias, agrada-me. dou-me conta do quão cansada devo estar - sei que abuso /e abusam de mim/, mas desculpo-me com o medo do desemprego, que sendo real, no meu caso, não é realista -, porque, há anos, que não desejava uma paragem assim. 

acabo de escrever o texto já com dúvidas relativamente às intenções. talvez apalavrar os desejos, me enfastie deles, ou talvez o ócio me canse ainda mais. porque, afinal, o descanso só se encontra num par de braços.
neste caldeirão em que se transformou a europa, temo.

15.7.16

que dia tão triste.

14.7.16

EU EXIJO SER PLAGIADA!

mas que diabos!

poesia recolhida de um dos quarenta nove emails em spam, todos eles escritos por pessoas de desmedido altruísmo, que anseiam por alguém que lhes aceite as generosas doações.

Dear Beloved,

I am writing this mail to you with heavy tears In my eyes and great sorrow in my heart,


[fico muito feliz, quando percebo que afinal a Sr.ª Mandu ainda não faleceu do seu cancro antigo do ovário e continua, ano após ano, a tentar doar a sua gigantesca fortuna. são estas pessoas que me fazem acreditar que tudo é possível...] 
lembro, agora incrédula, a violenta contracção na musculatura abdominal. como pôde este corpo apático, que se arrasta disfarçado, ter força para tamanha expulsão? em frente, a sanita, olhando-me fixamente, eu mais branca do que ela, transpirando, temendo o desmaio /o meu medo de estimação - perder a consciência/, até que o primeiro jacto, indício do que se adivinhava, irrompe, amargo. 
lamento, estimado leitor, se esta não é leitura matinal do seu agrado, afianço-lhe que também não foi do meu. não se agonie, poupo-lhe a descrição palativa que me ficou na boca a noite inteira.

talvez a culpa desta estranha confissão seja a caneca de chá, ainda tão quente. contar é pois o reflexo natural de quem espera, como gregoriar o é para quem faz o que não deve. bem sei que devia tentar manter uma imagem-própria mais apelativa, falar da jovem russa, com ambições de mezzosoprano, que conheci, ou do sublime tártaro de bacalhau - onde já vai a punheta, senhores! -, que descobri num restaurante improvável. são estas coisas, talvez juntando-lhes uns belíssimos sapatos de salto alto e uma ou outra referencia subtil aos lábios tenros ou aos olhos doces /façamos da imaginação o nosso cavalo branco/, que nos constroem enquanto gente interessante. relatar um refluxo, em condições primárias, onde bóiam arquétipos de comida, só fará de nós uma página a evitar. roubando as palavras à Filipa (segundo percebi, está na moda roubar palavras), é por isto que eu não passo da blogocepa torta.

12.7.16

porque um corpo é a nossa última companhia 

/em nome da terra - Vergílio Ferreira/


Ivan Ozerov
pela segunda vez, sinto a sombra no coração. Marlon Brando não me parece bem. falta-lhe a vivacidade do costume. da primeira vez que lhe dei conta da apatia, tratou-se o mal, obscuro, sem se fazer a cura. não se sossega a gente, quando não se sabe o porquê.
neste cuidar dos animais, de que nunca me arrependi - e sei muito bem fazer contas ao que já gastei e gasto e às trocas que fiz à vida -, a doença, até mais do que a morte, penso, é a tormenta maior. com o tempo, aprende-se a gerir a sombra que a dor dos outros - tantas vezes, morte anunciada -, nos traz. um dia foi o meu avô, o primeiro grande homem da minha vida, depois o meu irmão, /meu querido e doce irmão, o mais belo homem que perdi/, decepado num milésimo de segundo, depois o meu pai, cravejado num sofrimento atroz. se me entreguei ao bichos, não me atrevendo a um filho, é apenas e tão só, porque nunca esqueço quão frágil me tornei. a frieza que me atribuem, o desinteresse egoísta, são críticas tão válidas, como a casca grossa das árvores, onde tantas vezes me recolho. aprendi, a custo, a lição. nascemos para |aprender a| perder.

/Corto Gatês, o meu intrépido saqueador dos mares, regressou da sua empresa marítima, incólume, e já partiu em nova missão. que Posídon o acompanhe./

11.7.16

«Depois, pela tarde, purificou-se nas águas do rio, adorou os deuses planetários, pronunciou as sílabas lícitas de um nome poderoso e adormeceu. Quase imediatamente, sonhou com um coração que batia.

Sonhou-o activo, quente, secreto, do tamanho de um punho, de cor grenat na penumbra de um corpo humano ainda sem face nem sexo; sonhou-o com um amor minucioso durante catorze noites lúcidas. Em cada noite apercebia-se dele com uma maior evidência. Não lhe tocava: limitava-se a atestá-lo, a observá-lo, por vezes a corrigi-lo com o olhar. Considerava-o, vivia-o, de muitas distâncias e de muitos ângulos. Na décima quarta noite tocou de leve, com o índex, a artéria pulmonar e depois todo o coração, por fora e por dentro. O exame satisfê-lo. De modo deliberado não sonhou durante uma noite; depois, retomou o coração, invocou o nome de um planeta e empreendeu a inspecção de outro dos órgãos principais. Em menos de um ano atingiu o esqueleto, as pálpebras. A cabeleira inumerável foi, talvez, a tarefa mais difícil. Sonhou um homem inteiro, um homem jovem, mas este não se levantava nem falava nem podia abrir os olhos. Noite após noite, o homem sonhou-o adormecido.»

As Ruínas Circulares, in A Memória de Shakespeare, Jorge Luis Borges
limpo a gota de água da cara de Borges, com a meia cinzenta que me preparo para calçar. sei que não é a cara de Borges, mas sim a cara da memória de Shakespeare que a vega, sem gosto, decidiu publicar. o livro está mesmo à cabeceira do meu lago privativo, em cima do aquecedor a óleo, um dos meus melhores amigos, que não só me aquece as toalhas, como também me aquece o coração e os trapos. D. Maria da bata às riscas quis tirá-lo na semana passada e ficou a conhecer o meu lado mau. ninguém tira o aquecedor da casa de banho!, há-de lembrar-se a senhora por muito tempo, enquanto continua a assobiar para o lado às teias da Milu. dois ou três meses, em ano bom, que o pobre fique desligado, não compensam a viagem aos arrumos. além do mais, dá-me jeito para pousar os livros.

10.7.16

Ficaram os burros a carregar os fardos, foi?! grita o Zé, chateado. O barulho da ceifadeira abafa-lhe a voz. A verdade é que, cada um com a sua desculpa, uns e outros foram-se pisgando do calor do restolho, só ficou ele e os dois irmãos mais novos. O Carlitos e o filho já estão a montar a antena, qui'sto a gente descuida-se e quando dá conta são oito horas. Olha m'esta merda, tudo cheio de grainha... vira essa merda mais p'rá direita, Nando!, grita o Carlitos ao filho, que subiu ao telhado. Sara, a esposa roliça, sempre à espreita, grita-lhe da porta da cozinha, Ó homem, olhá língua! Não fales assim ao garoto, pá!, e esgueira-se para dentro. Tu cala-te, mas é, ai o caralho!, afina o Carlitos. Ó filha, deixa-o, tu não vês qu'ele já está c'us copos. Deixa-o, num te metas. Passa-me aí esse alguidar, anda. Sara encolhe os ombros, a irmã é que teve sorte, lá com o suíço, andam sempre de mão dada. Este ano nem sequer cá vieram.
Entretanto, o Rui já foi buscar duas grades ao poço, c'u pessoal já está com sede. Ó cambada, Viva Portugal! Viva!, gritam todos em uníssono. D. Gertrudes sorri, que alegria, hoje.

Mais coisa, menos coisa, por agora é isto, estimado leitor. A ver vamos, como corre. Quem sabe não deitamos mesmo o fogo ao pinhal do Engenheiro. Bah oui, non?

Estimado leitor,

Cá pela terra, vai tudo bem e com saúde, graças a Deus. Daqui a pouco, paramos a ceifadeira à sombra, - já pedimos a parabólica ao Carlitos da Venda, que a TDT é uma desgraça - e juntamo-nos todos debaixo da figueira. Estão cá alguns avecs, que se encarregaram de comprar as grades de cerveja e uns baldes de caracóis. Ninguém lhes cala o orgulho português, alors, aujourd'hui é tudo por conta deles. A gente até os comemos! Putain de merde, hoje papamos o galo! O Zé da Graça tem algumas canas à espera no barracão, umas sobras da festa do S. Brás. Se Portugal ganhar, até a GNR fecha os olhos, é o que se espera. A ver é se aquilo não pega fogo ao pinhal do Engenheiro outra vez. 

9.7.16

das palavras, fiz fogueiras. ardi em beijos profundos, com febres de graus inacabados, reais e imaginados, todos misturados, labaredas que já nem sei. da luz, fiz-me sombra, depois corpo enxertado, depois cinza poeira e, por fim, rascunho dos sonhos da minha mãe. agora descanso, imóvel, enquanto espero pelas estrelas cadentes, como quando era criança. 


boas férias a todos.


7.7.16

um brinde aos dias de merda e às lâminas afiadas.

mil homens, bestas de cascos afiados, relinchando trovões, penetrando-me, rasgando orifícios, pântanos de sangue e de fezes, urinando-me as feridas abertas da cara. mil homens cuspindo-me o nojo, derramando sémen nos meus olhos abertos, até não haver mais círculos de fogo. mil homens enjaulando-me, nua, numa praça qualquer. oferecendo a minha boca ao público animal, que zurra, na antecipação, vendendo a minha cona a todos os mercadores, velhos senis que masturbam membros defeituosos. mil homens silvando a mesma tira de couro nas minhas costas, nas minhas mãos, nas minhas mamas, noite após noite, até adormecer.
mil homens despedaçando o meu corpo, queimando o meu centro, acalmando a minha dor. 
desistir, eis a palavra do dia. despir a roupa, voltar à cama e enrolar o corpo em posição fetal. matar o dia do calendário. não existir.
não tenho mais palavras.
Tú y yo no somos de esa gente buena que aparece en los poemas, ya que estamos hechos de la misma materia que incrementa los incendios

de la misma sustancia que le escurre por la nariz a los conejos muertos a palos

tengo la seguridad de que tenemos el mismo tipo de sangre podrida

—somos la cal que asesina todo—

el viento envenenado que se pega a la piel de las manzanas

6.7.16

enquanto espero que a banheira encha, vou contar-lhe a última do Damas. 

apresentou-me ontem a actual namorada, uma jovem francesa, loura, magra, de mamas balouçantes. encontro-lhe uma acentuada desproporção entre os ombros estreitos e aqueles melões maduros, tão prontos à prova, mas atribuí o pensamento à inveja amarela de quem tem o peito triste e pequeno. Damas exibe as mamas da namorada numa lúxuria que invejo. mais tarde, quando a jeune fille foi ao toilette, contou-me do gozo de a montar pelas tetas bastas, faltando-lhe mão para as apertar inteiras, o sexo comprimido no rêgo molhado, batendo-lhe no queixo a cada estocada. pormenoriza a primeira ejaculação, com se da revolução francesa se tratasse, não haverá momento igual. o clarinete em riste, gorgulhando linhas brancas de vitória, enquanto Amélie, de boca escancarada, se engasgava nos Ouis!
fodi a francesa à esponhola, Alicinha! e ri-se, o Damas fodilhón. diz lá se não sou um cidadão do mundo!
Corto Gatês não aparece há vários dias e começo a ficar seriamente preocupada. nunca navegou pelo oceano em redor tantos dias seguidos. em contraponto, estou-me completamente nas tintas, para a agenda do dia, onde pessoas importantes irão embrulhar, mais uma vez, bolinhas de merda em papel celofane. 
o dia, que se espera difícil, nasce cinzento entre um fio de sangue. 

5.7.16

ao som do shehnai de Sanjeev Shankar, perdi-me nas selvas indianas, onde vagueiam os tigres azuis de Borges.
grata, doce anoushka.
Sob os silêncios do céu
caminho solitária
apoiada só na minha ironia

É como se fosse Domingo
ao fim da tarde
quando as viúvas
caminham devagar
olhando as vitrines
com seus olhos cansados

Mas o voo não termina com a juventude
e o mágico engenho do desejo
continua
enchendo a esperança
o bater de asas do juvenil orgulho

Sob os silêncios do céu
neste novo inferno
a cada um só resta
mas resta ainda
o seu próprio voo solitário


Ana Hatherly
patinhas castanhas.



na prisão onde estou há dez anos, todas as sextas-feiras há um banho comum. as fêmeas, humanas, criaturas e robóticas, são escoltadas pelos guardas do olho cego para o pavilhão do líder supremo e lavadas a jactos de água a setenta graus e sabão de pedra-pome. nós, as humanas, com o tempo, fomos aprendendo a sobreviver às queimaduras. qualquer ursa-estrela de jupiter ii nos tapará com o seu corpo gigante e peludo, em troca de carícias nos calcanhares e ratos albinos ainda vivos.

4.7.16

o fresco da noite exala um cheiro doce a palha cortada. avanço no restolho, finalmente liberta de mais um dia sem fim, cheio de mundo que recebo à superficie. um cão ladra ao longe, os pensamentos evolam-se, numa leveza de odor a ervas cortadas. no silêncio, onde apenas os meus passos estalam as novas camadas de chão, caminho sem rumo, seguindo um rasto invisível que não temo. a escuridão adensa-se. continuo. há quem tenha medo das cobras, como o homem da meia-noite, que bate a vara durante todo o caminho, eu prefiro afastar-me das multidões.

3.7.16

de cada vez que me calha passar por lá à hora da missa, abrando apenas para observar. há, em larga maioria, os que usam a ocasião para mostrar a família feliz e ideologicamente conservada; os que vão por hábito e temor à língua da vizinha e os que se enganam a si próprios, julgando enganar deus, dentro das suas preces e pedidos, negócios de oração. haverá os que vão simplesmente para ouvir a palavra divina, aquela que os homens dizem ser, mas não os sei distinguir. 
nunca entrei naquela igreja, onde pode calhar ser velada um dia, cadáver em território desconhecido, seria um bom título de cartaz. não lhe conheço o silêncio da pedra, nem o som das leituras da primeira epístola de S. Paulo ao Coríntios, onde se fala de amor. não lhe experimentei o desconforto dos bancos, nem me ajoelhei defronte ao altar. da música coral, chega-me apenas o repique dos sinos, enquanto subo a encosta da serra.
que deus procuram aquelas pessoas na igreja, corpo e sangue em pão e vinho, se toda a divindade está na vereda dos campos, no trinado de um pássaro e nas ondas do mar? 
Rise, O God, and judge the Earth!

2.7.16

e o que eu gosto de lisboa ao sábado à tarde, quando os semi-nativos a abandonam, entregue à poeira das obras e ao linguajar estrangeiro. 
taeko e yukiko aumentaram de peso e eu de culpa. a obesidade delas é o meu excesso de amor, duplicando a ração, por julgar ser fome a mania das duas. para piorar, os caminhos até ao rio transformaram-se em matagal de serra e às meninas, no seu pêlo de lustro, não lhes agrada patinhar entre cardos e silvas. podia tentar habituá-las à passadeira, dar-lhe algum uso, mas duvido da execução. resigno-me à vontade divina do bom-senso e volto a calçar as botas da terra.
ocorreu-me, enquanto olhava à janela os longínquos fardos de palha, espalhados pela encosta, se aquele homem, que vi ontem de manhã, moreno do sol da Ericeira, a treinar os dois border collies, não teria encontrado a solução
já não leio, desfolho livros, percorro páginas a fio, na ânsia de encontrar uma resposta, alguma palavra mágica, frases que se findem sem fim. não me interessa o final das histórias, tão-pouco o princípio, logo depois da página seguinte. passo bem sem memorizar o nome do autor, melhor ainda sem o nome de qualquer uma das personagens. à poesia, sorvo momentos, curtos que bastem para me manter sã. não me importam as correntes, os padrões estilísticos, as novas quizilias literárias, destiladas em palavras ígneas de nada. não quero análises críticas, árvores genealógicas, historial de demências, fluxos de influências, obras reeditadas. não quero acções completas, que não possa partir. 
não quero gente à procura em mim. 

1.7.16

Ven a dormir conmigo: no haremos el amor, él nos hará a nosotros.

Chadwick Tyler

Júlio chega, em tons de cinza.

Julio Cortázar


























Sólo viviendo absurdamente se podría romper alguna vez este absurdo infinito.
prefiro não ver, mas quando calha os cães darem-lhe conta, fico a olhá-lo cá de cima, até que atravesse. atemorizo-me por aquele homem que não conheço, batendo as ervas altas às cobras, num desespero sonoro. mesmo sabendo a resposta, pergunto-me sempre, sem tirar os olhos da luz trémula que avança, por que caminha alguém através do que tanto tem medo?

o medo enfrenta-se, atravessando. sei que sim.