3.7.16

de cada vez que me calha passar por lá à hora da missa, abrando apenas para observar. há, em larga maioria, os que usam a ocasião para mostrar a família feliz e ideologicamente conservada; os que vão por hábito e temor à língua da vizinha e os que se enganam a si próprios, julgando enganar deus, dentro das suas preces e pedidos, negócios de oração. haverá os que vão simplesmente para ouvir a palavra divina, aquela que os homens dizem ser, mas não os sei distinguir. 
nunca entrei naquela igreja, onde pode calhar ser velada um dia, cadáver em território desconhecido, seria um bom título de cartaz. não lhe conheço o silêncio da pedra, nem o som das leituras da primeira epístola de S. Paulo ao Coríntios, onde se fala de amor. não lhe experimentei o desconforto dos bancos, nem me ajoelhei defronte ao altar. da música coral, chega-me apenas o repique dos sinos, enquanto subo a encosta da serra.
que deus procuram aquelas pessoas na igreja, corpo e sangue em pão e vinho, se toda a divindade está na vereda dos campos, no trinado de um pássaro e nas ondas do mar?