11.7.16

«Depois, pela tarde, purificou-se nas águas do rio, adorou os deuses planetários, pronunciou as sílabas lícitas de um nome poderoso e adormeceu. Quase imediatamente, sonhou com um coração que batia.

Sonhou-o activo, quente, secreto, do tamanho de um punho, de cor grenat na penumbra de um corpo humano ainda sem face nem sexo; sonhou-o com um amor minucioso durante catorze noites lúcidas. Em cada noite apercebia-se dele com uma maior evidência. Não lhe tocava: limitava-se a atestá-lo, a observá-lo, por vezes a corrigi-lo com o olhar. Considerava-o, vivia-o, de muitas distâncias e de muitos ângulos. Na décima quarta noite tocou de leve, com o índex, a artéria pulmonar e depois todo o coração, por fora e por dentro. O exame satisfê-lo. De modo deliberado não sonhou durante uma noite; depois, retomou o coração, invocou o nome de um planeta e empreendeu a inspecção de outro dos órgãos principais. Em menos de um ano atingiu o esqueleto, as pálpebras. A cabeleira inumerável foi, talvez, a tarefa mais difícil. Sonhou um homem inteiro, um homem jovem, mas este não se levantava nem falava nem podia abrir os olhos. Noite após noite, o homem sonhou-o adormecido.»

As Ruínas Circulares, in A Memória de Shakespeare, Jorge Luis Borges