14.7.16

lembro, agora incrédula, a violenta contracção na musculatura abdominal. como pôde este corpo apático, que se arrasta disfarçado, ter força para tamanha expulsão? em frente, a sanita, olhando-me fixamente, eu mais branca do que ela, transpirando, temendo o desmaio /o meu medo de estimação - perder a consciência/, até que o primeiro jacto, indício do que se adivinhava, irrompe, amargo. 
lamento, estimado leitor, se esta não é leitura matinal do seu agrado, afianço-lhe que também não foi do meu. não se agonie, poupo-lhe a descrição palativa que me ficou na boca a noite inteira.

talvez a culpa desta estranha confissão seja a caneca de chá, ainda tão quente. contar é pois o reflexo natural de quem espera, como gregoriar o é para quem faz o que não deve. bem sei que devia tentar manter uma imagem-própria mais apelativa, falar da jovem russa, com ambições de mezzosoprano, que conheci, ou do sublime tártaro de bacalhau - onde já vai a punheta, senhores! -, que descobri num restaurante improvável. são estas coisas, talvez juntando-lhes uns belíssimos sapatos de salto alto e uma ou outra referencia subtil aos lábios tenros ou aos olhos doces /façamos da imaginação o nosso cavalo branco/, que nos constroem enquanto gente interessante. relatar um refluxo, em condições primárias, onde bóiam arquétipos de comida, só fará de nós uma página a evitar. roubando as palavras à Filipa (segundo percebi, está na moda roubar palavras), é por isto que eu não passo da blogocepa torta.